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quarta-feira, abril 02, 2008

Da vontade


Dois miúdos de catorze anos, mais coisa menos coisa, sentados no muro da escola do meu bairro, enquanto a Morena e a Micas fazem xixi contra a jante muito cara de um carro muito caro.

Primeiro - Viste a gaja?! Tá boa!
Segundo - Eh, pá!
Primeiro (gesticulando como se sopesasse duas melancias carnudas, reboludas, uma em cada mão) - E viste o rabo da gaja, hein?! Viste aquilo?!
Segundo (emitindo uma espécie de assobio, mas com mais cuspe) - Eh, pá! Mesmo boa, boa, boa!
Primeiro - Quem é a gaja?
Segundo - Acho ké a mãe do Rúben.
Primeiro - A mãe do Ruben?!
(silêncio meditativo)
Primeiro (mais baixo, como se falasse sozinho) - Era na mesma.

Do altruísmo

Não se fazem omoletas sem ovos. Tento ser tão realista e prática quanto possível. Quando chega a Primavera, tudo o que desejo é doar o corpo inteirinho a qualquer projecto-piloto de castração química aplicada, um qualquer que requisitasse os meus préstimos, sem credenciais, era de cabeça.



domingo, março 02, 2008

Canibal

Foto: Tomatello

Comer os lábios húmidos de um rapaz que passa por nós, que conhecemos, não sei se alguém ainda se lembra. Quando tinha 15 anos masturbava-me artesanalmente, sempre que podia, por amor aos lábios do Pedro, e pensava Pedro, Pedro, no momento em que me dividia entre o meu corpo e as endorfinas que o transcendem. O Pedro tinha 18 anos, lábios grossos, escuros, húmidos, os quais eu desejava lambuzar e morder e comer, mas estava-me completamente proibido. A namorada chamava-se Mena, tinha um carro que o pai lhe dera pelos anos, era rica, e tinha saído da escola porque não tinha cabeça para os estudos. Ninguém sabia muito bem para que é que ela tinha cabeça, mas era visível que abusava de umas mamas deliciosamente leiteiras, e dum cabelo claro a condizer com uns olhos do Minho; estas seriam, não quero ser má, nem nada, as características mais salientes do seu talento intelectual. O Pedro e a Mena namoravam e passeavam muito de carro, ele adorava-a e eu odiava-a proporcionalmente.
As carnes lentas e leitosas da Mena não obstaram a que, poucos anos mais tarde, o Pedro fosse apanhado pelo pai, num sofá da empresa, com um tal Rui, a fazer não sei quê de que não se falou muito, e a coisa avançou. Acho que casou e teve uma filha, que já deve ter idade para ser minha mãe.
Ontem, na bicha da ponte, apanhei um Pedro no banco de trás do carro que avançava paralelamente, noutra faixa, metro a metro. O rapaz fumava com o braço todo estendido para fora da janela, de cigarro entre os dedos. Tinha as mãos tenras como patinhas de animal que ainda não se formou. Umas mãos lisas, perfeitíssimas, e secas; apetecia trincá-las. E os lábios húmidos e luxuriosos. Um perfeito Pedro. Todo ele era um sólido exemplo carnal de luxúria não ostensiva. Muito jovem, mas homem, o seu corpo não podia conter a força do desejo nem da frescura que o atravessavam. Desejei comê-lo, porque invejei toda essa juventude que rescendia. Era sexual, apenas na medida em que o sexo atravessa, inteiro, o incauto impulso de desejo. Era sexual, mas não havia sexo. Desejei incorporar em mim a humidade lisa da sua ignorante juventude. Desejar trincá-lo, enformou a busca de um prazer indefinido que era, na sua essência, canibal. O prazer consistia em apoderar-me das características da sua juventude em estado tão puro. As minhas mãos seriam as suas mãos. O meu coração, o seu. E claro, possuindo-o, poderia recomeçar outra escrita, sobre tabula rasa.

domingo, janeiro 13, 2008

Come-me

No desejo dos homens não há moral nem culpa nem censura, mas bruteza e urgência e um desespero estrangeiro. O desejo dos homens é cego e surdo-mudo. Cheira como um cão, e abocanha, e morde no escuro, guiado pelo faro e lambuzado de saliva; é a besta perdida e esfomeada da matilha. O desejo dos homens é uma faca aquecida na forja; terra inculta, ignorante. Os homens não fazem amor connosco de madrugada: puxam a nossa carne, sonolentos e loucos, agarrando-se ao naco mais quente, suado, o qual montam, irracionais, desalmados, comendo-nos com fogo e fúria e raiva sem objecto. E é por esse desejo tão rasteiro, tão cão, tão puro.

