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quinta-feira, novembro 30, 2006

A normalidade da normalidade

A Micas fez uma otite. Reparem como digo "fez". Podia escrever "tem", mas não. Sinto-me tão normal por usar este código. Vou repetir, a cadela "fez uma otite". Para comemorar, se calhar até vou ligar a uma colega com três filhos só para lhe dizer, "Maria da Remediação, a minha menina fez uma otite: está cheia de dores."
Para além da otite, hoje, como é perceptível, sinto-me muito expirada.

terça-feira, março 21, 2006

Estado Novo (segunda parte): o silêncio

Não faço a menor ideia do que é que ele diz nas sessões da Opus Dei nem nas noitadas no clube sado-maso nem ao senhor prior, todos os domingos, mas, na empresa, o que ele até diz é que não sobrevivem os maiores, mas os que se adaptam. Por outras palavras, não os bons, mas os mansos, os caladinhos.

quarta-feira, março 08, 2006

Espírito Santo de bolso (curso rápido)

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Se não tens pais ricos e não te saiu a lotaria, e por isso te sentes voluntariamente pressionado a contribuir para que façamos o especial favor de ser cada vez mais ricos à tua custa, vergando tu, sempre tu, claro, a mola, vem cá sustentar os nossos papás ricos, que te pagam ordenado para que a seguir lho devolvas em brutais prestações vitalícias que, contudo, te permitem respirar, dentro da gaiola, para que no-la possas agradecer.

quarta-feira, abril 13, 2005

Biologia para agricultores

On ne naît pas une femme: on le devient. Aucun destin biologique, psychique, économique ne définit la figure que revêt au sein de la société la femelle humaine; c’ est l’ensemble de la civilization qui elabore ce produit intermédiaire entre le mâle et le castrat qu’ on qualifie de féminin.[1]

Intriga-me a curiosidade mórbida que cada um dos meus vizinhos tem sobre as pessoas com quem durmo (ia dizer fodo, desculpem!). Não percebo o interesse.

A mim tanto se me dá que o Sr. Marques sodomize o Bernardo, do 2º dto, que está no 3º ano de Filosofia; que a Dona Maria do Céu e a Dona Maria da Piedade, do número três, brinquem com as bichaninhas uma da outra, todas as tardes; dia sim, dia não; como que o GNR de bigode, da cave esquerda, faça a mulher, à canzana, nos dias de folga... Façam o que quiserem, como quiserem, quando quiserem, desde que o façam com consentimento mútuo, e, de preferência, com pouco barulho!
Não me incomoda nada que aqui o Zezinho, do 4º esq., passe os fins-de-semana no regabofe com a namorada, enquanto os pais vão à terra; acho é que podiam baixar o volume, porque a banda sonora ouve-se toda no meu quarto, e aquilo não é para qualquer um – uma pessoa que não soubesse rezar o Pai-nosso e a Ave-maria poderia cair em tentações! Quem diria que o Zezinho, aquele menino tímido, introvertido de há 20 anos, fosse capaz de proporcionar tão sonora alegria à namorada: uma rapariga de óculos, com ar estudioso e católico!

Esta introdução vem a propósito da absoluta necessidade, da cultura falogocêntrica, em controlar a sexualidade das mulheres, em geral; e, em particular, das que, se destacam em áreas que, para os essencialistas biológicos, não lhes pertenceriam, dada a sua "natureza feminina": gritar, por exemplo, como Andrea Dworkin, atirar umas verdades incómodas, trancender a sua função biológica de parir e amamentar!
Uma mulher pode ter acabado de receber o Prémio Nobel, mas o que interessa é saber com quem a gaja dorme e se gosta de foder! Quantos homens e/ou mulheres teve. Importante é arranjar forma de as reduzir a uma insignificância qualquer. Chamar-lhes, com sarcasmo e cinismo, "sumidade"!
O Papa também acabou de morrer. Ninguém está interessado em falar da sexualidade do Papa? Supostamente, também não fodia... O Papa fez mais pelo mundo do que Andrea Dworkin? Teríamos de ver bem que interesses serviram um e outro. Qual deles “iluminou” mais, fez mais "milagres"?
(Não se preocupem - já recebi em casa a carta de excomunhão! Acho que não me posso casar pela Igreja; dizia lá!)

O que nos interessa se Dworkin era ou não lésbica, se fodia ou usava a cama para descansar entre conferências feministas? Quando morre um homem importante, um ícone qualquer, costumam referir-se às suas preferências na cama? Não, protegem-se-lhe as idiossincracias sexuais, e nunca se escreve, nunca, jamais, que o gajo era um sado-masoquista dos piores ou a maior bicha da Península Ibérica! Agora, a Virgínia Woolf e a Marguerite Yourcenar eram fufas. A Anais Nin e a Marguerite Duras, era o que viesse à rede...
Isto fode-me a sério!

