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sexta-feira, junho 27, 2008

Serão as mulheres capazes de chefiar uma estação espacial?



Não sei se Golda Meir, Indira Ghandi, Margaret Thatcher exerceram política como mulheres, porque não sei o que seja a política exercida por mulheres, ou seja, com a sua marca. Creio que cada uma delas fez o que os homens esperariam ver feito, porque disso dependia a sua credibilidade enquanto agentes governativos. Todos estariam à espera de vê-las ser diferentes, de vê-las falhar, para concluírem, agiram como mulheres! Elas sabiam.

As mulheres, todas, eu não fui excepção, têm sido educadas profissionalmente para agir como homens, ou seja, para agir de acordo com um status quo que não reflecte uma voz feminina. Angela Merkel governa como uma mulher ou como um homem? Vejamos, como se detecta a voz feminina de Merkel? E o que é uma voz feminina? A minha voz é feminina?
Há neste momento mulheres desempenhando altos cargos na Europa, sobretudo a Norte e no Leste. Fazem melhor que os homens? Pergunto, realmente. Quero saber.
Se eu fosse deputada agiria de acordo com os meus valores humanos e profissionais aprendidos num mundo de homens, para homens. Que tipo de política seria a minha? Terei eu conseguido subtrair-me a essa ordem? Serei capaz de ser diferente?

Os fenómenos históricos e sociais repetem-se; e só muda o motivo, não o modus operandi: quando as mulheres começaram a conduzir automóveis, haviam de ter acidentes porque eram mulheres e nada percebiam de pedais de embraiagem, e quando começaram a exercer profissões liberais, seriam piores profissionais porque eram mulheres, e teriam dores na data da menstruação. Daqui a uns anos haveremos de discutir se as mulheres serão eficientes como responsáveis máximas por estações espaciais. Vai ser igualzinho. Os argumentos de sempre.

A feminização de uma actividade tem tido como tendência a sua descredibilização, o que aconteceu, por exemplo, com a classe docente, que perdeu poder à medida que as escolas se encheram de mulheres. Vamos ver o que acontecerá com a classe médica, dentro de dez anos, quando os mais velhos se reformarem.
De igual forma, ainda hoje, uma escritora não vale o mesmo que um escritor, porque o escritor debruça-se sobre assuntos universais e sérios, enquanto uma escritora mergulha em intimidades, no amor, na vida quotidiana, etc., etc. Em literatura, os interesses das mulheres inferiorizam as obras que publicam. Porque os homens, como o Pedro Paixão, entre outros, podem à vontade escrever sobre amor e intimidades que permanecem escritores de créditos firmados.

Por esta ordem de ideias, feminizar a política implicaria uma diminuição do seu poder, consciência que as mulheres que a praticam têm tido, mantendo o adequado low profile. Não o manter tem consequências que passam pela não inclusão em listas eleitorais ou não nomeação para cargos.

Não me interessa saber que diferenças e semelhanças juntam ou separam homens e mulheres no que respeita às capacidades das suas naturezas biológicas. Estou para além das influências determinantes da cultura na formação das identidades femininas e masculinas. Sempre houve homens com capacidades ditas femininas, e vice-versa. Toda essa fronteira que ao longo dos tempos, e na nossa cultura, se estabeleceu entre feminino e masculino, cada vez menos se aplica. Eu diria que vai morrendo devagar. Mas que morre.

O que interessa, na política, e fora dela, é que quem a faz, a faça com justiça, respeito e cuidado pelo que cuida. Ouvindo, reflectindo e executando. E que essa execução não ignore que, à partida, somos todos gente de bem, porque os que não forem, tratam-se à parte.
E que se fale claramente, sem medo dos lobbies de poder. Sem medo. Sem farsas. Sem medo. Sem nada de especial para mostrar, a não ser a vontade de melhorar. Pedindo ajuda, quando for necessário. E como tem sido.
Como mulher, como ser humano, falo muito, digo muito o que penso, com sinceridade, e peço muita ajuda, porque preciso, e pergunto, e indigno-me, e ralho, e dou atenção, e ouço, ouço, e respondo, e recuso padrinhos e subornos. Sou um ser racional e emocional. Tenho dois lados e não escondo nenhum. Isto é feminino? Não, pois não?! São valores humanos. É isso que quero ver na política.
Claro que quero ver muitas mulheres na política, mas se um homem for capaz de governar desta forma, para mim serve lindamente.

terça-feira, dezembro 18, 2007

Só o casamento me tornaria uma senhora

No Central, onde me delicio a ler o Correio da Manhã, o senhor Gonçalo, para aí 28 anos, empregado de mesa, solteiro sem namorada, disse-me:
- Menina, se já leu o jornal, passe ali aquele senhor que está à espera.
Olhei. O senhor era o Bruno, um miúdo meu vizinho que brincava com o Pantufa, e entrou há uns anos para engenharia. Tem para aí 23 anos. Consta que dá explicações de Matemática.
Eles, a quem assoei o ranho com lencinhos às flores, já são todos senhores. Eu é que ainda sou uma menina.

domingo, setembro 09, 2007

Aos jornalistas interessados em questões de género


Como detesto notícias sobre mulheres que singraram em "mundos tradicionalmente masculinos", mantendo-se, apesar de tudo, femininas num mundo de homens e máquinas! É um destaque que as singulariza negativamente, que faz dela seres excepcionais, invulgares, procurando-se, embora, justificar a alegada excepcionalidade, ao acrescentar informação sobre a manutenção dos hábitos feminis: roupa, acessórios, maquilhagem. Por outras palavras, exercem num mundo de homens, mas, sosseguem as hostes, não são homens.
Objectivamente, parece que os profissionais de informação estão a fazer grande coisa pela política da igualdade de género, mas, subjectivamente, o que o nosso cérebro compreende é exactamente o contrário; tal
tratamento de excepção continua a veicular, entre-linhas, a mensagem do que "não é normal". Contraproducente.
O que eu e as outras mulheres pretendemos é que mecânicas, canalizadoras e ladrilhadoras deixem de ser notícia, embora nos interesse continuar a vê-las integradas em reportagens ordinárias sobre o mundo do trabalho.
Isso, sim, seria uma bela ajuda. Isso, sim, seria avançar.

sábado, agosto 18, 2007

Uma diferença igual



Os biólogos do mundo antigo, frequentemente com idade para serem meus filhos, candidatando-se aos respectivos tabefes, pelam-se por aplicar ao ser humano as leis científicas da especialização de tarefas que parecem render no mundo animal, fazendo por esquecer que as mulheres e os homens são animais sociais.
Defendem os jovens investigadores, entre a muda das imberbes fraldas experimentais, que o macho recolhe o alimento e a fêmea cuida das crias, e por aí fora, e igualmente na família moderna, esquecendo que a família moderna é de uma plasticidade impossível de fixar, como sempre desejou ser, isto porque as mulheres e os homens são, de todos os animais, os mais criativos, desejosos e insatisfeitos - e contra isto nada pode a ciência, a não ser que nos encharque em benzodiazepinas.
João Miranda, investigador em biotecnologia, em crónica publicada no DN de hoje, serve-se da especialização de tarefas para defender a ideia de que a paridade é uma utopia, visto que homens e mulheres têm capacidades diferentes. Gostei muito! Sonho com o dia em que jovens cientistas tenham a gentileza de não insultar a minha inteligência com argumentos gastos. Que leiam qualquer coisa antes de escreverem as pérolas de macho com que me mimoseiam, e aos restantes leitores da Imprensa diária. Vão à Wikipédia. Não se promoverão por aí, entre universidades, encontros entre investigadores das diversas áreas? Seria do maior interesse realizar uns intercâmbios. Ou experimentar a vida real. Os diplomas da vida real costumam valer, e eu estou por tudo.

