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quinta-feira, agosto 07, 2008

Casos da vida - Dany e Vanessa


Sinais exteriores de riqueza


Não têm emprego e pagam a renda da casa de seis em seis meses, só quando a mãe dela vem de visita, limpa a casa e deixa o frigorífico com comida para uma semana, em taparueres da loja dos chineses. O rendimento social de insersão mal lhes dá para carregar o telemóvel com valor suficiente para o envio de mensagens, onde se lê, liga-me que não tenho saldo. Cravam cigarros à malta do café, mas não consomem, apenas se sentam na mesa alheia. Às vezes pagam-lhes uma bica. A malta. À noite, encostam-se ao muro da praça emborcando Sagres choca, que compram no supermercado às garrafas de litro. Podem não ter um Ferrari, nem uns tenis de 200 euros, nem sequer um euro e noventa para o bilhete de autocarro para a Costa, mas têm um pit-bull de orelhas cortadas, de ar feroz, coleira de picos, trela curta. E um pit-bull... um pit-bull mete respeito.

domingo, abril 08, 2007

Finalmente, toda a verdade sobre a licenciatura de Aristóteles

Certidão de licenciatura de Aristóteles, onde pode ler-se, e passo a traduzir, "e atesto que Sua Excelência obteve 17 a Filosofia Esforçada, 18 a Análise Socrática, etc., etc.", datado de domingo, tantos do tantos do ano tal.


Aristóteles começou a filosofar muito cedo. Sonhava acabar o curso de Filosofia iniciado na Academia de Atenas, mas não tinha tempo. Vivia enfronhado em discussões com outros filósofos, comissões de Filosofia, eleições para cargos filosóficos, Deus saberia!
Aristóteles tinha desgosto. Embora ganhasse para despesas e desperdícios, não era doutor, e quando alguém o chamava por senhor Aristóteles, assim só, não lhe soava bem.
Numa helénica tarde de domingo, um amigo relativamente chegado lembrou-lhe a recente fundação de uma nova escola de Filosofia, ansiosa por reconhecimento. "O director é meu amigo, pá, e foi colega do meu pai, vais lá falar com ele: o gajo resolve-te isso."

Na segunda, logo de manhã, Aristóteles bateu à porta do director da Nova Escola:
- Senhor Professor, venho aqui por sugestão de...
- Senhor Aristóteles, não diga nada; ora sente-se, meu amigo, já me telefonaram, já me puseram ao corrente da sua situação. Que aborrecimento, realmente! Mas isto são só pró-formas, não se amofine. Com os miúdos é outra coisa: não têm experiência! Agora o senhor, uma pessoa com competências ganhas na labuta filosófica... não se justifica! Não imagina a estima que lhe tenho! Devo dizer-lhe, senhor Aristóteles, que para a nossa Escola é uma honra tê-lo cá. Pois, muito bem, vejamos, mostre-me a folhinha que aí traz... isto são pró-formas, já se sabe... Ah, mas já aqui tem um ror de cadeiras completas! E notas baixas, coitado! O que eles pedem na Academia! Que exagero! Para formar um Filósofo! Pois, muito bem, vejamos, isto resolve-se com umas dez... ora deixe cá ver... sete... bem, mais cinco cadeiras, seja. Uma delas há-de ser Chinês Técnico, que é do meu pelouro. O Chinês faz falta por causa da bibliografia. O Senhor Aristóteles fala chinês? Ah, óptimo, claro que isto é só um pró-forma, mas, se já fala, ajuda muito. As restantes, assim a olho, deixe cá ver o que hei-de dar-lhe, salvo seja: Filosofias Especiais, Filosofia Esforçada, Análise Socrática... já estudou Sócrates a fundo, senhor Aristóteles? Pode ser complexo, mas não podemos iludir as basezinhas! E o projecto de dissertação, já se sabe! Que lhe parece?! Mas combina depois com o professor que lhe atribuirei. Na verdade, a Nova Escola é recente, e ainda não temos estrutura montada para o seu nível; mas também não é preciso, tudo se arranja, e para o senhor Aristóteles faz-se uma atençãozinha.


