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segunda-feira, abril 28, 2008

Não me faças sofrer

Foto de Herodote Christophe, La gironde


Li numa revistazeca de fim-de-semana que para mudarmos de vida temos de abandonar a zona de conforto na qual nos instalámos, e arriscar. Sentirmo-nos incómodos.
Mas, oh meu amigo, vamos lá ver, eu não me instalei; eu não tinha para onde ir, e fui ficando. Não foi uma zona de conforto. Foi uma zona. E tentei que nem uma desgarrada largá-la. Tenho tentado que nem uma enterrada viva. Sair. Quero sair da zona e nunca mais voltar. Respirar fora. Arrancá-la de mim como se arranca a pele a um coelho acabado de socar, como se degola uma codorniz. Só isso. Sair. Mudar. Tirar. Arrancar. Degolar. Matar. Eu quero dar cabo disto, e ser outra, dar cabo disto e ser outra, outra.

domingo, abril 27, 2008

Da bofetada ao direito a sujar-se

Acho graça ao anúncio do Skip sobre o direito das crianças a sujarem-se, porque me lembro das tareias que eu e os outros miúdos levávamos quando chegávamos a casa cheios de terra nas batas e calções. Hoje, as crianças têm o direito a sujarem-se, e, sejamos objectivos, a tudo. Porque são inocentes, e não percebem, e, sobretudo, porque existem boas máquinas de lavar e detergentes branqueadores, e detergentes para cores... Ora, a minha mãe só teve máquina de lavar em 1973, por isso, quando eu era pequena, ela malhava-me exactamente porque eu era inocente, e não percebia nada, e convinha que começasse a perceber rapidamente, e a bofetada tinha o efeito de estimular muito a lembrança.

segunda-feira, outubro 22, 2007

Diz-me o que entendes por liberdade sexual

Foto: W. Cieniu


A libertação sexual foi, ao contrário do que pensam os saudosos da família tradicional, um progresso civilizacional assinalável, com consequências irreversíveis e vantajosas em todas as áreas da sociedade, economia e política, sendo que a mais relevante de todos consistiu no acesso à partilha de papéis. Nunca a justiça e a produtividade se associaram para tão belos frutos.
Os saudosos da família tradicional não alimentam reais saudades da família, mas da mulher-criada doméstica com especialização em puericultura. Implicava uma escravidão, mas dava jeito. Os judaico-cristãos, ou só judaicos, ou só cristãos, esforçam-se por ignorar que a dita família tradicional nunca passou de uma prisão, e para todos. O homem sustentava a casa e a insatisfação, e fornicava dentro e fora. A mulher geria a casa e a infelicidade, e fornicava mal dentro, fazendo o que podia por fora, à custa de "lanches com amigas". Não eram casamentos, mas associações procriativas e comerciais compostas de membros que se detestavam.
Depois, devagar, chegou a liberdade sexual, conceito ainda muito impreciso na mente colectiva. A libertação sexual não foi apenas uma conquista das mulheres, e não coincide exactamente com fornicação generalizada e compulsiva. Pelo contrário, implica, como nunca, uma enorme responsabilização individual relativamente às escolhas que realizamos enquanto seres sexuados. Tornámo-nos livres sexualmente, todos, mulheres e homens, porque perdemos a culpa inerente ao desejo, porque o sexo se tornou independente do casamento e da procriação, e porque legitimamente ganhámos o direito a não ser julgados, em nenhum aspecto das nossas vidas, pela nossa identidade sexual ou de género.
A libertação sexual não foi apenas uma libertação para o sexo, mas do sexo, uma vez que nos libertou de todas as normas que nos prendiam a tarefas e comportamentos fixos que pesavam sobre homens e mulheres.
Há, contudo, um conjunto de implícitos (e explícitos) relacionais entre os homens e mulheres que não se alteraram apesar da libertação sexual. Um deles relaciona-se com o binómio amor-sexo. Independentemente das necessidades e escolhas sexuais absolutamente sem critério do sexo masculino, as mulheres continuam a ir para a cama porque amam alguém; porque acreditam no amor. Deitamo-nos com a pessoa x porque a queremos para nós. Temos a ilusão de que poderá vir a ser o nosso amor, se ainda não for. O sexo que as mulheres fazem é apenas uma parte do que pretendem manter com o objecto do seu amor. Passar um bocado bom vem em longínquo segundo lugar.
Isto poderá sofrer alterações em casos pontuais, em situações específicas, e mais ou menos passageiras, mas não vejo grandes tendências para mudança. Portanto, os homens podem esperar sentados até que nos apeteça dormir com eles porque são muito giros. Dormimos com eles porque queremos ter filhos com deles, porque queremos acordar ao seu lado e sentir a sua respiração, porque nos dá jeito que nos levem o carro à revisão e nos sintonizem o vídeo com o televisor. E tudo o resto, como dizem os brasileiros, é mera sacanagem.