Escreve João Miranda que:

"A paridade, isto é, a ideia de que as profissões mais apetecíveis devem ter igual percentagem de homens e mulheres, é uma das utopias das democracias modernas. (...) A paridade tem levado, um pouco por todo o mundo, à criação de quotas na política, nos cargos dirigentes das empresas e nas universidades, mas não nos serviços de recolha de lixo ou na construção civil.
A paridade pressupõe que homens e mulheres têm, em média, as mesmas capacidades e as mesmas preferências. Mas a verdade é que as diferenças entre homens e mulheres são demasiado relevantes para serem ignoradas. (...)
E, muito importante, as mulheres são mais ligadas aos filhos que os homens. Estas diferenças têm uma origem biológica e cultural.(...)
A biologia, a cultura e a economia sugerem que homens e mulheres têm competências e preferências diferentes que levam à especialização de papéis e impedem a paridade em várias profissões. (...)"



E a coisa continua pelas raias da aberração.
Ora, a associação entre o comportamento humano e o de outros animais é, como se sabe, brutalmente perigosa e especulativa: se os comportamentos femininos e maternais do mundo animal pudessem transpor-se para a vida humana social tornar-se-ia legítimo que as fêmeas humanas matassem e comessem, inconsequentemente, os próprios filhos, após o parto? Ou abandonassem uns em detrimento de outros? No mundo animal, as fêmeas cuidam dos filhos enquanto estes não sobrevivem sozinhos. A partir desse momento, as crias tornam-se um peso, e as fêmeas estão-se bem nas tintas. A minha cadela Lili mordia na filha, perante a minha indignação, quando achou ter chegado a altura do desmame. Poderia eu dar uma dentada no meu filho quando já não me parecesse adequado continuar a amamentá-lo? Pô-lo a andar, olha, agora desenrasca-te?!

E que tremenda cegueira afirmar que os filhos desinteressam aos homens como aos cães, por razões biológicas e culturais. Se vejo alguma coisa interessar aos homens, são os filhos - território absolutamente sagrado nos casamentos, acima da união conjugal. Qualquer mulher, de qualquer tempo, sabe que se algum interesse segurou um homem a um casamento, por muito mau que fosse, foi um filho. Os filhos interessam-lhes, e como, e cada vez mais, conforme o mundo se vai tornando menos genderizado. Reparo que, em grande parte das famílias onde se dividem tarefas, se há especialização nos cuidados aos filhos, ela está cada vez mais reservada aos homens no que respeita a dar-lhes banho, alimentá-los, entretê-los, ajudá-los nas tarefas escolares e adormecê-los. Assisto a este fenómeno com bastante agrado. Por outro lado, consta que as mulheres, afinal, não sentem particular prazer em cuidar dos filhos, pelo menos a partir de certo momento. Segundo uma investigação realizada recentemente (li no mesmo DN, há semanas), a satisfação experimentada pelas mulheres quando se ocupam dos filhos é igual à que sentem enquanto realizam tarefas domésticas. Nem mais nem menos. E, sinceramente, ao pensar no trabalho que uma criança dá, concluo que deve ser bem mais relaxante lavar a louça, até mesmo limpar o pó ou passar a ferro.



É óbvio que mulheres e homens são seres biologicamente diferentes. É nisso que está a sua maravilha. Onde está a novidade disto?
Não tenho massa muscular para carregar baldes de massa, mas muito homens também não a terão. Por outro lado, não me parece que hoje se possa dizer que os homens são mais dotados para o cálculo matemático e as mulheres para as línguas. Não é o que vejo no mundo académico. O que vejo, sim, é as mulheres abdicarem de investigar e progredir nas carreiras para se dedicarem à família, o que de forma alguma as exclui de habilidades em cálculo. Tenho um amigo biólogo que adora picar-me com os lugares comuns debitados pela ciência recente sobre a alegada capacidade das mulheres para realizar inúmeras tarefas simultâneas, enquanto as considera más no que toca à orientação espacial. Como detesto estas conclusões que categorizam e restrigem. E como as temo. E como erram. Eu que até sou uma bússola ambulante que, por acaso, é incapaz de ouvir música enquanto escreve ou lê.
Espanta-me que o argumento da força física seja tão importante para alegar superioridade masculina, mas não para defender a prevalência de negros sobre brancos.




Pouco sei sobre leões e leoas, cavalos e éguas, mas imagino que sejam biologicamente diferentes, de igual forma! A reprodução da matéria viva precisa dessa diferença para se realizar. Por enquanto não há volta a dar. Parece-me muito lógico e natural que diferentes animais da mesma espécie possuam as mesmas aptidões em quantidade e qualidade diferentes. O macho não podia estar mais próximo da reprodução, mas tem nela um papel de quantidade e qualidade diferente a partir do momento da fecundação, o qual não lhe veda o acesso ao gozo da paternidade. A guarda conjunta dos filhos, em caso de separação dos casais, parece-me uma medida bastante justa, uma vez que atribui aos homens paridade enquanto pais e seres humanos. A paridade não é um conceito cuja justiça e eficácia dependa das diferentes aptidões dos sexos. A paridade reivindica uma intervenção o mais igual possível, que seja justa para os géneros, e deva estar por igual ao alcance de iguais. A igualdade não é uma noção que dependa de capacidades físicas e intelectuais. Somos humanos, somos companheiros, complementamo-nos e acumulamo-nos intersexos como intrasexos. Aqui reside a substância e poder dessa igualdade. Mais nada.

Poderia enumerar uma série de tarefas que estão ao alcance das mulheres na construção civil, para além da limpeza final dos edifícios, mas o problema é que esse mundo profissional lhes permanece hostil. Ainda me lembro do sururu que consistiu no aparecimento, nos estaleiros diversos, e explorações agrícolas, das primeiras engenheiras. Os trabalhadores espantavam-se porque, "apesar de serem mulheres, sabiam trabalhar e dar ordens como homens". Foi a hierarquia que salvou as engenheiras e as legitimou.
Paralelamente, também vejo sectores reclamarem quotas para a entrada dos rapazes em cursos de Medicina, mas não nas limpezas a dias nem a lavar cabeças nos cabeleireiros.



Pelo que pude ler hoje, as mulheres ainda são encaradas pelos biólogos de pacotilha, e outros, como minorias cuja mais-valia humana reside na utilidade ovárico-uterina e mamária - lembro que a maior parte dos departamentos de estudos de género, nas universidades, incluem estudos queer, o que mete no mesmo saco os estudos sobre mulheres e LGTB, embora não se incomodem mutuamente. Mas se o argumento é cientifico, devo dizer que as mulheres prevalecem duplamente sobre o mundo; primeiro, numericamente, sem contestação; em segundo, porque o poder social do patriarcado, e consequente violência, apenas se sustém na medida em que, pelo mundo fora, as mulheres o toleram e alimentam. São as mulheres quem, para o mal, tem traçado o destino do mundo, construindo e perpetuando os poderes masculinos que as secundarizaram paternal e conjugalmente, criando os filhos que marginalizarão as filhas das outras, e as filhas que aceitarão ser marginalizadas, e perpetuarão a marginalização pelos filhos dos filhos às filhas das filhas. E tem sido assim durante muitos, muitos, demasiados anos. As armas do patriarcado têm sido fabricadas pelas mulheres para seu próprio sacrifício.
O exercício de paridade efectiva mudará o ciclo vicioso de vítimizados-vitimizadores, de ambos os sexos, que mal vêm aguentando um sistema de castas que já se nega, já se cansou, já se não vê reflectido no mundo que pisa as ruas lá fora.
Já compreendemos que somos pares, e contra esta evidência, caros biotecnólogos da farinha Amparo, não há cromossoma que vos valha.