Aristóteles manuscrevendo com letra muito grande, e muito espaço entre linhas, uma página inteira de Chinês Técnico, a qual mandaria entregar ao senhor professor para obter aprovação na respectiva cadeira


Aristóteles saiu confiante. No dia seguinte,
haveria de falar com o professor - caso este não se encontrasse a acumular funções noutra escola qualquer - e logo se veria.
Na terça, encontrando o professor designado, Aristóteles pretendeu esclarecer os seus propósitos:
- Caro Professor, vim ter consigo a mando de...
- Oh, Senhor Aristóteles, pois já me informaram... pretende, então, concluir o seu curso na Nova Escola?! Fez muito bem em escolher-nos; não estamos aqui para cortar as pernas a ninguém, como na Academia. Diga-me o que manda o senhor director? Filosofias Especiais, Filosofia Esforçada, Análise Socrática, projecto...
pró-formas! Senhor Aristóteles, o senhor, um Alto Secretário de uma conceituada Associação de Filosofia, acumulando já inúmeros cargos da mesma natureza, encontra-se versado nestes assuntos melhor que qualquer finalista! Coisas primárias para quem se treinou na filosofia da vida, como vossa excelência. O senhor está formadíssimo! Falta-lhe o canudinho, mas não será por entrave meu! A estima que lhe tenho! E não só, veja bem: tenho uma nora recém-formada em Direito que igual estima manifesta por vossa excelência. Ainda no outro dia a rapariga me disse, "o meu sonho era trabalhar na associação do senhor Aristóteles, auxiliando-o a concretizar os seus ideais filosóficos!" Ah, senhor Aristóteles, não quero dar-lhe trabalhos! Veja lá! Sendo assim... muito obrigado! Lá lhe direi! Resolvamos a questão das suas cadeiras: não compliquemos: o senhor Aristóteles terá já lido qualquer coisa sobre Filosofias Especiais? O índice?! ...chega, chega, pois muito bem! E Esforçadas? Já ouviu dizer que em alguns casos é preciso recorrer às Esforçadas?! Ah, já as aplica! Que limpeza, realmente! E, já agora, no que respeita a Análise Socrática... não ignorará que a filosofia de Sócrates praticamente destruiu o ... isso! Mas o que faço eu aqui?! O senhor é já doutor! Para elaborar dissertação é que vai ser pior, não é verdade?! Pois, muito trabalho na associação... compreendo... Façamos assim, senhor Aristóteles, não vale a pena estarmos com burocracias que, no seu caso, só atrapalham. Escreva qualquer coisa em Chinês Técnico, um pró-forma para o senhor director, que logo falaremos sobre a sua situação. Este caso é especial, bem se vê.


Aristóteles trocando impressões com o professor que lhe deu, salvo seja, quatro cadeiras no mesmo ano


Foi assim que, de pró-forma em pró-forma, após duas deslocações à Nova Escola, sete faxes, catorze chamadas telefónicas e três envios do estafeta da associação, Aristóteles, grande filósofo grego, cuja supremacia ideológica se estende aos nossos dias, logrou obter o almejado diploma de Filosofia, vitória que, anos antes, tanto prometera à mamã.

quarta-feira, abril 19, 2006

Nós, é mais plástico

Não compreendo o que distingue o pensamento português do de outros povos. Reconheço-nos características comuns aos mediterrânicos e latino-americanos, que também se revelam emocionais. Vivi três meses com uma colombiana tão impressionantemente portuguesa que a temia. O desenrascanço também não é exclusivo nosso, a menos que Mc Gyver tenha sido inspirado pelos nossos emigrados no Novo Mundo.
Um dos fenómenos mentais que mais me intriga, nos portugueses, é o seu apreço pelo plástico, o mais reles de todos os materiais inorgânicos. O plástico tem utilidade; serve-me bem se for Tupperware ou uma bacia para lavar a roupa à mão. Isso dá jeito. Mas o plástico é um contentor aprazado, como um frasco de detergente para lavar o chão; de resto, o plástico é quase infeccioso. Faz umas próteses levezinhas para membros inferiores e superiores, e isso aceito.
Os portugueses amam devotadamente o plástico. Bibelots para a sala, a cozinha, a casa-de-banho, copos, pratos, toalhas, cortinados, naperons. O plástico é considerado garantia máxima de segurança; protege. Os sofás novos, por exemplo. Tive de ser eu a comprar uma coberta para conseguir que a tia Ermelinda rasgasse o invólucro de plástico que o conjunto em amarelo pele-de-pêssego trazia de fábrica. Aquilo colava-se-me às coxas; quando me levantava ouvia-se um barulho artificial, moroso, a plástico a separar-se da pele. Uma espécie de chlac, mas lento. E doía. Usa a manta que lhe ofereci, mas inconsolável, porque o plástico não tinha que se lavar, era só passar um paninho.
Os portugueses também adoram o paninho. “Enverniza o chão, depois é só passar um paninho.” “Põe tijoleira, depois é só passar um paninho”.
Para os portugueses, a realidade, a verdade, a exposição, é uma afronta, por isso o plástico lhes serve tão bem. É artificial. É falso por excelência.

