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terça-feira, maio 15, 2007

Uma pergunta retórica para os meus ex e afins



Não percebo. Há aqui qualquer coisa que me escapa.
Tenho mau feitio, não tenho? Sou obsessiva, não sou? Quero tudo de uma vez e não sei esperar, pois não? Tenho mau acordar e não presto grande coisa na cozinha, não é verdade? Tenho a mania que sei tudo, e que sou boa, mas afinal sei nada e não passo de um zero à esquerda, certo?
Sou um bocado gorda, e por isso não sentem estímulo para meter os microcalippos disfuncionais em pé, não é? Não recebem uma palavra minha desde que o PS está no governo, verdade?
Então, por que carga de água não me largam a caixa de correio electrónico, e não me esquecem de vez, e não arranjam o email doutra gorda qualquer que ainda não lhes conheça os fungos, e não vão dar uma volta ao bilhar grande?

Série Perguntas Retóricas

sexta-feira, maio 04, 2007

O bigode lusitano



"És velho demais para mim", costumo eu pensar, cá com os meus botões, quando homens da minha idade, e até mais novos, me atiram misteriosos olhares parados de difícil entendimento. Olho sempre para baixo, não traga algum botão desabotoado ou uma inesperada nódoa de sopa. Chego a pensar que alguns desses senhores de idade, de trinta e tal, quarentas, sofrem de paralisia nas pálpebras.
A maior parte dos homens não só envelhece cedo, como deve e nunca paga ao santo padroeiro da beleza. Nem quero ser demasiado exigente: um aspecto sem ranço, com pés e sovacos lavados, chegaria lindamente.
A dura verdade é que o horizonte de acasalamento de uma mulher de 40 anos, chegada a Primavera, revela-se confrangedor. Há muito divorciado, lá isso há, mas nem as hormonas mais encarniçadas conseguem ignorar a praga bacteriana da bigodaça lusa.
A partir dos 30 e tal, o macho lusitano acha por bem munir-se do que considera ser um infalível atractivo de natureza sexual, e deixa crescer farta ou arquitectónica bigodaça, que não se lembrou de usar aos 20, ou não se atreveu.
Só aos 20 um rosto pode suportar a mancha de um bigode, e, mesmo assim, em nome da palhaçada ou do estilo marialva-chic. Muito excepcionalmente, um bigode admite-se aos elementos das forças policiais, se for no exercício das suas funções, porque faz parte da farda, e às mulheres, por indiscutíveis questões de pêlo na venta.
Não sei se os bigodados lusitanos já repararam, mas o primeiro acessório de caracterização que um humorista cola na beiça, ao pretender assumir o papel do macho ultrapassado, um bocado sebento, retardadado, é o bigode. Não acontece por acaso. Os bigodes são ridículos.
Por tudo isto, e muito ajudada por me ter cansado de desmamar vitelos que bem me chupam as tetas à conta bancária, vinha pedir aos senhores mais ou menos da minha idade, a gentileza de se esforçarem por parecer mais ou menos da minha idade. Não querendo abusar, rapar os bigodes havia de ser um bom começo!

quinta-feira, abril 19, 2007

Rituais de cortejamento do macho português


O cortejamento ritual do macho da classe média costuma incluir três frases-chave, das quais se serve para nada dizer.
Para fins de memória futura, e usufruto alheio, proponho-me interpretá-las:

1ª - Sou amigo do meu amigo.
Tradução: gosto de estar com os outros gajos no café vendo futebol no plasma gigante, emborcando bejecas e roendo tremoço, e por acaso costumo chegar tarde a casa, bem como fétido e bêbedo.

2ª - O meu lema é vive e deixa viver.
Tradução: trabalha, não faças ondas, não me andes a ler as mensagens do telemóvel, e muito menos me perguntes de quem são as que vêm assinadas pela "tua bebé".