quinta-feira, fevereiro 01, 2007

Concepção sem sexo


Ainda incomoda muito, isto das mulheres desatarem a tomar decisões inovadoras, com o seu corpo e dinheiro, desafiando as regras sociais, e até as do que se considera razoável em ciência, sem pedirem autorização a ninguém. Isto de não se encostarem a um canto, de não se conformarem com a telenovela, de não abdicarem de uma vida porque não arranjaram um homem, de já não serem as tradicionais solteironas sem remissão, de se estarem nas tintas para a relação conjugal, de conceberem filhos sem sexo, sem um pai... incomoda, incomoda muito.
Vejamos o caso da espanhola, mãe aos 67 anos, com auxílio da reprodução medicamente assistida. Alegam que foi um perigo, que a senhora é velha, que daqui a dez anos pode deixar dois órfãos. Se foi um perigo, foi-o para ela! Se as crianças não viessem a nascer, o mundo continuaria igual, já que a sua existência depende exclusivamente da determinação desta mãe, do perigo que quis correr. Quem se incomoda se um homem for pai aos 67 anos? Ou aos 70? Um pai de 60 anos, e uma mãe de 20, podem sofrer acidentes e deixar filhos órfãos. Em Portugal acontece muito. Mas o que pode correr mal conta mais quando uma mulher está sozinha. Se houver um homem, mesmo que à beira do ataque cardíaco, a questão já não se põe. Os homens, se ficam viúvos, e com filhos, arranjam outra mulher; ou arranjam uma prima, uma cunhada, uma perceptora como no Música no Coração, que bonito! Mas uma mulher que decide ser mãe aos 67 anos, porque adiou a sua própria vida durante a vida inteira é egoísta. Cometeu um acto censurável. Tudo muda porque é mulher.
Eu acho que fez muito bem! Tem, logicamente, todo o direito do mundo a escolher o rumo da sua vida, inclusive o de ter os seus filhos, seja qual for a sua idade. Vai criá-los, como os criaria se fossem seus netos, e a filha tivesse ido trabalhar para o Algarve ou para o Norte ou para Espanha, e nunca tivesse tempo para vir a casa, o que em Portugal também acontece muito.
Que maravilha! Reformada e agora com dois bebés! E sem sexo, caramba; que concepção tão limpinha!
As mulheres desejaram isto desde que se conhecem: não precisarem de aturar um homem para serem mães. Finalmente, o mundo perfeito!

segunda-feira, janeiro 29, 2007

Um favor que me fizeram

A semana passada esqueci-me da mala no elevador. Pousei-a no chão, juntamente com uma outra que trago, cheia de papelada, enquanto observava o correio tirado da caixa. Chegada ao meu andar, saí naturalmente, após ter-me inclinado ligeiramente para agarrar as asas, sem olhar. Levei para casa a dos papéis, mas a outra, a mala com dinheiro, documentos, batons, pacotes de açúcar, preservativos trazidos da ILGA, líquido para limpar as lentes dos óculos, e todos os outros objectos que uma mala de mulher pode conter, ficou para trás. Acontece. Apercebi-me disto uma hora mais tarde, quando precisei do telemóvel.

Deduzi que a tinha esquecido no átrio do prédio, junto às caixas de correio, pelo que decidi iniciar um périplo por todos os andares, perguntando aos vizinhos, que não conheço, se a tinham encontrado. No sexto andar tive sorte. Um senhor de bigode abriu-me a porta, sorriu-me com evidente censura, movimentando o indicador em gancho, como a chamar-me, e atirou-me, “como é que se pode perder uma mala num elevador?” Eu estava por tudo, até para receber lições do papá, viesse a malinha, e lá lhe expliquei o que tinha acontecido. Não lhe disse que era muito distraída. Achei que não lhe cabia saber.

O dito vizinho é uma pessoa que se vê bastante pelo prédio, com quem me cruzo frequentemente na porta de entrada. E disse-me, “tinha andado a ver se descobria quem era, e por acaso até reconheci a sua cara no bilhete de identidade, mas não sabia o andar. Tem aqui 190 euros! Sabe disso?!” Acrescentou novo olhar de censura. Sim, sabia; tinha acabado de levantar o dinheiro, estava bem consciente do que implicaria perder a mala, e estava preparada para lhe ficar eternamente agradecida por tê-la recolhido, ou pagar-lhe alvíssaras, se mas pedisse.
O vizinho exortou-me a contar o dinheiro na sua presença, acto que declinei; pareceu-me mal desconfiar de uma pessoa que acabava de me fazer um favor. E não desconfiava.
Agradeci muito, despedi-me, e foi nessa momento que ele chegou o seu rosto mais perto do meu, e quase me sussurrou, cúmplice, todo sorrisos, “estive quase para lhe roubar os dois preservativos que aí tem, mas depois pensei... se calhar ainda iam fazer-lhe falta...”
Rasguei um esgar. Meti-me depressa no elevador com o agradecimento eterno todo estraçalhado aos meus pés.


quinta-feira, janeiro 25, 2007

Sem sexo, como anjos

Escultura de Katie Deits

As culturas enfermam da distinção castradora que consiste em avaliarmo-nos uns aos outros de forma generalizadamente sexualizada e sexuada.
Ao primeiro contacto, procuramos saber se o nosso interlocutor é homem ou mulher, e se o seu género e comportamento sexuais estão conformes ao sexo biológico que lhe associamos, a que depreendemos pertencer. Posicionamo-nos em relação ao outro a partir da informação recolhida nesse instante.
A nossa própria identificação sexual determina o tipo de interrelações que os outros estabelecerão connosco, e, consequentemente, a nossa importância e campo de acção enquanto cidadãos. O sexo biológico, o género e a sexualidade, resumindo, a natureza dos órgãos sexuais e consequente adequação a padrões de comportamento condizentes, bem como o que se faz com eles, determinam tudo o que uma vida pode conter, afectando quaisquer relações sociais, profissionais, sentimentais, até familiares, que possamos vir a estabelecer.

Não posso compreender nem aceitar que se efectue uma categorização de seres humanos conforme a identidade e prática sexuais, ou seja, que a possibilidade que cada um tem de aceder a determinada via profissional, compra de habitação, possibilidade de adoptar, respeito, dependa de se ser homem ou mulher, de se parecer e agir em consonância, ou da escolha de um parceiro sexual com o par cromossomático oposto.
Nunca senti que tivesse de ser coisa alguma diferente porque nasci mulher. Sempre me senti uma pessoa exactamente como se sentem as outras. Rigorosamente todos nos sentimos exactamente como os outros, independentemente do sexo biológico a que pertencemos, e do género com o qual nos identificamos. Isto acontece por um motivo muito prosaico: muito antes de sermos um sexo, um género, seres sexuados, somos pessoas. Isso é o que conta, no princípio e no fim. O problema é que não sentimos que os outros sejam pessoas como nós, ou não lhes permitimos que se sintam pessoas como nós. Fazemos uma triagem com base num reconhecimento e normalização sexualizados.
Parece-me injusto que a integração dos indivíduos numa cultura dependa da identificação desse ser com o aspecto e os comportamentos padrão atribuídos por um molde hegemónico ao seu sexo biológico. Não me satisfaz a obrigatoriedade de assumir comportamentos masculinos ou femininos conforme me relaciono com alguém que percepciono como homem ou mulher. Incomoda-me que muito antes de querermos saber se uma pessoa é honesta, nos preocupe confirmar se a sua sexualidade está de acordo com padrões ditos universais, ou com os nossos. Aflige-me a obsessão que mantemos relativamente à sexualidade alheia, sintetizando todo um ser humano nessa questão particular.

