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sábado, fevereiro 14, 2009

Dia dos Namorados




Peguei nas meninas e saí. Comprei o jornal no sítio do costume. Tomei o pequeno-almoço no sítio do costume. Sentei-me no banco do jardim a ler o jornal do costume, o que já havia começado a fazer enquanto comia o croissant e bebia o café com leite. As meninas corriam na relva. Foi uma manhã em cheio. O celibato conserva-nos muito a pele.

sexta-feira, março 21, 2008

A complexidade do cérebro humano

Olhei lá para fora pelos janelões da sala. Que lindo dia! Entretanto, ouvi a Morena coçar-se furiosamente nas minhas costas, e pensei com os meus botões, é hoje que a meto na banheira, é hoje! Virei-me e disse-lhe, sorrindo, é hoje! Levantou-se com o rabo entre as pernas e foi-se esconder no quarto, debaixo da cama.
Ainda ontem tinha ouvido, num programa sobre fauna, no canal Odisseia, a seguinte frase: "o ser humano possui o cérebro mais complexo de todos os animais." Deviam estar a referir-se a uma outra raça humana, talvez noutro planeta.

sábado, novembro 10, 2007

Salvação

Abrir as janelas. Sol, outra vez. Céu limpo. Luz. Dois navios no Tejo. Barcos à vela, uma dúzia. O pombo continua atrás da pomba, no telhado do prédio em frente. Lá em baixo, pessoas carregam pacotes e crianças. Silêncio.
Aquecer o leite e meter-lhe café. Doce de ameixa no pãozinho. Não lavar a louça de ontem. Não fazer a cama. De vez em quando um traquinar reconfortante na cozinha do apartamento ao lado; alguém está vivo, como eu; de resto, silêncio.
As manhãs de Sábado.

terça-feira, janeiro 23, 2007

O barulho da vida

O primeiro ruído que escuto de manhã, quando desperto, parece-me o motor de um gerador que se ouve a trabalhar muito ao longe, mas mais rouco, mais grave. Não é um bruá, um shhh, ou um rrrr, mas uma imperceptível trepidação surda, diferente como o clamor de muitos suspiros e passos cometidos num mesmo instante. É o barulho da vida, cortado pelos ruídos próximos do elevador, que sobe e desce, pelo chiar dos travões dos carros lá fora, pelo rasgo das buzinas no tecido dos lugares, pelas vozes dos homens e mulheres que varrem a rua enquanto falam alto, pelas mães que saem dos cafés gritando, “Não vás para a estrada!”. Estes são outros barulhos da vida, distractores do essencial. Nunca ouvimos o barulho de fundo da vida, esse que se percebe como o motor longínquo de uma mó, e nos esmaga. Não sei se vale a pena chegar a ouvi-lo. Eu preferiria nunca ouvir barulho algum.

sexta-feira, janeiro 12, 2007

Alguém me chamou?

Acordei com uma voz grave e limpa que distintamente chamou alto o meu nome. Não reconheci nela qualquer zanga, preocupação ou afecto. Não havia emoções. Era um alerta, um chamamento. E eu levantei-me, por respeito à ordem dessa voz tão clara, tão aberta, que dizia tão articulada, perfeitamente o meu nome, ecoando nos meus ouvidos vinda de sítio nenhum. Alguém, entre vós, me chamou esta manhã?

quinta-feira, dezembro 21, 2006

Quando o Jarbas me trazia o café au lait é que era bom

Luz da manhã, tal como não a vejo.


As manhãs muito matinais sempre me doeram.
Eu e Deus sabemos o esforço com que saio da cama, abro os olhos, e me ponho em estado ligeiramente decente para encarar as primeiras horas, com péssimo humor, olhos e voz de ressaca até ao almoço. É assim desde que me lembro, Inverno ou Verão, mas pior no Inverno, e nunca, nunca consegui disfarçar. Não suporto escutar rádio, o trânsito, a temperatura, nada.

Preparo tudo aquilo de que preciso na noite anterior: roupa, pasta, quaisquer objectos necessários, porque de manhã o meu corpo limita-se aos mínimos de sobrevivência. O próprio barulho da ventoinha do aquecedor me incomoda, enquanto me visto e calço.

Hoje, precisei de ir muito cedo a Lisboa.