Compor a morte

Foi Páscoa e cumpri a visita habitual ao cemitério. Reclamo bastante, mas vou, claro, que há muita outra coisa que detesto e faço.
Assim que entro no recinto dou largas à resmunguice. Começo nas campas cobertas de plástico moldado, a que chamam flores. Milhares de quilos de plástico ou de poliéster requeimado para obsequiar, lembrar os mortos.
Compreendo os rituais das culturas animistas, as oferendas aos espíritos: leite, frutos, flores. Acho bonito. Mas, flores em plástico? Ou seja, plástico? Colorir as campas de plástico para estarem sempre compostas?
Eis outra tara portuguesa, a de compor tudo. Não é fazer bem, é compor. Por outras palavras, atamancar. “Fazes isto e mais aquilo, e depois compões tudo para não se notar nada”. Que fique tudo compostinho. Atamancado. Não interessa o valor real, mas a aparência. Por exemplo, uma coisa é fazer a cama, outra é compô-la, puxar a roupa para cima, assim a modos de dar a ideia que está feita.
Quando os mortos estão bonitos, se é que isso existe, dizem, “estava muito compostinho”. Não interessa se já está a derreter há dois dias na casa mortuária, desde que permaneça compostinho.
O cemitério onde vou é destes modernos: está tudo enterrado em campa de terra durante seis anos, depois levantam-se os restos, e vão de restolhada para a vala comum ou compra-se uma gaveta ao município, onde se arrumam fémures e tíbias. É uma limpeza. Claro que, no exterior da gaveta, manda-se logo colar um belo arranjo de flores em plástico. Para ficar compostinho.

Operações plásticas

Os portugueses têm muita dificuldade em assumir que uma campa é apenas um buraco no chão onde um cadáver vai sendo consumido. Isto não se diz, da mesma forma que não se fala da morte como morte. Não se morre, “já lá está”, “Deus o tenha em descanso”, “paz à sua alma”. Os portugueses cobrem as campas de plástico porque dissimulam melhor a morte, protegem-na. E protegem-se dessa fatalidade.
No cemitério onde vou, a morte está demasiado exposta, e os familiares dos falecidos deram em plantar, sobre o ressalto das campas, uma vegetação própria de zonas de areia, que alastra como relva, rasteira, verde-escura, que se adapta bem a terrenos batidos pelo sol e sem água. Não vejo nada de mal. Plástico é que não.
Na última visita, porém, deparei-me com as seguintes instalações artísticas: numa determinada zona do cemitério, alguém mandou o coveiro “compor” a campa em forma de urna, e forrou-a com relva artificial, que coseu com as costuras para dentro, nos cantos, como se fizesse um estofo. Trabalho impecável. Logo, os familiares vizinhos copiaram a ideia, pelo que nessa zona existem meia dúzia de campas forradas a plástico verde. Aproximei-me e observei as obras. Nem Christo, o artista que empacota monumentos, se lembraria desta. Um cemitério de campas forradas a plástico verde com picos, imaculadamente cosidas em forma de urna. Na mesma zona, alguém provavelmente menos abonado, ou mais artista, e com notável vocação maçónica, ladrilhou a campa com mosaico para chão de cozinha, de diferentes cores e padrões; peças inteiras que lhe sobraram das obras. Tendo a superfície ficado muito aplanadinha, prantou-lhe por cima, contente, seguro, duas jarras do mais garrido plástico que já se viu em flor.

terça-feira, abril 04, 2006

Unha disfuncional



Sobre unhas de gel quero esclarecer o seguinte:

- não interessa o nome que lhes dão: são 100% postiças!
- a cataplasma de verniz que lhes colocam para disfarçar o desnível, na base, relativamente à unha natural que vai crescendo e empurrando para fora o postiço, é atrozmente feia!
- por muita graça que ache ao risco branco da manicure francesa, e às florzinhas, e à arte em unhas, que acho!, só tenho vontade de arrancar o meio metro de unha postiça branca que a mão da imagem ostenta!
- há várias actividades cuja realização se torna impossível, nomeadamente, descascar batatas, entalar a roupa da cama, abotoar seja o que for, escrever num teclado, and so on, em resumo, usar as mãos.

quarta-feira, março 01, 2006

Tradução simultânea, por favor!