Sinto-me bem em ambientes sociais nos quais me é impossível saber quem é o quê em termos de sexo e género. Posso respirar fundo e ser apenas uma pessoa, sem me preocupar em estar particularmente atraente ou agradável porque sou uma mulher. Não tenho que seduzir ninguém nem posso saber se sou alvo de sedução. Não interpreto sinais, porque podem ser erróneos. Não me interessa se estou penteada, se tenho baton, se não se nota muito a barriga, se consigo disfarçar outros defeitos que valorizo. Um ambiente sexualmente heterogéneo, em que, todos, à partida, podem ser qualquer coisa igual ou diferente, e isso não lhes importa, permite-me ultrapassar as limitações do processo de aculturação, que dificultam olhar o mundo como uma estrutura de relacionamentos humanos diversos, muito acima de uma paupérrima hierarquia sexualizada.
Ultrapasso-me enquanto ser sexualizado. Torno-me uma pessoa com dúvidas, opiniões e sentimentos, perante outras. Não penso em mim como uma mulher entre homens ou entre mulheres, como no início, quando era criança, não pensava.
Percepcionar o mundo fora de padrões sexuais, transforma-o. É outro mundo. Torna-o mais justo, menos conflituoso, mais fácil. A possibilidade desta indistinção sexual e de género, esta fluidez, mostra-nos que a haver necessidade de se estruturar o mundo segundo categorias, elas estarão sempre erradamente situadas na esfera do sexo.

sábado, dezembro 16, 2006

Deficiências mentais

Em Espanha, como em Portugal, das mulheres que se destacam pelo casamento, diz o povo terem sido putas antes que o destino lhes trouxesse bondosos maridos, os quais as salvaram da má vida, e lhes pagam, agora, graciosos, chorudas contas.
Que homens supremamente bondosos, de facto!
É o caso, diz-se, da baronesa Carmen Thyssen-Bornemisza, e o da filipina Isabel Preysler, ex-mulher de Julio Iglesias, esse si, um senhor.
Letizia Ortiz, actual mulher do príncipe de Espanha, também já foi uma jornalista divorciada, de comportamento sexual duvidoso. Felizmente, Don Felipe reparou nela e salvou-a a uma existência dissoluta. A sorte de Letizia!


Letizia Ortiz

sábado, novembro 18, 2006

A fama e o proveito

A fama, nas mulheres, tal como a publicidade, no papel higiénico, vende bem, mas paga-se cara.

segunda-feira, maio 22, 2006

A outra vida I

Era de carne como os rapazes


Foto de Jan Saudek, Returnig Home, 1977


Não comecei por pensar em mim como uma mulher.
Era de carne, havia coisas que me faltavam, outras que me faziam rir, e não tinha querer. Era de carne, via e ouvia, e saíam de mim, sem intenção, sem culpa, juízos espontâneos. Isto é melhor ou pior que aquilo. Podia controlar o que a minha boca dizia, não o que sentia, o que me aparecia como um pensamento. Acreditava sentir com o peito, porque as emoções tiravam-me a respiração e era nesse lugar do corpo que sentia a lâmina fria rasando os pulmões.
Era uma pequena pessoa de carne, não um animal, porque a mim não me podiam matar para comer, embora pudessem fazer-me tudo o que quisessem. Eu não tinha querer.
Nada me distinguia dos rapazes, a não ser o facto de esconderem um pedaço frágil de carne num sítio onde eu tinha nada, e de lhes sair por aí o xixi. Não os olhei como meus diferentes. Para mim, eram tão diferentes como um amputado de guerra, como as pessoas com o bócio muito inchado: não eram como eu, mas éramos feitos do mesmo. Eram tão diferentes com um negro, um chinês, ou um monhé que, tendo peles diferentes, também eram de carne, exactamente como eu; e, porém, tal como eu, também não tinham, em grau dependente da escuridão da pele, direito a querer.
O mundo não nos era explicado. Diziam-nos, “és uma menina, aquele é um menino”; podíamos brincar juntos até ao princípio da adolescência; chamavam-nos namorados se éramos os melhores amigos, mas não acontecia sentirmo-nos diferentes nem namorados. Nas lutas corpo-a-corpo eles tinham mais força, e para os vencer obrigava-me a conhecê-los bem, antecipá-los e planear estratégias, fintar.

Não me servia a mim, mas ao meu marido

Aprendi sozinha o que isso significava, essa diferença da força física, ao mesmo tempo que percebi que homens e mulheres casados vestiam de maneira diferente e exerciam papéis e poderes distintos. Depois, a minha mãe começou a dizer que uma menina não fazia isto e aquilo. Tudo o que era bom aprender não me servia a mim, mas ao meu marido; um dia, quando casasse, teria de saber tudo para o servir. Teria de aprender a coser para passajar a roupa do meu marido e a dos meus filhos. Teria de aprender a cozinhar para o meu marido e para os meus filhos. Teria de aprender a limpar a casa do meu marido e dos meus filhos. A roupa, a comida, a casa de todos, não a minha, por mim ou para mim. O meu futuro não seria meu, mas do meu marido e filhos. O meu tempo haveria de acabar muito antes da minha morte e a minha vida pertenceria apenas aos outros. Estava certinho!
Havia, por outro lado, um determinado conjunto de coisas que não poderia fazer para conseguir arranjar marido: andar despenteada, descalça, suja e rasgada, subir às árvores, brincar com os animais, estar estendida à sombra, na relva, ler. A minha mãe deixou-me ler porque nesses momentos me tinha controlada. Enquanto lia estava quieta, não lhe dava preocupações. Sabia onde estava
A minha mãe até me ensinou a passar cera no chão, de joelhos, e a seguir, a dar-lhe lustro com uma metade de coco e um pano de lã. Era para fazer brilhar a casa do meu marido e dos meus filhos. Durante muitos anos pensei que o meu destino seria aparecer-me, aos 18, um noivo muito lindo que me desposaria no meio de flores brancas, e que havia de gostar de mim, porque seria impossível não gostar do que eu era; lembro-me de uma fantasia em que nos zangávamos, mas eu recompunha tudo porque era muito boazinha, ia dar-lhe beijinhos, e ele sorria outra vez.
Nunca pensei ser possível tornar-me dona de mim, viver livre. Estava certa que ia passar das mãos de um homem para outro. O tal futuro rapaz, que não podia ser negro nem china nem monhé, havia de me ver na rua, em casa de familiares ou amigos, ou numa festa de debutantes à qual a minha mãe haveria de me mandar com um vestido decente, feito por ela em casa. Depois, o rapaz seguir-me-ia, para saber onde morava, ou perguntava a alguém. Far-me-ia a corte de longe. Haveria de me perguntar o nome, de dizer que era bonita, de pedir autorização para me namorar, primeiro a mim, depois ao meu pai, embora não estivesse a ver o meu pai conceder diamante tão valioso tão cedo nem por pouco; seguir-se–ia o pedido oficial de casamento, sem a minha presença, mas eu haveria de ser chamada no final para concordar com os termos do enlace. Depois, os preparativos do casamento, o dia do casamento, a lua-de-mel. A seguir, era o novo mundo. Sabia menos sobre o novo mundo do que Colombo sabia sobre a América, quando lá chegou.

As capacidade reprodutiva do casamento, de per si.


Foto de Jordi Moll

Observava o mundo com fome de compreender o que não estava autorizada a viver, o que não poderia alcançar. Observava-o para compreender a mecânica das pessoas. O que diziam e faziam? Com quem? O que valorizavam e desvalorizavam? Observar não garantia mais nada. Podia nunca compreender, porque não havia com quem falar das coisas que juntavam e separavam um ser humano de outro, no geral, ou, especificamente, os homens e mulheres. Não existia essa linguagem. Nem esse discurso. A mulheres falavam clandestinamente sobre partos e hábitos dos homens, mas, também, entre elas, faziam segredo do que verdadeiramente pensavam. Porque uma mulher espontânea, sincera, seria alvo da chacota das outras. A conversa das mulheres sobre os homens obedecia a requisitos que passavam, primeiro, pela lamentação, e, depois, pela ironia. Que os homens não prestavam...; excepto eles, toda nós sabíamos.
A observação da realidade levou-me a deduzir, por volta dos 8 anos, que a reprodução era consequência directa do casamento religioso. O padre casava os noivos e, nesse momento, Deus instalava na barriga das mulheres um filho, que crescia até à altura em que as aquelas começarim a sofrer muito e teriam de ser internadas para lhes abrirem as barrigas e tirarem o bebé.