3ª - Vale a pena?! Tudo vale a pena, se a alma não é pequena!
(Sugestiva frase de Camões, poeta zarolho, que viveu no século passado, e que também escreveu aquele outro verso muito lindo, o eu quero amar, amar perdidamente).
Tradução: não interessa se a gente se entende, desde que estejas caladinha e não negues a foda curta e miserável, única acessível às minhas torpes capacidades inatas.

sábado, fevereiro 10, 2007

Viagra e massagens ao cogumelo



Sou totalmente a favor da química. Nem sei como não fui para farmacêutica. O meu sonho era ter uma grande farmácia e viver no cofre dos Xanax. Cá para mim é simples: dores, febre, e constipações, paracetamol e iboprofeno; insónia, diazepam; depressões, fluoxetina; infecções, amoxicilina; reumatismo, diclofenato sódico, e por aí adiante.
A quimíca serve-nos eficazmente. Dá-nos o seu melhor com poucos efeitos secundários. O Viagra, por exemplo, merece uma atenção especial, e muito menos gargalhada. A maior parte dos que gozam com o Viagra bem precisam dele. Recomendo, vivamente, a toma parcimoniosa, é claro, a indivíduos que tenham perdido o vigor dos primeiros anos, ou que, estando nos primeiros anos, não tenham jamais vislumbrado qualquer vigor. Acontece. Não é vergonha nenhuma. Vergonha é desresponsabilizarmo-nos do problema, atribuindo-lhe causas exógenas. O que também acontece, muito lamentavelmente.
A disfunção eréctil atinge uma percentagem elevada de homens de todas as idades. Nos indivíduos jovens, as causas são quase sempre de origem psicossomática mais ou menos passageira, a carecer de maior ou menor terapia. Penso que o Viagra, sendo um químico para efeito localizado, pode ajudar a outro nível: consegue induzir autoconfiança, em alguns casos. O Viagra pode constituir uma fonte de reforço positivo, desbloqueando medos adquiridos.
Sinceramente, custa-me imenso que os homens tenham dificuldade em endireitar o pepino. Acho que deve ser mesmo frustrante. Bem sei que é mal comparado, mas eu também gosto que os mamilos se me endureçam quando faz frio, quando os roço, quando lhes toco. Como se tal episódio de causa-efeito pudesse confirmar que está tudo bem no meu corpo. Se eu fosse homem e, de um momento para o outro, me visse impedido de esticar o alho-porro, era Viagra até o legume se arrebitar sozinho outra vez, e por tentativas.
Outra tarefa útil e interessante a que os homens que sofrem de disfunção eréctil podem dedicar-se, só para passar o tempo, caso tenham muito, é à carinhosa massagem do cogumelo. Enquanto o massajam não têm de preocupar-se em dar conta das vidas alheias. É que, sinceramente, ter a courgette murcha já é preocupação suficiente! Eu cá, para não sofrer dissabores, preocupava-me apenas em devolvê-la à vida! Mais nada!

