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terça-feira, abril 29, 2008

Autobiografia

Foto: Pejotek

Não me venham com coisas sobre ser discreto e resguardar a esfera privada e manter as aparências e não dar a entender, como se cada livro que escolhemos, cada filme, cada poema não tivesse o infinito poder de nos conotar a um pensamento, um passado, uma memória, uma ideologia. Como é que cada um de vós pretende passar incólume por entre as largas colunas do templo da verdade, se as palavras que diz, a forma como as diz, os prende a um lugar, um tempo, um quotidiano, uma classe? Ninguém escreve nada autobiográfico! Mil cuidados. São apenas citações, ideias alheias. Como se as citações, as ideias alheias que recolhemos no nosso caderno não fossem o resultado das nossas necessidades e identificações. Como se não gritassem por nós o que não queremos gritar porque não temos coragem de arrancar o coração e mostrá-lo na mão, olhem, está aqui, aproveitem, façam o que quiserem, a mim já não serve.

sábado, março 29, 2008

A casa dele

Alfred Wallis, The Hold House, circa 1932



Não o incomodo. Não lhe dou trabalho. Fica tudo como estava antes de eu entrar. A sua vida igualzinha, sem tirar nem pôr. É assim todos os dias desde que arranjei a chave da sua casa. Custou-me muito, mas consegui, por mor de antigas cunhas e muito seguras. Quando estou cansada e vazia, e se ele não está, entro em silêncio, sento-me num sofá, e perco-me a contemplar os pormenores da mobília, a folhear os livros de família e os diários em gavetas. Como se ele estivesse na capa deste livro; as suas mãos terão folheado este livro; aperto-o contra o peito, com ternura; beijo-lhe a capa; cheiro-a de olhos muito fechados. Ele há-de estar ali. Remexo-me no sofá. Não o incomodo. Não perturbo uma leve aragem do seu dia. Tudo igual ao que era antes de eu ter nascido. Mas o seu corpo senta-se neste sofá. A sua roupa. Deve ter o seu cheiro. Se fosse uma cadela poderia cheirá-lo nesta coberta; que pena não ser uma cadela. Nascer, morrer, ter um dono. Percorro toda a casa, até a arrecadação, sobretudo as coisas velhas. O quarto onde dorme acompanhado, onde faz amor com a mulher que ama. Os seus ténis velhos. Um casaco castanho. A camisa de dormir com que a mulher cobre os seios que ele adora. E tanta dignidade. O quarto das crianças, que cheira tão bem, tão a novo. Que casa tão bonita, tão leve, despretensiosa. Que bem que se está na sua casa, que rescende a amor, sol e flores vivas. Saio recomposta. Suspiro como se tivesse calcorreado quilómetros e precisasse descansar. Ele está bem; que bom, saber que está bem, que é feliz, que poderia ser feliz, que é o único a sentir-se morto lá dentro.

quinta-feira, junho 07, 2007

Até ao fim do mundo

James Christensen

Recebi a seguinte mensagem de telemóvel vinda de uma pessoa chegada:

Passou por mim uma mulher cega, de uns trinta e pouco anos, que carregava junto ao peito um bebé recém-nascido. Um saco de compras numa mão e noutra uma bengala.

Nunca me tinham enviado uma mensagem tão longa.



