Não sei por onde andei nos últimos anos, não dei conta do que se passou à minha volta; sinto, de repente, que acordei numa outra era, a do ranking, e raios me partam se isto não me cheira tudo a estado-novismo!
O Diário de Notícias estabeleceu o ranking do português mais importante, e venceu Luís de Camões. Não tenho nada contra. Qualquer um servia, excepto D. Afonso Henriques, não só por não ser português, como por ter dado início a um processo político lamentável, cujas consequências todos sofremos, quase mil anos depois. Por acaso até ficou em segundo lugar, perceba-se, caso seja perceptível!
Mas sobre Luís de Camões, enquanto português mais importante, algo há a dizer. O artista era bom artista, sim senhor. A lírica é maravilhosa; oh, quem não conhece o fogo que arde sem se ver! Mas, caros colunistas permanentes do Diário de Notícias, Os Lusíadas, digo-vos na melhor das fés, é secante! Já li uma meia dúzia de excertos da obra, para aí umas vinte vezes cada, e quanto mais leio...menos gosto! Nenhum, entre vós, pode ter votado em Camões pel' Os Lusíadas! Seria insano! Que tenham votado por ser o zarolho mais famoso, ainda vá! Toda a gente sabe que Os Lusíadas foi tipo uma de tese de doutoramento, a ver se subia na carreira, que Camões defendeu diante de D. Sebastião, que obviamente não percebeu patavina, e, não percebendo, a julgou de elevado valor, porque em Portugal se valoriza tudo o que é chato e incompreensível. Camões tem uns artigos mais pequenos que são muito mais giros!
Os Lusíadas é texto ilegível, sem notas de rodapé, as quais, neste caso, faziam falta; urge traduzir aquilo para português, trabalho de que poderia ocupar-se algum dos nossos mais insignes tradutores de grandes clássicos, como Frederico Lourenço ou Vasco Graça Moura. É que, até lá, é impossível lê-la, a não ser com os melhores intuitos sadomasoquistas. Se ainda não se vendem exemplares de Os Lusíadas nas lojas de quinquilharia boundage, aconselho vivamente. Dói mais que pendurar chumbos nos testículos, presos por anzóis, todos em cascata.
Logo no primeiro canto, primeira estrofe, é urgente traduzir os vocábulos e expressões “armas”, “barões assinalados”, “Ocidental praia Lusitana”, “Taprobana”, “Novo Reino” e “sublimaram”. Se Os Lusíadas estivesse, efectivamente, escrito em Português uma pessoa não sentiria a obrigação de explicar ao senhor Zé, “homem, olhe que essas armas não são, objectivamente, apenas armas, e os barões assinalados não pertencem necessariamente à nobreza”.
Para além do mais, Camões dava erros ortográficos grosseiros; atentemos na seguinte estrofe, colhida ao acaso num canto da obra, um qualquer, acho que foi o décimo-segundo. “Dá a terra Lusitana Cipiões,/ Césares, Alexandres e dá Augustos;/Mas não lhe dá, contudo, aqueles dões/ Cuja falta os faz duros e robustos./ Octávio, entre as maiores opressões/compunha versos doutos e venustos;/Não dirá Fúlvia, certo, que é mentira,/ Quando a deixava António por Glafira.”
Mesmo fazendo por ignorar o erro na grafia do plural, meu Deus, que referências chatas de morte! Meu Deus, como tudo isto se assemelha a um dicionário de nomes próprios, dos que os futuros papás compram para escolher os nomes dos futuros bebés! E, meu Deus, terei eu percebido o narrador afirmar que a terra Lusitana produz varões sem colhões?! Vocábulo que já existia à época, o qual Camões poderia ter seleccionado enquanto rima, desobrigando o aviltamento ortográfico da obra?! E dá-se um texto destes na escola?! Que exemplo é este?! E obrigam-se crianças que comunicam segundo códigos do novo milénio, como por exemplo, “oi td bm. taum ja n dxs nd? ve xe aprxs pr ka Bjks Adrt Rspd” a ler esta estucha?!
E pergunto eu, retoricamente, foram os varões molezinhos, os varões sem dões, digo, colhões que elegeram Camões como o português mais importante? E progrediram o suficiente na leitura da obra completa para ter chegado a esta estrofezinha?! Leram mesmo a estuchazinha?!
