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quarta-feira, outubro 04, 2006

Segundo pensamento na alba

O raio do soutien aperta-me nas costas; ao longo do dia, vai deixar-me um vinco escuro na carne; um vinco vernelho cor-de-carne torturada; logo à noite há-de picar-me a pele apertada, quando o tirar de repelão, como se já estivesse enterrado na pele, e hei-de ter nesse sulco uma comichão mórbida, que não poderei coçar até sangrar, apenas massajar com talco, massajar, massajar docemente as feridas do dia. Vai ser o meu cilício dissimulado sob a blusa. Para meu castigo de qualquer coisa. Que não quero fazer.

segunda-feira, setembro 18, 2006

A porrada nossa de cada dia nos dai hoje!


Na sexta-feira, depois de sair da empresa, esgotada, fui num instantinho lá abaixo ao centro do Bairro da Lata, e comprei um excelente relógio-despertador da marca Casio.
Quero ter a certeza que hoje, e todos os dias, acordo à hora certa, para poder chegar ao trabalho pela fresquinha, à hora certa de começar a levar porrada.


terça-feira, março 21, 2006

Mais

E podes cá vir, meu amor, perguntar por mim, se quiseres, todas as semanas, à terça-feira. A menina dorme. Tudo o mais acabou.

(Isto é Mário de Sá-Carneiro adulterado! De cor.)

terça-feira, fevereiro 28, 2006

olhava



havias de ver ruir as novas casas, erguidas sobre as velhas, e oferecerias a outra face e calarias o que ainda fosses capaz de dizer

terça-feira, outubro 18, 2005

Confissão I

Nunca concebi que o corpo de Cristo se pudesse materializar numa hóstia, e sempre achei tal ideia demasiado sensual para se praticar numa cerimónia tão circunspecta e assexual como uma missa: homens, mulheres e crianças, em fila, para, de boca semi-aberta, receber um corpo sagrado, mas um corpo!, que lentamente se desfaz entre o palato e a língua.
Sinceramente! Perante tal ritual, quem pode estranhar que na Índia ofereçam leite, mel, fruta e flores aos yonis e lingas!

Quando era miúda, porém, desejava provar a rodelinha imaculadamente branca, que diziam sagrada, e devia mesmo ser!, dado o ar tão compungido dos que a recebiam na missa.
Quando me mandaram para a catequese e tive de me preparar para a primeira comunhão, entusiasmei-me com a antecipação de acesso à hóstia – era, sobretudo, uma iniciação ao mundo temporal, uma espécie de diploma que não sabia para que servia, mas que me permitia participar no ritual e satisfazer a curiosidade: a que sabia, qual a textura?

Gostava da catequese. Como não havia contas, não era burra como na escola. Líamos histórias do velho e do novo testamento, e eu gostava mais do novo, porque o Jesus era bom e perdoava a todos por igual.
Escrevíamos redacções sobre pormenores do evangelho, opinávamos livremente sobre o carácter exemplar das histórias. E fazíamos provas a sério, com perguntas a sério, como na escola, mas sem contas, e eu acertava em tudo.

O meu problema residia na confissão. Não me agradava ir ao confessionário revelar ao senhor padre da Matola pecados que não tinha cometido ou de que não tinha consciência. Impingia-lhe sempre a mesma lenga-lenga, "fui respondona com a minha mãe, não limpei o pó, não faço nada, só quero estar deitada na cama a ler, fui vender montinhos de mangas para a portão e a minha mãe apanhou-me, roubei uma quinhenta do seu porta-moedas para dar ao mufana que nos apanha o capim para os coelhos...!"
E o senhor padre perguntava-me, "então, e mais, minha filha?" O senhor padre exigia-me sempre mais pecados... Quais?
E, então, eu, que nunca gostei de decepcionar pessoas e tentei sempre contornar as questões de forma pacífica, tive uma ideia: inventar pecados! Era isso, inventar pecados!
Passei a desfiar ao senhor padre da Matola um ror deles, que se consubstanciavam no que os outros me faziam, ou no que os via fazer, de forma geral: “roubei o afiador e a borracha à Micá, e escondi-os, depois roubei o estojo com o compasso ao Xico, roubo a torto e a direito, a toda a gente, digo asneiras grossas no intervalo, bato todos os dias no João e no Luisinho, por causa dos cromos... - que eu, desde o princípio dos tempos, sempre sonhei arrear nos rapazes!
E o senhor padre, que até se dizia à boca cheia que era vermelho e apoiava os terroristas, sentiu-se dividido: por um lado, eu tinha-me tornado suficientemente útil para justificar aquele ofício, por outro, o anjinho revelara-se uma espécie de Rosemary´s Baby.
“Minha filha, que graves pecados mortais andas cometendo; minha filha, não envergonhes a Deus nem a teus pais”, etc, etc.,, e “não podes agredir o teu irmão, nem praguejar, Deus te valha, criança”.
De maneira que percebi cedo a ironia de se estar vivo no meio dos outros.
Tinha a obrigação de pecar para que, forçadamente, se justificasse a absolvição, e o mundo retomasse a sua ordem natural!