quarta-feira, maio 02, 2007

Da verdade e da verosimilhança

Foto: Monika Wiechowska, Resting to the sun


Há uns tempos, poucos, li uma daquelas entrevistas do Mexia, nas quais costuma dizer que não sabe escrever, não vá alguém lembrar-se de lhe avançar a crítica. Enquanto defesa é boa técnica. Podemos sempre retorquir, em tom blasé, à primeira contrariedade, "nada que eu próprio não tivesse já dito". No caso de Mexia, considero despropositado: que o rapaz escreve graciosa e claramente, e nos entretém, não me parece haver dúvida.
Na mesma entrevista, Mexia expunha a sua teoria sobre intimidade e privacidade. No seu particular caso literário, Mexia procura criar intimidade, mas recusa a exposição da privacidade, a qual ocorre quando um autor apresenta referências precisas: nomes, datas e locais - e isso ele não faz.
No entanto, com ou sem referências precisas, com ou sem escancaramento da privacidade, quem lê Mexia e, nomeadamente, o seu Estado Civil, julga tudo saber sobre vida íntima do escritor: e, claro, vai espalhando que o rapaz é o que escreve, ou seja, que não fode nem sai de cima, o que, se calhar, é capaz de ser injusto!
Para o leitor, que diferença é essa, afinal, entre íntimo e privado, vocábulos sinónimos para designar realidades só nossas, pouco mais ou menos secretas, que não desejamos ver conhecidas? Não é tudo a mesma coisa? Talvez não, de facto. Talvez Mexia tenha razão, mas é uma tarefa inglória. Para o leitor, se Mexia diz que não fode, se, portanto, há ali alguém que não fode, só pode ser o Mexia. Se está na 1ª do singular, é exposição da experiência íntima, privada. Se está na 3ª, é um disfarce de vivências privadas que não nos atrevemos a contar, mas que o leitor capta a léguas, que ele não é parvo! Portanto, quer Mexia escreva sobre um raio dum fungo no pé, que não desaparece após quilos de Canesten aplicado duas vezes ao dia, ou sobre o tesouro escondido do rei da Prússia, estará, em última análise, sempre, a descrever-se intimamente. Portanto, nada de justificações. Para quê explicações? Não vale a pena. O que as pessoas querem, muito naturalmente, e isso é inevitável, é identificar-se com as experiências alheias. "Ah, que bom, eu não sou o único!" "Ah, olha, tal e qual como eu!"
É por isso que me estou nas tintas para as subtis diferenças entre íntimo e privado. O que é verdade e o que é mentira?! Cá no meu blogue é tudo verdade! É tudo íntimo, é tudo privado, é tudo secreto, as referências são todas verdadeiras! Cá no meu blogue, até me regalo de começar um texto revelando intimidades inauditamente privadas, e comprovadamente verídicas, como, por exemplo, "Nessa tarde, a minha mãe chegou mais cedo e apanhou o primo Jorge a sodomizar-me no sofá azul da sala, de frente para a janela da rua. Foi na antiga casa da Barrocas, uma semanas depois de ter morrido o filho da D. Maria, em Paris, carregadinho de Sida. Quão distantes vão esses dias de 1989!"
E é assim, meus amigos. Agora desculpem-me, que tenho de ir lavar a passarinha, porque me estão a dar umas comichões bárbaras; é que andei hoje muito a pé, e como tenho a perna gorda, e as coxas roçam uma na outra, e transpira-se... é chato; e a ver se ainda faço uma sopa de espinafres para jantar, depois de lavar as mãozinhas, claro.

sexta-feira, abril 20, 2007

Eles comem tudo e não deixam nada

Coitado do senhor primeiro-ministro! Os exames ou trabalhos de licenciatura foram-lhe todos destruídos pela universidade sem quaisquer escrúpulos. Como se não bastasse, os serviços parlamentares deram sumiço aos documentos originais constantes do seu registo biográfico. Desapareceu tudo. Kaput! Que azar! Que perseguição maldita! Que coincidência fatal!
Espanta-me a falta de respeito com que neste país se tratam documentos relativos a um Secretário de Estado, a um deputado. Aposto que os meus registos profissinais, exames e outros, porcarias que não interessam ao Menino Jesus, estarão a criar bolor em arquivo morto, algures. Realmente, não há como ser-se um cidadão vulgar, e cumpridor, sem papel timbrado, para que a nossa inútil memória escrita perdure através dos séculos. Já os dados referentes a indivíduos com altos cargos em responsabilidade e honra, os quais interessaria conservar para efeitos biográficos, e elaboração da futura história económica e política, desaparecem sem rasto, sistematicamente. Corre-se o risco de nunca se vir a saber a verdade sobre o esforçado percurso de tão insignes personalidades.

domingo, abril 08, 2007

Finalmente, toda a verdade sobre a licenciatura de Aristóteles

Certidão de licenciatura de Aristóteles, onde pode ler-se, e passo a traduzir, "e atesto que Sua Excelência obteve 17 a Filosofia Esforçada, 18 a Análise Socrática, etc., etc.", datado de domingo, tantos do tantos do ano tal.


