Lá na minha fábrica, à hora do almoço, as minhas colegas falam dos filhos, e eu, claro, assisto calada, porque o assunto não me inclui.
Ontem, diziam elas, os filhos tinham perdido um téni na escola, como é que se perde um téni?! E a outra respondia, e o meu, todas as semanas tenho de lhe comprar canetas e lapises que eles os perde todos, ou roubam-lhos.
E não me contive, tive de falar, e depois dizem que tenho mau feitio e não sei quê. Mas até pedi licença para lhes explicar que as palavras que no singular terminam em -is, são uniformes em género e número, ou seja, não têm feminino nem plural. Que se diz um ténis, dois ténis, um lápis, dois lápis, um oásis, dois oásis, e por aí fora. Ficaram um bocado caladas a olhar para mim, assim como que magoadas, e eu compreendo, é chato. Depois perguntaram-me onde é que eu, uma empregada de fábrica igual a elas, tinha aprendido estas coisas. E respondi-lhes, é fácil, com o meu pai, que era electricista, e com a minha mãe, que toda a vida trabalhou muito, e em tudo, como uma escrava, embora lhe chamassem doméstica.