Milhares de imigrantes clandestinos africanos tentam chegar à Europa em botes. Hordas de homens e mulheres e crianças, dos quais uma percentagem significativa morre. Naufragam, são mortos, não se sabe.
Os deportados levam notícias. Pelas Canárias, por Gibraltar, é impossível. Apesar de tudo, essas pessoas muito jovens estão dispostas a correr esse risco sem rede, sem regresso: morrer. Apesar de tudo, acorrem em magotes às muralhas da fortaleza. Querem saqueá-la? Destruí-la? O que querem eles afinal? Querem destruir a terra para onde pretendem fugir? No dia em que para sobrevivermos tivermos de fugir para Marte, quereremos destuir Marte?
Não têm lugar neste feudo europeu? Não temos trabalho para dar a estes homens? Em sítio nenhum? Não precisamos de gente activa, de gente que produza, que se reproduza?
Ah, eles precisam de pouco para viver, logo, aceitam trabalhar por valores abaixo dos que aceitamos, logo vêem criar desemprego entre os nossos? Ah, eles precisam de pouco? Então, porque precisamos nós de tanto?
E como pode um negro vir criar desemprego se num número elevado de empresas a sua candidatura está à partida excluída, ignorando-se a lei?
Como pode um negro aceder a um emprego numa clínica privada?
Não precisamos de repovoar o interior. Incomoda-nos assim tanto que a beira produza negros e mulatos?E que os subúrbios das cidades produzam negros rejeitados por uma sociedade na qual quiseram integrar-se e não lhes foi permitido. Isso não nos incomoda?