No princípio da adolescência coleccionei folhas com publicidade a perfumes e artigos de beleza, rasgadas às revistas femininas - por um único motivo: o rosto sublime das mulheres, as fotos magnifícas dos mais belos rostos do mundo.
Coleccionava perfeição, a maravilha da criação. Elas eram irresistíveis; eu não lhes resistia.
Coleccionava perfeição, a maravilha da criação. Elas eram irresistíveis; eu não lhes resistia.
Tive vergonha da minha colecção durante muito tempo. Não queria que ninguém pudesse descobrir que admirava, horas a fio, essa questionável colecção de fotos das mais delicadas e hipnóticas mulheres do mundo. Brilhantes. Suaves. Doces. Selvagens. Tentadoras. Sempre maravilhosas.
Hoje, as mais belas mulheres do mundo, para os outros, não o são para mim. Os seus rostos não irradiam luz, a maior parte dos corpos são excessivamente masculinos, ou tornados andróginos pela magreza. A magreza excessiva torna os corpos iguais e, por isso, um corpo muito magro é inevitavelmente assexuado. Não possui beleza, apenas body art.
Portugal Fashion
Antigamente as mulheres não tinham os meios de que hoje dispomos para ser mais bonitas. Alguns existiam: muita maquilhagem forte, mas não como hoje, anti-alérgica, adequada a tipos de pele, cremes que resolvem tudo, químicos eficazes, simultaneamente inofensivos.
Lembro-me que Jean Harlow, Marlene Dietrich e Greta Garbo, louríssimas, queimavam os cabelos com líxivia para os manterem dourados, luminosos: destruíram cedo o couro cabeludo. Mas enquanto durou, foram deusas!
Mas mais belas que hoje? Sabiam, sem dúvida, valorizar bem o que tinham; sabiam deixar-se fotografar. Havia um valor sagrado: ser feminina, ser bonita, mesmo dentro de um fato de homem, com o cabelo cortado. Havia olhos, bocas, gestos, ancas, seios, pernas. Havia um rosto e um corpo de mulher. Que não podia pertencer senão a uma mulher.
Portanto, mais belas, não, mas praticantes de uma "Ordem Feminina de Beleza" que resultou magnificamente. Que resultará sempre.
O unisexo anulou esse conceito. Mas não existe um corpo unisexo; não é desejável, não tem utilidade. O hedonismo procura rostos e corpos absolutamente iguais, fabricados em série como parafusos. Esses corpos desvalorizam-se, e a moda revela-o, ao negar o corpo que expõe em excesso ou que desfeia. As modelos são excessivamente magras. Não exibem, de fact, um corpo, mas constituem um cabide adequado a uma roupa que não queremos vestir, que é igual para todos os corpos.
Hoje em dia, uma mulher com um normal corpo de viola pode encontrar roupa que lhe sirva, mas se as calças e as saias não forem de tecido elástico, fazem rugas, refegos, foles. Serve na anca, mas sobra na cintura; serve no peito, mas a cintura está demasiado descaída.
Nós não somos direitas. Enfim, se exíbissemos a magreza das modelos talvez fôssemos direitas.
Em suma, o unisexo não serve corpos reais, corpos com barrigas, rabos, pernas redondas e uma cintura de viola.
O unisexo não serve as mulheres porque não valoriza o que têm de mais belo: uma alteridade física que as distingue, particulariza, que conta com as suas especificidades, e não só as respeita como valoriza.
Como valorizar uma barriga e torná-la sensual? Como transformar um anafado par de nádegas numa visão divina, sem que pareça ordinário?
Antigamente, elas não eram mais bonitas, mas cultivavam uma beleza clássica que reconhecemos e, de imediato, veneramos, assim que a vislumbramos. Não falha. Uma mulher pode ser gira, sensual, mas bonita... quando afirmamos que uma mulher é bonita, estamos perante uma verdadeira beleza clássica ou o exercício esforcado por consegui-la.
A beleza é clássica.
E, se repararmos nessas mulhereres incrivelmente viciantes, elas são cumulativamente doces, suaves, aspirando a nada mais que a mais simples beleza. Elas são um pouco Marilyn Monroe.
As mulheres queriam ser bonitas para agradar aos homens?
Sim, mas agora já não!
Não?! Mas é possível que uma mulher heterossexual, normal, ainda não destruída pelas quecas eventuais e sem significado do sábado à noite não queira agradar aos homens?
Umas às outras, sim; a nós, ao vazio das quatro paredes, mas aos homens, caramba!
Tenho muita pena, mas não quero ir pavonear-me linda para um jantar de amigas. A um jantar de amigas chego limpinha e decente.
Quero ir pavonear-me linda para um jantar de amigos e sentir que olham para mim como uma “maravilha da criação”, que apreciam o que vêem e o desejam e sonham comigo. Quero que sobre mim pouse esse olhar “és uma maravilha da criação”, esse olhar que só um homem a sério sabe oferecer, mesmo que não passe disso, e a maravilha nunca se torne de carne, não se dispa, nunca: seja só a Deusa. Meu Deus, os homens que passam por nós e com os olhos nos dizem, "valeu a pena ter chegado aqui para me cruzar contigo!"; "és a coisinha mais linda"; "és uma maravilha, a maravilha da criação".
Para mim, ser feminista é isto: ser independente, malhar nos homens, com eles ao lado, concordantes, enquanto simultaneamente lhes digo "a seguir a mim, és a segunda maravilha da criação”.
E sem eles, sejamos realistas, este mundo não teria a menor hipótese de, ocasionalmente, se tornar deliciosamente perfeito.








