Os portugueses são calorosos? O país é caloroso: a geografia, o clima, não a população. Enfim, um ou outro, mas não de forma generalizada. Claro que os homens das obras, das descargas, do talho são sempre muito calorosos com as fêmeas que passam, mas esse é um outro tipo de aquecimento!
Os portugueses são empertigados, não dialogam; não há nenhum que não se sinta superior ao outro, que não o olhe de viés, que não esteja pronto a cortar-lhe na casaca.
Deitar abaixo é o nosso desporto nacional. O Miguel Esteves Cardoso, a Clara Ferreira Alves, a Inês Pedrosa, a Maria Filomena Mónica, qualquer cronista dedicado à existência lusitana, abordou já o assunto, com argumentos imbatíveis
Não gostamos de nos entreajudar; desconfiamos como ponto de partida; não nos entregamos, porque tememos o julgamento do outro, porque não confiamos em garantias de confidencialidade. Sabemos que uma confidência será pública, mais tarde ou mais cedo. Não acreditamos em ninguém.
Li, algures, que, os ingleses, o que mais temem na vida é sentirem-se embaraçados por uma situação; parecer ridículos. Não será por acaso que mantemos com eles uma aliança de séculos: nós também!
A minha prima afastada, que, para todos os efeitos, é aquilo a que em inglês, se chama,
a pain in the ass, tem uma função neste mundo: não me deixar respirar nem soltar a franga... Manda-me “olhos”, diz que não me conhece, vai-se embora, solicita-me compostura. Isto, se me lembrar de falar alto; dar uma gargalhada no café; se pedir um favor a um desconhecido; se meter conversa com quem passa, com alguém sobre quem sinta curiosidade; se der um passo de dança na Fnac, enquanto ouço um disco; se abrir os braços virada para o Tejo e gritar “acaba não, mundão”.
Ai, que vergonha, se alguém está a olhar. Se alguém me vê. Vão pensar que eu sou maluca, mas mais grave, que ela acompanha uma maluca.
Em Portugal, perguntar à senhora sentada na mesa ao lado qual a marca do fabuloso perfume que usa, é uma vergonha. Claro que pergunto!; as senhoras, hesitantes, mas apanhadas, lá dizem. Algumas ficam a olhar-me curiosamente enquanto me afasto descontraidamente, após agradecer a informação. Outras, normalmente as mais velhas, e essas são as minhas preferidas, aproveitam para me contar a história toda das suas vida, começando por quem lhes deu o perfume e porquê.
Eu gosto tanto de falar com os outros, como de os ouvir. É um prazer meu.
Sinceramente, estou-me refodendo para o que pensam de mim; se me acham maluca: quero lá saber. Eu, que me sinto tão portuguesa, que sou, de facto, tão portuguesa, não compreendo o medo do outro. A fobia social do outro. E, na necessidade de o enfrentar, a fobia social do que o outro pensará de nós.
Quando vamos de visita à terra, a minha mãe sugere-me a roupa que devo levar: nada de calças de ganga, nada de descontracções. Roupa formal, roupa decente. Para que a família não me julgue uma qualquer, uma que não sou. Eu não sei bem se não sou uma qualquer. Tenho dúvidas. E não obedeço.
Pergunto-lhe se a opinião que formarão de mim assenta na roupa que visto ou no que manifesto ser. Ela responde-me que eu fazia melhor em nunca abrir a boca. Quem não fala não se afunda. Eu afundo-me. Digo o que penso, o que sinto, afundo-me.
Sou o desgosto da minha mãe, da minha prima afastada - porque não possuo "desconfiança primordial ao contacto".
Sou uma alienígena!