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domingo, maio 11, 2008

Profetas

Aos domingos, na minha rua, Testemunhas de Jeová impecavelmente vestidos, lavados, escanhoados, maquilhados, perfumados, passeiam-se para baixo e para cima com Bíblias camufladas em pastas de bom aspecto, e folhetos anunciando a salvação ou a perdição. Param para conversar uns com os outros, entabulando diálogos atravessados por o senhor Jeová é o caminho, só no senhor Jeová está a salvação do pecado. E vão prestando culto uns aos outros, pelos passeios. Quando os vejo caminhar na minha direcção, de olhos brilhantes na antecipação da presa fácil e luzidia: uma senhora simples, sorridente, parecendo desocupada, passeando os cãezinhos, só não lhes cruzo as voltas se não posso. Quando não há escapatória possível, aceito os folhetos coloridos com mensagens edificantes sobre os males do mundo, que não cabem lá todos, na sua indescritível vileza, e, sorrindo, pedindo mil desculpas, esquivo-me, afirmando que deixei os filhos sozinhos em casa, e consigo, às vezes até me dão raspanetes, que não devia deixar as crianças sozinhas, que devia deixá-las numa vizinha, por exemplo. A minha vida tem sido uma expiação de pecados que não cometi, mas que prefiro confessar, por parecer mal não os ter cometido.
Apesar destes tempos de grande perturbação moral, de grande confusão entre o mal e o bem, de profunda agressividade relativamente ao outro, encarado como intruso e nunca como portador de boas novas - pergunto-se se não terão sido assim todos os tempos?! - parecem-me particularmente corajosas estas pessoas, sobretudo os jovens rapazes e raparigas, e os velhotes, que abandonam o conforto do seu sofá, e dos seus afazeres, para caminharem pelas ruas interpelando transeuntes de má cara sobre a salvação e Deus, essa ideia em que ninguém acredita, que ninguém está disposta a pensar ou a ouvir. Essas pessoas que lutam contra a maré por uma ideia que para os outros não passa de uma palavra risível.



quarta-feira, junho 29, 2005

Os Testemunhas de Jeová

A quem pertence um ser humano? Aos pais, ao Estado, a ninguém?

Por exemplo, a decisão dos pais é suficientemente soberana para decidir:

- que um filho adolescente possa tirar a carta de ligeiros aos 15?
- contratar com terceiros o casamento de um filho?
- que a escolaridade obrigatória é desnecessária?

Há inúmeros casos em que a decisão do Estado, felizmente, deve sobrepor-se à dos pais.
Com que direito, em nome dos preceitos de uma religião, os pais podem arrogar-se o poder de decidir sobre a vida ou morte de um filho?
A criança chega ao hospital a necessitar de urgente transfusão sanguínea, da qual depende a sua sobrevivência: os pais têm o direito a decidir que "não, não senhor, não leva transfusão nenhuma, porque a gente somos Testemunhas de Jeová", ou cabe ao estado a obrigação de decidir que "sim, leva sim senhor", porque aquele é, antes de filho, uma entidade, um cidadão?

Concordo absolutamente que os adultos (e sejamos optimistas: consideremos que se é adulto aos 18!) tenham poder de decisão sobre a sua existência. Concordo que o deixem escrito, que a informação passe a constar das bases de dados dos hospitais internacionais – não sei se os hospitais do Burundi têm bases de dados; à cautela, à cautela...
Que cheguem à urgência, todos estraçalhados, sem ponta por onde se lhes pegue, e que afirmem, “eu cá não recebo sangue alheio, que isso ainda pode ser de preto”.
Que cheguem à urgência, esvaídos e inconscientes, e que a família, ou a base de dados, possua documento, reconhecido notarialmente, comprovando que não autoriza transfusões, “porque isso ainda pode ser sangue de alguma cabrazana”. Inconscientes ou não, têm esse direito. Os testamentos também se fazem em vida, a pensar na morte.
Se são maiores e donos de si, decidam livremente. Agora, que tenham poder para tomar decisões, com consequências tão graves, sobre quem ainda não se pertence, parece-me imoral.
Nestes casos, o Estado deve garantir que os menores possam chegar à idade em que serão senhores de si, para que, nessa altura, possam escolher a quem desejam pertencer: aos pais, ao Estado ou a ninguém.

O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...