As páginas seguintes pertencem à revista Def, perdão, Dif (revista mensal de tendências e guia cultural gratuito), a qual costumo trazer do Bairro Alto, quando por lá passo, de dois em dois meses, frequentemente, de três em três.
Adoro a Dif, editada em bom papel, com excelente impressão policromática. É produto para custar umas coroas pesadas a quem o produz! Aconselho-a a quem pretenda passar um serão sarcástico e barato, em casa, por exemplo. Se não fosse a Dif, o mundo trendy passava-me ao lado, e eu não quero correr o risco de viver tão em paz.
Leiamos os dois primeiros textos trendy-informativos, da edição de Março, deste ícone da Imprensa de entretenimento cultural. Clique-se algures sobre as imagens, para que as páginas possam visualizar-se em maiorzinho.
Adoro a Dif, editada em bom papel, com excelente impressão policromática. É produto para custar umas coroas pesadas a quem o produz! Aconselho-a a quem pretenda passar um serão sarcástico e barato, em casa, por exemplo. Se não fosse a Dif, o mundo trendy passava-me ao lado, e eu não quero correr o risco de viver tão em paz.
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Villa Tinto corresponde ao nome comercial de um estabelecimento dedicado à prostituição legalizada, situado em Antuérpia, uma "das mais importantes cidades portueiras". Cidade portueira! Muito bem! Cidade com porto, logo, cidade portueira. Setúbal, Lisboa e Vigo são igualmente cidades portueiras.
Mas a novidade será a existência do bordel?! Não, Villa Tinto é notícia por se tratar de um bordel digitalizado, estilo Matrix. A prostituta, antes de pegar, coloca o dedinho indicador no scanner, e eis que se abre a porta para o local de trabalho mais objectivo do universo: uma montra, toda ela em néon, na qual se exibem as qualidades supremas da carne de consumo, mais branca, menos branca, mais gorda, menos gorda, de primeira, de segunda, etc.
É importante sublinhar que "lá dentro o ambiente é moderno, numa especíe [sic] de quarto de hotel de design, acolhedor e com bom gosto". Ora, folgo em saber que a clientela dos serviços do sexo pode finalmente foder em hotéis de charme com nome italiano. É outro luxo, outro conforto.
Tendências a reter: cidades portueiras, bordéis, digitalização de dados, montras com condições para exposição de carnes, a velha foda clandestina que deixa de o ser apenas para a puta, agora com uma profissão linda e de futuro; eu própria, se tivesse vocação para a gemideira, aderia, que bem preciso de mudar de ramo, mas acontece que ando com as cordas vocais muito folgadas.
Mas a novidade será a existência do bordel?! Não, Villa Tinto é notícia por se tratar de um bordel digitalizado, estilo Matrix. A prostituta, antes de pegar, coloca o dedinho indicador no scanner, e eis que se abre a porta para o local de trabalho mais objectivo do universo: uma montra, toda ela em néon, na qual se exibem as qualidades supremas da carne de consumo, mais branca, menos branca, mais gorda, menos gorda, de primeira, de segunda, etc.
É importante sublinhar que "lá dentro o ambiente é moderno, numa especíe [sic] de quarto de hotel de design, acolhedor e com bom gosto". Ora, folgo em saber que a clientela dos serviços do sexo pode finalmente foder em hotéis de charme com nome italiano. É outro luxo, outro conforto.
Tendências a reter: cidades portueiras, bordéis, digitalização de dados, montras com condições para exposição de carnes, a velha foda clandestina que deixa de o ser apenas para a puta, agora com uma profissão linda e de futuro; eu própria, se tivesse vocação para a gemideira, aderia, que bem preciso de mudar de ramo, mas acontece que ando com as cordas vocais muito folgadas.
Segundo texto - clique-se, de novo, sobre a imagem, para aumentá-la: Sari Liimatta, finlandesa, designer de jóias, "está na boca do mundo". Eis como a sinédoque "andar nas bocas do mundo" se transforma numa original metáfora. A designer não é apenas muito falada. Mais do que isso, ela encontra-se inserida, já, na máquina digestora do mundo: a sua boca. Temo pelo que possa acontecer-lhe.

