Não me admira nada que tenha caído um velhote de uma maca, no hospital de Aveiro, vindo a morrer disso, eventualmente; o que me admira, e muito, conhecendo o estado das urgências hospitalares no nosso país, é que não caiam meia dúzia deles por hospital, todos os dias. Se este milagre não vos fizer acreditar na providência divina, o que fará?!
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sexta-feira, janeiro 25, 2008
sábado, setembro 22, 2007
A verdade é uma profissão de alto risco

Um primo meu afastado, filho de uma prima que viveu muitos anos no Zimbabwe, mantendo, em plena selva, uma cantina na qual vendia peixe seco aos indígenas, é hoje técnico de saúde num hospital de grande tiragem da região de Lisboa.
Não é que lhe tenha grande afeição. Partilha certos ideais da política liberal da moda, e de vez em quando solta umas graças machistas, o que me desgosta, mas os laços familiares, bem como favores prestados pela sua família à minha, obrigam-me a certos rituais socializantes.
Ontem, veio cá jantar uns bifes de cebolada, e relatou-me algumas das suas preocupações de âmbito profissional. O rapaz não compreende por que motivo os médicos do seu serviço permanecem fechados nos gabinetes, enquanto os doentes esperam horas pelo atendimento de urgência. Não percebe, por exemplo, por que aguardam que se acumulem as inscrições de vinte utentes para começar a atender o primeiro; não percebe como podem deixar para os enfermeiros, auxiliares e seguranças a função de acalmar as hostes aflitas e bravias com a dor própria e alheia, cujo alívio alguns clínicos adiam até à fronteira da correcção deontológica, enquanto comentam entre si, num encolher de ombros, que "os utentes reclamem a quem de direito", e "que não se fazem omoletes sem ovos".
Ouvi-o com muita atenção. Afinal, a infância na selva fez dele um idealista objectivo. Acredita na justiça, nos bons princípios e no zelo. Também eu. Por isso é que lhe respondi que tão mau como não haver ovos para omeletes, é haver, mas não se lhes conseguir quebrar a casca para que realizem o milagre de matar a fome a quem a tem.
Não é que lhe tenha grande afeição. Partilha certos ideais da política liberal da moda, e de vez em quando solta umas graças machistas, o que me desgosta, mas os laços familiares, bem como favores prestados pela sua família à minha, obrigam-me a certos rituais socializantes.
Ontem, veio cá jantar uns bifes de cebolada, e relatou-me algumas das suas preocupações de âmbito profissional. O rapaz não compreende por que motivo os médicos do seu serviço permanecem fechados nos gabinetes, enquanto os doentes esperam horas pelo atendimento de urgência. Não percebe, por exemplo, por que aguardam que se acumulem as inscrições de vinte utentes para começar a atender o primeiro; não percebe como podem deixar para os enfermeiros, auxiliares e seguranças a função de acalmar as hostes aflitas e bravias com a dor própria e alheia, cujo alívio alguns clínicos adiam até à fronteira da correcção deontológica, enquanto comentam entre si, num encolher de ombros, que "os utentes reclamem a quem de direito", e "que não se fazem omoletes sem ovos".
Ouvi-o com muita atenção. Afinal, a infância na selva fez dele um idealista objectivo. Acredita na justiça, nos bons princípios e no zelo. Também eu. Por isso é que lhe respondi que tão mau como não haver ovos para omeletes, é haver, mas não se lhes conseguir quebrar a casca para que realizem o milagre de matar a fome a quem a tem.
segunda-feira, abril 23, 2007
O AVC que Eusébio não sofreu
Eusébio sentiu tonturas na madrugada de sábado, tendo-se deslocado a um hospital privado onde foi imediatamente examinado. A situação justificava internamento seguido de operação, a qual teve hoje lugar, com sucesso.
Fico feliz por saber que um cidadão foi correctamente assistido, e alvo de intervenção cirúrgica, num curtíssimo espaço de tempo. Eis um exemplo de excelente acção médica. Intervindo precocemente, podem evitar-se problemas graves e incapacitantes. Portanto, neste caso foi possível tratar o que frequentemente já nem é remediável.
Proponho, agora, um elementar exercício de cálculo: quantos AVC's viria a ter o Eusébio se ganhasse 800 euros, não tivesse seguro de saúde, não parecesse Eusébio, e tivesse recorrido à urgência do hospital da sua área?
