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segunda-feira, fevereiro 26, 2007

Pacificar África


"Eles hão-de matar-se uns aos outros". "Não querem trabalhar e morrerão de fome." "África sem brancos está condenada. Vão chorar por nós!"
O que os colonos preconizaram para o futuro de África sem poder branco, essas pragas rogadas no embarque para a metrópole, deixando para trás a terra, a casa, a conta bancária já sem valor, todos os bens, em alguns casos a vida roubada a um filho, um marido, uma mulher, um amigo, tornaram-se realidade pouco depois. O massacre militar e civil começou com as guerrilhas levadas a cabo por movimentos oposicionistas financiados pelo apartheid, ou pelo ocidente anti-comunista, contra os governos formados a partir das independências, e perdura, hoje, viabilizado pelos neocolonialismos, ocidentais, orientais, económicos em geral, e pelo desgoverno de líderes oportunistas e corruptos - o que se aplica não apenas às ex-colónias inglesas e francesas, mas também às que foram nossas.
As ex-colónias não foram ainda capazes de garantir a sua autonomia económica e política, tendo mergulhado num caos sangrento, social e culturalmente desestruturante.
Tomando-me como testemunha do período de dez anos que antecedeu as independências, e também do que as iniciou, fazendo passar pela memória os inúmeros momentos de crise grave durante a guerrilha pós-independência, e observando o panorama actual africano, torna-se claro que a ditadura colonial foi o que de mais suave aconteceu em África no último século. Não há nesta afirmação qualquer intenção de branquear as violências e injustiças coloniais cometidas sob o meu olhar. Eu sei o que vi e ouvi, o que mantenho guardado. E sei que há argumentos válidos dos dois lados. Ou seja, os brancos eram maus, mas nem todos o eram. Os negros eram explorados e oprimidos, mas nem todos os explorados e oprimidos albergam um coração simultaneamente revoltado, magoado e puro. Ou seja, os bonzinhos não são todos contaminados pela bondade. A dura verdade é que nesses terríveis anos coloniais os negros ganhavam quase nada, mas o que ganhavam, mesmo acrescentando a porrada, dava para comer e andar esfarrapado, e fazer aguardente de cana, e de caju para o Domingo. Era humilhante, sim, mas os filhos ainda não assassinavam os pais, e os irmãos não violavam as irmãs, e havia um ódio unificador comum: o colono, o explorador, a estrutura de exploração colonial que sustentavam a troco da farinha com peixe seco diários. No meio de tudo isto, uma certa paz podre, sim, sem dúvida, mas nela não se matavam uns aos outros. Ficou o podre; quase só o podre. Sim, era opressão, nenhum equívoco, mas quantos massacres de Wiriamu, multiplicados, sofreu África desde que os colonos saíram? E por que motivo me parece que quem os governa hoje não é menos injusto nem menos violento do que nós fomos? O opressor, o explorador continua por lá. E explora tanto ou mais. E com menos escrúpulos. Hoje é negro. É o irmão negro ou o amarelo, e as mãos continuam a ser besuntadas para se chegar à justiça, ou esquecê-la. Não há grande diferença entre o regime no qual vivem agora os povos das ex-colónias, e aquele que viveram sob os interesses portugueses.
Quero perceber como será possível pacificar África. E
ssa seria a quimera que quereria ver realizada.

sexta-feira, março 31, 2006

Livralhada light e neocolonialista para esgotar 3 edições

Manel deixou o seu coração em África. Também conheço quem lá tenha deixado dois automóveis ligeiros, um veículo todo-o-terreno, uma carrinha de carga, mais uma camioneta, e duas vivendas, três machambas, bem como a conta no Banco Nacional Ultramarino, já convertida em meticais.
Quem é que não foi deixando os seus múltiplos corações algures?
Eu há muito anos que bombeio o sangue pela laringe.

O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...