Aristóteles começou a filosofar muito cedo. Sonhava acabar o curso de Filosofia iniciado na Academia de Atenas, mas não tinha tempo. Vivia enfronhado em discussões com outros filósofos, comissões de Filosofia, eleições para cargos filosóficos, Deus saberia!
Aristóteles tinha desgosto. Embora ganhasse para despesas e desperdícios, não era doutor, e quando alguém o chamava por senhor Aristóteles, assim só, não lhe soava bem.
Numa helénica tarde de domingo, um amigo relativamente chegado lembrou-lhe a recente fundação de uma nova escola de Filosofia, ansiosa por reconhecimento. "O director é meu amigo, pá, e foi colega do meu pai, vais lá falar com ele: o gajo resolve-te isso."

Na segunda, logo de manhã, Aristóteles bateu à porta do director da Nova Escola:
- Senhor Professor, venho aqui por sugestão de...
- Senhor Aristóteles, não diga nada; ora sente-se, meu amigo, já me telefonaram, já me puseram ao corrente da sua situação. Que aborrecimento, realmente! Mas isto são só pró-formas, não se amofine. Com os miúdos é outra coisa: não têm experiência! Agora o senhor, uma pessoa com competências ganhas na labuta filosófica... não se justifica! Não imagina a estima que lhe tenho! Devo dizer-lhe, senhor Aristóteles, que para a nossa Escola é uma honra tê-lo cá. Pois, muito bem, vejamos, mostre-me a folhinha que aí traz... isto são pró-formas, já se sabe... Ah, mas já aqui tem um ror de cadeiras completas! E notas baixas, coitado! O que eles pedem na Academia! Que exagero! Para formar um Filósofo! Pois, muito bem, vejamos, isto resolve-se com umas dez... ora deixe cá ver... sete... bem, mais cinco cadeiras, seja. Uma delas há-de ser Chinês Técnico, que é do meu pelouro. O Chinês faz falta por causa da bibliografia. O Senhor Aristóteles fala chinês? Ah, óptimo, claro que isto é só um pró-forma, mas, se já fala, ajuda muito. As restantes, assim a olho, deixe cá ver o que hei-de dar-lhe, salvo seja: Filosofias Especiais, Filosofia Esforçada, Análise Socrática... já estudou Sócrates a fundo, senhor Aristóteles? Pode ser complexo, mas não podemos iludir as basezinhas! E o projecto de dissertação, já se sabe! Que lhe parece?! Mas combina depois com o professor que lhe atribuirei. Na verdade, a Nova Escola é recente, e ainda não temos estrutura montada para o seu nível; mas também não é preciso, tudo se arranja, e para o senhor Aristóteles faz-se uma atençãozinha.


Aristóteles manuscrevendo com letra muito grande, e muito espaço entre linhas, uma página inteira de Chinês Técnico, a qual mandaria entregar ao senhor professor para obter aprovação na respectiva cadeira