Chegada, inscrevi-me numa dada lista, e fui tomar o pequeno-almoço a um destes novos cafés que se chamam coffee house, e que se dividem em três áreas distintas, destinadas a consumidores distintos ou horas distintas, não percebo nem tenho interesse, mas já agora descrevo: primeira, cadeiras de palha clara; segunda, um corredor com mobiliário em madeira-mel; terceira, fundo em sofás de couro preto; é um bairro de prédios muito finos, e não existia nenhum outro lugar de comes e bebes aberto tão cedo.

Fui a primeiríssima cliente. Enquanto consumia o mesmo de sempre, o que peço nos cafés e pastelarias normais, galão e croissant, mas, neste, mais caros, mais pequenos e de pior sabor, tudo sem excepção, fui torturada por uma chinfrineira musical pop, de batida electrónica inaudível e irreconhecível. Um horror de ruído, prolongamento do dos bares nocturnos, caso aquele lugar o fosse, o qual, os empregados, todos eles anestesiados, e um bocado surdos, pude notar, pareciam não escutar. Aquilo não os animava, porque se moviam lentamente, limpando e organizando desmotivadamente pequenas peças de qualquer coisa que também tinia.

Tive muita dificuldade em distinguir, naquela música, vozes de intérpretes e som dos instrumentos. Pareciam-me o mesmo. Tenho a certeza. Ambos electrónicos de fancaria. Mas o meu objectivo nem é julgar a qualidade musical do ruído, apenas o volume em que se encontrava sintonizado.
Ficaram nitidamente aborrecidos com o meu pedido para o baixar. E foi complicado fazerem-no. E só um bocadinho.

As manhãs são-me tão difíceis que o único alívio é o silêncio. Às 8 da manhã, o silêncio deveria ser universalmente obrigatório, e quem precisasse de encher o vazio, para não tropeçar nele, deveria realizá-lo com head phones, ou num aquário-gueto especial, como aqueles onde agora se juntam, e muito bem, e muito civilizadamente, os fumadores.
Para isto me soar a um poste de outro blogue, só me falta acrescentar que tais comportamentos espelham a típica falta de classe do nefasto alargamento da classe média...


quarta-feira, outubro 04, 2006

Alba do bairro da lata

O azul-prateado-mate do Mar da Palha, às seis e cinquenta e cinco, destaca-se do azul-prateado-brilhante do céu, sobre si, alimentado por luz própria atravessada de fiapos cinza-azulado, branco-sujo, que se depositam horizontalmente sobre as terras do Barreiro e Montijo, conforme as avisto da minha janela.
Só às sete e vinte e pouco, pelos meandros dos fiapos cinza, se acende, do nada, um fósforo de amarelos fortes, que vai clareando, contaminando rapidamente toda a altura onde antes residia apenas um azul prateado de céu simples, alimentado de brilho próprio.
E só depois se pode dizer, "lá fora há luz, de novo!" Demasiada. Excessiva luz crescente.

domingo, agosto 20, 2006

Silêncio

Tive frio esta noite.
Vesti um pijama verde que comprei num saldo do Jumbo, acrescentei um cobertor, e depois dormi descansada.
Não dormi descansada, isso é mentira, mas dormi. Tarde.
Acordei com muito silêncio, porque as manhãs de Agosto, as últimas manhãs de Agosto têm sido invulgarmente silenciosas. Onde estão os vizinhos do meu prédio? O elevador sobe e desce tão pouco. Porque há tão pouca gente no café?
Há silêncio lá fora, e aqui, e isso sabe-me bem.
Os seres humanos cansam-me muito. É preciso descansar deles. Do que pensam de nós, do que não pensam, também; não nos causa amolgadela na chapa, mas a chapa parece que fica raspada, com riscos, sem brilho. A chapa fica triste.
Há agora um silêncio tão grande à minha volta que penso, e não devo estar a exagerar, "este é um dos momentos mais felizes da minha vida".
Há tanto silêncio. E para o silêncio sou tão confiável,
as minhas palavras terão sempre a sua primeira intenção, não serei humana como outros, culpada antes de provar a inocência. Para o silêncio da minha casa, e para mim, não tenho de provar nada. De ser nada. Só eu. E eu agrado ao silêncio, sem condições. Não tenho de provar nada.
Por isso, hoje, sairei de casa apenas porque preciso comprar ração para as cadelas, porque a única coisa que tenho no frigorífico é pão congelado e uma embalagem de mostarda.
Espero que esta saída não me tome mais de 20 minutos.
Vou vestir umas calças. Não vou sequer meter as lentes de contacto. Logo vejo se preciso de me pentear. Vou agora.