sábado, agosto 18, 2007

Uma diferença igual



Os biólogos do mundo antigo, frequentemente com idade para serem meus filhos, candidatando-se aos respectivos tabefes, pelam-se por aplicar ao ser humano as leis científicas da especialização de tarefas que parecem render no mundo animal, fazendo por esquecer que as mulheres e os homens são animais sociais.
Defendem os jovens investigadores, entre a muda das imberbes fraldas experimentais, que o macho recolhe o alimento e a fêmea cuida das crias, e por aí fora, e igualmente na família moderna, esquecendo que a família moderna é de uma plasticidade impossível de fixar, como sempre desejou ser, isto porque as mulheres e os homens são, de todos os animais, os mais criativos, desejosos e insatisfeitos - e contra isto nada pode a ciência, a não ser que nos encharque em benzodiazepinas.
João Miranda, investigador em biotecnologia, em crónica publicada no DN de hoje, serve-se da especialização de tarefas para defender a ideia de que a paridade é uma utopia, visto que homens e mulheres têm capacidades diferentes. Gostei muito! Sonho com o dia em que jovens cientistas tenham a gentileza de não insultar a minha inteligência com argumentos gastos. Que leiam qualquer coisa antes de escreverem as pérolas de macho com que me mimoseiam, e aos restantes leitores da Imprensa diária. Vão à Wikipédia. Não se promoverão por aí, entre universidades, encontros entre investigadores das diversas áreas? Seria do maior interesse realizar uns intercâmbios. Ou experimentar a vida real. Os diplomas da vida real costumam valer, e eu estou por tudo.

Escreve João Miranda que:

"A paridade, isto é, a ideia de que as profissões mais apetecíveis devem ter igual percentagem de homens e mulheres, é uma das utopias das democracias modernas. (...) A paridade tem levado, um pouco por todo o mundo, à criação de quotas na política, nos cargos dirigentes das empresas e nas universidades, mas não nos serviços de recolha de lixo ou na construção civil.
A paridade pressupõe que homens e mulheres têm, em média, as mesmas capacidades e as mesmas preferências. Mas a verdade é que as diferenças entre homens e mulheres são demasiado relevantes para serem ignoradas. (...)
E, muito importante, as mulheres são mais ligadas aos filhos que os homens. Estas diferenças têm uma origem biológica e cultural.(...)
A biologia, a cultura e a economia sugerem que homens e mulheres têm competências e preferências diferentes que levam à especialização de papéis e impedem a paridade em várias profissões. (...)"



E a coisa continua pelas raias da aberração.
Ora, a associação entre o comportamento humano e o de outros animais é, como se sabe, brutalmente perigosa e especulativa: se os comportamentos femininos e maternais do mundo animal pudessem transpor-se para a vida humana social tornar-se-ia legítimo que as fêmeas humanas matassem e comessem, inconsequentemente, os próprios filhos, após o parto? Ou abandonassem uns em detrimento de outros? No mundo animal, as fêmeas cuidam dos filhos enquanto estes não sobrevivem sozinhos. A partir desse momento, as crias tornam-se um peso, e as fêmeas estão-se bem nas tintas. A minha cadela Lili mordia na filha, perante a minha indignação, quando achou ter chegado a altura do desmame. Poderia eu dar uma dentada no meu filho quando já não me parecesse adequado continuar a amamentá-lo? Pô-lo a andar, olha, agora desenrasca-te?!

E que tremenda cegueira afirmar que os filhos desinteressam aos homens como aos cães, por razões biológicas e culturais. Se vejo alguma coisa interessar aos homens, são os filhos - território absolutamente sagrado nos casamentos, acima da união conjugal. Qualquer mulher, de qualquer tempo, sabe que se algum interesse segurou um homem a um casamento, por muito mau que fosse, foi um filho. Os filhos interessam-lhes, e como, e cada vez mais, conforme o mundo se vai tornando menos genderizado. Reparo que, em grande parte das famílias onde se dividem tarefas, se há especialização nos cuidados aos filhos, ela está cada vez mais reservada aos homens no que respeita a dar-lhes banho, alimentá-los, entretê-los, ajudá-los nas tarefas escolares e adormecê-los. Assisto a este fenómeno com bastante agrado. Por outro lado, consta que as mulheres, afinal, não sentem particular prazer em cuidar dos filhos, pelo menos a partir de certo momento. Segundo uma investigação realizada recentemente (li no mesmo DN, há semanas), a satisfação experimentada pelas mulheres quando se ocupam dos filhos é igual à que sentem enquanto realizam tarefas domésticas. Nem mais nem menos. E, sinceramente, ao pensar no trabalho que uma criança dá, concluo que deve ser bem mais relaxante lavar a louça, até mesmo limpar o pó ou passar a ferro.



