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quinta-feira, abril 19, 2007

Rituais de cortejamento do macho português


O cortejamento ritual do macho da classe média costuma incluir três frases-chave, das quais se serve para nada dizer.
Para fins de memória futura, e usufruto alheio, proponho-me interpretá-las:

1ª - Sou amigo do meu amigo.
Tradução: gosto de estar com os outros gajos no café vendo futebol no plasma gigante, emborcando bejecas e roendo tremoço, e por acaso costumo chegar tarde a casa, bem como fétido e bêbedo.

2ª - O meu lema é vive e deixa viver.
Tradução: trabalha, não faças ondas, não me andes a ler as mensagens do telemóvel, e muito menos me perguntes de quem são as que vêm assinadas pela "tua bebé".

3ª - Vale a pena?! Tudo vale a pena, se a alma não é pequena!
(Sugestiva frase de Camões, poeta zarolho, que viveu no século passado, e que também escreveu aquele outro verso muito lindo, o eu quero amar, amar perdidamente).
Tradução: não interessa se a gente se entende, desde que estejas caladinha e não negues a foda curta e miserável, única acessível às minhas torpes capacidades inatas.

quinta-feira, janeiro 05, 2006

Da iniciativa no ritual de cortejamento

Conheço pessoas verdadeiramente convencionais. Eu não sou muito.
Temendo a parcialidade da minha visão, ao avaliar o mundo no qual vivemos, procuro fundar-me mais no que observo, do que no que sinto. Mas o que sinto e observo produzem uma liga indestrinçável, pelo que desconfio da validade do meu discurso.
É possível, todavia, confiar nessa liga indestrinçável. Isso. Pelo menos.

O que conto vem a propósito do sentimento de rejeição que podemos sofrer ao abordar outro, sem sucesso; dos códigos de abordagem; do que nos foi ensinado sobre a quem cabia abordar e ser abordado

Aconteceu-me viver o final dos anos 70, princípio de 80, numa zona rural. Era adolescente.
Nos bailes da sede, ao sábado à noite, encostavam-se as cadeiras de pau às paredes livres da sala; a seguir, vinha o conjunto com as músicas da ordem, sobretudo os slows, que a gente gostava era dos slows: depois vinham as meninas solteiras com as mães, as irmãs, as tias; depois, chegavam os rapazes, sozinhos, cada um na sua mota, ou a pé. Os mais ricos tinham uns mini-Morris, e os muito ricos, Fiat 127.
As meninas, e respectivos paus-de-cabeleira, ocupavam as cadeiras; os rapazes iam para o bar, de onde se via a pista, beber minis e trincar amendoins, bem como, discutir entre si, quem dançava com quem.

Por fim, chegavam os casais novos, ainda bailantes.
As mães e tias, ou as feias, nunca se levantavam das cadeiras, a não ser para procurar donzelas desaparecidas, nos intervalos. As donzelas propícias ao desaparecimento, levantavam-se do assento por três motivos: casa-de-banho/xi-xi/risco nos olhos+rímel; aventura ao bar, área de homens, a pretexto de um carioca de limão ou de café, mas, sobretudo, para verificar se o rapaz do seu interesse tinha chegado; no momento em que era convidada para dançar.
Os rapazes nunca se sentavam nas cadeiras: encostavam-se onde podiam.
Que me lembre, existiam duas formas de uma rapariga ser convidada: a corajosa e a cobarde.
A corajosa implicava que o rapaz caminhasse até junto da menina e respectiva famelga, sujeitando-se a todos os olhares da sala, perguntando-lhe, enquanto dobrava ligeiramente a espinha, se queria dançar. A cobarde consistia num gesto feito de longe, com o indicador voltado para baixo, esboçando um gesto circular ou, para cima, desenhando uma breve linha que sugeria ligação entre convidador e convidada. Nestes casos, o rapaz expunha-se menos. Eram convites de resposta incerta, feitos a medo, para salvaguarda do gozo dos amigos, de todos; era um gesto sub-reptício, ligeiro, mas nós sabíamos. Fixávamos o magote de rapazes, aparentando olhar vago, mas alertas ao menor sinal. Nenhuma rapariga queria ficar sentada. Era, igualmente, uma rejeição que nos envergonhava: porque ninguém nos desejava.
Para qualquer dos convites, havia uma única forma de aceitar: assentir com um rápido baixar-levantar de cabeça, aprumar o corpo, disponibilizando a mão, o braço e a cintura. Negávamos, abanando-a, apenas.



