O que acontece, afinal, aos implantes mamários acidentados?! Ou o saco se desloca dentro da mama, quer seja um implante intra ou extramuscular, e se posiciona anormalmente, causando um inchaço e deformando a mama severamente, ou pior, o saco rompe, o que é muito frequente, e o conteúdo espalha-se pelo corpo, o que apresenta alguns riscos para a saúde.
Se o conteúdo for uma solução salina, espalha-se rapidamente, e a mama diminui de tamanho, como um balão que se esvazia. Se for de silicone, os estragos são menores, porque o silicone é uma substância com outra densidade, e não se escapa tão facilmente. Em qualquer dos casos, a mama terá que ser alvo de operação de carácter urgente, para substituição dos implantes acidentados.
A parte pior, a qual me incomoda especialmente, é a que se segue. Tirados os implantes, mediante incisão peri-aureolar, e à mão, claro - o cirurgião mete os dedos dentro do buraco aberto no mamilo, rebusca o implante velho, e extrai-o - o que resta de mama é um saco velho e amarrotado que cai sobre o peito da paciente. Uma pele. Como se nada existisse lá dentro para além do silicone. Nem gordura, nem glândulas mamárias. O Dr. Rey (ver poste de sexta-feira passada) puxa essa pele como se fosse tripa para fazer chouriço, abre-lhe a "boca" mamilar, despeja soro fisiológico, porque é preciso lavar o "saco", e prepara-se para inserir o novo implante. Nesta fase, ou insere um implante ligeiramente menor, ou do mesmo tamanho, mas nesse caso é preciso retirar pele, porque esta esticou bastante com o que já lá esteve, e a operação torna-se mais complicada, com mais cicatrizes; outra opção, a mais escolhida, consiste em inserir um implante maior, em consonância com a pele esticada que é preciso encher.
Em alguns casos o implante é introduzido já cheio, o que é mais difícil, porque o médico tem de o empurrar com os dedos muito para dentro da mama; e o implante lá entra, lá se encaixa, e lá fica apertadinho como o Rossio na rua da Betesga. Noutros, o implante é inserido ainda vazio, e enchem-no mediante um tubo que entra por cada mamilo. Quando os implantes estão cheios, saca-se o tubo e cose-se o resto do mamilo. Vê-se a mama ir enchendo, crescendo de tamanho, como as das bonecas insufláveis.
E é assim que as mamas das americanas vão aumentando de ano para ano, enquanto a pele for esticando.
Aprendi tudo isto só a ver o referido programa (conferir poste de sexta passada). Claro que no meio de todos estes procedimentos, a pergunta que mais me faço é "onde está a mama verdadeira, a que existia antes do implante?", porque tudo o que vejo é uma pele ser cortada, esvaziada, lavada por dentro e de novo esticada. E isto, desculpem lá, já não é uma mama, mas uma mera prótese cujos fins decorativos, de tão artificiais, me escapam. Onde estão as glândulas mamárias daquelas raparigas e mulheres?
Devo dizer que a maior parte destas cenas de bloco operatório são horríveis de se ver, e que de vez em quando tapo os olhos com os braços e pergunto à Morena, já passou?, já passou? Sujeito-me a visionar estes filmes de terror, apenas para informação dos leitores do blogue; atenção, meus amigos, que tanto altruísmo, sinceramente, merecia uma distinção qualquer...
O leitor menos habituado ao meu estilo poderá pensar que sou inimiga da operação plástica, mas não é verdade. A cirurgia plástica e reconstrutiva presta-nos bons serviços, mas este uso que dela se faz, associa o hedonismo ao consumismo da pior forma. Vai longe demais no que considero ser a ética dos actos de natureza médica, promovendo a fobia à natureza do corpo humano e cedendo a uma visão estereotipada da beleza e da perfeição. Não resolve os problemas destas mulheres, os quais não se situam no seu corpo, mas na forma como julgam que os outros as vêem, e como, por consequência, se encaram. Continuam a odiar-se após a primeira operação, e a segunda e a terceira. Os seus corpos estão sempre errados. E destroem-se, literalmente, sem a dignidade do envelhecimento.
Quando olho para o rosto da Manuela Moura Guedes lembro-me de como ela era interessante quando tinha rugas e expressão. Agora não tem rosto, mas uma estranha massa inchada no lugar da face. Que aberrações fazemos ao nosso corpo?!
Eu sei o que é odiar o corpo, porque odiei o meu durante muito tempo, e ainda, cof, cof, mas como dizia a minha psicóloga, de quem me divorciei, é possível que haja quem a ache gorda, mas não serão todas as pessoas a achá-la feia, pois não? E o mais importante é o que você acha de si. Acha-se feia, Isabela? E eu respondi.
(Talvez ainda continue. Não sei. Ça dépend.)