É óbvio que mulheres e homens são seres biologicamente diferentes. É nisso que está a sua maravilha. Onde está a novidade disto?
Não tenho massa muscular para carregar baldes de massa, mas muito homens também não a terão. Por outro lado, não me parece que hoje se possa dizer que os homens são mais dotados para o cálculo matemático e as mulheres para as línguas. Não é o que vejo no mundo académico. O que vejo, sim, é as mulheres abdicarem de investigar e progredir nas carreiras para se dedicarem à família, o que de forma alguma as exclui de habilidades em cálculo. Tenho um amigo biólogo que adora picar-me com os lugares comuns debitados pela ciência recente sobre a alegada capacidade das mulheres para realizar inúmeras tarefas simultâneas, enquanto as considera más no que toca à orientação espacial. Como detesto estas conclusões que categorizam e restrigem. E como as temo. E como erram. Eu que até sou uma bússola ambulante que, por acaso, é incapaz de ouvir música enquanto escreve ou lê.
Espanta-me que o argumento da força física seja tão importante para alegar superioridade masculina, mas não para defender a prevalência de negros sobre brancos.




Pouco sei sobre leões e leoas, cavalos e éguas, mas imagino que sejam biologicamente diferentes, de igual forma! A reprodução da matéria viva precisa dessa diferença para se realizar. Por enquanto não há volta a dar. Parece-me muito lógico e natural que diferentes animais da mesma espécie possuam as mesmas aptidões em quantidade e qualidade diferentes. O macho não podia estar mais próximo da reprodução, mas tem nela um papel de quantidade e qualidade diferente a partir do momento da fecundação, o qual não lhe veda o acesso ao gozo da paternidade. A guarda conjunta dos filhos, em caso de separação dos casais, parece-me uma medida bastante justa, uma vez que atribui aos homens paridade enquanto pais e seres humanos. A paridade não é um conceito cuja justiça e eficácia dependa das diferentes aptidões dos sexos. A paridade reivindica uma intervenção o mais igual possível, que seja justa para os géneros, e deva estar por igual ao alcance de iguais. A igualdade não é uma noção que dependa de capacidades físicas e intelectuais. Somos humanos, somos companheiros, complementamo-nos e acumulamo-nos intersexos como intrasexos. Aqui reside a substância e poder dessa igualdade. Mais nada.

Poderia enumerar uma série de tarefas que estão ao alcance das mulheres na construção civil, para além da limpeza final dos edifícios, mas o problema é que esse mundo profissional lhes permanece hostil. Ainda me lembro do sururu que consistiu no aparecimento, nos estaleiros diversos, e explorações agrícolas, das primeiras engenheiras. Os trabalhadores espantavam-se porque, "apesar de serem mulheres, sabiam trabalhar e dar ordens como homens". Foi a hierarquia que salvou as engenheiras e as legitimou.
Paralelamente, também vejo sectores reclamarem quotas para a entrada dos rapazes em cursos de Medicina, mas não nas limpezas a dias nem a lavar cabeças nos cabeleireiros.



Pelo que pude ler hoje, as mulheres ainda são encaradas pelos biólogos de pacotilha, e outros, como minorias cuja mais-valia humana reside na utilidade ovárico-uterina e mamária - lembro que a maior parte dos departamentos de estudos de género, nas universidades, incluem estudos queer, o que mete no mesmo saco os estudos sobre mulheres e LGTB, embora não se incomodem mutuamente. Mas se o argumento é cientifico, devo dizer que as mulheres prevalecem duplamente sobre o mundo; primeiro, numericamente, sem contestação; em segundo, porque o poder social do patriarcado, e consequente violência, apenas se sustém na medida em que, pelo mundo fora, as mulheres o toleram e alimentam. São as mulheres quem, para o mal, tem traçado o destino do mundo, construindo e perpetuando os poderes masculinos que as secundarizaram paternal e conjugalmente, criando os filhos que marginalizarão as filhas das outras, e as filhas que aceitarão ser marginalizadas, e perpetuarão a marginalização pelos filhos dos filhos às filhas das filhas. E tem sido assim durante muitos, muitos, demasiados anos. As armas do patriarcado têm sido fabricadas pelas mulheres para seu próprio sacrifício.
O exercício de paridade efectiva mudará o ciclo vicioso de vítimizados-vitimizadores, de ambos os sexos, que mal vêm aguentando um sistema de castas que já se nega, já se cansou, já se não vê reflectido no mundo que pisa as ruas lá fora.
Já compreendemos que somos pares, e contra esta evidência, caros biotecnólogos da farinha Amparo, não há cromossoma que vos valha.


domingo, maio 08, 2005

Mudanças


Burt Lancaster

O magnífico, imponente, carregador moldavo que fez as mudanças da minha amiga, ontem, parecia um Burt Lancaster de 20 anos (naquele épico de Hollywood, um que "passa" sempre na Páscoa, o do cristão que é levado como escravo para as galés, onde o espera morte certa - safa-se...).
Carregava com destreza, magnificência, força de touro - suponho que hoje ainda as mantenha!...
Não falava português, mas explicou-me visualmente, tim-tim por tim-tim, que, embora mal falasse a língua - apenas o básico para o serviço, e não se podia exigir mais!: à direita, à esquerda, para cima, para baixo, mais devagar, cuidado, aí não, ali, aqui... - sabia usá-la criativamente, tal como às mãos, que se exprimiam num Português materno, fluente, eficaz, um pouco nervoso.
A minha amiga ficou satisfeita com o serviço, e não saiu caro. Acho que vou (voltar a) precisar dele para as minhas mudanças

O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...