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domingo, janeiro 14, 2007

Varões sem colhões

Padrão dos Descobrimentos, Belém, Lisboa

Não sei por onde andei nos últimos anos, não dei conta do que se passou à minha volta; sinto, de repente, que acordei numa outra era, a do ranking, e raios me partam se isto não me cheira tudo a estado-novismo!

O Diário de Notícias estabeleceu o ranking do português mais importante, e venceu Luís de Camões. Não tenho nada contra. Qualquer um servia, excepto D. Afonso Henriques, não só por não ser português, como por ter dado início a um processo político lamentável, cujas consequências todos sofremos, quase mil anos depois. Por acaso até ficou em segundo lugar, perceba-se, caso seja perceptível!

Mas sobre Luís de Camões, enquanto português mais importante, algo há a dizer. O artista era bom artista, sim senhor. A lírica é maravilhosa; oh, quem não conhece o fogo que arde sem se ver! Mas, caros colunistas permanentes do Diário de Notícias, Os Lusíadas, digo-vos na melhor das fés, é secante! Já li uma meia dúzia de excertos da obra, para aí umas vinte vezes cada, e quanto mais leio...menos gosto! Nenhum, entre vós, pode ter votado em Camões pel' Os Lusíadas! Seria insano! Que tenham votado por ser o zarolho mais famoso, ainda vá! Toda a gente sabe que Os Lusíadas foi tipo uma de tese de doutoramento, a ver se subia na carreira, que Camões defendeu diante de D. Sebastião, que obviamente não percebeu patavina, e, não percebendo, a julgou de elevado valor, porque em Portugal se valoriza tudo o que é chato e incompreensível. Camões tem uns artigos mais pequenos que são muito mais giros!
Os Lusíadas é texto ilegível, sem notas de rodapé, as quais, neste caso, faziam falta; urge traduzir aquilo para português, trabalho de que poderia ocupar-se algum dos nossos mais insignes tradutores de grandes clássicos, como Frederico Lourenço ou Vasco Graça Moura. É que, até lá, é impossível lê-la, a não ser com os melhores intuitos sadomasoquistas. Se ainda não se vendem exemplares de Os Lusíadas nas lojas de quinquilharia boundage, aconselho vivamente. Dói mais que pendurar chumbos nos testículos, presos por anzóis, todos em cascata.
Logo no primeiro canto, primeira estrofe, é urgente traduzir os vocábulos e expressões “armas”, “barões assinalados”, “Ocidental praia Lusitana”, “Taprobana”, “Novo Reino” e “sublimaram”. Se Os Lusíadas estivesse, efectivamente, escrito em Português uma pessoa não sentiria a obrigação de explicar ao senhor Zé, “homem, olhe que essas armas não são, objectivamente, apenas armas, e os barões assinalados não pertencem necessariamente à nobreza”.
Para além do mais, Camões dava erros ortográficos grosseiros; atentemos na seguinte estrofe, colhida ao acaso num canto da obra, um qualquer, acho que foi o décimo-segundo. “Dá a terra Lusitana Cipiões,/ Césares, Alexandres e dá Augustos;/Mas não lhe dá, contudo, aqueles dões/ Cuja falta os faz duros e robustos./ Octávio, entre as maiores opressões/compunha versos doutos e venustos;/Não dirá Fúlvia, certo, que é mentira,/ Quando a deixava António por Glafira.
Mesmo fazendo por ignorar o erro na grafia do plural, meu Deus, que referências chatas de morte! Meu Deus, como tudo isto se assemelha a um dicionário de nomes próprios, dos que os futuros papás compram para escolher os nomes dos futuros bebés! E, meu Deus, terei eu percebido o narrador afirmar que a terra Lusitana produz varões sem colhões?! Vocábulo que já existia à época, o qual Camões poderia ter seleccionado enquanto rima, desobrigando o aviltamento ortográfico da obra?! E dá-se um texto destes na escola?! Que exemplo é este?! E obrigam-se crianças que comunicam segundo códigos do novo milénio, como por exemplo, “oi td bm. taum ja n dxs nd? ve xe aprxs pr ka Bjks Adrt Rspd” a ler esta estucha?!
E pergunto eu, retoricamente, foram os varões molezinhos, os varões sem dões, digo, colhões que elegeram Camões como o português mais importante? E progrediram o suficiente na leitura da obra completa para ter chegado a esta estrofezinha?! Leram mesmo a estuchazinha?!


sexta-feira, abril 07, 2006

O poeta não é um fingidor

Leio à procura dos textos que me comovem, me exaltam, me confirmam. Alguns livros famosos, de autores ainda mais famosos, não nos trazem nada. Sobretudo segundos livros. Vaidade. Estilo. Os segundos livros não se deviam escrever. Quase sempre trazem demasiadas certezas. Se a arte serve apenas uma vaidade, serve nada. A arte não mente. Era isto que Pessoa queria dizer com o poeta é um fingidor: finge tão completamente que chega a sentir que é dor, a dor que deveras sente. Pessoa não mentiu, em nenhum dos seus rostos. Não podia; não teria sido ele. Não o leríamos.
Os poetas, ao contrário dos artistas plásticos, gostam de se distanciar da obra que criam, bem como os ficcionistas. Gostam de dizer, "é só literatura." Compreendo-os. Eu faria o mesmo. A literatura cria um discurso verbal e torna-se demasiado informativa.
Mas não existe só literatura, tenho muito pena. Sou casmurra, tenho muita pena. Há hibridez, mas só literatura, não. Nem o Eça. Nem o Camilo. Nem a Agustina. Tenho muita pena.
Leio uma obra descomprometida de uma escritora quase desconhecida. Custou-me dois euros e meio numa feira do livro.

sexta-feira, março 31, 2006

Livralhada light e neocolonialista para esgotar 3 edições

Manel deixou o seu coração em África. Também conheço quem lá tenha deixado dois automóveis ligeiros, um veículo todo-o-terreno, uma carrinha de carga, mais uma camioneta, e duas vivendas, três machambas, bem como a conta no Banco Nacional Ultramarino, já convertida em meticais.
Quem é que não foi deixando os seus múltiplos corações algures?
Eu há muito anos que bombeio o sangue pela laringe.

terça-feira, março 21, 2006

Ao menos que sejam curtos!