segunda-feira, novembro 05, 2007

terça-feira, maio 08, 2007

Canibalismo

Foto: Monika Wiechowska, Nude in a Room

Comigo as pessoas deveriam ter cuidado redobrado. Não me basta beijar, cheirar, amolgar o corpo alheio; eu queria era mordê-lo, era trincá-lo. E lambê-lo e comê-lo devagarinho, não à vez, mas em simultâneo, e satisfazer-me matando a fome do outro corpo, contudo tão meu, que me pertence acima das leis. Comer como comem as minhas cadelas, quando lhes dou um osso e elas o contemplam com tanto amor, e, num mesmo tempo, o cheiram e ratam e devoram.
As pessoas não me chegam, por isso, deveriam precaver-se. O que me dizem, fazem, oferecem. As vozes, mãos. Os poemas. Não chega. E podem limpar o rabo aos poemas que não me dedicaram por cobardia, e aos que me roubaram. Os cobardes. Ah, sim, comia-os de amor. E não me ofereçam as bocas - tapem-nas bem com as mãos: eu como-as. Juro. Eu hei-de comer quem me moveu, e esfregar-me toda nos seus ossos, nos que restarem. Está prometido.



Foto: Monika Wiechowska, Nude in a Carpet


terça-feira, novembro 07, 2006

Eis

o teu desejo, à solta, esta noite, como um lobo esfomeado e doido do meu cheiro vizinho.

sábado, outubro 07, 2006

Muito bem fêmea


Queria pôr-me muito fresca. Acabada de nascer toda madura. Mas muito sombra. Muito branca. Muito luz arredondada. Ser a tua comida etérica. E que me visses. Bem madura tão tenra. Ser para ti.
Ter-te escolhido, não te desejar, forçar-me; não querer, ser fácil, mas não querer, e não pretender mais que ser olhada ao fundo do corredor, enquanto me despisse, e tu me olhasses sem autorização.
Ser nada. Mas, para ti, ser a tua civilização, o teu reino, tudo, e eu era o teu rei, e pronto, chegava-me.



Elisabeth Taylor



Mentira, eu queria era fechar-me em casa a fazer amor, contigo, o dia inteiro, como se fosse uma virgem que desflorasses a gosto, e eu quisesse muito essa flor. E inteira.
Mentira, eu queria muito que me despisses o pijama amarelo, devarinho; que descobrisses, e eu tapasse, e descobrisses, e eu tapasse; e me beijasses os mamilos, chega; e roçasses os lábios como se ainda procurasses a teta húmida da tua mãe, e eu fosse a mãe inteira do mundo. Que me tocasses e mordesses, e fizesses amor comigo, vendo-me nua sem me tirares uma peça de roupa. E ver-me nua. E me mordesses os mamilos só quando eu dissesse morde. Por cima da roupa. E ma quisesses tirar, e conseguisses, só os bocados, e a que eu te contrariasse.



Marilyn Monroe


Que descobrisses o meu corpo tacteando, lento, paciente, sobre algodão fino. Que entrevisses paciente. Que esperasses. Se soubesses esperar o meu corpo que havia de ser para ti, com ou sem panos.
Quereria ser bem fêmea, que quereria ser muito fêmea, contigo, eu sei que só quereria, que só quereria ser muito, muito bem fêmea. E para ti.


quarta-feira, julho 26, 2006

Poetas

Não é verdade que não me tenham dedicado muitos poemas bons, sérios, não de pacotilha. Dedicaram. Há muitos anos atrás, mas dedicaram.
Manuscreviam, diligentemente, no topo da folha, para a Isabela porque..., para ti, Isabela, e, perdoem-me o ridículo, esperando não me enganar, para Isa, meu amor eterno.
Uns anitos depois compilaram em livro todos esses poemas inspirados na aura misteriosamente inspirativa, intangível, que eu gerava, e publicaram-no sem grande estardalhaço.
Não encontrava o autor há bastante tempo e nada sabia do dito. Descobri o exemplar numa livraria que agora já nem existe, mas onde a malta intelectual de esquerda ia muito, a Arco-Íris, perto das instalações da RTP, na 5 de Outubro.
Os poemas eram os "meus", todos, mais vírgula, menos vírgula, mas o livro era dedicado à Cristina, seja lá quem for. Para ti, Cristina, meu amor eterno, porque... O livro todo.
Não deixei de ler poesia. Que parvoíce! Então eu gosto tanto da lírica! A poesia é muito linda. As metáforas da menstruação. Lindo. E o amor é eterno. E o poeta ama tão sentidamente que chega a fingir que é amor, o amor que deveras mente. E não sei quê, não sei quê, esse comboio de corda que se chama, apenas, tesão.



