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domingo, outubro 07, 2007

Ao menos usem aliança para a gente perceber logo


Entrou um colega novo lá para a empresa. Desde que chegou, tem-se chegado muito a mim.
"Olá, colega, então que fazes por aqui hoje?", pergunta-me, penetrando-me o olhar com uma espécie de visão raio X que me atravessa de um lado ao outro da testa. O raio do homem ainda me arranja algum descolamento na retina.
Considerando que trabalhamos ambos na mesma fábrica de parafusos, e que ambos produzimos artigos de tamanho médio, e exactamente na mesma secção, gostaria de saber que raio de pergunta é aquela? A resposta correcta seria "faço exactamente o mesmo que tu, ora essa!" Mas não, não posso retorquir de tal forma e tornar-me indelicada. É preciso ver que enquanto me penetra o olhar, o colega sorri com a boca toda, pelo que lhe respondo, sorrindo também, de fugida, meia de lado, "Adianto uns trabalhos. Tem de ser. Compreendes..."

Os homens muito gulosos embaraçam-me. Quando se torna muito óbvio que me estão a fazer a corte, e olhinhos ternos, e sorrisinhos, e me querem tocar na mãozinha, e fazer conversa sem terem nada para dizer, seguros do implícito "eu sei que tu estás a perceber que estou interessado", sinceramente, envergonham-me. Torna-se contraproducente, porque só penso em fugir. Assim não dá, não consigo.
Gostava tanto que estudassem uma conversa qualquer, de forma a que eu não percebesse tratar-se de medíocre engate, e deixassem correr. Liam-me uns poemas. Levavam-me a umas livrarias com café. Ao cinema. A passear não sei onde. Explicavam-me a teoria do big bang pela trigésima-quinta vez, ou como se faz uma ponte suspensa, ou lembravam-me os princípios da trigonometria. Depois logo se via o que é que dava. É que não vou a lado nenhum com conversa de engate. É oca; é óbvia. Com uma mulher do meu género não dá.
Em alternativa, parecer-me-ia bem que o meu colega arranjasse coragem para dizer, "Ó Isabela, sais às quê? Anda ali à Cruz de Pau tomar um café!" Eu diria que sim, já a perceber tudo, pois, mas ia, e o homem explicava-se, desengasgava, e eu faria um esforço enorme para não me rir, mas ele não daria por nada, e pelo menos tinha do seu lado a prova maior que para mim constitui a coragem. Coisa mais linda, e rara, a coragem! Se calhar até tinha sorte. Se calhar até o deixava ver-me os olhos ao fim-de-semana, e quatro ou cinco anos depois quem sabe se não estaria quase a deslizar-me a alça do soutien.
Quando gosto de um homem, tenho uma técnica: digo-lhe. Não ando a empatar com linguagem corporal que só embaraça, e verbal, "não sei quê, o que é que andas aqui a fazer". Conclusão, ou o colega novo é cobardolas, e não serve, ou é dos casados, e sem aliança, e, logo, também não serve.



sexta-feira, dezembro 01, 2006

Julieta pede sofridamente a Romeu

Muito vos agradeceria, meu senhor, se para não excitardes mais o meu... amor, realizásseis a mercê de não continuar enrolando os vossos dedos, nos meus mamilos, a esta hora da noite!

