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sexta-feira, agosto 08, 2008

Filhos de um gajo qualquer


Estava eu a contar-lhe que lera no
El Pais que uma ministra do PP espanhol, com 40 anos, conservadora, mantendo, portanto, posições públicas contra o casamento de homossexuais, contra a dissolução da família tradicional, embora divorciada, se tinha feito inseminar artificialmente com esperma de um gajo qualquer, numa clínica em Barcelona, ou em Madrid, não me lembrava, e que agora era mãe de uma linda criança, só dela.
Respondeu-me que, em 90 por cento dos casos, os nossos filhos são também filhos de um gajo qualquer. E que quando não são, há sempre a hipótese de o amado pai dos nossos filhos se tornar, em poucos anos, num verdadeiro gajo qualquer.
A minha prima afastada é uma mulher muito prática, nada romântica. Já lhe disse que é por isso que os homens têm medo dela. Por este andar, coitada, ainda fica solteirona.

segunda-feira, abril 21, 2008

Máximas e sentenças da minha prima afastada I

Sobre a extrema importância da poesia para a salvação do mundo:

Coitadinha da Morena, anda aqui no mundo de um lado para o outro, e nem sabe que tu lhe escreves poemas tão bonitos.

Máximas e sentenças da minha prima afastada II

Sobre a auto-suficiência do meu celibato e certas queixas de solidão:

Tu não precisas de homem nenhum, já tens a tua mãe e as cadelas, e chegam-te bem.


sexta-feira, abril 11, 2008

As quatro avós do meu amor


A minha prima afastada telefonou-me de Roma para dizer que tinha sonhado comigo.
Tinha vindo a minha casa, e encontrara-me ocupada a tomar conta de quatro velhotas.
Perguntou-me, "Não achas que são demasiadas velhotas para tomar conta?", e eu respondi-lhe que não, que sabia perfeitamente que se fizesse aquilo, o Meu Amor Perdido voltaria para mim.
Ri-me ao telefone. Quatro velhotas. Como se já não me bastasse a minha própria, que ainda ontem lá me chamou porque o quadro disparou, estava sem luz em casa, e não sabia carregar num botão, e além disso tinha as unhas das mãos demasiado grandes e precisava que eu lhas cortasse, e talvez pusesse um nadinha de brilho.
Ri-me. As quatro avós do Meu Amor Perdido! Isso devia dar as duas avós dele, e mais as duas da mulher. Grande sentido de abnegação. Acredito que se deva fazer algum sacrifício para atingir o nirvana do amor, mas quatro avós?! E no final, cuidadas as avós, o que me diria o Meu Amor Perdido? Algo parecido com isto: "olha, querida, obrigada por teres tomado conta das minhas avós, e também das da minha legítima esposa, mas agora, desculpa lá, bem sei que é injusto, mas tem que ser, temos de nos conformar, assumir os nossos erros, no caso, os meus; agora que já estou tão habituado à minha mulher, e ela a mim, e a vida dela já ficou estragada por acção do meu medo, cobardia e desejo de normalização, e por arrasto também a minha, fico com ela, está bem?! Para ser justo, fico com ela. Olha, não te chateies, já sabes que te amarei sempre, sempre, e deixo-te com o consolo do nosso amor eterno. E hei-de sempre pensar em ti. Juro. Agora vai lá dormir com as tuas doces cadelinhas, que eu também vou ali deitar-me com a minha esposa, que me aguarda com braços macios, e que acabou de me passar o pijama a ferro, e ainda está quentinho."

