Encontrávamo-nos na Cruz de Pau.
Ele tinha um blusão de ganga justo, e umas calças do mesmo material, afuniladas, ruças. A roupa era sempre a mesma. Uns ténis de pano. Brancos. Encardidos. Ou pretos cheios de pó. A tiracolo, uma sacola de carneira escura, gasta, com autocolantes do Che, anti-nucleares, anti-fascismo, pró-liberdade, pró-Cuba, pró-Abril.
O passe dele servia para as carreiras de Paio Pires até à Cruz de Pau; o meu dava para todo o lado.
Descíamos até à Amora. Regressávamos ao centro, junto à estrada nacional 10. Às vezes ele tinha ido a pé com o pai até à Siderurgia. Eu não sabia o que era um cabouqueiro. Ele ria-se. Como era possível alguém não saber o que era um cabouqueiro?! Quando chovia muito resgardávamo-nos debaixo das varandas ou dos telheiros das lojas, ou entrávamos nas cervejarias para secar a roupa e descansar do frio; ele pedia uma imperial e um pastel de bacalhau. Ou um café e um mil-folhas. Trazia duas ou três moedas, não mais.
Os nossos encontros tinham três objectivos muito precisos: discutirmos política e cultura, e discordar; olharmo-nos de novo, fascinados, após uma semana de ausência; beijarmo-nos encostados às paredes da Cruz de Pau, nas esquinas da Cruz de Pau, nos bancos da Cruz de Pau, nos vãos de escadas da Cruz de Pau, a céu aberto na Cruz de Pau, e desejarmos o dia em que havíamos de fazer amor, fosse onde fosse, para podermos calar-nos, e concordar.
Eu considerava-o bastante radical de esquerda; ele via-me muito arraçada de direita. E entre beijos e trincas e as juras, que nunca... sorríamos.
Ele não se lembra disto, mas a Cruz de Pau ainda ali está. E eu também.
Ele tinha um blusão de ganga justo, e umas calças do mesmo material, afuniladas, ruças. A roupa era sempre a mesma. Uns ténis de pano. Brancos. Encardidos. Ou pretos cheios de pó. A tiracolo, uma sacola de carneira escura, gasta, com autocolantes do Che, anti-nucleares, anti-fascismo, pró-liberdade, pró-Cuba, pró-Abril.
O passe dele servia para as carreiras de Paio Pires até à Cruz de Pau; o meu dava para todo o lado.
Descíamos até à Amora. Regressávamos ao centro, junto à estrada nacional 10. Às vezes ele tinha ido a pé com o pai até à Siderurgia. Eu não sabia o que era um cabouqueiro. Ele ria-se. Como era possível alguém não saber o que era um cabouqueiro?! Quando chovia muito resgardávamo-nos debaixo das varandas ou dos telheiros das lojas, ou entrávamos nas cervejarias para secar a roupa e descansar do frio; ele pedia uma imperial e um pastel de bacalhau. Ou um café e um mil-folhas. Trazia duas ou três moedas, não mais.
Os nossos encontros tinham três objectivos muito precisos: discutirmos política e cultura, e discordar; olharmo-nos de novo, fascinados, após uma semana de ausência; beijarmo-nos encostados às paredes da Cruz de Pau, nas esquinas da Cruz de Pau, nos bancos da Cruz de Pau, nos vãos de escadas da Cruz de Pau, a céu aberto na Cruz de Pau, e desejarmos o dia em que havíamos de fazer amor, fosse onde fosse, para podermos calar-nos, e concordar.
Eu considerava-o bastante radical de esquerda; ele via-me muito arraçada de direita. E entre beijos e trincas e as juras, que nunca... sorríamos.
Ele não se lembra disto, mas a Cruz de Pau ainda ali está. E eu também.