terça-feira, agosto 08, 2006

Relâmpago

As janelas estavam todas abertas de ontem, e acordei antes de acordar, muitas vezes, sentindo a manhã inteira de barulhos frescos. As avós ralhavam com as crianças, que corriam por todo o lado, os cães do subúrbio ladravam hierarquicamente aos outros cães do subúrbio, alguns carros paravam para apanhar peões, os cacilheiros apitavam rouca, compassadamente através da névoa baixa que agora se desfaz, alguns risos na esplanada, a minha respiração lenta, cortada.
Mais ao fundo, o barulho do trabalho de quem nunca pára, a vida inteira, nunca dorme uma manhã: betoneiras, berbequins, camionetes descarregando águas ou mobílias.
E adormecia.
Senti-me nua, nua, preguiçosa, quando me voltei para o outro lado, sonolenta, e me passou pela memória da pele, num relâmpago, milionésimos de segundo, o teu corpo desarticulado, ao longo da manhã, todas as vezes que acordei; como um relâmpago; que me fazia falta o teu primeiro corpo de pêssego, com uma resina de Agosto, muito fresco, muito maduro, pingando no ar húmido das minhas outras manhãs, não melhores que esta, não melhores, apenas primeiras.
E adormeci.

quinta-feira, dezembro 22, 2005

O teu abraço

Esta manhã, pela primeira vez na vida, vi o Cristo-Rei.
O Sol batia-lhe de Sul, e distingui o seu recorte escuro no céu muito azul. Os braços abertos. As mangas largas da túnica, caídas abaixo do pulso. Direito como deve ser um homem e uma mulher. De braços abertos, como deve um homem e uma mulher.
Vi-o pela primeira vez na vida. Atravessava a ponte. O Sol batia de Sul e aquecia o carro, como um ninho; atravessava-me; o sol atravessa-me muito: tenho segundos em que penso ser feita de átomos de Sol, porque ele não bate em mim: passa através de mim e somos a mesma luz.
O Cristo-Rei abria os braços para mim, todos, largamente.
Senti o seu abraço muito apertado, e, pela primeira vez, percebi que, afinal, não faz mal ter as costas voltadas para Sul, porque quando venho de Norte, de regresso a casa, recebe-me de frente; de regresso a casa, abraça-me. De frente.
Nunca tinha compreendido.

quarta-feira, dezembro 14, 2005

Uma simples (re)posição: para (re)começar simplesmente

Casulo

Receber a manhã metida na cama. Atravessar o teu medo como um anjo de luz. Reconstituir contigo o beijo, o rosto, as mãos.
O peito inteiro; o espírito errante.

(nos arquivos, a 10/04/05)

Pequeno-almoço de Isabela

Chávena de café com leite muito quentinho (grão colhido directamente na plantação Nescafé Classic, a 200 metros da minha torre; vaquinha Mimosa Cálcio mungida no mesmo local); bolachas Maria com fiapinhos de queijo decente, tipo Castelões, mas que não é DOP.
Oito graus.
Uma manhã claríssima de luz. Como o resto dos meus longos dias.
Deus te guarde, Isabela!


Foto - Andre Kertesz, Paris Breakfast, January 3, 1982

(Outro que também me deliciou!)

domingo, abril 10, 2005

Manhã


Sol de domingo.
Perfume a gel de banho com vapor de água e algodão turco. Café com leite. Pão de centeio com doce de pêssego. Annie Lennox. Janelas de par em par.
Banho em série a três sacos de pulgas. Rua.

Casulo


Receber a manhã metida na cama. Atravessar o teu medo como um anjo de luz. Reconstituir contigo o beijo, o rosto, as mãos.
O peito inteiro; o espírito errante.

sexta-feira, abril 01, 2005

Mudança de estação


Esta manhã, tomei banho com Pantene ProV, shampoo+amaciador, para cabelos finos, e lavei o cabelo com Vasenol Cuidado Intensivo, gel de banho.
Espero que não seja grave.

O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...