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quinta-feira, agosto 07, 2008

Casos da vida - Dany e Vanessa


Sinais exteriores de riqueza


Não têm emprego e pagam a renda da casa de seis em seis meses, só quando a mãe dela vem de visita, limpa a casa e deixa o frigorífico com comida para uma semana, em taparueres da loja dos chineses. O rendimento social de insersão mal lhes dá para carregar o telemóvel com valor suficiente para o envio de mensagens, onde se lê, liga-me que não tenho saldo. Cravam cigarros à malta do café, mas não consomem, apenas se sentam na mesa alheia. Às vezes pagam-lhes uma bica. A malta. À noite, encostam-se ao muro da praça emborcando Sagres choca, que compram no supermercado às garrafas de litro. Podem não ter um Ferrari, nem uns tenis de 200 euros, nem sequer um euro e noventa para o bilhete de autocarro para a Costa, mas têm um pit-bull de orelhas cortadas, de ar feroz, coleira de picos, trela curta. E um pit-bull... um pit-bull mete respeito.

terça-feira, julho 15, 2008

A pobreza e o luxo




Guardei o recorte. O artigo chamava-se A necessidade de empobrecer. Tratava-se da crónica de Vasco Pulido Valente, no jornal Público, há quase um mês. VPV defendia a ideia de que o slogan mudar de vida, muito repetido pelos políticos como forma para resolver parte da crise, apelando a um uso cada vez mais moderado do petróleo, e recorrendo às energias alternativas, é uma fraude. Afirmava que não é hoje possível mudar de vida sem voltar à pobreza "pela força e pelo sofrimento". Para VPV, a registar-se um empobrecimento generalizado, "num país como Portugal, com a sua miséria e o seu atraso, 80 por cento da população não a suportaria. «Mudar de vida» seria pior que uma revolução, seria o fim de uma civilização".

Isto da pobreza, comoveu-me. Por outro lado, a ideia de fim de uma civilização, considerando o desastre que é a nossa, animou-me.

Eu própria defendo a ideia de que deveríamos todos ser mais pobres. Mas pobreza, a meu ver, é qualidade de vida, e não inclui qualquer sofrimento. A pobreza a que VPV se refere, ao falar dos tempos em que não havia telefonia nem auto-estrada nem ar condicionado, é apenas uma forma de vida que exclui os luxos da sociedade de consumo. Consumir menos, mais barato, melhor, e reaproveitar. Considero óptimo que as roupas e os livros e brinquedos passem de irmão para irmão, que a comida seja reaproveitada, que não se acendam luzes sem necessidade, nem se gaste água à toa. Continuo a bater na ideia de que todos compram produtos acima do que podem e necessitam. Sobretudo maquinaria, mas também roupas, sapatos, malas, mobiliário, pechisbeque. Uma coisa é pobreza, outra é a miséria. Ora, eu defendo que é possível viver modestamente, aquilo a que VPV chama pobreza, sem viver na miséria.

Ultimamente tenho andado à procura de um carro para substituir o meu, que chegou às últimas, e reparo que os vendedores de automóveis me apresentam viaturas afirmando, bem, não é um carro como aquele ali, que vai aos 200, mas chega com facilidade aos 160, 170, uma velocidade decente para auto-estrada. 160, 170?! Mas para que quero eu um carro a atingir velocidades dessas?! Eu quero lá circular a 160?! Quero andar sossegadinha, com uma velocidade moderadazinha, com um carro seguro, com bons travões, espaço para carregar cadelas e objectos, que sou de carregar, e boa suspensão, porque gosto de estradas más. O melhor possível em termos de segurança e consumo, aliado ao melhor preço. É o meu lema para tudo.

Não penso que seja fácil viver hoje confortavelmente sem frigorífico e máquina de lavar roupa. Não são luxos. No meu caso pessoal, devo incluir nesta lista uma televisão, aparelhagem de som e computador com ligação ADSL. E isto, sim, para mim, é luxo. Poderia viver só com os meus livrinhos. Como cultura, chegaria. Mas digamos que é um luxo mínimo. Defendo-me, escolhendo bem, e não desperdiçando aquilo que já tenho. Acho os écrans plasma muito funcionais, com óptima imagem, mas os respectivos preços não, por isso, quando comprei a minha televisão, exclui essa hipótese. E não me passa pela cabeça deitar fora esta televisão para adquirir um objecto melhor. Viverá o seu tempo, e depois logo se vê. Exactamente como com o meu carro. Já prometi que vou andar mais de transportes públicos, mas por uma série de motivos pessoais não consigo cumprir as minhas obrigações sem um carro.

A minha ideia de pobreza está, portanto, relacionada com a esforçada recusa do luxo. Os portugueses acham que viver bem é viver no luxo, e sentem uma enorme apetência pelos sinais exteriores de riqueza. É exactamente aí que é preciso cortar, emendar. Melhor, educar. Só um povo muito pobre, pobre de ideias, de valores - é essa a nossa maior pobreza - pode julgar suplantar a pobreza por via da aparência, do luxo. Seria o mesmo que pintar um velho bidão ferrugento com verniz de purpurina. Não precisamos de luxo, mas de eficácia, e de conforto na eficácia. Isso já é viver bem, ou, se quiserem, pobremente.

