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quarta-feira, abril 05, 2006

Lipoinspiração


John Galliano, 2005

A observação da realidade quotidiana deixa-me muito apreensiva, muito pessimista em relação ao futuro. As modelos da Fashion TV, canal muito do meu agrado, porque só tem música sempre com a mesma batida, apresentam quase todas uma concavidade na face interna de cada coxa. Pergunto-me se isto não serão já indícios de uma mutação da espécie. Espero que não me afecte, nem à minha descendência nem à vossa.
Para dar às raparigas um ar normal, e não se sentirem rejeitadas pela sociedade, porque, há que dizer a verdade, devem sentir-se inseguras, diferentes, e até podem ser insultadas na rua, "ó trinca-espinhas", "ó canivetes", o que é traumatizante, talvez uma lipoinspiração ajudasse.
Não sei se a Caixa comparticipa, mas a ADSE acho que não. Se tivessem seguro de sáude é que seria mesmo bom. Agora, qualquer pessoa tem de ter um seguro de saúde com um pacote que inclua pelo menos duas plásticas por ano. É indispensável.

John Galliano para Dior, 2006

segunda-feira, março 27, 2006

Modelos da Fashion TV

Se a forma como caminham na passerele é normal, atirando o pé esquerdo completamente para a direita, e vice-versa, e mantendo-se em equilíbrio apenas sustentado pela rapidez a que se deslocam, por que motivo os(as) criadores(as), quando se mostram para agradecer, não pisam da mesma forma?

Se a roupa que passam é usável, porque motivo os(as) criadores(as) não trazem vestida a que desenham?

Se a magreza das jovens desfilantes, combinada com a respectiva altura, é normal, por que motivo os(as) criadores(as) de moda são rigorosamente iguais às outras pessoas que passam na rua?





domingo, março 05, 2006

Eles gostam muito de celulite

Uma campanha publicitária a certa clínica estética enche as ruas de Lisboa com cartazes exibindo a foto de uma jovem, alta, magra, bronzeada, de longos cabelos dourados mexidos pelo vento, biquini preto, saltos agulha, óculos escuros, acompanhada por um dos seguintes slogans: “Perca peso, ganhe saúde” ou “Eles não gostam de celulite”.
Podiam ter pedido uma foto à Margarida da Abraço, que emagreceu imenso, e é uma figura pública. Ou à Inês Pedrosa. Ou a um homem. Talvez tivesse saído mais barato. Talvez resultasse melhor. Talvez fosse mais saudável.
Acontece que tal campanha não foi feita para homens, mas para mulheres, por causa dos homens. Para se imiscuir pelas frechas de insegurança física por onde é muito fácil introduzirem-se os discursos que apelam a um modelo de corpo como garante de sexo, e ao sexo como garante de normalidade social, porque, à partida, ninguém está totalmente satisfeito com o que aparenta.




Tiziano, Vénus recreando-se com música

O discurso publicitário considera-se amoral. Pela minha parte, considero-o, frequentemente, imoral e, acrescidamente, bestial. Esta campanha publicitária, em particular, é um bom exemplo disso. Veicula preconceitos, estereótipos, discrimina e engana. É muito má. É um exemplo do pior que se pode fazer em publicidade.
A imagem do outdoor apela ao que há de mais negativo no culto do corpo; a imposição da imagem de série. A negação do DNA.
“Perca peso, ganhe saúde” parece-me um slogan bastante sensato, desde que nunca acompanhado de um modelo de corpo inacessível ao público-alvo. Aquele corpo de mulher, alta, sem gordura, longilíneo, corresponderá a uma por mil das mulheres portuguesas?
Não se trata de uma imagem que faça o culto da saúde, porque a menina não está a roer uma cenoura nem a praticar ciclismo, nem a descansar à sombra, mas de pé, assente, o mais possível, numa das pernas, para que se confirme, como na outra da bilha do gás, que não há ali uma grama de reserva adiposa. Trata-se de hedonismo explícito e descarado, de culto por um padrão de beleza discutível: aquele, e só aquele. Aquela mulher impossível, ficcionada e desnecessária.
Tenho imensa pena, mas alguém precisa dizer aos responsáveis pela referida clínica, e lá terei de ser eu!, que embora passe a vida a refilar por causa das minhas pernas, do meu rabo e da minha barriga, não quero ser aquela mulher nem que ma ofereçam. É muito feia. Não gosto nada. Tenho muita pena, mas prefiro a minha celulite, gosto do meu rabo e quero a minha barriga.