segunda-feira, agosto 13, 2007

Contidos e discretos como uma pedra gasta na calçada


Paulo Macedo, ex-director da Direcção-Geral das Contribuições e Impostos, deu uma entrevista ao Expresso desta semana, na qual "aceitou falar um pouco de si, mas sempre de forma contida e discreta."
É o que se pode ler na página 48 do referido semanário.
Parei e reli as últimas palavras da introdução: "sempre de forma contida e discreta".
É isto que os portugueses mais desejam ser: contidos e discretos. Quem é contido e discreto sabe estar. Sabe imenso estar. É o tipo de sabedoria que emburrece, limita, e me irrita até às profundezas da minha ténue paciência, perdoe-se-me o paradoxo.
Contidos e discretos: mas que desperdício de tempo à vida, e que tédio!
A minha prima afastada, boa portuguesa, e excelente rapariga, passa a vida a repreender-me sobre um enorme defeito que não tenho sido capaz corrigir; tentando reproduzir mais ou menos as suas palavras, afirma ela que sou como um animal: quando tenho fome, como; se tenho sede, bebo; se me apetece falar, falo; se é para gritar, grito; se quero ir à casa-de-banho, arranjo maneira; se tenho sono, deito-me; quando acordo, levanto-me; se me dói, queixo-me; se tenho gozo, manifesto-me; quando me apetece cantar e dançar, canto e danço; se tenho dúvidas, pergunto; se tenho vontade de suspirar, suspiro; se me apetece bocejar, bocejo; se estou farta, nota-se, e se não estou, também; quando quero dizer sim, assinto; se é para negar, nego; se estou interessada em ver e ouvir, vejo e ouço ilimitadamente, e sem cerimónias; se sinto frio, tapo-me; quando me sobem os calores, destapo-me... e a lista, senhoras e senhores, é interminável.
A moça tem razão: sou um habilitadíssimo animal. Tenho reacções. Mexo-me. O meu rosto regista expressões visíveis a olho nu. Ocupo espaço, realmente. Não se pode sair comigo à rua. Não se me pode levar a casa de ninguém. Sítios chiques é melhor esquecer. Sou um bicho. O sonho de qualquer Dadinho Pitta seria transformar-me numa
fair lady, enquanto eu lhe gritaria, "deslarga-me: quero bazar da loja gurmé" e "fizestes pouco de mim, à séria, quando descobristes tipo quanto é que eu ganhava na fábrica".
Claro que tal constatação sobre os meus comportamentos associais me deixa desolada. Após as críticas da minha prima afastada, e enquanto enquanto penso nas inegáveis contra-indicações deste assinalável defeito, costumo perguntar-lhe se parece mal respirar caso sinta que me falta o ar nos pulmões. Os animais respiram, periodicamente, e receio que o bafo da respiração possa não ser suficientemente contido e discreto. Claro que posso sempre respirar às escondidas, tal e qual como quando me atiro aos pastéis de nata, mas o que não quero é que se perceba que estou viva, de forma alguma.




terça-feira, maio 22, 2007

Da importância do futebol para resolver os problemas nacionais (acto único)

Verdadeiro saco de plástico reutilizável e reciclável do Lidl
(Vale pena fazer zoom deste exemplo de arte pop-urbana - clicando sobre a imagem.)


Prima afastada
- O Porto ganhou!

Isabela - Ah!... (pausa enquanto consulta uma palavra no dicionário) Shear... shear... ca raio....
Mas qual foi o monumento? Estás a falar das Maravilhas do Mundo ou do Património Mundial da UNESCO?

PA - O FCP, carago, o FCP do Pintinho.

I - Ah!!!! O FCP! Ah, carago, dizes bem, isso é uma notícia importante! (pausa enquanto lê demoradamente a entrada relativa a shear no dicionário da Porto Editora) Mas isso de ter ganho... E qual era o outro clube? O Cebolais de Cima?

PA - (rindo) Não tens a televisão à frente, não vês o chinfrim, o FCP ganhou o campeonato!

I - O campeonato... já acabou o campeonato?

PA - Oh!

I - Oh pá, não tou a olhar para a televisão, pá. Pensei que aquilo fosse alguma comemoração da UNICEF no estrangeiro.

PA - (silêncio).

I - Então, mas os gajos não estão já habituados? Quantas vezes é que eles não ganharam? (pausa)
E to pierce, sabes o que é? (rindo) Será Pierce Brosnan?


PA - (virando a cara para não se rir) Não me chateies. Vai ver ao dicionário. Aposto que os meus amigos já foram sair, e eu aqui metida contigo nesta parvaceira.

I - (esticando a orelha direita na direcção da janela) Realmente ouço barulheira lá fora, parece no café. É bom, é bom. Gosto sempre quando o FCP ganha: há menos mulheres a levar porrada a Norte. Já a Sul...

PA - Nunca és capaz de descontrair, de achar piada às coisas que entusiasmam os outros.

