
Não sei se Golda Meir, Indira Ghandi, Margaret Thatcher exerceram política como mulheres, porque não sei o que seja a política exercida por mulheres, ou seja, com a sua marca. Creio que cada uma delas fez o que os homens esperariam ver feito, porque disso dependia a sua credibilidade enquanto agentes governativos. Todos estariam à espera de vê-las ser diferentes, de vê-las falhar, para concluírem, agiram como mulheres! Elas sabiam.
As mulheres, todas, eu não fui excepção, têm sido educadas profissionalmente para agir como homens, ou seja, para agir de acordo com um status quo que não reflecte uma voz feminina. Angela Merkel governa como uma mulher ou como um homem? Vejamos, como se detecta a voz feminina de Merkel? E o que é uma voz feminina? A minha voz é feminina?
Há neste momento mulheres desempenhando altos cargos na Europa, sobretudo a Norte e no Leste. Fazem melhor que os homens? Pergunto, realmente. Quero saber.
Se eu fosse deputada agiria de acordo com os meus valores humanos e profissionais aprendidos num mundo de homens, para homens. Que tipo de política seria a minha? Terei eu conseguido subtrair-me a essa ordem? Serei capaz de ser diferente?
Os fenómenos históricos e sociais repetem-se; e só muda o motivo, não o modus operandi: quando as mulheres começaram a conduzir automóveis, haviam de ter acidentes porque eram mulheres e nada percebiam de pedais de embraiagem, e quando começaram a exercer profissões liberais, seriam piores profissionais porque eram mulheres, e teriam dores na data da menstruação. Daqui a uns anos haveremos de discutir se as mulheres serão eficientes como responsáveis máximas por estações espaciais. Vai ser igualzinho. Os argumentos de sempre.
A feminização de uma actividade tem tido como tendência a sua descredibilização, o que aconteceu, por exemplo, com a classe docente, que perdeu poder à medida que as escolas se encheram de mulheres. Vamos ver o que acontecerá com a classe médica, dentro de dez anos, quando os mais velhos se reformarem.
De igual forma, ainda hoje, uma escritora não vale o mesmo que um escritor, porque o escritor debruça-se sobre assuntos universais e sérios, enquanto uma escritora mergulha em intimidades, no amor, na vida quotidiana, etc., etc. Em literatura, os interesses das mulheres inferiorizam as obras que publicam. Porque os homens, como o Pedro Paixão, entre outros, podem à vontade escrever sobre amor e intimidades que permanecem escritores de créditos firmados.
Por esta ordem de ideias, feminizar a política implicaria uma diminuição do seu poder, consciência que as mulheres que a praticam têm tido, mantendo o adequado low profile. Não o manter tem consequências que passam pela não inclusão em listas eleitorais ou não nomeação para cargos.
Não me interessa saber que diferenças e semelhanças juntam ou separam homens e mulheres no que respeita às capacidades das suas naturezas biológicas. Estou para além das influências determinantes da cultura na formação das identidades femininas e masculinas. Sempre houve homens com capacidades ditas femininas, e vice-versa. Toda essa fronteira que ao longo dos tempos, e na nossa cultura, se estabeleceu entre feminino e masculino, cada vez menos se aplica. Eu diria que vai morrendo devagar. Mas que morre.
O que interessa, na política, e fora dela, é que quem a faz, a faça com justiça, respeito e cuidado pelo que cuida. Ouvindo, reflectindo e executando. E que essa execução não ignore que, à partida, somos todos gente de bem, porque os que não forem, tratam-se à parte.
E que se fale claramente, sem medo dos lobbies de poder. Sem medo. Sem farsas. Sem medo. Sem nada de especial para mostrar, a não ser a vontade de melhorar. Pedindo ajuda, quando for necessário. E como tem sido.
Como mulher, como ser humano, falo muito, digo muito o que penso, com sinceridade, e peço muita ajuda, porque preciso, e pergunto, e indigno-me, e ralho, e dou atenção, e ouço, ouço, e respondo, e recuso padrinhos e subornos. Sou um ser racional e emocional. Tenho dois lados e não escondo nenhum. Isto é feminino? Não, pois não?! São valores humanos. É isso que quero ver na política. Claro que quero ver muitas mulheres na política, mas se um homem for capaz de governar desta forma, para mim serve lindamente.


















