Eu e a minha prima afastada costumamos dizer, nas nossas habituais conversas de café sobre filosofia pura, que, na próxima encarnação, queremos nascer no Brasil e cumulativamente ser gay, ou então nascer gay em qualquer sítio com estatuto. E sermos felizes, e cantarmos na rua e metermo-nos com os transeuntes e ter bom gosto e dizer piadinhas sexuais e arranjar um diferente gajo, todo disponível, todos os dias. E ser decoradoras ou cabeleireiras ou estilistas ou organizadoras de eventos. Assim.
Heterossexuais, não, nunca, em sítio algum, porque toda a gente sabe que gera inúmeros equívocos e é uma trabalheira.
Alternativamente, consideramos a hipótese de nascer very british. Porque os britânicos fascinam-nos.
E agora vem a parte delicada do texto:
- se os atentados de dia 7 tivessem ocorrido em Portugal, teríamos gritado, chorado, arrepiado cabelos... teríamos dito "oh meu Deus, oh meu Deus", como os nova-iorquinos, como os madrilenos, e teríamos corrido, dado empurrões, revelado emoções, transcendentemente, e transformado aquilo tudo num caos mil vezes pior.
Os britânicos, não, olharam para as câmaras de televisão, com um olhar entediado, e disseram, calma e friamente, "ouvimos um enorme barulho e pensámos que duas carruagens tivessem chocado"; "não sei dizer nada muito bem, vi o motorista com uma luz vermelha, e há por ali pessoas gravemente feridas, mas vocês devem saber mais do que eu"; "mantivemo-nos na carruagem à espera que a normalidade se restabelecesse": todos escavacados, cheios de sangue na cabeça e na roupa, acabados de sair de uma situação de evidente trauma, mas sem uma lágrima, como se tivessem apenas partido o salto do sapato.
Eu e a minha prima afastada pensamos, agora, na hipótese de, na próxima encarnação, pedirmos para nascer em Inglaterra, sim!, em alternativa ao Brasil, mas, e não querendo que isto seja pedir demais... se pudéssemos vir, de uma só virada, british, gay e psicanalistas.... seríamos quase o Elton John!