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quarta-feira, março 01, 2006
quinta-feira, junho 02, 2005
Ao que não termina, regressaremos

Henri Cartier-Bresson
Nunca regressei a um lugar de onde tivesse partido. Nunca regressei.
No entanto, os inúmeros lugares de onde parti permanecem intactos pelos portais da memória, guardando pormenores sinestésicos como o chiar azul de um portão, o sabor das pétalas de rosa debruçadas de um muro estalado de cal, o odor quente e ligeiramente carbonizado de uma mão cheia de amendoim torrado e embrulhado em meia folha de papel de jornal antigo, a textura longilínea e áspera das fibras acumuladas num troço de cana-de-açúcar, mastigado, sugado, a entalar-se entre os dentes enquanto larga sumo.
A sede macia das mãos que subiram as minhas pernas pela primeira vez. A segunda primeira vez em que me disseram, olhando bem dentro e bem ao fundo do campo de estio dos meus olhos "perder-te, seria perder-me..."
No entanto, os inúmeros lugares de onde parti permanecem intactos pelos portais da memória, guardando pormenores sinestésicos como o chiar azul de um portão, o sabor das pétalas de rosa debruçadas de um muro estalado de cal, o odor quente e ligeiramente carbonizado de uma mão cheia de amendoim torrado e embrulhado em meia folha de papel de jornal antigo, a textura longilínea e áspera das fibras acumuladas num troço de cana-de-açúcar, mastigado, sugado, a entalar-se entre os dentes enquanto larga sumo.
A sede macia das mãos que subiram as minhas pernas pela primeira vez. A segunda primeira vez em que me disseram, olhando bem dentro e bem ao fundo do campo de estio dos meus olhos "perder-te, seria perder-me..."
(E foi!)
Todas as memórias são memórias de lugares, porque o corpo habita imperiosamente os espaços por que vagueia. A memória de um rosto que sorriu, de uns olhos que olharam, de uma particular refeição de queijos e vinho, numa tarde de início de Dezembro, não podem dissociar-se dos espaços nos quais se tornaram realidade.
Há memórias que sustentam dias medíocres a funcionários públicos nos momentos em que olham a rua através das janelas dos seus tristes gabinetes, e recusam acreditar que aquilo que na infância julgavam que seria ser importante é, na realidade, ser isto.
Memórias a que voltamos sozinhos, no silêncio das casas, periodicamente, para nos deliciarmos como se ouvíssemos a música muito lenta que é já o ritmo do nosso corpo. Repetimos as faixas de que mais gostamos, fechamos os olhos, estendemos o corpo pelas superfícies frias, rebolamos pelo pavimento. Escutamos. Repetimos tudo outra vez.
Memórias tão perfeitas, tão bem cuidadas, a que limpamos o pó, que encaixilhamos em molduras de qualidade e bom gosto, mas que encaram com fatalidade a alteração dos seus traços originais.
Podemos jamais regressar, mas se um dia atravessamos esses lugares, pretendemos de volta as imagens guardadas nos arquivos mentais. Não queremos inovações, estradas de alcatrão... queremos o lajedo onde esfolámos os joelhos; nada de aquecedores, mas as lareiras que nos secavam as botas; queremos os antigos bustos erguidos a figuras cujos nomes não nos lembramos, nas praças onde começámos a namoriscar, não as esculturas novas, com mãos estilizadas, em ferro. Queremos o antigo coreto à roda do qual os velhos se sentavam, ao domingo tarde, deixando-nos em paz com os nossos segredos; sabiamo-los lá certos.
Há memórias que sustentam dias medíocres a funcionários públicos nos momentos em que olham a rua através das janelas dos seus tristes gabinetes, e recusam acreditar que aquilo que na infância julgavam que seria ser importante é, na realidade, ser isto.
Memórias a que voltamos sozinhos, no silêncio das casas, periodicamente, para nos deliciarmos como se ouvíssemos a música muito lenta que é já o ritmo do nosso corpo. Repetimos as faixas de que mais gostamos, fechamos os olhos, estendemos o corpo pelas superfícies frias, rebolamos pelo pavimento. Escutamos. Repetimos tudo outra vez.
Memórias tão perfeitas, tão bem cuidadas, a que limpamos o pó, que encaixilhamos em molduras de qualidade e bom gosto, mas que encaram com fatalidade a alteração dos seus traços originais.
Podemos jamais regressar, mas se um dia atravessamos esses lugares, pretendemos de volta as imagens guardadas nos arquivos mentais. Não queremos inovações, estradas de alcatrão... queremos o lajedo onde esfolámos os joelhos; nada de aquecedores, mas as lareiras que nos secavam as botas; queremos os antigos bustos erguidos a figuras cujos nomes não nos lembramos, nas praças onde começámos a namoriscar, não as esculturas novas, com mãos estilizadas, em ferro. Queremos o antigo coreto à roda do qual os velhos se sentavam, ao domingo tarde, deixando-nos em paz com os nossos segredos; sabiamo-los lá certos.
Queremos o que existe, a estampa que existe, essa fatia de espaço no tempo, viva em nós.
A realidade é essa memória.
O tempo de um gelado no McDonalds
Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...