O palavrão da gravidez


Foto de Baciar

O cinema e a literatura nunca me esclareceram esta dúvida, até muito tarde. Não conseguia estabelecer relação entre um homem e uma mulher deitados na cama aos beijos e uma gravidez. Nem me passou pela cabeça. Nos livros, a eufemística era perfeita: a heroína ficava de esperanças e tornava-se mais linda com a felicidade, irradiando luz, passando a ser mais respeitada e a gozar estatuto diferente. A seguir, a heroína daria à luz um novo ser, não explicavam como, apenas que outras mulheres a circundavam, e suor e água quente e sangue e dor, e que, tantas vezes, era um martírio sério, e entrava esse deus do mundo, o homem, o pai, nervoso e orgulhoso do filho dele que a mulher lhe dera, e o levantaria ao colo.
Quando aos 11 anos compreendi que o vocábulo gravidez não era um palavrão, e disse à minha mãe que a Guida estava grávida, recebi um enorme bofetão, “isso não se diz: diz-se: está de bebé”. Vejo o seu rosto irritado, Estávamos sentadas na parte de trás de um jipe que não era nosso. Fechou a cara, zangada comigo, decepcionada com a educação que, afinal, não tinha conseguido dar-me. Eu tinha dito “grávida”. Deve ter sido neste meu deslize sobre o conhecimento do sexo, que a minha mãe compreendeu que seria difícil "encaminhar-me"; passou a dizer que eu era de gancho, que tinha mau feitio, que era tal e qual o meu pai e tinha de ser dobrada. Viu-me pela primeira vez com um ser sexualizado e deve ter-se assustado. A minha mãe teve medo de mim. Tinha uma concorrente em casa. Uma outra mulher que crescia, que já era menstruada. Estava na hora de me mandarem para a metrópole. Sei, hoje, que a minha mãe me mandou para a metrópole porque nasci mulher. Se tivesse sido homem ter-me-ia deixado ficar para os proteger. Mas eu desprotegia-os. A minha feminilidade desprotegia-os. Expunha-os ao perigo de serem brancos. Por isso era necessário afastar-me depressa, e desproteger-me. A minha melhor educação seria essa. Cumprir-se-iam dois objectivos: a sua protecção e liberdade de movimentos, a minha desprotecção que havia de me ensinar a ser como uma mulher é, como uma mulher sabe que tem de ser para conseguir sobreviver.
A minha mãe escolheu entre regressar comigo ou permanecer em África a calçar as peúgas ao meu pai, que já era crescido. Deve ter sido um dilema que viveu sozinha: mas escolheu, e afastou da sua casa uma mulher de carne, menstruada, que podia ocupar, no coração do marido, o excessivo amor do pai fascinado pela beleza e frescura da sua obra mais perfeita.
Por isso, embora não tenha começado por me pensar como uma mulher, acabei por descobrir, sozinha, que uma mulher era, para o mundo, uma ameaça de carne, de pensamento e desejo, assente na linguagem com que percebia e comunicava com o mundo.
Eu, que não tinha começado por me pensar como nada, era um ser humano classificado e arrumado num grupo mais fraco e sem voz. Ninguém tinha determinado que assim fosse. Já não se lembravam. Era assim.
Tudo começou aqui. Não ter compreendido.

domingo, abril 09, 2006

O que penso sobre o argumento de ordem natural

Ao longo da longa história as sociedades têm-se organizado heterogeneamente com base em diferentes estruturas culturais, as quais vão adaptando às necessidades. Ou não, o que costuma ser fatal. Não nos deve espantar, portanto, que diversas sociedades tenham guardado para as mulheres a tarefa da caça, da pesca e o manejo de armas, com esse fim. Aconteceu na bacia do Amazonas, em África, na Oceânia; esta estrutura do tecido social, para nós ainda atípica, terá acontecido um pouco por todo o planeta. Há de tudo. Há sociedades em que o incesto pai-filhos é uma prática destituída de gravidade, por não se considerar que as crianças sejam filhas dos respectivos pais, mas apenas da família da mãe. Interessante.
A cultura europeia, porém, boa herdeira da ideografia greco-latina, uma entre tantas, remete a fêmea das classes altas para reclusão doméstica, e continua presa aos ideais de separação de funções de acordo com uma ordem natural dos sexos, situando as mulheres num patamar de irracionalidade aberrante. As mulheres devem ou não devem fazer algo porque é ou não é próprio da sua natureza. O ideário greco-latino marca-nos impressionantemente, impondo ao conhecimento paredes de uma teimosa opacidade. Continuamos a viver segundo esses moldes do pensamento.
Se a caça seria tarefa dos homens, e só dos homens, e esse é o motivo que explica por que eles sabem alegadamente orientar-se melhor que nós; se a caça exigia destreza e força, e esse é motivo porque naturalmente lhe coube a tarefa, pergunto-me se teria importado muito às negras que em criança via de enxada na mão, vergadas sobre o solo, lavrando-o para a plantação de amendoim, com a criança bem amarrada ao peito ou às costas, chupando-lhes a teta enquanto trabalhavam e suavam em bica, pegarem no arco e na flecha para irem caçar a impala, com a cria colada a elas como uma mochila Eastpack, mamando sofregamente enquanto desentranhavam e desmembravam a peça para a transportarem para casa? Estou em crer que lhes seria igual. Melhor, que teriam preferido.

Mulheres medievais caçando

Mudemos de cultura, porque a alimentação carnívora não as explica a todas. E nas culturas onde não se come carne, nomeadamente na Índia, onde se fundou a religião budista? Nessa zona os homens orientar-se-ão melhor que as mulheres com base nas capacidades desenvolvidas durante a caça ao cogumelo? As mulheres não têm músculo para o cogumelo? O que explicará a cultura patriarcal na Índia?
Parece-me que divisão de tarefas e aptidões de acordo com o argumento da natureza deixa, pois, muito a desejar.

quarta-feira, março 08, 2006

Um blogue enquanto speakers corner


Respondo por esta via a uma pergunta que um leitor me enviou para o e-mail:


Se achas que as mulheres são tão mal tratadas pela sociedade que fizeste até hoje para alterar essa situação? (o blog não conta)

1. Embora no blogue dê muita atenção as questões relacionadas com o enquadramento sociocultural de mulheres e homens, sou sensível a quaisquer outras que configurem situações de injustiça: racismo, xenofobia, homofobia ou misoginia, violência contra o ser humano, os animais ou a natureza.

2. O mundo sempre nos pareceu demasiado complexo, grandioso, pesado para as nossas capacidades. Pensamos que é preciso ser muito inteligente, ter muito dinheiro ou talentos especiais para fazer alguma coisa. Que não está nas nossas mãos. Demoramos muito tempo a livrar-nos desse medo de crianças: “não seremos capazes de nos tornar responsáveis como eles, não conseguiremos tirar a carta, fazer o exame do 9º ano, trabalhar todos os dias de manhã à noite, cozinhar, criar filhos, substituir lâmpadas”.
A certa altura descobrimos já conseguir fazer tudo isso, mas achamos ser impossível mudar o mundo. Esquecemos que as pessoas que fazem o mundo, as outras pessoas que nos governam, que criam as Leis, que determinam, esses tais "eles", são como nós. São exactamente como nós, e, o que fazem, cada um de nós, com maior ou menor vontade, seria igualmente capaz de fazer.
O mundo não é grande. É tão pequeno que os estilhaços das explosões no Médio Oriente batem nos vidros da minha janela.
Para mudar o mundo precisamos apenas da nossa consciência, que nos contenta ou nos indigna, de não pactuar com a iniquidade, de não temer a speakers corner a que temos direito. Uma speakers corner é exactamente isso: chegar à rua e falar – não precisamos de blogue, mas o blogue ajuda.
Fomos educados para ter medo, para falar baixo, melhor, para nos calarmos. Temos de desaprender isso: não nos calarmos. Fazer um barulho ensurdecedor. É nessa altura que se vai cumprir o 25 de Abril. Aprender a falar.
São os discursos que mudam o mundo, porque são os discursos que têm poder para influenciar acções. Por isso é que me preocupa o cartaz do “Eles não gostam de celulite”. Por isso foi possível um filho-dum-cabrão convencer todo um povo da excelência da raça ariana. Através do discurso. Discurso é poder.