Vamos imaginar que Fernando Pessoa, o desgraçado, tinha que suportar, hoje, numa das inúmeras casas onde deveu renda, uma sessão de leitura de poemas com Adília Lopes, Ana Hatherly, Ana Luísa Amaral, António Osório, Bernardo Pinto de Almeida, Fernando Pinto do Amaral, Gastão Cruz, Maria do Rosário Pedreira, Nuno Júdice, Pedro Mexia, Pedro Tamen e Yvette K. Centeno. Todos juntos na mesma sala, sendo que para acomodar os egos de Gastão Cruz e Pedro Tamen, só destes, a título de exemplo, dava jeito uma gare vazia da Carris. Isto nem é uma crítica, porque, para arrumar o meu, também estou a pensar alugar os três apartamentos do andar acima.
Vamos imaginar que cada poeta presente leria dois poemas de sua autoria, e mais dois de outros autores. Portanto, se não me falham as contas, 12x4=48. Quarenta e oito poemas! O que pensaria Fernando Pessoa ao receber o convite?

terça-feira, outubro 04, 2005

Mensagem numa garrafa, 7

A diferença entre literatura escrita por homens ou por mulheres explica-se facilmente, sem recurso a grandes teorias académicas:

1. Um homem nunca escreve light. Toda a "literatura masculina" é heavy.
2. Tudo o que uma mulher escreve é light; se escreve heavy, sinal é que recebeu fortes influências da melhor "literatura masculina".

(Aplique-se às restantes artes!)

segunda-feira, setembro 05, 2005

"Com toda a vida às avessas a arder"

A nossa memória guarda, para sempre, certos momentos, e esquece outros, e nunca saberemos explicar porquê!
Há 20 anos, para aí, assisti a uma conversa pública, sobre poesia, na qual participava o poeta António Ramos Rosa. Tenho ideia que era por ali às Amoreiras; não me lembro se os prédios do Taveira já existiam.
O meu acompanhante segredou-me, já sentados, que o poeta estava gravemente doente e, provavelmente, já não se aguentaria muito. Talvez aquela fosse a última vez que o ouvíamos. Aquilo impressionou-me, pelo que o escutei com muito atenção; a voz e o aspecto eram frágeis, sim, mas aquele homem que quebrava, magro, branco, cabisbaixo era o enorme António Ramos Rosa.
O António tem-se aguentado. Tem a tal bolsa do Estado, não é? Deve ter as suas dores amargas, ver zero mesmo com óculos, tremer-lhe a mão quando escreve, mas cá anda.
E escreve. Que é o que me interessa.

O António, reza a história, ou então percebi mal, teve três profissões simultâneas: era poeta, empregado de escritório e infeliz. Bem, poeta não é uma profissão, ressalve-se!
Um dia fartou-se do deve e haver, não compareceu ao trabalho, deixou a contabilidade ao pó, e nunca mais regressou à Companhia Limitada. Ficou em casa a dormir, a escrever, a olhar pela janela. Ele lá saberá.
Não sei se isso fez dele um homem feliz – não parece – mas, pelo menos, não se vendeu ao dinheiro da estagnação e da mediocridade.
Eu, a isto, chamo coragem: não designar como “ganhar a vida” aquilo que não passa da sua vil hipoteca, com rodas dentadas nas quais vamos girando, girando até secar.
Que se ganhe a vida construindo para os outros, criando, dando, mas, preferivelmente, que nos construamos, também, por acréscimo!
A minha prima afastada, mesmo sendo das filosofias puras, diz-me que isso são sonhos, que não acontece a ninguém, que trabalho é trabalho.
Mas repara, Joana Rita, esse não é o exemplo do Ramos Rosa; nem do Alberto, que deixou a cátedra de Linguística, para poder fazer bonecos de madeira na carpintaria do mestre Roíz. Nem da Amparo, que largou 300 mocas/12 horas semanais para observar aves, a binóculo, no estuário do Tejo!

Juro que só queria contar a história do Ramos Rosa. Alonguei-me.
Às vezes doem-nos os ossos, porque os dentes da roda são de metal afiado; e o que seria de nós sem uma bengala?


António Ramos Rosa, Poema dum Funcionário Cansado

A noite trocou-me os sonhos e as mãos
dispersou-me os amigos
tenho o coração confundido e a rua é estreita
estreita em cada passo
as casas engolem-nos
sumimo-nos
estou num quarto só num quarto só
com os sonhos trocados
com toda a vida às avessas a arder num quarto só
Sou um funcionário apagado
um funcionário triste
a minha alma não acompanha a minha mão
Débito e Crédito Débito e Crédito
a minha alma não dança com os números
tento escondê-la envergonhado
o chefe apanhou-me com o olho lírico na gaiola do quintal em frente
e debitou-me na minha conta de empregado
Sou um funcionário cansado dum dia exemplar
Por que não me sinto orgulhoso de ter cumprido o meu dever?
Por que me sinto irremediavelmente perdido no meu cansaço
Soletro velhas palavras generosas
Flor rapariga amigo menino
irmão beijo namorada
mãe estrela música
São as palavras cruzadas do meu sonho
palavras soterradas na prisão da minha vida
isto todas as noites do mundo numa só noite comprida
num quarto só.

O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...