quinta-feira, fevereiro 01, 2007

Concepção sem sexo


Ainda incomoda muito, isto das mulheres desatarem a tomar decisões inovadoras, com o seu corpo e dinheiro, desafiando as regras sociais, e até as do que se considera razoável em ciência, sem pedirem autorização a ninguém. Isto de não se encostarem a um canto, de não se conformarem com a telenovela, de não abdicarem de uma vida porque não arranjaram um homem, de já não serem as tradicionais solteironas sem remissão, de se estarem nas tintas para a relação conjugal, de conceberem filhos sem sexo, sem um pai... incomoda, incomoda muito.
Vejamos o caso da espanhola, mãe aos 67 anos, com auxílio da reprodução medicamente assistida. Alegam que foi um perigo, que a senhora é velha, que daqui a dez anos pode deixar dois órfãos. Se foi um perigo, foi-o para ela! Se as crianças não viessem a nascer, o mundo continuaria igual, já que a sua existência depende exclusivamente da determinação desta mãe, do perigo que quis correr. Quem se incomoda se um homem for pai aos 67 anos? Ou aos 70? Um pai de 60 anos, e uma mãe de 20, podem sofrer acidentes e deixar filhos órfãos. Em Portugal acontece muito. Mas o que pode correr mal conta mais quando uma mulher está sozinha. Se houver um homem, mesmo que à beira do ataque cardíaco, a questão já não se põe. Os homens, se ficam viúvos, e com filhos, arranjam outra mulher; ou arranjam uma prima, uma cunhada, uma perceptora como no Música no Coração, que bonito! Mas uma mulher que decide ser mãe aos 67 anos, porque adiou a sua própria vida durante a vida inteira é egoísta. Cometeu um acto censurável. Tudo muda porque é mulher.
Eu acho que fez muito bem! Tem, logicamente, todo o direito do mundo a escolher o rumo da sua vida, inclusive o de ter os seus filhos, seja qual for a sua idade. Vai criá-los, como os criaria se fossem seus netos, e a filha tivesse ido trabalhar para o Algarve ou para o Norte ou para Espanha, e nunca tivesse tempo para vir a casa, o que em Portugal também acontece muito.
Que maravilha! Reformada e agora com dois bebés! E sem sexo, caramba; que concepção tão limpinha!
As mulheres desejaram isto desde que se conhecem: não precisarem de aturar um homem para serem mães. Finalmente, o mundo perfeito!

segunda-feira, dezembro 11, 2006

Retrato de um grande machão

Flávio Cardoso casa para foder. Eu não. As mulheres de Flávio Cardoso queixam-se de enxaquecas. As minhas não. Flávio Cardoso divorcia-se das suas mulheres por falta de tusa das respectivas, excepto a última, que, por enquanto, "tem muita", ou seja, vai gemendo. Não é meu caso. Flávio Cardoso deve ser um grande machão, e ter um bacamarte de fazer inveja a muito homem. Eu dispenso grandes bacamartes em favor de um bom trabalho propedêutico.
Flávio Cardoso ainda não sabe que só para foder não precisa de uma mulher. Eu já sei. Para ter as cuecas lavadas, se não desejar estragar as mãozinhas com detergentes, Flávio Cardoso tem a 5 à Sec. Eu lavo as minhas com produtos para roupa delicada. Dirigindo-se a qualquer sex shop da aldeia onde vive, Flávio Cardoso encontrará objectos de silicone, quentinhos e lubrificados, com efeitos vibratórios e quejandos, onde pode enfiar a pila as vezes que quiser. A mim, basta-me o indicador e o médio. Flávio Cardoso precisará muito dos acessórios siliconados quando a actual mulher perder a tusa e lhe cortar a banda sonora; saem muito mais baratos que um quarto casamento ou idas semanais às putas. Eu, às putas, nunca fui.
Flávio Cardoso, leitor atento, deixou um breve apontamento da sua genial graça num pequeno poste intitulado "Sexo duas vezes por semana". Eu limito-me a destacar.


"(...) Primeiro (falo por experiência própria), quem se esquiva a que a soma semanal passa das duas, são quase sempre as mulheres. Já vou no terceiro casamento e só agora é que arranjei uma parceira à altura na cama, as duas anteriores, sofriam de "falta de tusa", normalmente disfarçavam este problema com as normais enxaquecas, que acabavam por suprir as quecas.
A maior parte de vocês precisam realmente de um bom macho, de serem bem fodidas, mas isso é um problema vosso, até porque eu agora estou bem servido, e dou mais que duas por semana."


Concurso de beleza, 1955

segunda-feira, novembro 20, 2006

Macho ibérico não sabe nadar, io...