3. O que é que eu faço, fiz? Falo. Falo que me desunho. Chateio toda a gente. Nunca me calei. Aos 13 não me calava, nem aos 23, nem aos 33. Portanto, não me calaria hoje. Não obedeci ao que achei que não merecia obediência. Não. Me. Calei. Em todos os lugares por onde passei – escola, emprego, café, cabeleireiro, sala de espera dos consultórios, praça, bomba de gasolina, grupo de amigos, cidadão anónimo na rua - disse o que pensava, não escondendo a minha visão do mundo, alertando para discursos e atitudes potencial ou efectivamente discriminatórias, como faço aqui no blogue.
Claro que isto tem um preço. Para mim teve um preço. Paguei-o. Voltaria a pagar. Talvez as minhas filhas, se existirem, não tenham de pagar o mesmo preço. Isso seria mudar, e valeria a pena ter andado a vida inteira à pancada.

segunda-feira, fevereiro 27, 2006

Má sorte terem sido... princesas!



A princesa Kiko do Japão está grávida pela terceira vez.
Kiko é mulher do príncipe Akishino, o qual, por sua vez, é irmão do príncipe Naruhito, herdeiro ao trono.
O príncipe herdeiro, Naruhito, tem uma filha.
O príncipe em segundo lugar na linha de sucessão, Akishino, marido da Princesa Kiko, teve com esta duas filhas.
Outra personagem: o primeiro-ministro japonês, Koizumi, estava a pensar apresentar ao parlamento um projecto-Lei que permitiria a ascensão ao trono de mulheres; a filha do herdeiro, naturalmente. Parece que tal não é possível no Japão: uma mulher ser imperadora.
Mas, agora, que a princesa Kiko está grávida pela terceira vez, renasceu a esperança: talvez venha um rapaz, e, a ser assim, já não há necessidade de mudar nos próximos 100 anos.
Portanto, Koizumi desistiu do projecto-Lei.
Portanto, muitos chás de caridade para as princesas!



sábado, fevereiro 25, 2006

Algo gigantesco falha todos os dias


Algo falhou, escrevia Ana Vicente, no DN de ontem, a propósito do crime praticado pelos adolescentes da Oficina de São José.
Algo.
Assim vago.
Algo que não lhe diz respeito. Algo, apenas.

Tudo falha, todos os dias, em grande escala.

E a vítima, um homossexual travesti toxicodependente sem-abrigo brasileiro? Não falhou nada? Um homossexual de 45 anos está a viver na rua, onde se droga, dorme e recebe clientes, e aqui não falhou...
algo? Tornou-se um alvo fácil por ser homossexual, travesti, toxicodependente, sem-abrigo ou brasileiro? Ou tudo? E era toxicodependente e sem abrigo, por que motivo? Por ser toxicodependente e brasileiro? Ou travesti?
Algo gigantesco falha todos os dias. Para todos. Por culpa de todos.


sábado, fevereiro 18, 2006

"Não há rapazes maus"

As mulheres não são vítimas dos homens.
Os homens são as vítimas uns dos outros, e de um processo de aculturação no qual as mulheres têm participado como agente activo. Mantendo essa cultura. Defendendo-a contra todas as tentativas de mudança.
Como disse, ontem, citando outro autor, a Professora Teresa Joaquim, na Livraria Bucholz, no lançamento do 2º caderno de Filosofia das Ciências, Ciência e Género - Quatro Textos de Quatro Mulheres (Londa Schiebinger, Evelyn Fox Keller, Donna Haraway e Hilary Rose), há mulheres que são escravas, há mulheres que têm escravos.
A educação dos rapazes, no mundo em que vivi, e hoje, ainda, em determinados espaços culturais, geográficos ou marcados por questões de classe, era de uma violência muito superior à das raparigas. Os rapazes eram educados para viver sem emoções, sem lágrimas. Os rapazes eram educados para ver a mulher como o outro que eles não poderiam imitar sem descer vários degraus numa escala de importância, de poder. A educação dos rapazes era cruel. "Se choras és uma menina. Um homem não chora. Só as mulheres choram; tu não és uma mulher, nem queres ser, porque os homens são fortes."
Resultado: eu, que sou mulher, sei chorar, eu posso chorar - e nisso me curo. Posso lamentar-me. E nisso me curo.
O meu melhor amigo é vítima e carrasco, para si: não sabe chorar. Não sabe. E se souber, se isso acontecer num segundo incontrolável, fa-lo-á em segredo, como se praticasse um vício secreto. Eu choro na rua. Eu choro. Eu pude brincar com bonecas e com carrinhos. O meu amigo não pôde brincar com bonecas. Porquê? O que há de errado, nas bonecas, para um rapaz? Eu posso usar calças e saias, sapatos altos ou baixos, maquilhar-me ou não me maquilhar... O meu amigo, não. Se não quer ser ridicularizado, usará calças, sapato de homem e nenhuma maquilhagem. Enfim, colocará um cremezito hidratante, se for muito moderno, muito mesmo. E ridicularizará todos os homens que usarem saia, e educará o seu filho para não brincar com bonecas. É sua vítima; é seu carrasco. Perpetua esta ordem perversa, injusta, assente em papéis que deviam ser livres.
Os homens eram obrigados a ir à tropa, eram obrigados a aprender a matar. Eu não. Os homens foram extraordinárias vítimas de um sistema que os devorava, que os ensinou a devorar-se mutuamente, que criou e diabolizou a mulher, o negro, o da cultura e religião e prática sexual "diferentes" como o outro; o "outro-inferior". Vítimas da sua Lei. Nenhuma mulher é vítima sozinha. A violência doméstica dos homens sobre as mulheres, ou vice-versa, é exercida por umas vítimas sobre outras.
Somos também o outro que o sistema condena. Somos sempre o outro. Somo-lo em segredo, se for preciso. Tornamo-nos esquizofrénicos para poder ser, à vontade, tudo o que não nos é autorizado ser. E as saunas masculinas, os quartos escuros de melhor frequência na capital, todos os dias se enchem de heterossexuais do sexo masculino (70% dos frequentadores), que a seguir marcham para o snack da rua beber bejecas enquanto chamam paneleiros aos do brinquinho, aos que agora andam a comprar hidratante!

Se eu queria ter sido um homem? Nunca. Nunca compreendi como é que um homens conseguiam sê-lo. Suportá-lo. Ser um homem foi, no tempo da minha infância e adolescência, violentíssimo. Ainda é. Aqui, na minha rua. Todos os dias.

A paridade, a igualdade (não são conceitos iguais!) não é uma realidade assente fundo nas estruturas sociais e políticas da sociedade ocidental - não apenas na cultura lusitana. Sim, parece justo que todos tenhamos as mesmas oportunidades, mas, ao nível dos discursos quotidianos, permanecem todos os estereótipos sobre quem dirige. A comunicação social mostra-no-lo todos os dias. Uma mulher que engravide, que tenha filhos, e que seja, simultaneamente, um alto quadro numa instituição financeira, pode não voltar a ser promovida, porque é mãe. Um homem que tenha um filho é suplementarmente promovido, exactamente porque é pai e, por isso, precisa de ganhar mais dinheiro - tem um filho para criar!
Esta ordem e coisas é tão injusta para as mulheres como para os homens. Quanto mais não fosse, porque aquilo que, numa dada sociedade, serve para discriminar grupos, afecta não apenas esse grupo mas o conjunto social - inclusive os próprios agentes de discriminação.