I - Quem disse? Vou para a rua toda entusiasmada assim que for criado um movimento insurreccional português, e só não hei-de levar bandeirinhas porque vou precisar das mãos para carregar sacos de plástico do Lidl, abarrotando de coquetailes molotofes, a subir a calçada da Estrela até .... o quê?... não é descontrair? Não é desporto? Mas o FCP não é desporto, é um coio de mafiosos! E os de cá de baixo, igual. Ao menos não te entusiasmava lutar contra os filhos-dum-cabrão que nos roubam todos os dias e se riem na nossa cara?! Havia de ser libertador, hein?! E útil! Se calhar... útil! (pausa)
E claws, sabes o que quer dizer claws?

sexta-feira, maio 11, 2007

Poder da Direita

Estava eu a dizer à minha prima afastada que até não me importaria de dormir com um homem de Direita desde que ele a endireitasse.

Série Venenos Letais

quinta-feira, novembro 17, 2005

Isabela ao telefone

Não, Joana Rita, não é verdade que ande sem vontade de escrever um texto como deve de ser, e... não!, não, não... muito menos, que seja caprichosa e sem um pingo de vergonha. Quando é que me viste ser caprichosa? Isso foi na brincadeira, para imitar o filho do... Eu nunca fui caprichosa, Virgem... nesse dia?! Não sou discreta? Como não sou discreta?! Olha lá... Bem, um bocadinho, está bem, mas são impulsos controlados! Antigamente, Joana Rita, antigamente podias chamar-me.... não, impulsiva agora... Mas isso não é...! Ó mulher, isso és tu, que és muito bicho-do-mato, que és filha única, que não tens este savoir viv... Modéstia?! Ó Joana Rita, tu desculpa, mas não se aplica, não se trata de imodéstia, não tenho culpa de ser... exacto! Pois sou! Linda e não só! Ah, pois! O melhor de dois mundos, agora é que acertaste... pois... sou eu!

quarta-feira, novembro 16, 2005

A minha prima afastada...

...está aqui ao telefone, em "tempo real", enquanto escrevo, a perguntar-me, «Até que idade pensas divertir-te?»

quarta-feira, novembro 02, 2005

«Livre livre livre» - I Os do "...come as you are..."

Publicado n'O Eleito

A minha prima afastada chama-se Joana Rita e é doutoranda em Filosofia Pura.
Hoje, antes do jantar, sugeriu-me, “amanhã podíamos ir ver os Últimos Dias, de Gus Van Sant”.
“Gosto do realizador” respondi-lhe ,”mas ontem, num blog, disseram-me que o argumento é praticamente inexistente – é um filme de imagem, muito depress!
A Joana Rita arriscava: sim, devia ser deprimente, mas não podia desperdiçar uma obra que reflectia a sua geração; e definiu-a, sumariamente: a da apatia, a do nada a fazer, a do “come as you are, as you were, as I want you to be...”, a dos rabos rindo-se ignorantemente para o Poder, como argumento icónico.
Abríamos a porta do elevador, e eu sorri. Sorrio sempre quando a Joana Rita me descreve a sua geração: “não achas que come as I want you to be, reflecte já um excessivo empenho, uma fuga à apatia, uma passada estendida para lá do portal dos Marilyn Manson?! Não achas, Joana Rita?”
Sorrio sempre, porque a Joana Rita, doutoranda em Filosofia Pura, vai acusar-me de ter parado na Tina Turner, no Peter Gabriel e no Bono do Where the Streets Have no Name, e de não perceber nada de música, porque o movimento de Seattle, e tal, não se pode confundir com os Joy Division nem com os do meat is murder, muito menos com os Marilyn Manson...
Sorrimos.
E enquanto abria a porta de casa, estabeleci a comparação: “da apatia, santo Deus... a minha geração era a da revolta!”
A Joana Rita não respondeu.
É verdade, eu nada percebo de movimentos musicais! O movimento de Seattle... deixa-me rir, eu sempre lhes chamei “os que parece que gritam por socorro”, e nunca os distingui..., mas sabe lá ela o que foi a minha geração. Sabe, enfim!, “vocês, tu e os teus amigos, aqueles que me apresentaste, os amigos de Alex, lá nos anos oitenta... os das farras e dos charros...
Acendi as luzes, pousei as chaves, tirei o casaco, mudei de sapatos, atei o avental à cintura, abri o frigorifico..., “ó Joana Rita, dos amigos de Alex fui eu a única que restou...!
Rimos alto, enquanto aqueço a sopa no microondas. E mandamos piadas. Conto-lhe umas histórias “dos amigos de Alex”.
"Eu, no meio deles, era uma menina bem: nunca fumei um charro. Não sabia travar!
Rimos.