sexta-feira, maio 20, 2005

Paulinho

As minhas ex-mamas antecipativas toda a vida se comoveram com o alexandrino, viesse ele do Luísinho ou do Paulinho. Quando um deles me entregava ao ouvido o sussuro do alexandrino, oh Deus, ganhava o imediato direito a afundar a mão nos prodigiosos lugares redondos, escuros, tépidos, que ele e a minha vontade quisessem; quando, num momento verdadeiramente inspirado, me recitava, «quando me tocas meu amor/ é como se as roldanas do tempo se desmoronassem/ nos teus nomes/ até que uma luz imprecisa regresse/ a essas mãos onde a respiração da tarde/ começa vagarosamente a arder», meu Deus, Senhor, santa Eulália, eu já não era eu, que se lixasse; era o núcleo da tempestade, portanto, viesse tudo, viesse de todas as maneiras, viesse até ao seu esgotamento.
O Paulinho, só à conta do alexandrino, foi comigo ao Paraíso meia dúzia de vezes, e voltámos sempre os dois em estado de máxima dependência tóxica.

Mas houve o amaldiçoado dia em que o Paulinho se enganou e, sem querer, claro, num daqueles desabafos próprios de início de corrida, saiu-lhe a frase preferida do Zé Verruga, a que tantas vezes ouvira cantarolada, em coro jocoso, na tasca do Xico da Preta, «até te refodia a cueca toda candavas de lado a bater coa jante no celindro!». Saquei-lhe, de imediato, ambas as mãos do meu rabo, que era onde as tinha, fulminei-o com os olhos verde-amarelos, repeti mentalmente, em segundos, cada sílaba desta frase, para melhor absorver a semântica: "refodia<-te> a cueca toda" e "candavas de lado a bater coa jante no celindro", não lhe dirigi uma palavra - que palavra?! - e deixei-o encostado ao muro de trás da escola, eram 8 da noite, sozinho com a sua bela tirada à Bocage...

Foi até hoje. O Paulinho nunca mais me viu rabo nem olhos.
Não passo pela mulher dele, aquela encantadora senhora, sem pensar "coitada, as indelicadezas que deve suportar ao brutamontes tarado, insensível."
E há, é um facto, homens muito ordinários. Como o Paulinho, que agora é gerente dum banco aqui perto. Olhando para eles, assim ao balcão, ninguém diz, mas a mácula permanece, o "eixo do mal" continua alojado naquele peito...

Não é o caso do meu amor, que esse usa cremes de dia no seu rosto queridíssimo, e malas de aventureiro, onde transporta as minhas coisinhas lindas, se necessário, e me fala ao ouvido só as palavras mais doces como tâmaras, e mornas como a areia do deserto - na zona do oásis. E me diz "bom dia", em árabe, e "és a minha luz" em francês, isso tudo de madrugada, logo às 10 da manhã. Ou as duas coisas em árabe, em agás aspirados, ou então as duas em francês, com o sotaque sensual que nos começa a desabotoar sozinho o camiseiro. E que, entetatanto, me vai lendo, baixo e lento, poemas do Ramos Rosa, do Sebastião da Gama e da Sophia... Porque, assim, povoa-se o amor de arte, nobreza, majestade, e ele vê-se crescer. Cria-se um jardim propício que lhe é dedicado, um lugar mágico para lá do real, onde queremos ser indubitavelmente seduzidas e amadas pela metáfora do Ramos Rosa.

O que eu sei é que o Paulinho perdeu um belo petisco. Na verdade, perdeu-se. Tivesse ele ficado pelo alexandrino, que seguia bom caminho e seríamos todos mais felizes (ele, de certeza).

O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...