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domingo, março 23, 2008

Estás à espera de quê para te ires embora?



- Como foram esses tempos?
- Nessa época, aos domingos, refugiava-me na eira para estar sozinha com os gatos e as galinhas. No Inverno, estendia-me no chão, à chapa do sol. Era bom. Não ouvia ninguém.
- Então, mas o que tira de bom desses tempos?
- De bom, desses tempos... - Nada, era o que me vinha à cabeça. Nada. Não seria o que esperavam ouvir, mas como sempre acreditei na bondade das respostas imediatas, decidi continuar, que se lixasse, e o que havia nisto de afronta, raiva e verdade! - Não precisar de ninguém. Ter-me tornado ab-so-lu-ta-mente autónoma. Fazer sozinha, com as minhas valências, o que a outros custa multidões.
- Tornou-se demasiado independente?!
- Enfim, dependo de saber que os outros existem, mas não dependo deles. Detesto a distância que me separa dos outros, contudo, tudo me parece no seu lugar à distância. Aprendi a estar longe, e isso tornou-se a minha casa. Há coisas que não sei fazer acompanhada... não sei, pronto, o que quer que lhe diga? Ir ao cinema, por exemplo... é estranho ir acompanhada... ao supermercado... a um museu, uma exposição... andar sozinha na rua... Não sei. Sei mal. E estou sempre à espera de perder. À espera que alguém se vá embora. Que desistam de mim. Que me digam que não têm tempo. Que não podem. Essa é a resposta natural. E quando acontece, mais tarde ou mais cedo, até respiro fundo. Finalmente foi-me dito o que esperava e nunca mais vinha. Finalmente, a ordem, e tudo pode retomar o seu curso normal.
Ela não me respondeu. Esperava que continuasse. Sorriu-me, séria, contudo, e senti que me ouvia, que talvez pudesse compreender-me.
- Mas não pode esquecer essas pessoas, pois não?!
- Não, não consigo... tenho-as sempre entaladas aqui - e fiz o gesto, a mão na garganta, como se a cortasse à navalha, mas não era isso, e sorri com o meu sorriso mais bonito - às vezes, sabe?!, penso que não esquecer os outros é a minha vingança contra a pouca importância que me deram. Contra terem-me largado com a minha total complacência. Melhor, respondendo ao meu persistente estímulo. Contra nunca terem insistido, nunca terem dito, oh minha grande filha-da-puta, eu não vou nada fazer aquilo que esperas, vais ter que lidar comigo, vais ter que gerir a tua vida comigo, vais engolir esse orgulho...
- Mas é contra si...
- É sempre contra mim.

sexta-feira, setembro 14, 2007

Almas sensíveis


Não pretendo parecer ninguém especial nem ter um estilo determinado. A minha única preocupação consiste em fazer os possíveis por não me parecer com uma senhora. Detesto a ideia de ser uma lady. Como qualquer mulher solteira, pretendo continuar a gozar do estatuto de menina. Sou uma rapariga, penso para mim. Sou apenas uma rapariga.
Apesar de tudo, andava convencida de que as pessoas conseguiriam aperceber-se da minha fina sensibilidade mau grado o aspecto descontraído, excessivamente normal e juvenil com que piso as pedras da rua. Não sei onde fui buscar a ideia de que as almas sensíveis se reconhecem por um brilho no olhar, um perceptível halo dourado, mesmo que vestidas de serapilheira, despenteadas e cheias de ramelas nos olhos, mas afinal era só uma impressão minha. Mais uma vez, erro, erro.

Estive sem arranjar as unhas durante todo o tempo de férias, o que não é costume. Portanto, a semana passada aventurei-me num novo salão, com as unhas bastante descuidadas, e encetei conversa aparentemente inocente com a manicura, versando o tema "cutículas", para lhe dar a entender que as quero impiedosamente arrancadas.
Disse-lhe eu, tentando dar-me certos ares entendidos:
- Sabe, as minha unhas fazem muita pele!
- Se calhar a senhora mexe muito em água.
- Pois é, mexo, mexo. - respondi, pensando que não tenho máquina de lavar louça, que lavo muita roupa à mão, sobretudo no Verão, e que, de forma geral, gosto de chafurdar em água para lavar a banheira, o lavatório, o bidé, enfim, gosto, é verdade; sim, dou tudo para me encharcar até ao pescoço.
Rematou a senhora:
- Quem mexe muito em água tem este problema. Trabalha na cozinha de algum restaurante, não é?
Consegui responder que não e ficar a rir-me para dentro o resto da tarde.
Não tenho nada contra as almas sensíveis que trabalham nas cozinhas dos restaurantes, mas julgo que há em mim qualquer coisa de inocente. De muito inocente.

O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...