Personagem de Kurt Cobain em Últimos Dias, de Gus Van Sant (nos cinemas).

quarta-feira, setembro 14, 2005

Mensagem numa garrafa, 3

Querida Joana Rita,
os pratos, pires, copos, talheres, tijelas, canecas, chávenas, tuperwares, tachos, panelas e outras miudezas domésticas os quais, desde Sábado passado, se encontravam devidamente arrumados em camadas, todas elas devidamente encaixadas como legos, a fim de optimizar o aproveitamento do lado esquerdo do lava-louças, já foram todos agraciados com a ordem natural das coisas.

sábado, agosto 13, 2005

Fosga-se!

O nosso café fechou para férias; parece que os donos são de Boticas, e sobem às festas. Logo, eu e a minha prima afastada alapámo-nos no muro da igreja, uma perna para cada lado, prosseguindo a nossa habitual conversa sobre filosofia pura. Segundo a Joana Rita, os casais estão para o amor como os críticos literários para a literatura: vivem juntos, dependem economicamente um do outro: não quer dizer que se amem.

sexta-feira, agosto 12, 2005

Os portugueses

A minha prima afastada estagiou com o José Gil, o do Portugal Hoje: o medo de existir, e prepara, agora, ela, Joana Rita, não o Gil, a edição de O Medo de Existir, parte 2. A rapariga é versada em filosofias puras, ninguém lhe chega aos calcanhares, e hoje, na nossa habitual conversa de café, esclareceu-me, "e depois de tudo, perdemos, porque nós, é grandes jogadas, as melhores do mundo, grandes malabarismos, arte da mais fina, mantendo a bola do nosso lado, mas não para marcar, só para o espectáculo - os outros apanham-na uns segundos, e, sem mariquices, metem dois golos!

terça-feira, agosto 09, 2005

Do amor

"O amor é importante. Preocupa-me. Mas talvez mais importante seja o sítio onde neles metem a piroca quando não estão sob a nossa jurisdição."
Isto disse-me esta tarde, na piscina - porque estamos em Agosto!- a minha prima afastada, na nossa habitual conversa sobre filosofia pura.

terça-feira, agosto 02, 2005

Da beleza necessária à procriação

Eu e a minha prima afastada fomos hoje ter a nossa habitual conversa, versando filosofia pura, para as consultas externas do Hospital de Santa Maria. Estando perto do departamento materno-fetal, demos connosco a observar e comentar grávidas, daquela maneira useira que serve às mulheres para se comentarem umas às outras; chegámos à conclusão de que, para se levar com ele a torto e a direito, e, eventualmente, engravidar, não é preciso ser-se bonita. Há grávidas desdentadas, grávidas mancas, grávidas de olhos esbugalhados, grávidas secas de heroína...
Ora, sendo que a gravidez pressupõe farra, só podemos concluir que a beleza é coisa muito relativa e que não pode ser considerada para efeitos de enrodilhamento. Os homens gostam de mulheres bonitas, mas isso não quer dizer que se apaixonem por elas. Porque os homens não se apaixonam por quem querem, apaixonam-se por aquelas que queremos, que lhes impingimos, ou seja, nós!
O destino é cruel e, em alguns casos, justo, pelo que, mais facilmente, quem nada espera, recebe de bandeja a verdadeira beleza, e a respira, a bebe, se funde nela, do que, quem muito exige, a vislumbra de perto.
Mulheres e homens muito exigentes acabam, frequentemente, mortos de amor por simpáticos exemplares equinos em duas patas. É a vida!

segunda-feira, julho 18, 2005

Seca estival

A minha prima afastada, embora inicie e termine todos os diálogos sobre o sexo oposto declarando, "os homens são uns filhos-da-puta", manda dizer, isto por causa das confusões geradas pelo post da semana passada, que lhe causou muitos dissabores no emprego (desculpa, Joana Rita!), que adora homens, que adora homens, que adora homens.
Aproveito a boleia para declarar ter momentos em que, não percebendo porquê, oh, também os adoro! Como os adoro!