Como queria impressionar-me, ele resolveu explicar-me que a palavra democracia se compunha por dois vocábulos gregos, demo e kracia, sendo que demo significava povo, e, kratia, poder. Portanto, povo mais poder, ou seja, o poder do povo. Explicou isto muito lenta e pausadamente, soletrando e ajudando com os gestos, para eu perceber melhor. Confesso que o fitava com alguma... curiosidade. No entanto, esclareceu, agora vivíamos numa tecnocracia de não fumadores, uma minoria sobretudo feminina, que exercia o poder sobre a maioria masculina, os fumadores. Mas que ele nunca incomodava ninguém com o fumo, porque, no café, afastava sempre a mão do cigarro para a mesa ao lado ou atrás. Que não fumava muito, não senhor, um maço dava-lhe à vontade para dois dias, e a maior parte dos cigarros queimava sozinha no cinzeiro da sua secretária, enquanto despachava os documentos de expedição.

Foi pena não me ter explicado de onde vinha, e como se formava, o vocábulo tecnocracia, e, quem sabe, talvez, até, outros conceitos políticos, como falocracia, porque eu, mulher, burra e loura, talvez tivesse podido compreender a que patamar de convivência pretendia ele, efectivamente, chegar. Assim, efectivamente, não compreendi. E sem compreensão, já se sabe, a comunicação desfalece e tudo morre sem aproveito.



Teria sido mais fácil mandá-lo logo à merda, mas às vezes a gente tem pena, não quer ferir-lhes o orgulho etimológico que acarinharam durante tantos anos. E enquanto esperamos que venha outra maluca qualquer tratar-lhes da saúde, contactamos, ao vivo, com exemplares faunísticos em vias de extinção.
Digamos que é um sacríficio em nome da ciência, da investigação. Sim, é um trabalho mais sujo que duro, mas alguém tem que o fazer!

quinta-feira, maio 11, 2006

Evolução das espécies: a seleccão natural na fauna ibérica e mediterrânica

A natureza das espécies é evolutiva. Alguns animais, inclusive dentro da mesma espécie, denotam maior capacidade adaptativa do que outros. Os que se adaptam a novos ambientes e comportamentos gerados pela evolução natural, sobrevivem e prevalecem. Foram capazes de se transformar; ou seja, evoluíram. Se assim não for, genes e cromossomas não conseguirão transmitir-se às gerações seguintes: o exemplar perde os seus atractivos procriativos e está irremediavelmente condenado à extinção. É a selecção natural. Inter ou intra-espécie não sobrevivem os animais mais fortes, mas os mais flexíveis, os mais hábeis, os mais inteligentes. Esses, evoluindo, tornam-se posteriormente os mais fortes.
Como ecologista, tenho assistido, com tristeza, ao desaparecimento de espécies incapazes de se adaptarem a novas situações. Lamento, porque, mesmo que o animal, em si, pouco contribua para o equilíbrio dos ecossistemas, ou não sirva para aproveitamento humano (óleo de fígado, osso, chifre), pode dar-se o caso de possuír bela pelagem ou plumagem, demonstrar hábitos curiosos, como dormir sempre para o mesmo lado, ser capaz de se entreter toda a vida com a mesma bola de lama, bater as asinhas de forma original e inúmeras outras idiossincrasias do reino animal.
Como amante da ciência, o meu sonho, e o de todos os paleontologistas, seria ter podido manter vivo, mesmo que protegido, pelo menos um dinossauro. As visitas de estudo de Ciências da Natureza tornar-se-iam mais ricas, ilustrativas e excitantes. É sempre preferível observar os animais em acção, como nas quintas pedagógicas.
O lynce ibérico, ocorre-me agora, é um raro exemplar faunístico, no nosso território, bem como o lupus lupus e a raposa raposa. Infelizmente, os animais ibéricos, em particular, e os mediterrânicos, em geral, revelam extremas dificuldades adaptativas a recomposições dos seus habitats tradicionais. Isto, a médio prazo, poderá levar à sua natural mas impiedosa extinção. Entre as espécies ameaçadas encontra-se o macho humano. Pessoalmente, custa-me, porque a gente ganha afecto aos bichos, embora deixem pêlo por todo o lado, mijem em cima dos tapetes, e sejam um sumidouro de dinheiro em ração e vacinas.