Compliquemos mais: tratando-se de uma vulgar tontura, que o cidadão comum não tem a obrigação de associar a problemas graves de saúde, imaginemos que Eusébio, que não se pareceria com o Eusébio, marcaria consulta no médico de família para daqui a 2 ou 3 semanas, o qual lhe haveria de passar uma guia para realização de electrocardiograma e análises - mas só algumas, porque os médicos têm plafond de exames, tal como os profs, de fotocópias de fichas. Os resultados haveria Eusébio de os mostrar ao respectivo clínico, dentro de 1 mês, 1 mês e picos, para que este, esperamos nós!, considerasse passar-lhe a necessária credencial de consulta externa no hospital, a qual lhe seria marcada, com carácter de urgência, ou seja, para daqui a 5, 10 meses, talvez mesmo um ano. Ou dois.
Quantos AVC's é que Eusébio teria tempo de sofrer?
Fico feliz por saber que um cidadão foi correctamente assistido, e alvo de intervenção cirúrgica, num curtíssimo espaço de tempo. Eis um exemplo de excelente acção médica. Intervindo precocemente, podem evitar-se problemas graves e incapacitantes. Portanto, neste caso foi possível tratar o que frequentemente já nem é remediável.
Proponho, agora, um elementar exercício de cálculo: quantos AVC's viria a ter o Eusébio se ganhasse 800 euros, não tivesse seguro de saúde, não parecesse Eusébio, e tivesse recorrido à urgência do hospital da sua área?
Compliquemos mais: tratando-se de uma vulgar tontura, que o cidadão comum não tem a obrigação de associar a problemas graves de saúde, imaginemos que Eusébio, que não se pareceria com o Eusébio, marcaria consulta no médico de família para daqui a 2 ou 3 semanas, o qual lhe haveria de passar uma guia para realização de electrocardiograma e análises - mas só algumas, porque os médicos têm plafond de exames, tal como os profs, de fotocópias de fichas. Os resultados haveria Eusébio de os mostrar ao respectivo clínico, dentro de 1 mês, 1 mês e picos, para que este, esperamos nós!, considerasse passar-lhe a necessária credencial de consulta externa no hospital, a qual lhe seria marcada, com carácter de urgência, ou seja, para daqui a 5, 10 meses, talvez mesmo um ano. Ou dois.
Quantos AVC's é que Eusébio teria tempo de sofrer?
quarta-feira, março 21, 2007
Acredito no Estado
Vamos imaginar que um de nós cai das escadas abaixo, arranha-se, faz umas nódas negras, sente-se um bocado desequilibrado, especialmente magoado no braço esquerdo, e resolve ir ao hospital para que lhe façam uma radiografia de urgência; para ser examinado. Neste caso, para além da espera habitual, quase sempre excessiva, pagam-se oito euros e meio de taxa e a coisa fica por aqui; não exista necessidade de exames complementares!
Mas imaginemos que João Silva chega a casa naturalmente chateado porque o FCP perdeu, o Pintinho foi engaiolado por se terem provado todas as declarações da ex-esposa, o Gomes do escritório ganhou-lhe à bisca, e, como se não bastasse, verifica que a esposa não tem o jantar quente, e o pó não é limpo vai para três dias; o Silva resolve, justificadamente, e porque uma mulher está ali para o mau e para o pior, assentar-lhe uma carga de porrada das antigas.
Vamos supor que a senhora fica mal, mas arranja força, na manhã seguinte, para ir ao hospital, onde lhe comunicam, no momento da inscrição, que, para ser atendida, terá de pagar não só a habitual taxa moderadora, mas um valor acrescido de 143,50 euros, associado ao atendimento de vítimas de violência em urgências hospitalares.
Esta situação ocorreu no Hospital de São Bernardo, em Setúbal, há duas semanas, tendo a utente Filomena Ferreira decidido não usar os serviços, não só porque não tinha dinheiro, mas também por recear que a imputação, ao agressor, do referido montante, suscitasse novo ensaio de pancada. O hospital deixou-a ir.
Eu pasmo. Agora, os serviços hospitalares estatais tornaram-se equivalentes ao comércio de secos e molhados: pagas, levas, não pagas, cheiras! Agora, deixa-se uma vítima de violência ir embora sem que lhe seja prestada assistência, porque não pode pagar nem pretende apresentar queixa!
