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segunda-feira, julho 07, 2008

Mamonas assassinas, 2ª parte





O que acontece, afinal, aos implantes mamários acidentados?! Ou o saco se desloca dentro da mama, quer seja um implante intra ou extramuscular, e se posiciona anormalmente, causando um inchaço e deformando a mama severamente, ou pior, o saco rompe, o que é muito frequente, e o conteúdo espalha-se pelo corpo, o que apresenta alguns riscos para a saúde.

Se o conteúdo for uma solução salina, espalha-se rapidamente, e a mama diminui de tamanho, como um balão que se esvazia. Se for de silicone, os estragos são menores, porque o silicone é uma substância com outra densidade, e não se escapa tão facilmente. Em qualquer dos casos, a mama terá que ser alvo de operação de carácter urgente, para substituição dos implantes acidentados.

A parte pior, a qual me incomoda especialmente, é a que se segue. Tirados os implantes, mediante incisão peri-aureolar, e à mão, claro - o cirurgião mete os dedos dentro do buraco aberto no mamilo, rebusca o implante velho, e extrai-o - o que resta de mama é um saco velho e amarrotado que cai sobre o peito da paciente. Uma pele. Como se nada existisse lá dentro para além do silicone. Nem gordura, nem glândulas mamárias. O Dr. Rey (ver poste de sexta-feira passada) puxa essa pele como se fosse tripa para fazer chouriço, abre-lhe a "boca" mamilar, despeja soro fisiológico, porque é preciso lavar o "saco", e prepara-se para inserir o novo implante. Nesta fase, ou insere um implante ligeiramente menor, ou do mesmo tamanho, mas nesse caso é preciso retirar pele, porque esta esticou bastante com o que já lá esteve, e a operação torna-se mais complicada, com mais cicatrizes; outra opção, a mais escolhida, consiste em inserir um implante maior, em consonância com a pele esticada que é preciso encher.

Em alguns casos o implante é introduzido já cheio, o que é mais difícil, porque o médico tem de o empurrar com os dedos muito para dentro da mama; e o implante lá entra, lá se encaixa, e lá fica apertadinho como o Rossio na rua da Betesga. Noutros, o implante é inserido ainda vazio, e enchem-no mediante um tubo que entra por cada mamilo. Quando os implantes estão cheios, saca-se o tubo e cose-se o resto do mamilo. Vê-se a mama ir enchendo, crescendo de tamanho, como as das bonecas insufláveis.

E é assim que as mamas das americanas vão aumentando de ano para ano, enquanto a pele for esticando.

Aprendi tudo isto só a ver o referido programa (conferir poste de sexta passada). Claro que no meio de todos estes procedimentos, a pergunta que mais me faço é "onde está a mama verdadeira, a que existia antes do implante?", porque tudo o que vejo é uma pele ser cortada, esvaziada, lavada por dentro e de novo esticada. E isto, desculpem lá, já não é uma mama, mas uma mera prótese cujos fins decorativos, de tão artificiais, me escapam. Onde estão as glândulas mamárias daquelas raparigas e mulheres?

Devo dizer que a maior parte destas cenas de bloco operatório são horríveis de se ver, e que de vez em quando tapo os olhos com os braços e pergunto à Morena, já passou?, já passou? Sujeito-me a visionar estes filmes de terror, apenas para informação dos leitores do blogue; atenção, meus amigos, que tanto altruísmo, sinceramente, merecia uma distinção qualquer...

O leitor menos habituado ao meu estilo poderá pensar que sou inimiga da operação plástica, mas não é verdade. A cirurgia plástica e reconstrutiva presta-nos bons serviços, mas este uso que dela se faz, associa o hedonismo ao consumismo da pior forma. Vai longe demais no que considero ser a ética dos actos de natureza médica, promovendo a fobia à natureza do corpo humano e cedendo a uma visão estereotipada da beleza e da perfeição. Não resolve os problemas destas mulheres, os quais não se situam no seu corpo, mas na forma como julgam que os outros as vêem, e como, por consequência, se encaram. Continuam a odiar-se após a primeira operação, e a segunda e a terceira. Os seus corpos estão sempre errados. E destroem-se, literalmente, sem a dignidade do envelhecimento.

Quando olho para o rosto da Manuela Moura Guedes lembro-me de como ela era interessante quando tinha rugas e expressão. Agora não tem rosto, mas uma estranha massa inchada no lugar da face. Que aberrações fazemos ao nosso corpo?!

Eu sei o que é odiar o corpo, porque odiei o meu durante muito tempo, e ainda, cof, cof, mas como dizia a minha psicóloga, de quem me divorciei, é possível que haja quem a ache gorda, mas não serão todas as pessoas a achá-la feia, pois não? E o mais importante é o que você acha de si. Acha-se feia, Isabela? E eu respondi.