terça-feira, julho 12, 2005

As mudanças da minha prima afastada



A minha prima afastada, antigamente, não era feminista. Mas o convívio, já se sabe, tem os seus efeitos, e quem anda com um coxo...
Antigamente, era uma mulher endurecida pela vida, uma rapariga amarga, com uma visão deturpada do maravilhoso mundo masculino. Cheguei a ouvi-la afirmar, seriamente, em remate de conversa (e peço desculpa pela dureza do seguinte discurso, mas sou apologista do realismo, de um estilo informtivo duro, que nos afronte, nos inquiete, como o da TVI):
"Os homens são como os cães! Tem que se lhes dar ordens claras, senão estão sempre a mijar fora do sítio!"
"Os homens tem de ser como os cães: patinha..."
Novamente, peço desculpa, sei que é duro, mas a minha missão, aqui, limita-se ao eco da vida lá de fora, da realidade, tal como um cineasta que queira revelar o horror da guerra no Vietnam. Compreenda-se que não subscrevo!
Eu bem tentava argumentar, mas em vão. Respondia-me sempre igual:
"Escusas de me dar já com essa conversa da mulherada, que eu não sou da vossa seita!"
Coitada, lá tinha as suas razões... Nós também cá temos os nossos telhados de vidro...
Felizmente, agora que é feminista, a minha prima afastada encara o mundo com outra clareza. Os homens já não são as suas vítimas de estimação. Nutre por eles incontrolável ternura, e mostra-se arrependida de todo o seu passado de intolerância relativamente a este sexo tão forte, tão racional, tão perfeito, que tanto prazer nos dá, intelectualmente.
O feminismo trouxe-lhe clarividência, esclareceu todos os traumas limitativos.
Ainda ontem tive oportunidade de verificar o quanto mudou. Rematou uma conversa de café, sobre filosofia pura, com esta ternura de frase, aquela querida:
"Olha, tu tens cães, e isto é simples, as teorias que servem para os cães, servem para os homens!"

sábado, julho 09, 2005

Ser cool

Eu e a minha prima afastada costumamos dizer, nas nossas habituais conversas de café sobre filosofia pura, que, na próxima encarnação, queremos nascer no Brasil e cumulativamente ser gay, ou então nascer gay em qualquer sítio com estatuto. E sermos felizes, e cantarmos na rua e metermo-nos com os transeuntes e ter bom gosto e dizer piadinhas sexuais e arranjar um diferente gajo, todo disponível, todos os dias. E ser decoradoras ou cabeleireiras ou estilistas ou organizadoras de eventos. Assim.
Heterossexuais, não, nunca, em sítio algum, porque toda a gente sabe que gera inúmeros equívocos e é uma trabalheira.
Alternativamente, consideramos a hipótese de nascer very british. Porque os britânicos fascinam-nos.
E agora vem a parte delicada do texto:
- se os atentados de dia 7 tivessem ocorrido em Portugal, teríamos gritado, chorado, arrepiado cabelos... teríamos dito "oh meu Deus, oh meu Deus", como os nova-iorquinos, como os madrilenos, e teríamos corrido, dado empurrões, revelado emoções, transcendentemente, e transformado aquilo tudo num caos mil vezes pior.
Os britânicos, não, olharam para as câmaras de televisão, com um olhar entediado, e disseram, calma e friamente, "ouvimos um enorme barulho e pensámos que duas carruagens tivessem chocado"; "não sei dizer nada muito bem, vi o motorista com uma luz vermelha, e há por ali pessoas gravemente feridas, mas vocês devem saber mais do que eu"; "mantivemo-nos na carruagem à espera que a normalidade se restabelecesse": todos escavacados, cheios de sangue na cabeça e na roupa, acabados de sair de uma situação de evidente trauma, mas sem uma lágrima, como se tivessem apenas partido o salto do sapato.
Eu e a minha prima afastada pensamos, agora, na hipótese de, na próxima encarnação, pedirmos para nascer em Inglaterra, sim!, em alternativa ao Brasil, mas, e não querendo que isto seja pedir demais... se pudéssemos vir, de uma só virada, british, gay e psicanalistas.... seríamos quase o Elton John!

sexta-feira, julho 08, 2005

À míngua

Eu e a minha prima afastada, em debate filosófico de café, reduzimos toda uma profunda discussão existencial à seguinte conclusão: ansiamos por ser actrizes de primeira escolha em Hollywood (ou em qualquer lado), porque, no que respeita aos actores com quem nos for dado contracenar, também queremos papá-los a todos.

O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...