Aos domingos, na minha rua, Testemunhas de Jeová impecavelmente vestidos, lavados, escanhoados, maquilhados, perfumados, passeiam-se para baixo e para cima com Bíblias camufladas em pastas de bom aspecto, e folhetos anunciando a salvação ou a perdição. Param para conversar uns com os outros, entabulando diálogos atravessados por o senhor Jeová é o caminho, só no senhor Jeová está a salvação do pecado. E vão prestando culto uns aos outros, pelos passeios. Quando os vejo caminhar na minha direcção, de olhos brilhantes na antecipação da presa fácil e luzidia: uma senhora simples, sorridente, parecendo desocupada, passeando os cãezinhos, só não lhes cruzo as voltas se não posso. Quando não há escapatória possível, aceito os folhetos coloridos com mensagens edificantes sobre os males do mundo, que não cabem lá todos, na sua indescritível vileza, e, sorrindo, pedindo mil desculpas, esquivo-me, afirmando que deixei os filhos sozinhos em casa, e consigo, às vezes até me dão raspanetes, que não devia deixar as crianças sozinhas, que devia deixá-las numa vizinha, por exemplo. A minha vida tem sido uma expiação de pecados que não cometi, mas que prefiro confessar, por parecer mal não os ter cometido.
Apesar destes tempos de grande perturbação moral, de grande confusão entre o mal e o bem, de profunda agressividade relativamente ao outro, encarado como intruso e nunca como portador de boas novas - pergunto-se se não terão sido assim todos os tempos?! - parecem-me particularmente corajosas estas pessoas, sobretudo os jovens rapazes e raparigas, e os velhotes, que abandonam o conforto do seu sofá, e dos seus afazeres, para caminharem pelas ruas interpelando transeuntes de má cara sobre a salvação e Deus, essa ideia em que ninguém acredita, que ninguém está disposta a pensar ou a ouvir. Essas pessoas que lutam contra a maré por uma ideia que para os outros não passa de uma palavra risível.

Apesar destes tempos de grande perturbação moral, de grande confusão entre o mal e o bem, de profunda agressividade relativamente ao outro, encarado como intruso e nunca como portador de boas novas - pergunto-se se não terão sido assim todos os tempos?! - parecem-me particularmente corajosas estas pessoas, sobretudo os jovens rapazes e raparigas, e os velhotes, que abandonam o conforto do seu sofá, e dos seus afazeres, para caminharem pelas ruas interpelando transeuntes de má cara sobre a salvação e Deus, essa ideia em que ninguém acredita, que ninguém está disposta a pensar ou a ouvir. Essas pessoas que lutam contra a maré por uma ideia que para os outros não passa de uma palavra risível.