(Talvez ainda continue. Não sei. Ça dépend.)

sexta-feira, julho 04, 2008

Mamonas assassinas

Dr. Rey, cirurgião-estrela de Dr. 90210

Desde que mudei para o Meo passei a apanhar um canal televisivo intitulado E!. No essencial, e no acessório, E! consiste numa espécie de revista do coração passada para a televisão. Quem é famoso, quem é o mais famoso entre o famosos, quem é sexy, quem é o mais sexy entre os sexies, episódios de novela da vida real com pessoas que julgo serem vip nos EUA, e o meu programa de humor preferido: Dr.90210. O programa não é de humor, mas para mim é como se fosse: que pratinho.
Trata de operações plásticas inimagináveis, a meu ver, respondendo à procura dos californianos por este produto: a transformação do corpo com que nasceram. Raparigas de 16 anos, e mulheres de 60, descobrem em si defeitos que eu não descortino, como o queixo ligeiramente recolhido ou as sobrancelhas descaídas. As clientes do Dr. Rey são mulheres absolutamente normais, com características faciais e físicas que as definem, que as tornam diferentes dos outros, e não menos bonitas, talvez até mais. Saudáveis mamas portuguesas, normais em tamanho e forma, e bem mantidas, causam traumas na Califórnia. Nunca um implante de silicone com menos de 500, 600 cc. Por outras palavras, umas mamonas. Aliás, qualquer corpo português normal teria de ser reformulado de cima até abaixo na clínica privada do Dr. Roberto Rey, brasileiro de nascimento, emigrado para os States para se tornar um cirurgião plástico famoso. Conseguiu. Bonitão. Vestido como um gigolo dos caros. Bisturi fácil e ligeiro.

As californianas realizam operações que nunca passariam pelo meu horizonte de possibilidades se não visse este programa. Vamos aos exemplos: uma das pacientes anunciou que ia realizar uma labioplastia, e tendo eu reparado que possuía os lábios finos, pensei que fosse engrossá-los. Engano meu, a paciente, ia operar os lábios vulvares, porque após o parto tinham ficado muito largos "e metiam-se para dentro durante o sexo".
Uma outra encontrava-se já de quatro no bloco operatório, e com as pernas abertas, realizando algo a que chamou um branqueamento anal, e que me pareceu pertencer à família dos peelings faciais da Lili Caneças. Aquilo deve queimar um bocado. Não sei. Segundo a paciente, o ânus ia ficar com muito melhor aspecto após o branqueamento. E eu acredito, mas também com o uso que dou ao meu, não preciso de melhorar. A mesma doente revelou que tinha implantes nas bochechas, mas que um deles começara a sair-lhe pelo olho, magoando, portanto foi preciso substituí-lo; mandou então prender ao osso, com um parafuso de titânio que não apita nos aeroportos, o implante substituto. Eu vi a operação. Faz-se rasgando a cara por dentro, acima do maxilar superior. A maior parte das intervenções ao queixo, bochechas e nariz fazem-se por dentro. Tenho ganho um grande endurance cirúrgico a ver o Dr. Rey. Cortar parece-me fácil. A coser também não havia de me sair mal, agora para estancar o sangue é que me dava jeito um curso técnico-profissional. A mesma cliente, eu deveria dizer, o mesmo filão de ouro, queixou-se muito de celulite na parte de trás de uma coxa. Eu vi: eram três piquinhos causados pelo próprio encaixe muscular e que quase toda a gente tem. Eu acho um encanto, mas os piquinhos envergonhavam-na tanto que não permitia ao marido vê-la de costas em biquini. O médico, com um sorriso, sempre o mesmo sorriso, pegou numa seringa, tirou-lhe gordura de onde ela não a tinha, porque é difícil encontrar-lha em que lugar seja do corpo, e injectou-lha nos buraquinhos que pareciam sorrisos. O homem passa a vida a transferir gordura daqui para ali; uma massa amarela misturada com sangue. Tira gordura das pernas, da barriga, e injecta-a na cara, aqui e ali, em múltiplas pequenas picadas que têm como efeito preenchê-la, encher rugas, o diabo a sete. E diz, apreciador, "aqui está um bela gordura". Convém ver o programa com a digestão já feita.
Outra cliente na casa dos 40, 50, é difícil dizer, já transformada numa múmia egípcia, e juro que não exagero; apenas menos seca, e menos castanha, até porque pinta o cabelo de louro e usa baton cor-de-rosa, repete, o meu corpo está melhor que aos 18 anos, o meu corpo está melhor que aos 18 anos. Honestamente, o corpo dela já não tem idade, mas também não respeita a ideia que tenho de um corpo: transformou-se numa estrutura suportada por implantes de fibra de vidro, metal e silicone. É um ciborgue. Tem os olhos muito arregalados, porque a pele da testa foi repuxada por uns fios interiores cosidos no alto do crânio, tapados pelos cabelos. É uma visão aterradora. Quem inicia este processo de operações é obrigado a viver nele até ao fim dos seus dias. Deixem-me explicar-vos o que acontece a uma mama com um implante de 600 cc. quando começa a descair, ou o implante rebenta numa queda de bicicleta?

(Continua amanhã, ou isso.)

O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...