Aristóteles saiu confiante. No dia seguinte,
haveria de falar com o professor - caso este não se encontrasse a acumular funções noutra escola qualquer - e logo se veria.
Na terça, encontrando o professor designado, Aristóteles pretendeu esclarecer os seus propósitos:
- Caro Professor, vim ter consigo a mando de...
- Oh, Senhor Aristóteles, pois já me informaram... pretende, então, concluir o seu curso na Nova Escola?! Fez muito bem em escolher-nos; não estamos aqui para cortar as pernas a ninguém, como na Academia. Diga-me o que manda o senhor director? Filosofias Especiais, Filosofia Esforçada, Análise Socrática, projecto...
pró-formas! Senhor Aristóteles, o senhor, um Alto Secretário de uma conceituada Associação de Filosofia, acumulando já inúmeros cargos da mesma natureza, encontra-se versado nestes assuntos melhor que qualquer finalista! Coisas primárias para quem se treinou na filosofia da vida, como vossa excelência. O senhor está formadíssimo! Falta-lhe o canudinho, mas não será por entrave meu! A estima que lhe tenho! E não só, veja bem: tenho uma nora recém-formada em Direito que igual estima manifesta por vossa excelência. Ainda no outro dia a rapariga me disse, "o meu sonho era trabalhar na associação do senhor Aristóteles, auxiliando-o a concretizar os seus ideais filosóficos!" Ah, senhor Aristóteles, não quero dar-lhe trabalhos! Veja lá! Sendo assim... muito obrigado! Lá lhe direi! Resolvamos a questão das suas cadeiras: não compliquemos: o senhor Aristóteles terá já lido qualquer coisa sobre Filosofias Especiais? O índice?! ...chega, chega, pois muito bem! E Esforçadas? Já ouviu dizer que em alguns casos é preciso recorrer às Esforçadas?! Ah, já as aplica! Que limpeza, realmente! E, já agora, no que respeita a Análise Socrática... não ignorará que a filosofia de Sócrates praticamente destruiu o ... isso! Mas o que faço eu aqui?! O senhor é já doutor! Para elaborar dissertação é que vai ser pior, não é verdade?! Pois, muito trabalho na associação... compreendo... Façamos assim, senhor Aristóteles, não vale a pena estarmos com burocracias que, no seu caso, só atrapalham. Escreva qualquer coisa em Chinês Técnico, um pró-forma para o senhor director, que logo falaremos sobre a sua situação. Este caso é especial, bem se vê.


Aristóteles trocando impressões com o professor que lhe deu, salvo seja, quatro cadeiras no mesmo ano


Foi assim que, de pró-forma em pró-forma, após duas deslocações à Nova Escola, sete faxes, catorze chamadas telefónicas e três envios do estafeta da associação, Aristóteles, grande filósofo grego, cuja supremacia ideológica se estende aos nossos dias, logrou obter o almejado diploma de Filosofia, vitória que, anos antes, tanto prometera à mamã.

terça-feira, março 06, 2007

A verdade não é normal


Algumas mulheres têm bom sexo, outras arranjam mulher-a-dias. Raramente uma mulher consegue acumular as duas vantagens. A mim calhou-me a mulher-a-dias. Não é que eu não possa com o trabalho da casa, mas regras são regras, portanto venha de lá alguém que me passe a ferro a roupa difícil, os lençóis tipo saco, e me limpe a fundo a cozinha e a casa-de-banho.

Antigamente, eu era ingénua e dizia a verdade. Nos tempos em que eu era ingénua, as pessoas respondiam-me, “hum, hum”, e calavam-se. E desprezavam-me em silêncio, ou não. As pessoas não querem ouvir a verdade. É simples demais, não se encaixa nos moldes. A verdade não é normal. As minhas mulheres-a-dias, guardiãs da normalidade, sempre me fizeram muitas perguntas, porque não compreendiam a minha vida, não lhes entrava na cabeça que uma mulher como eu vivesse sozinha numa casa com dois quartos, uma sala enorme, sem marido, sem filhos. Que defeito terei eu?, perguntam-se. Por que não vou viver com a minha mãe, que sempre saía mais barato?, perguntam-se. Depois, o passatempo das minhas mulheres-a-dias é inventarem-me uma vida. Se tenho pontas de cigarro no cinzeiro, tive companhia, e foi homem. Se peço que me façam de lavado a cama do quarto onde não durmo, vou ter companhia, e quem será senão conquista recente. Se me encontram na caixa do supermercado, comprando uma garrafa de vinho, entre bróculos, iogurtes queijo e pêras, vou ter festa, existirá um eleito, e por aí fora.