Somos o que aprendemos a ser. Somos o papel que nos ensinaram. É difícil rebentar as grades dessa prisão. Implica um salto por dentro. Um rasgo. Uma ruptura.

É necessário estudar, para compreender, os mecanismos que constroem os comportamentos tradicionalmente masculinos. As mulheres despertaram há muito. Podem educar-se até ao esgotamento, mas enquanto os homens não despertarem, igualmente, não há mudança eficaz, profunda: ou seja, não há mudança, apenas alteração de comportamentos à superfície; apenas o politicamente correcto!
É possível educar novos rapazes, novas raparigas. Recomeçar. O mundo perfeito tem de se reconstruir nesse chão.
Isto não é uma utopia.

sexta-feira, fevereiro 17, 2006

O gueto das primeiras-damas

Banca dos jornais. De corrida.
"Presidentes da República? Isto está a sair com que jornal?"
"Não sei dona Isabela, mas já saíram uns seis."
Observo a contracapa. Cerca de uma dúzia de volumes.
"Só homens? Que tristeza! Que graça tem comprar uma colecção só com homens?"
"Então, dona Isabela, são os Presidentes da República! Mas há aí um sobre as mulheres."
Realmente havia. O último. Primeiras-damas. Pousei o volume. Suspirei.
"Primeiras-damas! Olhe, só para mim precisariam eles dos doze volumes; depois, num folheto de 12 páginas, profusamente ilustrado, e com letra grande, conseguiam descrever minuciosamente toda a vida mental dos meus ex-presidentes da república!"

quinta-feira, janeiro 05, 2006

Da iniciativa no ritual de cortejamento

Conheço pessoas verdadeiramente convencionais. Eu não sou muito.
Temendo a parcialidade da minha visão, ao avaliar o mundo no qual vivemos, procuro fundar-me mais no que observo, do que no que sinto. Mas o que sinto e observo produzem uma liga indestrinçável, pelo que desconfio da validade do meu discurso.
É possível, todavia, confiar nessa liga indestrinçável. Isso. Pelo menos.

O que conto vem a propósito do sentimento de rejeição que podemos sofrer ao abordar outro, sem sucesso; dos códigos de abordagem; do que nos foi ensinado sobre a quem cabia abordar e ser abordado

Aconteceu-me viver o final dos anos 70, princípio de 80, numa zona rural. Era adolescente.
Nos bailes da sede, ao sábado à noite, encostavam-se as cadeiras de pau às paredes livres da sala; a seguir, vinha o conjunto com as músicas da ordem, sobretudo os slows, que a gente gostava era dos slows: depois vinham as meninas solteiras com as mães, as irmãs, as tias; depois, chegavam os rapazes, sozinhos, cada um na sua mota, ou a pé. Os mais ricos tinham uns mini-Morris, e os muito ricos, Fiat 127.
As meninas, e respectivos paus-de-cabeleira, ocupavam as cadeiras; os rapazes iam para o bar, de onde se via a pista, beber minis e trincar amendoins, bem como, discutir entre si, quem dançava com quem.

Por fim, chegavam os casais novos, ainda bailantes.
As mães e tias, ou as feias, nunca se levantavam das cadeiras, a não ser para procurar donzelas desaparecidas, nos intervalos. As donzelas propícias ao desaparecimento, levantavam-se do assento por três motivos: casa-de-banho/xi-xi/risco nos olhos+rímel; aventura ao bar, área de homens, a pretexto de um carioca de limão ou de café, mas, sobretudo, para verificar se o rapaz do seu interesse tinha chegado; no momento em que era convidada para dançar.
Os rapazes nunca se sentavam nas cadeiras: encostavam-se onde podiam.
Que me lembre, existiam duas formas de uma rapariga ser convidada: a corajosa e a cobarde.
A corajosa implicava que o rapaz caminhasse até junto da menina e respectiva famelga, sujeitando-se a todos os olhares da sala, perguntando-lhe, enquanto dobrava ligeiramente a espinha, se queria dançar. A cobarde consistia num gesto feito de longe, com o indicador voltado para baixo, esboçando um gesto circular ou, para cima, desenhando uma breve linha que sugeria ligação entre convidador e convidada. Nestes casos, o rapaz expunha-se menos. Eram convites de resposta incerta, feitos a medo, para salvaguarda do gozo dos amigos, de todos; era um gesto sub-reptício, ligeiro, mas nós sabíamos. Fixávamos o magote de rapazes, aparentando olhar vago, mas alertas ao menor sinal. Nenhuma rapariga queria ficar sentada. Era, igualmente, uma rejeição que nos envergonhava: porque ninguém nos desejava.
Para qualquer dos convites, havia uma única forma de aceitar: assentir com um rápido baixar-levantar de cabeça, aprumar o corpo, disponibilizando a mão, o braço e a cintura. Negávamos, abanando-a, apenas.



Estava absolutamente fora de cogitação uma rapariga convidar um rapaz. Seria muito mal falada no domingo, o resto da semana. Fulana seria uma maluca. Uma doida. Nunca me lembro de tal ter acontecido.
Se tínhamos interesse por um rapaz, escondíamo-lo. Os códigos de cortejamento eram rígidos; se uma rapariga sorria a um rapaz, estava a dar-lhe confiança, logo, gostava dele, logo, o rapaz podia avançar com paleio. Com paleio e mais nada. Enfim, uns encostos, uns apertanços valentes, nos slows, a ponto de lhes sentirmos os pénis erectos sob a roupa; umas mãozinhas na cintura, por debaixo do casaco, disfarçadas; se havia escuridão na sala, um beijo meio roubado, por eles, mesmo que o desejássemos mais que à comida da semana.
Agora sorrio, se penso nisto, mas, na altura, era sério. Sofríamos.

Tive dois namorados de baile, e fui muito mal vista: o primeiro foi o Fanã do meio - alcunha da família; ele era o filho do meio. Os Fanã eram pobres, e todos gozavam comigo. O Fanã do meio era atarracado, mas muito bonito. Já tinha saído da escola, e trabalhava numa oficina de bicicletas.
Eu tinha casado com o Fanã.

Depois tive o Bisonho. Não me lembro do nome dele, mas era bisonho, um bocado feio, e trabalhava na fábrica de vidro. O Bisonho tinha uma Famel, e era alto e espadaúdo. Remediado, mas mais velho que o Fanã; já nos seus vinte; e avisaram-me muito para que não me desgraçasse.
Eu, tudo o que queria, era desgraçar-me. Eu e as outras. Mas, claro, isto não se confessava. Os malabarismos horários que realizei só para conseguir que o Bisonho me encontrasse no caminho, quando vinha da fábrica, e parasse, e me namorasse.
Eu tinha casado com o Bisonho.


Brigitte Bardot

Havia uma ordem ritual: o rapaz desejava e solicitava a rapariga. A rapariga era objecto de desejo e, em consequência, solicitada.
Admito que os rapazes experimentassem sentimentos de rejeição, que se sentissem humilhados, quando os negávamos. Imagino que nos dias seguintes, no café do centro, fossem mofados, “então convidaste a prima da Mané e não tiveste sorte, hein?!” Ou pior, muito pior.
Não havia razão. Nunca houve. Mas admito.

Já me senti rejeitada. Não foi agradável, mas não fiquei traumatizada para o resto da vida social.

