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domingo, março 05, 2006

Eles gostam muito de celulite

Uma campanha publicitária a certa clínica estética enche as ruas de Lisboa com cartazes exibindo a foto de uma jovem, alta, magra, bronzeada, de longos cabelos dourados mexidos pelo vento, biquini preto, saltos agulha, óculos escuros, acompanhada por um dos seguintes slogans: “Perca peso, ganhe saúde” ou “Eles não gostam de celulite”.
Podiam ter pedido uma foto à Margarida da Abraço, que emagreceu imenso, e é uma figura pública. Ou à Inês Pedrosa. Ou a um homem. Talvez tivesse saído mais barato. Talvez resultasse melhor. Talvez fosse mais saudável.
Acontece que tal campanha não foi feita para homens, mas para mulheres, por causa dos homens. Para se imiscuir pelas frechas de insegurança física por onde é muito fácil introduzirem-se os discursos que apelam a um modelo de corpo como garante de sexo, e ao sexo como garante de normalidade social, porque, à partida, ninguém está totalmente satisfeito com o que aparenta.




Tiziano, Vénus recreando-se com música

O discurso publicitário considera-se amoral. Pela minha parte, considero-o, frequentemente, imoral e, acrescidamente, bestial. Esta campanha publicitária, em particular, é um bom exemplo disso. Veicula preconceitos, estereótipos, discrimina e engana. É muito má. É um exemplo do pior que se pode fazer em publicidade.
A imagem do outdoor apela ao que há de mais negativo no culto do corpo; a imposição da imagem de série. A negação do DNA.
“Perca peso, ganhe saúde” parece-me um slogan bastante sensato, desde que nunca acompanhado de um modelo de corpo inacessível ao público-alvo. Aquele corpo de mulher, alta, sem gordura, longilíneo, corresponderá a uma por mil das mulheres portuguesas?
Não se trata de uma imagem que faça o culto da saúde, porque a menina não está a roer uma cenoura nem a praticar ciclismo, nem a descansar à sombra, mas de pé, assente, o mais possível, numa das pernas, para que se confirme, como na outra da bilha do gás, que não há ali uma grama de reserva adiposa. Trata-se de hedonismo explícito e descarado, de culto por um padrão de beleza discutível: aquele, e só aquele. Aquela mulher impossível, ficcionada e desnecessária.
Tenho imensa pena, mas alguém precisa dizer aos responsáveis pela referida clínica, e lá terei de ser eu!, que embora passe a vida a refilar por causa das minhas pernas, do meu rabo e da minha barriga, não quero ser aquela mulher nem que ma ofereçam. É muito feia. Não gosto nada. Tenho muita pena, mas prefiro a minha celulite, gosto do meu rabo e quero a minha barriga.



Rubens, As Três Graças

As mulheres têm celulite; se os homens não gostam, temos muita pena, virem-se para os do mesmo sexo; os que não tenham celulite! Ou encomendem uma moça das da permilagem. Se houver disponível.
Temos muita pena, mas as mulheres, após a puberdade, ganham gordura no rabo, nas ancas, nas pernas. É a vida. É mesmo a vida, no seu sentido mais literal.
Uma rapariga de 20 anos que não pratique natação 18 horas por dia, tem celulite. Não é uma doença. É celulite. Pode fazer-se muito desporto e nunca arranjar pernas como as da menina do cartaz. A Rosa Mota, coitadinha, corria que se fartava, e não devia ter celulite, mas também não me consta que tivesse pernas propriamente sensuais.
Ora, está completamente fora de cogitação, a não ser que se tenha uma grande tara por desporto ou pelo que se consideram ser os atractivos sexuais da sociedade contemporânea, passar o dia na piscina a nadar mariposa, para que eles gostem mais de nós por mor do músculo hiperdesenvolvido.




Rubens, O Rapto das Sabinas

Claro que este discurso imagético afecta homens e mulheres, impondo-lhes um modelo a seguir, criando enorme insatisfação relativamente ao corpo que se possui, e gerando pressões para mudar o quase sempre é imutável e irresolúvel – o que aquilo nos vem dizer é “está-se a aproximar o tempo do biquini, portanto toca a passar fome e a gastar dinheiro no nosso institutozinho em ginástica passiva e drenagem linfática”; o que aquilo nos vem dizer é “se não emagreces, não arranjas companheiro, e estás lixada, porque não tens homem para passear contigo no centro comercial e oferecer-te a caneca com corações no dia dos namorados; e o teu marido vai trair-te com outra qualquer, que também terá celulite, mas isso a gente não quer que saibas (a parte da celulite, porque o medo da outra convém-nos).
Claro que já somos crescidos e espertos, descodificamos facilmente os mecanismos de bastidores que impelem o nosso cérebro ao consumo. Mas isso não desfaz o efeito de uma frase associada a uma imagem que, lida, vista, nos vai perseguir o resto do dia: eles não gostam de celulite, eles não gostam de celulite.