O meu temor estende-se às consequências que o talento literário possa ter na saúde mental de FVF, redactor e editor da Def, Dif, sorry. Não será por acaso. É possível que o alto nível de inovação trendy-literária a que se entrega possa prejudicar a recepção dos seus textos. Analisemos: "A oscilação de opiniões sobre ela é, de resto, vocação das suas propostas." Quererá o Autor afirmar que Sari Liimata propõe-se, deliberadamente, gerar discussão acerca da filosofia e estética da sua obra?!
"A artista apropria-se de peças geralmente dirigidas a crianças e cobre-as minuciosamente com matérias preciosas presas, por alfinetes dourados, tornando-as em objectos desejados". Torna-as, portanto, em objectos desejados devido às "matérias preciosas presas". E que matérias serão essas? Esmeraldas, rubis, pérolas ou missangas de alta qualidade?
"Por outro lado, o reverso é preenchido por pontas, que os torna repulsivos". Refere-se ao reverso do boneco? Lá vem outro problema: mas o que raio é o reverso do boneco? Os interiores do bicho? Preenchido por pontas? Pontas de quê? Não consigo perceber!
"Tem partes do corpo decepadas, acrescentando-lhes um aspecto berrante." Ah, decepados e berrantes! Percebo agora a tendência "desejável-repulsiva". Não percebo que relação existe entre decepamento e aspecto berrante, mas, adiante. Podia passar o resto da tarde comentando aspectos da sintaxe e semântica deste Joyce, mas já se percebeu.

O meu temor estende-se às consequências que o talento literário possa ter na saúde mental de FVF, redactor e editor da Def, Dif, sorry. Não será por acaso. É possível que o alto nível de inovação trendy-literária a que se entrega possa prejudicar a recepção dos seus textos. Analisemos: "A oscilação de opiniões sobre ela é, de resto, vocação das suas propostas." Quererá o Autor afirmar que Sari Liimata propõe-se, deliberadamente, gerar discussão acerca da filosofia e estética da sua obra?!
"A artista apropria-se de peças geralmente dirigidas a crianças e cobre-as minuciosamente com matérias preciosas presas, por alfinetes dourados, tornando-as em objectos desejados". Torna-as, portanto, em objectos desejados devido às "matérias preciosas presas". E que matérias serão essas? Esmeraldas, rubis, pérolas ou missangas de alta qualidade?
"Por outro lado, o reverso é preenchido por pontas, que os torna repulsivos". Refere-se ao reverso do boneco? Lá vem outro problema: mas o que raio é o reverso do boneco? Os interiores do bicho? Preenchido por pontas? Pontas de quê? Não consigo perceber!
"Tem partes do corpo decepadas, acrescentando-lhes um aspecto berrante." Ah, decepados e berrantes! Percebo agora a tendência "desejável-repulsiva". Não percebo que relação existe entre decepamento e aspecto berrante, mas, adiante. Podia passar o resto da tarde comentando aspectos da sintaxe e semântica deste Joyce, mas já se percebeu.
Tendências: matérias preciosas presas, decepamento, repulsa, pontas, redacção trash-trendy.
Só mais uma página, esta de publicidade, a que não resisto: Moda Lisboa, evento que decorreu a semana passada, no Museu de História Natural. De facto, passei por lá Domingo à tarde, tendo verificado que a escadaria da entrada principal se encontrava pejada de jovens trajando normalmente, porque ser muito jovem e bonito é já estilo que baste.

Passo a descrever, redundantemente, pois disponibilizo a imagem, o cartaz da Moda Lisboa, muito patrocinado pela Seat, o qual ostenta o que parece ser um ursinho em peluche, trajando macacão negro, inteiro dos pés ao escalpe, em tecido sintético, com furos na cabeça, orelhas e braços, penso eu que para facilitar a respiração do brinquedo. O referido objecto apresenta, ainda, uma coleira estranguladora ao redor da garganta, e não parece dispor de grande mobilidade. Para além da informação obrigatória num cartaz que divulga uma iniciativa - o quê, quando, onde - é possível ler a inscrição "play". Penso que seja um incitamento à brincadeira. E pronto, termino por hoje, sem qualquer moral, até porque não me atreveria. Cá vos espero no proximo poste sobre a Def, bolas, a Dif.