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quinta-feira, novembro 06, 2008

O meu ginásio


Ontem, no meu ginásio, o Preto Grande trouxe Bob Marley para comemorar a vitória de Obama. Todos dançavam reggae enquanto levantavam halteres, e o Camané veio perguntar-me se a música me estava a incomodar. Pelo contrário.

Gosto muito do meu ginásio de bairro, refundido, com salitre nas paredes mal pintadas, esfolado, cuja balança pesa cinco quilos acima do peso real, para enganar a massa muscular dos rapazes, e onde sou a única mulher no meio de tantos homens de todas as idades, raças e estratos sociais. Gosto que me venham cumprimentar quando entram, que se despeçam quando saem, e que, no entanto, mantenham relativamente a mim a distância e o respeito que me permitem não ter vergonha, não me sentir apenas uma gorda que precisa de perder peso e melhorar a sua condição física. Não sinto necessidade de parecer sexy, nem de parecer, como tantas vezes me aconteceu quando estava no meio de indivíduos do sexo masculino. Não há ali qualquer tensão sexual que alimente ou que sinta. Só gente a fazer exercício. Custa-me, mas o sacrifício deles também me dá alento. Observo-os gemendo enquanto levantam pesos que eu nem consigo mexer, o que acontece quando mudo para uma máquina de onde eles saíram. Onde arranjam eles aquela força de animal? Ajudam-se mutuamente com os halteres, falam enquanto descansam, picam-se para ver quem aguenta mais e durante mais tempo, medem os bícepes com fita métrica, almejando ter ganho mais meio centímetro. São homens muito decentes, mas aquilo é outro mundo. O mundo dos homens é outro mundo.
Ontem reparei que o Preto Grande tem a sua foto de tronco nu no écran do telemóvel, fazendo músculo para a câmara. Parece um touro bufando. Acha-se lindo.
Sorri, continuo a sorrir: estes rapazes cultivam o corpo muito a sério!


quarta-feira, outubro 22, 2008

E la nave va


O Camané, meu personal trainer, não sei se estão lembrados, disse-me, ó Isabela, não é por nada, mas eu diria que você já está, já está... já abateu um bocado. Desde que cá chegou... hein?! Não ligue à balança, você não ligue à balança, olhe mas é prá roupa. Aqui conta é a roupa. Você tem sorte, que é bem proporcionada. (E eu acrescentei, sou uma gorducha bem proporcionada!) Está bem, mas não é uma gorducha qualquer, você é muito bem proporcionada, que se vê, e mais, tem uma carinha de boneca, e até as sardinhas
...
Isto é tudo verdade, juro, juro, juro.
Ah, Camané, que por tua causa ainda vou ter que ir gastar dinheiro numa embalagem de Durex Play.


quarta-feira, setembro 24, 2008

O meu treinador pessoal



Sou a única mulher no ginásio entre dezenas de garotos em boa forma.
Se tivesse 20 anos isto era capaz de me preocupar; ai que estava suada, o cabelo desalinhado pela transpiração, as formalidades da beleza todas comprometidas, a celulite, a celulite... mas aos 40, sinceramente, olho para eles com admiração pelos exercícios que fazem melhor que eu, e com mais carga. É tudo. Sinto-me completamente integrada. Sou uma mulherona?! Olha, pois sou. Estou gorda?! Olha, pois, vendo bem, estou. Os 40 são realmente uma idade generosa, sobretudo para uma solteirona de carreira, que sabe não interessar a miúdos, sendo que os graúdos a que possa interessar estão casados com as mulheres, nuns casos, com os filhos, noutros, e com a economia doméstica, na maior parte deles. Sou por deixar os homens casados sofrerem em paz o enorme erro de não me terem dado a oportunidade de lhes infernizar a existência. Bem feita!
Adoro ir ao ginásio. Sinto-me interessante. Dão-me atenção. São gentis. Até os garotos me cumprimentam com o género de sorriso que se dedica à tia. Mas o mais importante é o meu instrutor, que quis o fado se chamasse Camané. O Camané segue-me pelo ginásio, transportando a minha toalha e a garrafinha de água, que pousa perto da máquina que escolheu para mim. Põe-me a toalha nos ombros, quando estou tão transpirada que acho que já nem vale a pena, e vai, voluntário, encher-me a garrafinha de água, porque tenho de repor os líquidos. Até me sinto mal. E diz, agora a Isabela vai puxar pelos peitorais, agora os tricepes, agora as coxas. Exemplifica, e, senhores, não sai dali. Fica a ver-me e a contar as séries. Os miúdos mandam-lhe umas bocas, mas o Camané não ouve. Está empenhado no meu projecto. Vê-se a admiração com que me põe a trabalhar. Isto queima muito, Isabela, tem que ter cuidado com a alimentação. Veja lá a sua dieta. Coma uma banana antes de vir. E bolachas. Olhe que isto queima. Acredito. Não há músculo que não me doa. Músculos que não pensei existirem. Sou uma chaga toda inteira de dor física que se movimenta a poder de vontade. Como lenitivo penso na minha saia branca de Verão. No próximo Verão, a minha cinturá parecerá a curva do Mónaco, e hei-de ver-me muito ao espelho e sorrir e fazer poses, e exibir a minha beleza por todo o lado, e ser atrevida, olhem, olhem para mim, grandes filhos-de-uma-mãe-que-nem-uma-trinca-cá-hão-de-dar. Hei-de mostrar os braços e os ombros todos nus, e as pernas torneadas, e vestir fatos-de-banho ousados e apaixonar-me muito por mim. Já começo a sentir-me tão bonita outra vez.
Não sei quanto paga a Madonna pelo seu treinador pessoal, mas o meu é bom e sai-me barato.

O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...