segunda-feira, maio 08, 2006

Palavras interditas como foder

Trazia-me ramos de rosas vermelhas em número ímpar, porque eram as suas preferidas. Eram paixão.
Despia-se meticulosamente, lavava as mãos, perguntava se podia, e montava-me, seriamente, sem grande jeito, rápido demais, como se o coito fosse uma actividade sujeita avaliação de 0 a 20, uma obrigação a cumprir com êxito, mecanicamente. Nunca sorria nem falava durante as três posições que exercitava comigo, sempre pela mesma ordem: primeiro, ele em cima; segundo, eu em cima; terceiro, ele atrás. Antes de ejacular, porque, se ejaculava, era nessa posição, perguntava-me, "posso?". Sim, podia, porque, para dizer a verdade, já me doíam os rins, e ardiam-me os cotovelos, do atrito contra os lençóis. Quando murmurava algo que não percebia, parava a função e perguntava-me, "não percebi, o que estás a dizer?". "Nada", respondia-lhe, "só que é bom". "Gostas?" "Sim, continua". Na verdade, para me entusiasmar sozinha tinha dito qualquer coisa absolutamente interdita como "fode-me" ou "dá-mo todo", consciente de que isto, com ele, seriam quimeras. Se gostava, levava com mais força, não melhor. Mais rápido, penso. E como se esforçava naquilo! Queria tanto sair-se bem. Era trágico participar na cena como interveniente.
Trazia-me ramos de flores e, quando conseguia foder-me, fodia mal. Molemente. Era boa pessoa. Mesmo bom. Bonito. Carinhoso fora da cama. Pagava-me os lanches. Levava-me a passear. Esforçava-me por não sentir pena dele, mas sentia. Dele e de todos os homens que desejam muito, mas temem pegar nos seus corpos e nos nossos, e tratá-los como carne, trincando, saboreando, segurando na boca, amachucando, sugando, cheirando, apalpando onde há em demasia, empurrando, esmagando, tocando os pelos em pé, muito suaves, ensalivando, marcando de fluídos. E dizendo coisas sem saber bem o quê.
Aos 40 queremos ser bem fodidas. Gostamos. Já não é só a brincar, embora se brinque pelo meio. Queremos sempre, mas aos 40 não temos tempo para esperar que o futuro venha a correr melhor. Queremos agora, porque os mamilos estão mais sensíveis, a pele toda, porque perdemos a vergonha das convenções sociais e somos mais capazes de esquecer tudo, lá fora, para sentir dentro o que importa. Prazer. Aos 40 queremos o prazer e já não fazemos fretes.
Queremos que os homens nos tragam flores e sejam boas pessoas, que rezem, mesmo, mas que, ao terminar o terço, nos segurem bem, e abusem de nós com autorização, beijando-nos devagar, e acabando por nos fazer guinchar como animais. Eu, tudo o que quero, é guinchar como um animal. Ser um animal sem segundos sentidos. Morrer todas as mortes a que me poupei por pudor, inútil vergonha. Por excesso de consciência.

terça-feira, março 21, 2006

Serviço humanitário

Os homens que me querem, e não têm muitas hipóteses, recorrem a dois argumentos seculares que considero dignos de referência: carcanhol e poder (quase sempre associados, mas nem sempre).
"Eu tenho duas propriedades. Eu tenho um milhão de euros a render. Eu é que sou presidente da junta". Comigo resultava muito melhor se dissessem, "Eu vou passar a tomar banho regularmente. Eu vou de mudar as cuecas, as meias e comprar um bom perfume. Eu vou estar caladinho, a partir de agora, para não dizer muita asneira. Eu acho-te muita graça, e tal, mas o que quero mesmo é ir contigo para a cama".
Não precisamos que os homens tomem conta de nós; tomem conta de si próprios, que já fazem bem suficiente pela humanidade.