terça-feira, janeiro 24, 2006

O meu outro amor

Abria as pernas e sentava-me sobre as tuas, que apertava, de frente para ti. Ria-me sem dizer nada. Beijava-te na brincadeira. Depois beijava-te a sério. Não dizia uma palavra. Ria-me. E tu rias-te, e dizias tolices, que ias fazer-me já isto e depois aquilo. Ria. Forçava o teu peito contra o sofá, se te inclinavas. Não, isso não, eu é que beijava; eu brincava. Eu é que decidia se podias decidir, quando podias. Eu é que cheirava o teu pescoço e ombros e os mordia, e lambia onde mordia. Para te curar. Eu segurava a tua nuca numa só mão; apertava-a, e roçava a face pela tua testa, pelo teu crânio. Cheirava-te como um cão cheira outro. Mentira, eu cheirava-te muito mais do que um cão cheira outro, porque eu te comia quando te cheirava.
E depois não interessa.
Depois estavas nu e podia comer-te as curvas dos braços e pernas; as da barriga, onde a pele é muito fina, molhá-las, cercar-te como a uma presa. O vinco das tuas virilhas, de um lado ao outro.
Esfreguei o meu rosto no teu corpo, como se focinhasse terra. Eu também estava escondida na tua pele. Eu também me cheirava debaixo da tua pele.
E fechei os teus testículos na mão, levantei-os para descobrir o meu segredo, o carreiro virgem do teu períneo. Para o cheirar. Sim. Para a minha boca. Os meus dentes. Língua. Para que estremecesses. Isso. Um tremor. Para mim. Cheirar, beijar, rir, lamber. Era só isso. A posse da minha pele sobre a tua. Escamá-las. O cheiro, o sabor, o calor da tua pele. A minha boca. Havia. A tua boca. Morder-te. E era só isso. Mesmo quando já não nos ríamos, quando dormíamos nus, muito encostados, e me magoavas os dedos, de os entrelaçares tanto nos teus, a noite toda, e eu pousava a tua cabeça no meu peito, e te ouvia suspirar fundo, tão seguro do meu peito. Era só isto. E a isto, chamaste depois, o desejo.




Foto - Carsten Schilmann

domingo, setembro 11, 2005

Grades de vidro

Como viverias o tempo se não me apertasses os pulsos com as tuas mãos e não me lançasses contra o muro de pedra da tua incompletude para me gritares ao ouvido tudo o queres e podes e calas?

quinta-feira, agosto 25, 2005

Comum e fatal

Como minha rival aceitaria o desassossego das horas incertas, a tua partida sem regresso marcado, a ausência e silêncio premeditados. Porque as tuas virilhas, que mordia, e eras só meu, tinham como único dono a minha boca singular; e tu sabias. E o teu corpo, a que prestava culto, oferecendo o calor sorvado, macio, inteiro dos meus beijos, sabia, por instinto, que eu era já demais, eu era já tudo.
No terreno que tornei sagrado não cabia mais ninguém. Ocupa-lo-ia exclusivamente: essa era a única fronteira. Podias atravessá-la: não regressarias.

sexta-feira, julho 22, 2005

Ir


Foto - Denis Piel, Desert Love, 1984

Vou tentar as tuas mãos, vou salgá-las. E a boca, vou salgar-ta de morderes coxas pelo lado de dentro; de castigo, vais brincar. E a barriga, os teus braços, os teus dedos. Os lábios; vou trincar, não, tu vais prender, apertar, puxar um de cada vez, ignorar o meu queixume. Vou negar, não, agora entrego. Vais fazer o que quiseres; vais achar que fiz o que quis.
Vais olhar-me, vais sorrir, virar-me para ti, adormecer-me cosida na tua pele, sussurando palavras surdas que já não escuto; adormecer respirando o ar morno que respirei.
É tão cedo, amor, e parecem anos.

domingo, maio 29, 2005

Consolação


Palmilhavas milhas de labirintos no meu corpo, a noite e manhã e a tarde, e desvendavas mistérios para uso comum.
Saboreava esses instantes e aqueles em que, puxando, apertando a glande entre a língua e o palato, sentia o teu pénis pulsar completo e indefeso, no nicho que a minha boca e mãos e dedos compunham para ti.
E mais do que tudo, mais do que tudo, queria esses teus momentos de mercê absoluta, em que perdias o nome, a idade, o nascimento e eras, tremendo, apenas meu, apenas um, e sobre mim recaía a decisão da nossa vida ou morte.
E esse poder descontrolava-me a um ponto que se reflectia no teu órgão, na abertura da tua uretra, que era inteiramente minha e eu tinha e eu esgotava para nosso eterno consolo.

domingo, maio 15, 2005

Tudo


Foto de Michelle Gigure, em Xupacabras
(em que outro lugar poderia eu encontrar corpos tão intensamente amados/ amáveis?!).

Não sabias resistir ao odor intenso, morno, doce e salgado que se soltava do interior das minhas coxas, ao sumo maduro que vinha do meu sexo fêmeo e se espalhava pela sala, pairando húmido sobre todas as coisas, como se o lugar onde nos mantínhamos completamente fechados, com o desejo desaçaimado, estivesse repleto de rosas e cravos colhidos na nossa véspera.

O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...