Quais são as prioridades de um serviço de saúde público? Informar sobre taxas moderadoras e cobrá-las?! Castigar as vítimas?! Como terão resolvido a situação com a mulher de Estarreja que há pouco tempo deu entrada no hospital de Aveiro, após ter sido alvejada a tiro de caçadeira pelo marido? Alguém terá mandado o funcionário administrativo saber se pagava ou fazia queixa, sendo que a senhora pediu dez minutos para reflectir, se fizessem favor, e assentiu depois, que já lhe faltava o sangue, altura em que, finalmente, deram início à avaliação do seu estado?! E quando as vítimas chegam inconscientes?! Apelo às vítimas para que cheguem à urgência o mais inconscientes que conseguirem! Apelo às vítimas para que se atirem dum primeiro andar mesmo que já tenham as duas pernas partidas! Ou que mintam. Afinal tropeçaram no fio do aquecedor, escorregaram à saída de casa... Hoje em dia, em Portugal, mentir é bom. Ah, eu hei-de mentir, a torto a direito, sempre que for preciso, e mesmo que não seja, que uma pessoa habitua-se. A mim, caso necessite de urgência hospitalar, tenham a bondade de me dar primeiro uma pancada no crânio! Que vá estendida!

Em tempos, acreditei que Portugal pós-ditadura fosse um lugar justo para se viver. Discuti à mesa, e creio ter vencido aos argumentos (o meu idealismo era tão puro, e eu acreditava tanto no mundo melhor cuja edificação iniciáramos!), defendendo que nossa contribuição colectiva para o bem geral criara uma democracia que, não sendo perfeita, funcionava sem privilégios, e garantia a todos iguais direitos. Acreditei que o Estado se responsabilizaria pela criação de mecanismos de vigilância capazes de assegurar que os valores do capital não pudessem jamais impor-se aos da humanidade. Eu acreditei no Estado como na Ciência!
Nos tempos que correm, Portugal transformou-se num condomínio privado muito mal frequentado, e eu, juro!, não fosse a minha mãe, que não posso transportar a tiracolo, e a quem devo atenção, amor e assistência, e estaria a escrever este blogue algures em Espanha, ou noutro sítio qualquer, bem longe do asco que este governo me causa! Este governo fede, e os fedores sempre me deram volta ao estômago! Ultimamente, nem o Eno me vale!
Eu ainda acredito no Estado! Eu ainda creio que só o Estado, enquanto entidade que nos representa, e que sustentamos, nos poderá garantir igualdade de acesso à saúde, à educação e à justiça. Mas o Estado - eu, vós - não pode permanecer indiferente, permitindo que o manipulem, lhe atem os pulsos. Aceitemos medidas de austeridade, se são necessárias para melhorar a economia, mas indiquem-nos um prazo de sacrifício razoável a partir do qual deveremos esperar resultados. O que querem de nós, afinal? Quais são os objectivos? Trabalhemos muito, mas não aceitemos que nos roubem direitos básicos. Nos últimos dois anos o espoliamento vem sendo diário, perante a indiferença generalizada do Zé e da Maria Povinho, que escolhem discutir futebol ao almoço, e comentar fait-divers mediatizados, ou seja, circo, circo, porque "não há nada a fazer". Há tudo a fazer! Só nos comem as papas na cabeça porque o autorizamos com o nosso silêncio, a nossa inacção; a culpa deste estado de coisas é nossa, não deles, na medida em que nos alheamos do que é a nossa obrigação de cidadãos e cidadãs: exigir do governo a protecção dos nossos direitos, não a sua delapidação, como nunca vi - e ainda vivi 12 anos em ditadura!
O princípio de uma revolução é precisamente este: a desobediência. Nenhum de nós pode desobedecer sozinho. Precisamos de reaprender a desobedecer em grupo, logo, sem medo. Justiça ou desobediência! A ver se um dia destes não acordamos, demasiado tarde, no tempo sombrio de uma manhã passada!
Esta situação ocorreu no Hospital de São Bernardo, em Setúbal, há duas semanas, tendo a utente Filomena Ferreira decidido não usar os serviços, não só porque não tinha dinheiro, mas também por recear que a imputação, ao agressor, do referido montante, suscitasse novo ensaio de pancada. O hospital deixou-a ir.
Eu pasmo. Agora, os serviços hospitalares estatais tornaram-se equivalentes ao comércio de secos e molhados: pagas, levas, não pagas, cheiras! Agora, deixa-se uma vítima de violência ir embora sem que lhe seja prestada assistência, porque não pode pagar nem pretende apresentar queixa!