Estado Novo (segunda parte): o silêncio

Não faço a menor ideia do que é que ele diz nas sessões da Opus Dei nem nas noitadas no clube sado-maso nem ao senhor prior, todos os domingos, mas, na empresa, o que ele até diz é que não sobrevivem os maiores, mas os que se adaptam. Por outras palavras, não os bons, mas os mansos, os caladinhos.

quinta-feira, março 02, 2006

Vícios profissionais

Hoje, fui ao Pragal. Há lá uma oficina de recauchutagem que tem escrito, mesmo por cima da porta, "pneus Goodyear". Esta tarde, os empregados, não tendo pneu algum para remendar, nem câmara de ar à volta da qual se pudessem ocupar, estavam todos encostados à parede da entrada, do lado de fora, roçando os costados, vendo passar as meninas da escola e soprando assobios, mais ou menos fortes, conforme a distância a que passavam.
Só por minha causa, coitados, que atravessei a rua a uns 50 metros, iam dando cabo dos pulmões. Não me esquecer de ir lá pôr a arranjar o próximo pneu que rebente.

terça-feira, julho 26, 2005

Com muitas merdas

Desconfio de dois tipos de gajos, que às vezes são um só, e explico já para que não se me inche a garganta:

1. Os que, quando lhe perguntamos, “o Marcos Palmeira é lindo, não é?”, respondem, “não sei, que não gosto de homens”, ou então, e isto parece uma versão moderna, mas é igualzinha à anterior, “embora eu não goste de homens, como sabes, e toda a gente sabe, porque passo a vida a enunciá-lo - e teria de fazer dez anos de psicanálise para descobrir porque explico tanto isto - parece-me um homem charmoso e até compreendo que vocês gostem”.

2. Os que acham que as putas tem um trabalho cheio de aventuras, desafios e prazeres, o qual escolheram, voluntárias, no catálogo de actividades do centro de emprego, por uma questão de fácil saída profissional, e que até casavam com elas, mas só se elas largassem o emprego.

Ene gajos (da série "A tradução perfeita")

A verdade teria o poder de te libertar, não fosses tu cego e surdo; visses tu para além da curta distância que alcanças. Como não vês, meu filho, a verdade vai chatear-te os cornos até os partires sozinho contra um muro qualquer, na EN 1.

(The truth will set you free. But first, it will piss you off. - Gloria Steinem)

Ene gajos II (da série "A tradução perfeita")

Desde o princípio dos tempos que fazemos o mesmo que os gajos, sendo que eles fingem não saber. O que ainda não descobrimos é se eles conseguem fazer o mesmo que nós. E isso é determinante, porque não só já não estamos para continuar a responsabilizar-nos pelo nosso e pelo deles, como se tornou praticamente impossível consertar a valente merda que se habituaram a fazer com a benção uns dos outros. Os filhos-da-puta!

(We know that we can do what men can do, but we still don't know that men can do what women can do. That's absolutely crucial. We can't go on doing two jobs. - Gertrude Stein)

terça-feira, maio 03, 2005

"Mais olhos que barriga"



Paradoxal: querem comer fora, mas não conseguem dar conta da mercearia que têm em casa; no Alentejo chamam-lhes garganeiros!

domingo, maio 01, 2005

Para sermos bem fodidas...


Ticiano, Vénus com organista e Cupido

O surrealismo dos homens chega a ser surrealista.
Pensam eles, desde que começaram a alambazar-se com a coxa "irreprimível e audaz", a barriguinha à Ticiano, o rabo farto, tudo devidamente recheado, que nos estão a fazer um grande favor. Acho-lhes piada.