terça-feira, novembro 28, 2006

Paradoxos das estratégias de aproximação sexual

Quando digo sim ou não, disse sim ou não. Se falo, precisei de falar. Se me calo, não tenho nada a dizer. Comigo é muito simples. Portanto, é total a minha incompreensão perante estratégias de aproximação sexual, que, perplexamente, costumam passar por jogos de silêncio e desinteresse.
Recentemente, fui mediadora de um encontro entre a minha amiga T. e um blind date que arranjou, tendo-lhe eu confirmado, mediante apresentação da respectiva foto via mail, não ter o homem mau aspecto.
A T., primeiro, arranjou o namorado; segundo, e à última hora, informou-me que eu teria de estar presente no encontro para dissuadir eventuais ataques, caso ele fosse tarado. Estrebuchei, mas tive de ir, não porque desconfiasse do desgraçado, mas porque não havia saída. Ou eu ia ou ela ameaçava não ir. E eu tenho espírito missionário, para meu mal.
A coisa foi embaraçosa, mas avancemos. A parte que interessa é a seguinte: a minha amiga fez cara feia ao blind date; nitidamente entediada, nariz no ar, queixo levantado, olhar distante e medroso, ou desdenhoso... senti-me envergonhada! Assim que pude, deixei-a a sós com o desdenhado, achando que aquilo não ia dar nada, mas, pronto, não era comigo, estava safa. Tinha mais que fazer.
Afinal, entenderam-se. Mas, agora, T. não telefona ao ex-blind date para que ele não pense que está demasiado interessada. Por seu lado, o ex-blind date modera os telefonemas, para que ela não pense que está demasiado interessado. T. telefona-me a queixar-se de que ele não enviou mensagem quando chegou a casa, não telefona há 2 dias, "achas que isso significa que ele não gosta de mim?!" "Porra, e eu é que sei?!"
Entretanto, o homem dá sinal de vida, mas T. decide fazê-lo esperar, e responder apenas dali a 3 dias... para não se mostrar fácil!
A mim espanta-me como é que as pessoas chegam a ter alguma coisa umas com as outras.



Francesca Woodman, Providence, 1975-1978



segunda-feira, setembro 25, 2006

E agora acordei


Os comboios deviam apitar sempre duas, três, quatro vezes antes de chegar a cada estação ou apeadeiro, para nos acordarem, para termos tempo de nos recompor, para escavarmos no peito a coragem de lembrar - querendo-nos tanto, e de olhos abertos, com os farnéis partilhados, destapados sobre os joelhos - que nos queremos vazios e fortes, como se já tivéssemos 60 anos.


sexta-feira, abril 14, 2006

Prova de grande amor

A RTP1 prepara-se para estrear um novo programa com vista a testar a compatibilidade amorosa, a solidez das relações, etc., essas coisas.
Nestes assuntos, padeço de cepticismo crónico.
Esta semana, estava no consultório do médico, e peguei numa revista Vip, que folheei enquanto não era chamada. A páginas tantas, deparo-me com uma reportagem sobre casais-modelo, uniões de sucesso, amor para sempre, indubitável, sendo que a primeira era sobre a jornalista da SIC, Clara de Sousa, e Francisco Penim, que também deve fazer qualquer coisa nos meandros da estação, seja o que for. Não foi possível resistir: a reportagem era uma pérola de lugares-comuns extensíveis ao casal Carlitos Cruz e Raquel, Manela Moura Guedes e Zé Edu, Juju Pinheiro e Rui Pego, entre outros. Nos últimos, até acredito; a Manela e a Júlia devem ser capazes de fazer de qualquer relação um vendaval emocional, pelo que o Zé Edu e o Rui Pego não podem ter tempo para olhar para as saias das colegas, quanto mais.
Não acredito em relações sossegadas, lamento muito. Ou andam os tachos e as panelas pelo ar e uma mulher pode gritar à vontade e fazer-lhes a vida negra, ou não funciona, já se sabe, porque eles precisam da rédea curta e de diferentes estratégias de manipulação todos os dias. E só pode ser assim. Nada de "está bem, querido", "pois, tu é que tens razão, mor". O meu conselho é nunca lhes dar razão, nem sossego, nem certezas, e pô-los a dormir no sofá de quinze em quinze dias.
Estranhei a notícia sobre Clara de Sousa. Recordava-me de capas de revistas recentes sobre a sua separação. Eu nem sabia quem era o tal Penim. Nem sei. Conferi a data de edição da Vip e sosseguei: meados de Fevereiro. Portanto, o casal Clara/Penim era modelo em Fevereiro, só nos finais de Março se desfez. Bem, pensei cá com os meus botões: deve ter acontecido algo muito, muito grave. Felizmente fui procurar um link sobre este assunto, antes de escrever o presente texto, e pude ler uma notícia do Correio da Manhã, de 01/04/06, confirmando a separação do casal, esclarecendo que se deveu a infidelidades do incorrigível mulherengo, e justificando que já nem viviam juntos há três meses. Ora, se o esclarecimento sobre a separação é feito no final de Março, se não vivem juntos há 3 meses, parece que no final de 2005 já estaria o caldo muito entornado. Se assim foi, deve ter entornado ainda mais cedo, até porque Clara afirma estar farta das infidelidades do pinga-amores.
Não consigo perceber como é que a Vip os apresenta como casal modelo em Fevereiro, mesmo que a reportagem tenha sido feita em Janeiro, ou em Novembro ou Dezembro. Os redactores foram enganados?
Tenho, portanto, de colocar a hipótese de os casais-maravilha, em teste de amor, no novo concurso da RTP, dormirem já em camas separadas, isto, se é que ainda pisam o mesmo chão.