Bronzino, Vénus, Cupido, a Loucura e o Tempo

Se isto afecta adultos, imaginemos o efeito sobre quem procura modelos para a criação de uma identidade psicossocial e sexual: os adolescentes. Muitas meninas de 13 anos vão deixar de comer por causa desta campanha. E isto parece-me grave. Não é essa falsa lição sobre corpo e a beleza que eu quero para as raparigas e rapazes de 13 anos. E, não desejando voltar aos tempos do lápis azul, parece-me que o Estado devia regular este tipo de discursos potencialmente insanos e discriminatórios.

Para além de que é mentira! Eles adoram celulite. Pelam-se por celulite. Gostam todos os dias. Oh, se gostam!
Mas que não gostassem...

terça-feira, janeiro 10, 2006

O futuro, a curto prazo

Hoje fui aos saldos.
Comprei uns collants de rede preta, daqueles que são muita rede e pouco collant e que não sei muito bem para que servem. Tenho uma vaga ideia.
Quatro euros e noventa e cinco cêntimos de rede inútil: baratíssimos!
Para os poder usar, quando for caso disso, vou, amanhã, à minha esteticista, marcar um tratamento à celulite que me vai custar uns bons 400 euros.

terça-feira, setembro 20, 2005

Encher a mão e sentir que sobra

Cara(o) amiga(o),

Acertou: este é blog ideal para se informar sobre cremes adelgaçantes, portanto fez muito bem em procurar no Google, que é um óptimo motor de busca. Agora, por exemplo, acabei de reparar que também lá está uma entrada relativa a “homens peludos”, mas deixemos o assunto para outra ocasião.
Minha/meu amiga(o), prepare-se para o que vai ler a seguir: o creme adelgaçante ideal é caríssimo e sai do bolso a valer: antes de tomar essa decisão, pense primeiro nas suas prioridades de vida. Se prefere cultivar-se com um bom livro, um Ulisses, de Joyce, os volumes todos do ...Tempo Perdido, de Proust, desista já.
Posso falar-lhe da minha experiência pessoal, isto sem qualquer juízo de valor, e a(o) amiga(o) escolherá como bem entender.
Eu, depois de ter meditado no assunto durante anos, e não exagero, anos!, escolhi o creme adelgaçante. Porque isto, vamos lá ver se me explico, para se ler Joyce será necessário fazer doutoramento em morfologias, sintaxes, semânticas e semiologias do próximo milénio. É demasiado dinheiro e tempo de vida para ler apenas um livro que duvido venha a modificar a sua vida. Leia as crónicas da Inês Pedrosa, ao sábado, no Expresso. Essas, sim, podem modificar a sua vida: nunca se sabe.
Quanto ao Proust, digo-lhe, eu fiz de tudo, até aderi ao Tao! É verdade: inspirava, expirava, yin, yang, posição do lótus, da orquídea, do cravo-de-burro, tudo, tudo, e, pronto, confesso, ajudou-me a chegar ao fim do primeiro volume. Depois, saltei logo para um mais adiantado, o Sodoma e Gomorra, entusiasmada, claro, esfregando as mãos e pensando que ia animar...
Portanto, se a escolha é entre Joyce, Proust e o creme adelgaçante, pense mas é no que horas, sentada(o) a ler, passivamente, farão à sua linha, ponha a carteira e os escrúpulos ao alto e venha de lá o creme adelgaçante.
O mercado estala de produtos de qualidade, o que poderá verificar na sua farmácia. Convém deslocar-se a uma farmácia da sua confiança, onde possa conversar com a(o) farmacêutica(o), perguntando que resposta tem dos consumidores, qual dos produtos vende melhor a segunda e terceira embalagens. Isso é importante, porque estará a gastar uma bela dinheirama.
A minha escolha pessoal, este ano, foi para o Concentré Lipo-Reducteur da Elancyl. O dito gel, bem esfregado, até se sente entranhar pelos meandros da celulite, e abocanhá-la vorazmente, como os glutões do Presto faziam às nódoas de porcaria que os machos, que a gente já não quer nem cobertos de libras esterlinas, deixavam em cada peça de roupa usada. Espero que se lembre dos glutões do Presto.

Mas deixei o essencial para o fim: tem a certeza que quer adelgaçar? Precisa mesmo disso? Vai fazer-lhe bem a qualquer coisa? É que, repare, e agora também lhe falo do meu caso: por muito que adelgace com cremes, nunca adelgaça o suficiente, e eu digo-lhe, amiga(o), se é para caber numas calças giras, certo, mas se é por um homem, abdique.
Eles falam muito na Sofia Aparício, na Fernanda Serrano, na Giselle Bundchen e nas restantes que lhes vendem nas revistas, e na televisão, e, lá uns com uns outros, nunca por nunca, admitem gostar do pneuzito nem do grosso da perna, mas, vá por mim, o que eles querem é encher a mão e sentir que sobra, que há mais no armazém; reconforta-os encostar-se a qualquer coisa que dê de si, como os colchões de espuma; descontrola-se-lhes o ritmo cardíaco, e outros, com o volume da nádega e da coxa e do pernão, tudo em junto, e apreciam a alternância depressão/elevação, venha donde vier. A gente, às vezes, a tentar disfarçar ali uma miséria qualquer e eles, qual miséria, qual carapuça, marcha o pacote todo e choram por mais!
Isto é palavra de Isabela, e olhe que, tirando jogos de futebol, já vi de quase tudo.


O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...