Não gostamos de ser rejeitados, contudo avança-se. Quem é que não foi preterido em público, por um ou outro motivo? O que pensámos? Querem, querem; não querem...
Embora tenha, voluntariamente, quebrado a ordem ritual, já mais velha, na cidade, onde o anonimato nos liberta, havia alguma beleza naquilo: ser eu o objecto de desejo. Querer mas não facilitar. Esperar. Manobrar. Foi sempre melhor quando o ritual se cumpriu; quando houve tempo para ser seduzida, iludida...
Não me custa manifestar interesse por alguém, tomar a iniciativa, explicar-me, ser eu a cortejar. Não sinto vergonha. E a rejeição não afecta a minha auto-estima por longo tempo. Mas é tão bom quando o outro cumpre o ritual. Quando o outro anda de roda de mim, me cerca e eu quero ser cercada. Posso caçar, mas gosto tanto de me passar por caçada.
Mas nada disto tem que ser à noite, num bar. Não me refiro a engates, porque não domino o assunto. Não me interesso por alguém apenas porque é deslumbrante.
Interesso-me devagar. Descubro que estou interessada. Depois... posso não consigo esperar muito.

quinta-feira, dezembro 08, 2005

Feriado de Nossa Senhora da Conceição

O Preço Certo em Euros agora tem um menino, para além das habituais meninas de top, a apresentar os electrodomésticos, a fazer festinhas nas impressoras, a dar palmadinhas nas secretárias do IKEA, ligeiramente arqueado sobre os objectos, sorrindo, com o rostozinho de lado.
Parece socialmente correcto, mas nem chega a mudar a decoração. É exactamente o mesmo, e não me alegra.
Do que eu gosto é da senhora de Gouveia, que levou as prendas da "cambra", e que impulsionou a roda com toda a força, seriamente, como se estivesse no seu trabalho, como fez toda a vida, em todas as circunstâncias.
E agora segue-se o Telejornal.



segunda-feira, novembro 21, 2005

Como nasce um(a) feminista?

As diferenças fisiológicas homem/mulher, logo, maior força física/menor força física condicionaram, ao longo dos milénios, a construção de uma diferenciação cultural, a qual tem vindo a suportar uma ideologia que, por analogia à força física, assenta sobre o pressuposto de uma maior capacidade geral masculina versus menor capacidade feminina.

Condicionaram-nos; condicionaram-me, e eu, hoje, não sou apenas aquilo que vim cá ser – isso perdeu-se, esqueceu-se, ficou pelo caminho - sou a falha do que perdi, e o muito pouco que consegui salvar à moldagem do que os outros acharam que eu deveria ser.
O que digo sobre mim, vale para todos; vale para cada um dos homens e mulheres que lêem este parágrafo. Somos a falha perdida e a mais-valia do que lográmos salvar ao saque.

Quando era criança, antes de me dizerem, “Isabela uma menina não faz isto, não faz aquilo”, para mim, o mundo era perfeito e tudo estava acessível. O mundo era perfeito?! Oh, não, eu sabia que o mundo não era remotamente perfeito, mas não o encarava de acordo com essa separação.
Via-me com uma pessoa pequena capaz de realizar um determinado número de acções indefinidas, desconhecidas, mas que não dependiam do facto de ser uma menina. Nunca fez sentido, para mim, ser menos capaz que um rapaz em termos mentais, ou, sequer, diferentemente capaz.

Sei isto, porque o confronto com a noção de género, “sou uma menina”, não apenas um ser humano como qualquer outro, mas uma classe humana, uma menina, foi algo muito estranho. Estranho neste sentido: nunca compreendi! Não possuía lógica, e eu sempre gostei de lógica, mesmo quando arrisco não a seguir. E, como nunca compreendi, nunca aceitei.
Penso que seja igualmente estranho para os rapazes a primeira vez que lhe dizem, "és um menino e os meninos são fortes: não choram como as meninas". Devem, sem saber, sem compreender, sentir-se roubados da verdade, da pureza, roubados de sentir, porque não poder chorar é a pior da maldições.

Quando, pela primeira vez na vida, já com os meus 17 anos, escutei um verdadeiro discurso dito feminista, não fui educada por ele, reconheci-o como já meu.

Se entre homens e mulheres existem diferenças, para além das biológicas, essas indiscutivelmente felizes, que sirvam agora para nos juntar, não para nos separar. Para nos tornar pares verdadeiros.

sexta-feira, outubro 14, 2005

Mulheres fatais, 1

O imaginário sexual masculino deseja e teme, em simultâneo, as mulheres fatais.
Estas achincalham e ameaçam o poder, na medida em que não se sentem constrangidas pelas regras.
Ora, o poder é assunto caro aos homens, por vezes titubeantes entre os direitos e as obrigações que o mesmo lhes atribui.
As mulheres fatais, subvertendo as normas, assumem-no e exercem-no, e, assim, ameaçam a construção social; o que as torna temíveis; mas dá-se que, o mesmo exercício de poder que as torna temíveis, as faz desejadas, já que o imaginário masculino anseia frequente, secreta e inconscientemente, ser desapossado do poder que a cultura lhe atribuiu como natural! Ou, pelo menos, partilhá-lo!

As mulheres fatais conseguiram a atenção do cânone que construiu a História na sua qualidade de devoradoras de homens; mulheres belíssimas, ou nem por isso, que, por algum motivo, se diz terem destruído a vida a grandes homens da arte, do pensamento, da ciência.
A História desvaloriza o facto de, coincidentemente, serem todas, ou quase todas, cultas, talentosas, extraordinárias; frequentemente mais cultas, talentosas e extraordinárias que os vultos cujas vidas acusam de ter destruído.
Por outro lado, valorizam-se-lhes os atributos sexuais, remetendo-as para práticas encaradas contra naturam ou, no mínimo, reveladoras de comportamentos dissolutos: lesbianismo, bissexualidade, poligamia, ninfomania, prostituição. Quando nada disto se aplica, atribui-se-lhes uma patologia mental e arruma-se o caso. Raramente se lhes concede o que as tornou únicas: o seu génio artístico ou científico, a sua excelência.

Vejamos alguns nomes: Mata-Hari, seduzia homens para conseguir segredos e fazer espionagem; Simone de Beauvoir; bissexual, recebia meninas e meninos em casa e, nos intervalos, criava uma literatura feminista; Virgínia Woolf, lésbica recalcada e escritora; Anais Nin, lésbica praticante e escritora; Isabelle Eberhardt, vestia-se como homem, frequentava bordéis, sexualidade inclassificável, escritora, Frida Kahlo, bissexual e pintora; Margaret Mead, casou demasiadas vezes, bissexual de certeza, lésbica provavelmente, antropóloga; Camille Claudel, maluca, desequilibrada total e escultora; irmãs Bronte, obsessivas, desequilibradas parciais, solteironas recalcadas, as que casaram fizeram-no sem amor, escritoras; Lou Andreas Salomé, devoradora de homens com vida dissoluta, escritora, pensadora; Marie Curie, costumes dissolutos após a morte do marido, arrogante, cientista; Isadora Duncan, ninfomaníaca, louca e bailarina; Carson McCullers, bissexual mais a tender para o lésbico, escritora; Marilyn Monroe, desequilibrada e burra, actriz; Marguerite Yourcenar, lésbica total e escritora; Marguerite Duras, ia a tudo, escritora; Clarice Lispector, maluca e escritora; Sílvia Plath, maluca e escritora; Alma Mahler, devoradora de homens e compositora.
E nem me abalanço a mencionar a nossa Carlota Joaquina que parece que era feia que nem um bode, má que nem uma cobra, que dormia com a criadagem toda, da cozinha à cavalariça, e maltratava o pobre do rei, coitadinho, impondo-se às suas decisões, a velhaca!

Dá vontade de rir, não dá? Parece caricatura, não parece?

A História não se limitou a ignorar as mulheres, como, quando as lembrou, as tratou mal e parcialmente!
E o que sabemos da História é o que a História escreveu!


Isadora Duncan

O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...