Estava absolutamente fora de cogitação uma rapariga convidar um rapaz. Seria muito mal falada no domingo, o resto da semana. Fulana seria uma maluca. Uma doida. Nunca me lembro de tal ter acontecido.
Se tínhamos interesse por um rapaz, escondíamo-lo. Os códigos de cortejamento eram rígidos; se uma rapariga sorria a um rapaz, estava a dar-lhe confiança, logo, gostava dele, logo, o rapaz podia avançar com paleio. Com paleio e mais nada. Enfim, uns encostos, uns apertanços valentes, nos slows, a ponto de lhes sentirmos os pénis erectos sob a roupa; umas mãozinhas na cintura, por debaixo do casaco, disfarçadas; se havia escuridão na sala, um beijo meio roubado, por eles, mesmo que o desejássemos mais que à comida da semana.
Agora sorrio, se penso nisto, mas, na altura, era sério. Sofríamos.

Tive dois namorados de baile, e fui muito mal vista: o primeiro foi o Fanã do meio - alcunha da família; ele era o filho do meio. Os Fanã eram pobres, e todos gozavam comigo. O Fanã do meio era atarracado, mas muito bonito. Já tinha saído da escola, e trabalhava numa oficina de bicicletas.
Eu tinha casado com o Fanã.

Depois tive o Bisonho. Não me lembro do nome dele, mas era bisonho, um bocado feio, e trabalhava na fábrica de vidro. O Bisonho tinha uma Famel, e era alto e espadaúdo. Remediado, mas mais velho que o Fanã; já nos seus vinte; e avisaram-me muito para que não me desgraçasse.
Eu, tudo o que queria, era desgraçar-me. Eu e as outras. Mas, claro, isto não se confessava. Os malabarismos horários que realizei só para conseguir que o Bisonho me encontrasse no caminho, quando vinha da fábrica, e parasse, e me namorasse.
Eu tinha casado com o Bisonho.


Brigitte Bardot

Havia uma ordem ritual: o rapaz desejava e solicitava a rapariga. A rapariga era objecto de desejo e, em consequência, solicitada.
Admito que os rapazes experimentassem sentimentos de rejeição, que se sentissem humilhados, quando os negávamos. Imagino que nos dias seguintes, no café do centro, fossem mofados, “então convidaste a prima da Mané e não tiveste sorte, hein?!” Ou pior, muito pior.
Não havia razão. Nunca houve. Mas admito.

Já me senti rejeitada. Não foi agradável, mas não fiquei traumatizada para o resto da vida social.

Não gostamos de ser rejeitados, contudo avança-se. Quem é que não foi preterido em público, por um ou outro motivo? O que pensámos? Querem, querem; não querem...
Embora tenha, voluntariamente, quebrado a ordem ritual, já mais velha, na cidade, onde o anonimato nos liberta, havia alguma beleza naquilo: ser eu o objecto de desejo. Querer mas não facilitar. Esperar. Manobrar. Foi sempre melhor quando o ritual se cumpriu; quando houve tempo para ser seduzida, iludida...
Não me custa manifestar interesse por alguém, tomar a iniciativa, explicar-me, ser eu a cortejar. Não sinto vergonha. E a rejeição não afecta a minha auto-estima por longo tempo. Mas é tão bom quando o outro cumpre o ritual. Quando o outro anda de roda de mim, me cerca e eu quero ser cercada. Posso caçar, mas gosto tanto de me passar por caçada.
Mas nada disto tem que ser à noite, num bar. Não me refiro a engates, porque não domino o assunto. Não me interesso por alguém apenas porque é deslumbrante.
Interesso-me devagar. Descubro que estou interessada. Depois... posso não consigo esperar muito.

O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...