Agora já não os podemos acusar de desdenhar a fartura, de se deixarem levar pelos modelos culturais hedonistas. Não, agora são uns bonzões, uns pacholas, uns modernos - até gostam da carnuça. Gostam de mulheres naturais, sem maquilhagem, sem produtos de beleza corporal; se pensamos e agimos ao contrário, continuando a embebermo-nos, matinalmente, em White Musk, lait scintillant pour le corps, da Body Shop, é porque não passamos de umas tontas, presas, ainda, ao padrão que acorrentou os nossos corpos durante o tempo das revoluções. A nossa insistência em manter uma beleza que já não valorizam, pelo menos da mesma forma, diz-lhes que não evoluímos. Acho-lhes piada.

Gostava de ver o que acontecia se, naturalmente, deixássemos de nos preocupar com a maciez das mãos com que os tocamos, se desprezássemos o vegetal cozido que vai conservando alguma graça na "voraz oscilação de ancas", o anticelulítico que ilude a "coxa irreprimível e audaz"; havia de ser lindo se, apesar do actual discurso que eles nos destinam (e que não é exactamente o mesmo que mantêm com os outros gajos, sobre gajas!), não fizéssemos por levantar as mamas e as nádegas, e não redobrássemos os abdominais que lhes oferecerão o torso que consideram apresentável, dentro da chamada categoria "bem servida"; se não mantivéssemos os lábios frescos, joelhos e cotovelos sem calo, dentes sem cáries e o sexo sem candidíase, surpresa com que periodicamente eles nos presenteiam; havia de ser lindo.

Acham que fazem um favorzinho à vida real: não se importam que a fruta seja de maior diâmetro, desde que cumpra as normas da CE; ou seja, brilho de cera, nada de toques nem dedadas. Ou seja, devidamente hidratada, depilada, perfumada. Acho-lhes piada.

A questão assenta, continuamente, no desejo que os meninos e as meninas albergam em igual proporção. Nesse desejo para eles tão volátil. Sim, vão gostar de nós eternamente, manter-se connosco para sempre, para o bem da família, dos filhos, da consciência da moral e bons costumes, não duvidamos (sabemos que os temos seguros, porque, felizmente, o divórcio, as divisões de tralha, as pensões para as crianças são uma trabalheira!); mas estamos cientes de que, enquanto nos abraçam, em pleno centro comercial, e nos ciciam, ao ouvido, "querida, tu é que sabes, tu é que mandas", nesse exacto momento, à nossa frente, contudo, nas nossas costas, grudam o olho abrasado à "beleza natural" que circula sobre uns tacões da moda, cabelos soltos levantando-se na corrente de ar deslocado. E à noite, quando lhes abrimos as pernas, fodem-nas a elas, não a nós, as maravilhosas e satisfatórias Vénus de Ticiano.

A questão, no final, é o desejo. O deles, sim, mas também o nosso. A questão é, afinal, aquilo que precisamos de continuadamente fazer ao nosso corpo para conquistar o direito a ser bem fodidas, magistralmente fodidas, como gostamos e queremos, e sem hipocrisia. O direito a ser não apenas eternamente companheiras, mas, para sempre, a "beleza natural" que circula ao vento, e à qual o desejo dos seus olhos e da sua alma completa se prende.

Na verdade, desprezamos os tais 4 minutos de obrigação e alívio, que acontecem porque estamos ali logo ao lado e, em aflição, "a cavalo dado não se olha ao dente". Não queremos ser úteis na qualidade de paramédicas. Na chamada prestação de cuidados básicos de saúde, basilar tratamento de urgência, apenas para manter intactos os sinais de vida, e depois, "pronto, já está!". Mero pronto-socorro.

O pessoal paramédico, às vezes, nem acredita na velocidade a que acabou de ser cilindrado, e fica de olhos abertos, um bocado vazios, a pensar que, realmente!, a vida, o amor são fodidos!

O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...