Eduardo Prado Coelho interroga-se, no Público de hoje, sobre a necessidade de se gastar um milhão de euros em iluminação de Natal, paga com dinheiros públicos, na cidade de Lisboa.
Junte-se-lhe a factura do Porto, e também as de Coimbra, e de Braga, e de todas as capitais de distrito e concelho, não esquecendo os fogos-de-artifício habituais, e as festas de fim-de-ano, e quererei saber, lá para os meados de Fevereiro, quanto se gastou em luzinhas e decorações.
Sou accionista desta empresa chamada Portugal, e tenho os meus direitos. Preferia deter acções da Portucel, mas a cada um o seu quinhão de graça ou desgraça.
As iluminações de Natal são mesmo necessárias?
São!
Tirem tudo ao povo, mas não lhe tirem o Natal. Ou melhor: o circo do Natal; a azáfama das compras na loja dos chineses; os fritos; a família que se ama ou odeia; o bacalhau, mesmo de segunda; o bolo-rei do dia anterior; o vinho, mesmo de pacote.
Mantenham-se calmas as hostes. E, pensando bem, três ou quatro milhões em iluminação, não saem escandalosamente caros à ditadura. Outras acções de campanha para o país inteiro têm desperdiçado muito mais fundos.
Convém que os portugueses mantenham a ilusão de que alcançam alguma luz (ao fundo do túnel), mesmo que sejam apenas reflexos de gambiarras; que julguem que ainda resta o Natal, a alegria do Natal. Que nada muda significativamente enquanto o Natal permanecer Natal.
Lá no fundo, a água que corre nos lençóis freáticos está gelada e suja. Mas que ninguém perceba!
Eu queria ver o País às escuras na noite de Natal. E no Ano Novo. Zero desfiles de Carnaval. Dessa escuridão poderia sair a única luz que nos interessa: rasgamento dos mantos diáfanos da fantasia: uma janela escancarrada para a verdade: isso mesmo, revolução, evolução!