Rubens, As Três Graças

As mulheres têm celulite; se os homens não gostam, temos muita pena, virem-se para os do mesmo sexo; os que não tenham celulite! Ou encomendem uma moça das da permilagem. Se houver disponível.
Temos muita pena, mas as mulheres, após a puberdade, ganham gordura no rabo, nas ancas, nas pernas. É a vida. É mesmo a vida, no seu sentido mais literal.
Uma rapariga de 20 anos que não pratique natação 18 horas por dia, tem celulite. Não é uma doença. É celulite. Pode fazer-se muito desporto e nunca arranjar pernas como as da menina do cartaz. A Rosa Mota, coitadinha, corria que se fartava, e não devia ter celulite, mas também não me consta que tivesse pernas propriamente sensuais.
Ora, está completamente fora de cogitação, a não ser que se tenha uma grande tara por desporto ou pelo que se consideram ser os atractivos sexuais da sociedade contemporânea, passar o dia na piscina a nadar mariposa, para que eles gostem mais de nós por mor do músculo hiperdesenvolvido.




Rubens, O Rapto das Sabinas

Claro que este discurso imagético afecta homens e mulheres, impondo-lhes um modelo a seguir, criando enorme insatisfação relativamente ao corpo que se possui, e gerando pressões para mudar o quase sempre é imutável e irresolúvel – o que aquilo nos vem dizer é “está-se a aproximar o tempo do biquini, portanto toca a passar fome e a gastar dinheiro no nosso institutozinho em ginástica passiva e drenagem linfática”; o que aquilo nos vem dizer é “se não emagreces, não arranjas companheiro, e estás lixada, porque não tens homem para passear contigo no centro comercial e oferecer-te a caneca com corações no dia dos namorados; e o teu marido vai trair-te com outra qualquer, que também terá celulite, mas isso a gente não quer que saibas (a parte da celulite, porque o medo da outra convém-nos).
Claro que já somos crescidos e espertos, descodificamos facilmente os mecanismos de bastidores que impelem o nosso cérebro ao consumo. Mas isso não desfaz o efeito de uma frase associada a uma imagem que, lida, vista, nos vai perseguir o resto do dia: eles não gostam de celulite, eles não gostam de celulite.



Bronzino, Vénus, Cupido, a Loucura e o Tempo

Se isto afecta adultos, imaginemos o efeito sobre quem procura modelos para a criação de uma identidade psicossocial e sexual: os adolescentes. Muitas meninas de 13 anos vão deixar de comer por causa desta campanha. E isto parece-me grave. Não é essa falsa lição sobre corpo e a beleza que eu quero para as raparigas e rapazes de 13 anos. E, não desejando voltar aos tempos do lápis azul, parece-me que o Estado devia regular este tipo de discursos potencialmente insanos e discriminatórios.

Para além de que é mentira! Eles adoram celulite. Pelam-se por celulite. Gostam todos os dias. Oh, se gostam!
Mas que não gostassem...

sábado, dezembro 10, 2005

Maravilhas da criação!

No princípio da adolescência coleccionei folhas com publicidade a perfumes e artigos de beleza, rasgadas às revistas femininas - por um único motivo: o rosto sublime das mulheres, as fotos magnifícas dos mais belos rostos do mundo.
Coleccionava perfeição, a maravilha da criação. Elas eram irresistíveis; eu não lhes resistia.
Tive vergonha da minha colecção durante muito tempo. Não queria que ninguém pudesse descobrir que admirava, horas a fio, essa questionável colecção de fotos das mais delicadas e hipnóticas mulheres do mundo. Brilhantes. Suaves. Doces. Selvagens. Tentadoras. Sempre maravilhosas.

Ingrid Bergman

Hoje, as mais belas mulheres do mundo, para os outros, não o são para mim. Os seus rostos não irradiam luz, a maior parte dos corpos são excessivamente masculinos, ou tornados andróginos pela magreza. A magreza excessiva torna os corpos iguais e, por isso, um corpo muito magro é inevitavelmente assexuado. Não possui beleza, apenas body art.