sexta-feira, fevereiro 10, 2006

Feministas

Chegou a minha amiga sueca e estou muito feliz. Chegou a mulher mais inteligente e bonita que conheço, a par da chata da minha prima afastada, e da Zeta-Jones, mas agora me lembro que não posso estabelecer analogias mulher-objecto, porque somos feministas e não se coaduna!
Não me responsabilizo por nada que se escrever neste blog, assinado por mim, claro, a partir das nove da noite - que é hora da janta, mais ou menos. O vinho alentejano não permite. Já ali está o Eno e o Guronsan para amanhã de manhã.
Os próximos quinze dias vão ser péssimos para a figadeira. Já para os miolos, pelo contrário...
Não estão, com certeza, à espera que vá defender tese alguma, a esta hora da noite, duas garrafas de Borba depois, e mais uma de champanhe da Catalunha. Champanhe da Catalunha?! Eu sei lá, aquilo era bom! Agora vou à água das Pedras!


terça-feira, janeiro 03, 2006

Houve um tempo sem cobardia

Explicaram-me que existe, agora, nos telemóveis, um determinado sistema, o qual permite mandarmo-nos mensagens, com o nosso perfil, aquele que escolhermos ter, à borla, desde que partilhemos uma mesma zona.
Perguntei qual era a utilidade, e responderam-me que era muito usado, nos bares, para os engates. E eu imagino-me no café a receber a seguinte mensagem, "Olá, miúda; sou o Tiago Nuno, 30 anos, 1, 85m, moreno, 107 quilos, engenheiro de minas, Mercedes xpto turbo-diesel, visto-me Gant e Helvetica, Sporting Club de Portugal, os meus livros preferidos são os mais fininhos do Paulo Coelho, curto Da Wiesel, todo-o-terreno, e o amor. Não sou transmissor de doenças venéreas, pelo menos ninguém se queixou".
E pergunto, ainda, então e o velho chat? "Donde teclas?"
E quando íamos ter uns com os outro, fosse onde fosse, e atirávamos, apenas , "Pá, eu conheço-te da faculdade, não conheço?!", mesmo quando não nos conhecíamos de lado nenhum.
E quando nos pediam lume na rua?
E quando, nos bailes, nos perguntavam as horas?
Saber levar uma tampa tinha a sua dignidade. Havia uma disciplina, na tampa. Uma ordem. Uma tampa era só uma tampa naquele momento. Mas respeitava-se; voltava-se à carga no próximo baile, se entretanto não se tivesse tido sorte por outro lado.
Agora, não se arrisca sem rede. Essa é a praga deste tempo: a rede protectora por debaixo do trapézio.
Eu, que sempre fiz piruetas no ar, saltos mortais; eu que dancei no trapézio e me segurei a ele pelo dedo mínino; que hei-de trabalhar no circo sem rede, para sempre, acho estes tempos tão cobardes!

O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...