Ontem, veio cá a casa, pela primeira vez, a minha nova mulher-a-dias, e eu resolvi mudar de estratégia. Sinto-me cansada de ser olhada como uma freak. Uma desajustada. Ou uma coitadinha, uma que não se arrumou, que não tem código de barras em sítio algum da pele.

As mulheres-a-dias fazem muitas perguntas. A partir do momento em que nos entram em casa acham que lhe pertencem tanto como o aspirador, que possuem direitos especiais sobre a intimidade de cada uma das paredes. Fazem comentários sobre a sujidade, o tipo de sujidade, e o nosso desmazelo. A minha mãe tem um método eficaz para evitar a censura das mulheres-a-dias: limpa a casa toda antes delas chegarem, para que não vão depois criticá-la por tê-la suja. Eu não vou tão longe. Se estou a pagar para me limparem o cotão debaixo da cama, então é porque tenho direito ao cotão debaixo da cama.

A recentíssima dona Luísa não escapa à tradição das mulheres-a-dias. Assim que enfiou o avental sentiu-se investida do poder legal de me interrogar. E começou o questionário que eu já esperava: “Vive aqui sozinha?”
"Não, não senhora, tenho marido, mas trabalha fora e só vem de mês a mês". Isto sossegou-a durante alguns minutos. Os maridos trabalharem fora é habitual. As mulheres esperarem-nos, também. Se há escassez de trabalho, é natural os maridos procurarem-no onde existe. A dona Luísa sempre teve o dela emigrado, criou a filha sozinha, sabe bem o que isso é.

Passado um bocado continuou, “Não tem filhos ou já saíram de casa?” Esclareci que ainda não tinha. “Ah, mas ainda quer ter?! Que idade é que tem?! Foi quando eu achei por bem rejuvenescer-me: 38!
“Ah, pois, ainda está muito a tempo! Agora têm-nos cada vez mais tarde. Depois dos 40 é que já é pior! Eu tenho 46, e já não posso – disse-me - e também já não tenho marido!”
“Então, mas onde é que o seu marido trabalha?!”
“Em Espanha!”, respondi-lhe.
"Em Espanha é longe, assim nunca mais consegue ter filhos! Você não vai lá?!" Disse que ia. “E quando vai fica onde?” Ela é esperta, e eu sou nova na profissão, por isso respondi, inadvertidamente, "na casa dele". “Ah, ele tem lá casa?! Então não são casados, pois não?!” Lembrei-me que não tinha aliança. Podia mentir, dizer que a aliança me provocava alergias, que tinha deixado de me servir, mas seria pouco convincente; eu queria uma vida plausível, vulgar. Ela pensaria que eu estava a mentir ou que tirava a aliança na ausência do macho, e era uma adúltera, e eu queria muito passar neste exame de mulher mais normal do universo, afastada do companheiro amantíssimo, mas aguardando-o fielmente; ser respeitável. Nunca fui uma mulher com direito a ser respeitada, como as outras, as casadas, e até as divorciadas, por isso é natural que alimente uma certa curiosidade. Nas circunstâncias em que me tinha colocado, seria preferível confessar que afinal não era bem casada, realmente!, que vivia maritalmente, pelo que lhe respondi que não, que efectivamente ainda não éramos casados. “Eu também não casei logo”, afirmou a dona Luísa, sossegando.