Nos anos 80 foi a idiossincrasia; nos 90, a epifania e o inefável; esta semana já ouvi três vezes, sem tradução, o vocábulo reificação.
Ai de quem não tiver estudado o seu latinzinho, o seu grego, o seu aramaico...

quarta-feira, janeiro 04, 2006

Da "desconfiança primordial ao contacto"

Os portugueses são um povo muito estranho. Não os compreendo. Penso, frequentemente, que não lhes pertenço.
Os portugueses são calorosos? O país é caloroso: a geografia, o clima, não a população. Enfim, um ou outro, mas não de forma generalizada. Claro que os homens das obras, das descargas, do talho são sempre muito calorosos com as fêmeas que passam, mas esse é um outro tipo de aquecimento!
Os portugueses são empertigados, não dialogam; não há nenhum que não se sinta superior ao outro, que não o olhe de viés, que não esteja pronto a cortar-lhe na casaca.
Deitar abaixo é o nosso desporto nacional. O Miguel Esteves Cardoso, a Clara Ferreira Alves, a Inês Pedrosa, a Maria Filomena Mónica, qualquer cronista dedicado à existência lusitana, abordou já o assunto, com argumentos imbatíveis
Não gostamos de nos entreajudar; desconfiamos como ponto de partida; não nos entregamos, porque tememos o julgamento do outro, porque não confiamos em garantias de confidencialidade. Sabemos que uma confidência será pública, mais tarde ou mais cedo. Não acreditamos em ninguém.
Li, algures, que, os ingleses, o que mais temem na vida é sentirem-se embaraçados por uma situação; parecer ridículos. Não será por acaso que mantemos com eles uma aliança de séculos: nós também!



A minha prima afastada, que, para todos os efeitos, é aquilo a que em inglês, se chama, a pain in the ass, tem uma função neste mundo: não me deixar respirar nem soltar a franga... Manda-me “olhos”, diz que não me conhece, vai-se embora, solicita-me compostura. Isto, se me lembrar de falar alto; dar uma gargalhada no café; se pedir um favor a um desconhecido; se meter conversa com quem passa, com alguém sobre quem sinta curiosidade; se der um passo de dança na Fnac, enquanto ouço um disco; se abrir os braços virada para o Tejo e gritar “acaba não, mundão”.
Ai, que vergonha, se alguém está a olhar. Se alguém me vê. Vão pensar que eu sou maluca, mas mais grave, que ela acompanha uma maluca.
Em Portugal, perguntar à senhora sentada na mesa ao lado qual a marca do fabuloso perfume que usa, é uma vergonha. Claro que pergunto!; as senhoras, hesitantes, mas apanhadas, lá dizem. Algumas ficam a olhar-me curiosamente enquanto me afasto descontraidamente, após agradecer a informação. Outras, normalmente as mais velhas, e essas são as minhas preferidas, aproveitam para me contar a história toda das suas vida, começando por quem lhes deu o perfume e porquê.
Eu gosto tanto de falar com os outros, como de os ouvir. É um prazer meu.
Sinceramente, estou-me refodendo para o que pensam de mim; se me acham maluca: quero lá saber. Eu, que me sinto tão portuguesa, que sou, de facto, tão portuguesa, não compreendo o medo do outro. A fobia social do outro. E, na necessidade de o enfrentar, a fobia social do que o outro pensará de nós.
Quando vamos de visita à terra, a minha mãe sugere-me a roupa que devo levar: nada de calças de ganga, nada de descontracções. Roupa formal, roupa decente. Para que a família não me julgue uma qualquer, uma que não sou. Eu não sei bem se não sou uma qualquer. Tenho dúvidas. E não obedeço.
Pergunto-lhe se a opinião que formarão de mim assenta na roupa que visto ou no que manifesto ser. Ela responde-me que eu fazia melhor em nunca abrir a boca. Quem não fala não se afunda. Eu afundo-me. Digo o que penso, o que sinto, afundo-me.
Sou o desgosto da minha mãe, da minha prima afastada - porque não possuo "desconfiança primordial ao contacto".
Sou uma alienígena!


O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...