Quais são as prioridades de um serviço de saúde público? Informar sobre taxas moderadoras e cobrá-las?! Castigar as vítimas?! Como terão resolvido a situação com a mulher de Estarreja que há pouco tempo deu entrada no hospital de Aveiro, após ter sido alvejada a tiro de caçadeira pelo marido? Alguém terá mandado o funcionário administrativo saber se pagava ou fazia queixa, sendo que a senhora pediu dez minutos para reflectir, se fizessem favor, e assentiu depois, que já lhe faltava o sangue, altura em que, finalmente, deram início à avaliação do seu estado?! E quando as vítimas chegam inconscientes?! Apelo às vítimas para que cheguem à urgência o mais inconscientes que conseguirem! Apelo às vítimas para que se atirem dum primeiro andar mesmo que já tenham as duas pernas partidas! Ou que mintam. Afinal tropeçaram no fio do aquecedor, escorregaram à saída de casa... Hoje em dia, em Portugal, mentir é bom. Ah, eu hei-de mentir, a torto a direito, sempre que for preciso, e mesmo que não seja, que uma pessoa habitua-se. A mim, caso necessite de urgência hospitalar, tenham a bondade de me dar primeiro uma pancada no crânio! Que vá estendida!

Em tempos, acreditei que Portugal pós-ditadura fosse um lugar justo para se viver. Discuti à mesa, e creio ter vencido aos argumentos (o meu idealismo era tão puro, e eu acreditava tanto no mundo melhor cuja edificação iniciáramos!), defendendo que nossa contribuição colectiva para o bem geral criara uma democracia que, não sendo perfeita, funcionava sem privilégios, e garantia a todos iguais direitos. Acreditei que o Estado se responsabilizaria pela criação de mecanismos de vigilância capazes de assegurar que os valores do capital não pudessem jamais impor-se aos da humanidade. Eu acreditei no Estado como na Ciência!
Nos tempos que correm, Portugal transformou-se num condomínio privado muito mal frequentado, e eu, juro!, não fosse a minha mãe, que não posso transportar a tiracolo, e a quem devo atenção, amor e assistência, e estaria a escrever este blogue algures em Espanha, ou noutro sítio qualquer, bem longe do asco que este governo me causa! Este governo fede, e os fedores sempre me deram volta ao estômago! Ultimamente, nem o Eno me vale!
Eu ainda acredito no Estado! Eu ainda creio que só o Estado, enquanto entidade que nos representa, e que sustentamos, nos poderá garantir igualdade de acesso à saúde, à educação e à justiça. Mas o Estado - eu, vós - não pode permanecer indiferente, permitindo que o manipulem, lhe atem os pulsos. Aceitemos medidas de austeridade, se são necessárias para melhorar a economia, mas indiquem-nos um prazo de sacrifício razoável a partir do qual deveremos esperar resultados. O que querem de nós, afinal? Quais são os objectivos? Trabalhemos muito, mas não aceitemos que nos roubem direitos básicos. Nos últimos dois anos o espoliamento vem sendo diário, perante a indiferença generalizada do Zé e da Maria Povinho, que escolhem discutir futebol ao almoço, e comentar fait-divers mediatizados, ou seja, circo, circo, porque "não há nada a fazer". Há tudo a fazer! Só nos comem as papas na cabeça porque o autorizamos com o nosso silêncio, a nossa inacção; a culpa deste estado de coisas é nossa, não deles, na medida em que nos alheamos do que é a nossa obrigação de cidadãos e cidadãs: exigir do governo a protecção dos nossos direitos, não a sua delapidação, como nunca vi - e ainda vivi 12 anos em ditadura!
O princípio de uma revolução é precisamente este: a desobediência. Nenhum de nós pode desobedecer sozinho. Precisamos de reaprender a desobedecer em grupo, logo, sem medo. Justiça ou desobediência! A ver se um dia destes não acordamos, demasiado tarde, no tempo sombrio de uma manhã passada!
segunda-feira, março 19, 2007
Para que serve o Serviço Nacional de Saúde?

A minha mãe aguarda há sete meses por uma consulta urgentíssima, da especialidade de reumatologia, no Hospital Garcia da Horta. Hoje, a médica de família disse-lhe que, se calhar, talvez, seria bem possível ter-se perdido a credencial algures pelos meandros do processo - e não lhe passou outra! É que a médica de família sabe que já lhe arranjei um bom médico particular, a 80 euros por consulta, o qual, por acaso, só consegui, porque um melhor amigo da blogosfera me indicou um profissional seu conhecido.
O tempo de um gelado no McDonalds
Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...
