Ontem, no meu ginásio, o Preto Grande trouxe Bob Marley para comemorar a vitória de Obama. Todos dançavam reggae enquanto levantavam halteres, e o Camané veio perguntar-me se a música me estava a incomodar. Pelo contrário.
Gosto muito do meu ginásio de bairro, refundido, com salitre nas paredes mal pintadas, esfolado, cuja balança pesa cinco quilos acima do peso real, para enganar a massa muscular dos rapazes, e onde sou a única mulher no meio de tantos homens de todas as idades, raças e estratos sociais. Gosto que me venham cumprimentar quando entram, que se despeçam quando saem, e que, no entanto, mantenham relativamente a mim a distância e o respeito que me permitem não ter vergonha, não me sentir apenas uma gorda que precisa de perder peso e melhorar a sua condição física. Não sinto necessidade de parecer sexy, nem de parecer, como tantas vezes me aconteceu quando estava no meio de indivíduos do sexo masculino. Não há ali qualquer tensão sexual que alimente ou que sinta. Só gente a fazer exercício. Custa-me, mas o sacrifício deles também me dá alento. Observo-os gemendo enquanto levantam pesos que eu nem consigo mexer, o que acontece quando mudo para uma máquina de onde eles saíram. Onde arranjam eles aquela força de animal? Ajudam-se mutuamente com os halteres, falam enquanto descansam, picam-se para ver quem aguenta mais e durante mais tempo, medem os bícepes com fita métrica, almejando ter ganho mais meio centímetro. São homens muito decentes, mas aquilo é outro mundo. O mundo dos homens é outro mundo.
Ontem reparei que o Preto Grande tem a sua foto de tronco nu no écran do telemóvel, fazendo músculo para a câmara. Parece um touro bufando. Acha-se lindo.
Sorri, continuo a sorrir: estes rapazes cultivam o corpo muito a sério!