Respondi a mais umas curiosidades que manifestou, e mesmo não lhe perguntando nada da sua vida, fui ouvindo tudo o que me contava. Sinceramente, o seu percurso é demasiado vulgar para merecer um poste. Espero que o meu lhe tenha parecido igual. Acho que passei no crivo da normalidade. Acho que passei mais ou menos. Elas nunca me respeitarão verdadeiramente, porque eu não visto os fatos e as blusas das mulheres honestas, não me pareço com o que é suposto parecerem as mulheres da minha suposta condição, e não tenho naperons, e não falo de receitas e de novelas nem desse grande tema de preferência internacional, que é a vida dos outros. Sobretudo, porque não sou capaz de lhes falar arrogantemente, de cima para baixo, como até gostam. De maneira que, por muito que me esforce, nunca sinto uma aprovação incondicional.
Mas, ontem, admito, não fui mal. Ontem, iniciei-me na mentira, e gostei. Soube-me tão bem mentir! Enquanto mentia, sentia que me vingava de qualquer coisa que nunca terei sem alinhar no jogo de parecer ser, a partir do qual a vida normal se constrói. Que através da mentira era eu quem controlava, só eu, finalmente, vedando-lhes a possibilidade de me conhecerem, de me julgarem, de me olharem de lado, abanando as cabeças, julgando-me na exacta medida do preconceito sobre o qual assentam perfeitíssimas vidas normais. Senti que o meu jogo era melhor. O meu era jogo puro, não se confundia com o jogo real, inassumido, das suas vidas; o meu, apenas as imitava. Senti a adrenalina dos mentirosos, dos bluffers. Eu que fui ensinada a não mentir. Eu que sempre pensei que a mentira fosse má. Ontem, fiz o que estava certo. Menti. E ganhei.

sábado, fevereiro 04, 2006

O real e a palavra

A palavra fabrica a realidade. O real existe no silêncio, mas é a palavra que o exprime e torna perceptível. Uma existência privada do usufruto verbal, enquanto emissora ou receptora, não possui acesso a um mundo inteligível. Não o compreende, não pode recebê-lo, não pode devolver o pensamento criando novas realidades.

A palavra é a coisa, mesmo na ausência do objecto. A palavra é a terra. Frutifica, constrói. A palavra é o fogo. Trespassa, esmaga, destrói. Não precisamos de bombas para matar, basta-nos a palavra. Digo “bomba”, e morrem setenta pessoas. A última arma inventada é de todas mais simples, e os custos de produção são nulos: a linguagem verbal.

A este propósito, uma história que contei, há dias, numa caixa de comentários de outro blog: tive, em tempos, na mão esquerda, uma cicatriz que a atravessava na diagonal. Um rasgo escuro sobre a pele. Um salpico de óleo a ferver, enquanto fritava rissóis. Perguntavam-me, com frequência, o que tinha sido. Um dia, farta da enfadonha história real, “estava a fritar rissóis...” resolvi brincar com o assunto, e inventei um contexto que me pareceu inverosímil. Gosto de gente feliz ao meu redor.
“Quando era criança, acompanhando o meu pai numa caçada aos cudos, em Manjacaze, fomos subitamente atacados por um tigre esfomeado, que vigiava a mesma manada. Fui a presa seleccionada, por ser a mais frágil, mas a fera, antes de cair abatida por um tiro de espingarda, alcançou-me, ainda, derrubando-me com uma patada que me rasgou a mão. Esta é a marca!”
Disse isto com ar normal, e sem drama, não me ri. Um humorista não se ri das piadas que conta, ou a anedota não resulta. Quando acabei a história, e pude apreciar o silêncio dos ouvintes, não tive coragem de me desmentir. Não por mim, mas porque seria decepcionante. Admiravam-me.
A partir desse dia tornei-me uma pessoa respeitada. A cicatriz feita pelo óleo quente dos rissóis tornou-me alguém. Eu tinha enfrentado a morte e sobrevivido.
O meu pai foi realmente uma vez, que me lembre, à caça de cudos, perto do Xai-Xai. Não chegou a disparar a arma. Mulheres e crianças ficaram nos carros. Os homens regressaram de mãos vazias. Nunca vi um tigre na vida, a não ser no Jardim Zoológico.
Infelizmente, com o tempo, a mancha desapareceu.



O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...