Com um bocado de sorte, e cansaço, e raiva dos americanos, é provável que dentro de nove meses Barak Obama seja eleito presidente dos Estados Unidos da América.
Até há pouco tempo não acreditaríamos que um homem negro tivesse hipótese de chegar à presidência dos EUA. Seria necessário esperarmos 50 anos. Talvez 80. Dizíamos. Parecia-nos muito mais provável que os americanos, influenciados pela Europa, escolhessem eleger, primeiro, uma presidenta. Hillary Clinton, naturalmente. Mas Hillary não parece prometer mudança com a autenticidade de Obama nem com a mesma voz, as mesmas mãos. Hillary esteve no sistema. Está. Não há grande garantia de que não seja mais do mesmo. Não convence. Ou melhor, não suplanta Obama, que discursa como um pregador, como um Luther King, um negro. Escutei o seu recente discurso da vitória, na Carolina do Sul, e apanhei-lhe a prosódia sincopada, arrastada nas palavras-chave, de quem ouviu com muito atenção o registo de I have a dream. Ele evoca de novo, aos americanos, esse sonho amputado de justiça para todos.
Mas Obama é, acima de tudo, uma ideia tornada possível por um produto televisivo. Quando, a 4 de Novembro, próximo futuro, tiver vencido as eleições, e eu espero que sim, agradecerá primeiro à mulher e às filhas, que pouco o viram no último ano, dirá assim, e, em segundo, aos guionistas, realizadores, produtores e actores envolvidos na série 24; só depois aos cérebros da sua campanha. Seria justo. Antes da série 24 nos ter posto perante a figura de um digno presidente americano, negro, nunca tal nos teria parecido possível. Era ficção. Real apenas enquanto ficção. Eis como um produto de televisão é responsável pela rápida materialização de uma utopia.
Até há pouco tempo não acreditaríamos que um homem negro tivesse hipótese de chegar à presidência dos EUA. Seria necessário esperarmos 50 anos. Talvez 80. Dizíamos. Parecia-nos muito mais provável que os americanos, influenciados pela Europa, escolhessem eleger, primeiro, uma presidenta. Hillary Clinton, naturalmente. Mas Hillary não parece prometer mudança com a autenticidade de Obama nem com a mesma voz, as mesmas mãos. Hillary esteve no sistema. Está. Não há grande garantia de que não seja mais do mesmo. Não convence. Ou melhor, não suplanta Obama, que discursa como um pregador, como um Luther King, um negro. Escutei o seu recente discurso da vitória, na Carolina do Sul, e apanhei-lhe a prosódia sincopada, arrastada nas palavras-chave, de quem ouviu com muito atenção o registo de I have a dream. Ele evoca de novo, aos americanos, esse sonho amputado de justiça para todos.
Mas Obama é, acima de tudo, uma ideia tornada possível por um produto televisivo. Quando, a 4 de Novembro, próximo futuro, tiver vencido as eleições, e eu espero que sim, agradecerá primeiro à mulher e às filhas, que pouco o viram no último ano, dirá assim, e, em segundo, aos guionistas, realizadores, produtores e actores envolvidos na série 24; só depois aos cérebros da sua campanha. Seria justo. Antes da série 24 nos ter posto perante a figura de um digno presidente americano, negro, nunca tal nos teria parecido possível. Era ficção. Real apenas enquanto ficção. Eis como um produto de televisão é responsável pela rápida materialização de uma utopia.