Portugal Fashion

Antigamente as mulheres não tinham os meios de que hoje dispomos para ser mais bonitas. Alguns existiam:
muita maquilhagem forte, mas não como hoje, anti-alérgica, adequada a tipos de pele, cremes que resolvem tudo, químicos eficazes, simultaneamente inofensivos.
Lembro-me que Jean Harlow, Marlene Dietrich e Greta Garbo, louríssimas, queimavam os cabelos com líxivia para os manterem dourados, luminosos: destruíram cedo o couro cabeludo. Mas enquanto durou, foram deusas!



Marlene Dietrich

Mas mais belas que hoje? Sabiam, sem dúvida, valorizar bem o que tinham; sabiam deixar-se fotografar. Havia um valor sagrado: ser feminina, ser bonita, mesmo dentro de um fato de homem, com o cabelo cortado. Havia olhos, bocas, gestos, ancas, seios, pernas. Havia um rosto e um corpo de mulher. Que não podia pertencer senão a uma mulher.
Portanto, mais belas, não, mas praticantes de uma "Ordem Feminina de Beleza" que resultou magnificamente. Que resultará sempre.

Marlene Dietrich

O unisexo anulou esse conceito. Mas não existe um corpo unisexo; não é desejável, não tem utilidade. O hedonismo procura rostos e corpos absolutamente iguais, fabricados em série como parafusos. Esses corpos desvalorizam-se, e a moda revela-o, ao negar o corpo que expõe em excesso ou que desfeia. As modelos são excessivamente magras. Não exibem, de fact, um corpo, mas constituem um cabide adequado a uma roupa que não queremos vestir, que é igual para todos os corpos.
Hoje em dia, uma mulher com um normal corpo de viola pode encontrar roupa que lhe sirva, mas se as calças e as saias não forem de tecido elástico, fazem rugas, refegos, foles. Serve na anca, mas sobra na cintura; serve no peito, mas a cintura está demasiado descaída.
Nós não somos direitas. Enfim, se exíbissemos a magreza das modelos talvez fôssemos direitas.

Em suma, o unisexo não serve corpos reais, corpos com barrigas, rabos, pernas redondas e uma cintura de viola.
O unisexo não serve as mulheres porque não valoriza o que têm de mais belo: uma alteridade física que as distingue, particulariza, que conta com as suas especificidades, e não só as respeita como valoriza.
Como valorizar uma barriga e torná-la sensual? Como transformar um anafado par de nádegas numa visão divina, sem que pareça ordinário?

Portugal Fashion

Antigamente, elas não eram mais bonitas, mas cultivavam uma beleza clássica que reconhecemos e, de imediato, veneramos, assim que a vislumbramos. Não falha. Uma mulher pode ser gira, sensual, mas bonita... quando afirmamos que uma mulher é bonita, estamos perante uma verdadeira beleza clássica ou o exercício esforcado por consegui-la.
A beleza é clássica.
E, se repararmos nessas mulhereres incrivelmente viciantes, elas são cumulativamente doces, suaves, aspirando a nada mais que a mais simples beleza. Elas são um pouco Marilyn Monroe.


Laetitia Casta

As mulheres queriam ser bonitas para agradar aos homens?
Sim, mas agora já não!
Não?! Mas é possível que uma mulher heterossexual, normal, ainda não destruída pelas quecas eventuais e sem significado do sábado à noite não queira agradar aos homens?
Umas às outras, sim; a nós, ao vazio das quatro paredes, mas aos homens, caramba!
Tenho muita pena, mas não quero ir pavonear-me linda para um jantar de amigas. A um jantar de amigas chego limpinha e decente.
Quero ir pavonear-me linda para um jantar de amigos e sentir que olham para mim como uma “maravilha da criação”, que apreciam o que vêem e o desejam e sonham comigo. Quero que sobre mim pouse esse olhar “és uma maravilha da criação”, esse olhar que só um homem a sério sabe oferecer, mesmo que não passe disso, e a maravilha nunca se torne de carne, não se dispa, nunca: seja só a Deusa. Meu Deus, os homens que passam por nós e com os olhos nos dizem, "valeu a pena ter chegado aqui para me cruzar contigo!"; "és a coisinha mais linda"; "és uma maravilha, a maravilha da criação".

Greta Garbo


Brigitte Bardot


Anita Ekberg


Para mim, ser feminista é isto: ser independente, malhar nos homens, com eles ao lado, concordantes, enquanto simultaneamente lhes digo "a seguir a mim, és a segunda maravilha da criação”.
E sem eles, sejamos realistas, este mundo não teria a menor hipótese de, ocasionalmente, se tornar deliciosamente perfeito.


O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...