O meu corpinho é meu; tão meu como o meu espírito. E com ambos faço o que me der na real gana. Sou totalmente dona de mim, e isso é que custa aos gajos! A posse que eu possuo sozinha.

Pela biologia, uma mulher nasce dotada de aparelho reprodutor e, de facto, pode reproduzir, se quiser; pela biologia, uma mulher nasce com o mais belo apetrecho orgânico criado pela natureza: um par de mamas; que ela usará para amamentar, se quiser. Porque o corpo das mulheres, o meu!, não pertence à merda da sociedade, nem aos homens, nem às outras mulheres; tal como, inquestionavelmente, o corpo dos homens lhes pertence em exclusivo! No que toca aos machos, a questão nem se põe. Um homem deve ou não desperdiçar sémen? Isso, sim, é um assunto de Estado! Um espermatozóide, desculpem lá, é metade de uma vida! Mas o assunto não vai à Assembleia da República nem é objecto de referendo. Os gajos não são julgados e sujeitos a pena de prisão por terem batido umas às escondidas!
- Então, olha lá, pá, o que é que andaste a fazer para vir aqui parar? Mataste? Roubaste? - pergunta o companheiro de cela.
- Tenho vergonha de dizer, ó 95... foi muito pior... estou arrependido... não imaginas como sofri! Mas teve de ser, não tinha outra saída: quando tinha 14 anos (soluços!) , num só mês amandei duas punhetadas valentes...! Agora denunciaram-me! Hoje já não o faria! Porque, acima de tudo, está o aumento da taxa de natalidade; acima de tudo, não matar metade de um filho... desperdiçar um espermatozóide ou matar uma criança que acabou de nascer, é a mesma coisa!
Chegar ao mundo equipadas com um aparelho reprodutor e a capacidade de amamentar não significa nada mais para além disso – reproduzir e fornecer leite! Os machos, se quiserem, podem ficar em casa criando a prole que fazem connosco; que, às vezes, até fazem sozinhos, enquanto olhamos para o tecto sem dar por nada! Podem muito bem, devidamente aculturados, ficar com o leitinho no biberon, já devidamente bombeado da teta materna, mudar a fraldinha, levantá-los para o arroto, levá-los ao jardim no carrinho, enquanto nós estamos a trabalhar, como eles sempre trabalharam, embora melhor.
Ou, em alternativa, deixam-se as crianças nas creches, onde encontraremos educadores e educadoras de infância habilitados(as), e onde estão muito bem! Porque nós queremos os homens livres, independentes e satisfeitos! Não que eles nos desejem o mesmo, mas nem todos podemos atingir, ao mesmo tempo, a mesma maturidade civilizacional!

Quando a minha consciência acordou e me interroguei sobre as diferenças que existiam entre mim e os meninos, descobri apenas uma: eles tinham uma pilinha e eu não. Na altura não fiz juízos de valor, embora não visse utilidade naquilo; hoje já faço: felizmente, não tenho esse penduricalho mal jeitoso! De resto, não havia nada que o Manelinho pudesse fazer ou pensar que eu não pudesse fazer ou pensar. E, se me tivessem explicado muito bem, “tu és uma menina, tens de ser forte e não chorar!"; "tu és uma menina e tens de ter força para trabalhar e sustentar a tua família"; eu seria forte, não chorava, desenvolvia a necessária força muscular para carregar bilhas de gás, e sustentava a família... Aliás, relativamente ao que acabei de enumerar, mesmo sem a aculturação necessária, só não cumpro um item.
Se o meu pai me tivesse chamado para o ajudar a mudar as lâmpadas dos faróis, eu saberia mudar lâmpadas de faróis... Se, ao Manelinho, o tivessem ensinado a fazer rendas e bordados, e a gostar muito de bebés, ele quereria fazer rendas e bordados, e, aos 17, começava a deter-se frente às lojas de roupinhas, deliciado com umas botinhas de lã esmeralda. Que pena o Manelinho não ter vindo devidamente equipado para parir! Haveria justiça. "Tens tu ou tenho eu?" No meu caso, não havia grande discussão, tinha ele! Eu ajudava, óbvio. Até podia apertar-lhe a mãozinha na sala de partos, e dizer "força, força; está quase; tu és capaz, força!"

Metade deste blog gostaria de informar que não está de luto. Algumas pessoas, as que gritam, as que chateiam com razão, as que vieram cá fazer alguma coisa, as que realmente interessam, "libertam-se da lei da morte".

[1] BEAUVOIR, Simone de (1949), Le Deuxième Sexe II. L´Expérience Vécue, Paris: Gallimard

O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...