Já agora, a secretária sobre a qual tenho o computador no qual escrevo este blogue, veio lá de baixo do lixo. Exactamente. Estava entre os contentores do lixo orgânico e os da reciclagem de vidro, papel e embalagens. Alguém a deitou fora. É uma óptima secretária em estado novo, a qual, com sorte, ainda chegará aos os meus netos. Pobre, muito, muito pobre foi aquele que deitou fora uma secretária destas. A minha mãe admitiu que era uma excelente secretária, mas acrescentou que devia parecer muito mal aos meus vizinhos verem-me levar para casa coisas do lixo. Já não me lembro bem, mas acho que me ri.


terça-feira, maio 27, 2008

Pobreza

Foto: Tom Stoddard, Sudão, 1998


Tenho um pc velho, um fio de ouro que me ofereceram quando nasci, não sei quantos avos da casa da minha mãe, herdados após a morte do meu pai. Muitos livros e cd's, alguma mobília comprada em segunda mão, ou literalmente trazida do lixo e reciclada. Um carro avariado estacionado à porta. Noventa molas de roupa.
Não ganho bem, mas podia ser pior; consigo viver, tirar férias uma vez por ano. Curtas, mas férias. Tenho uma vida bastante confortável.
No meu bairro conheço vizinhos atulhados de bem materiais, com consumos muitíssimo elevados, que se sentem pobres. Dizem eles lá em baixo. Mas eu não preciso do écran plasma nem de uma bimby nem de nada dessas coisas.
Tenho sempre muita dificuldade em compreender como é que a maior parte das pessoas consegue comprar coisas tão caras. Os carros, para mim, são um mistério. Como é que com ordenados de mil euros se pagam carros de 40 mil e apartamentos de 80 mil? Juro que não percebo. Jogam no Euromilhões e ganham? Os pais dão-lho? Têm negócios paralelos? A vida de alguma pessoas parece-me financeiramente fácil demais para as profissões que lhes conheço.

Para as pessoas ricas, eu sou pobre. Contudo, sinto-me rica de uma outra ideia de riqueza, que é, afinal, a única que concebo, que sei viver. Não preciso de uma piscina minha. Há a do INATEL na Costa da Caparica. Gostava muito de ter uma estufa de flores ou um bocadinho de terra para plantar. Plantei batatas greladas num recipiente de plástico que antes acondicionou fruta do supermercado, ou legumes, e ali estão elas com uma ramagem linda. É provável que tenha criado uma batateira-bonsai. Tenho muita sorte com flores e plantas, de forma geral, e isso faz-me feliz. Uma parte qualquer do meu corpo aguenta a vida, promove-a.
Continuo a dar tudo para poder atirar-me para cima da cama com um bom livro. Tenho as minhas cadelas. Morena, sai de baixo da cama! Micas, que é isso que trazes nos dentes? Qualquer dia, um batalhão de filhos. Já os estou a ver ali a virar a esquina. Mariazinha, Joãozinho, não se atirem pela janela, queridos!
A pobreza, não desfazendo de situações reais de pobreza-pobreza, é um estado muito relativo, e, em Portugal, bastas vezes mental.
Pode ser que ainda venha a ter uma estufa, mais dia, menos dia.
Mariazinha, não arranques as orquídeas à mãe! Morena, não comas a terra dos vasos!

domingo, fevereiro 24, 2008

A culpa dos Pachecos Pereiras e outros da mesma laia

Ultimamente, farto-me de encontrar pessoas trabalhando doentes. Funcionários que exercem as suas funções em serviços de contacto com o público em estado de total abalroamento por gripes de caixão à cova; professores sem voz; estafetas de pernas partidas; cozinheiros com braços ao peito... Desde que o governo Sócrates, seguindo as tendências revivalistas destes tempos, se propôs repor os níveis de segurança social que tínhamos antes do 25 de Abril, há quem tenha de trabalhar mesmo que não possa justamente fazê-lo: as pessoas temem faltar por motivos de doença legítima. Eis onde chegámos!

Trabalhar doente não se pode chamar trabalho, mas expiação, e sacrifício sem produto. Mostra, igualmente, que as condições de trabalho são tão precárias, que os funcionários preferem abdicar da pouca protecção social de que ainda podem beneficiar na doença, porque temem que isso lhes custe o posto de trabalho. Isto é grave. Num país da Europa civilizada, dito civilizado, é um retrocesso que não pensei viver para testemunhar.

As pessoas que morreram a semana passada, arrastadas pelas enxurradas provocadas pela chuva, levantaram-se cedo, viram que o tempo estava impróprio para sair de casa, mas deixaram os filhos ao cuidado de quem podia cuidá-los, e saíram, indo trabalhar, faça chuva ou faça sol, comportamento comum aos que não têm gestores de conta e precisam de, honradamente, pagar a renda de casa para comprar arroz, batatas, e Ben-U-Ron.

Quem tem horários flexíveis, e salários adaptados à residência em zonas altas, como
o cidadão Pacheco Pereira, não precisa de se aventurar nas enxurradas, morrendo nelas. Basta-lhe telefonar para a secretária, "oh, Jessica, como é que você conseguiu aí chegar?! Está um tempo dos diabos, vou assim que isto melhorar, ok?! E olhe, telefone ao engenheiro José Manuel por causa daquilo..." Pode dar-se ao luxo de esperar pela bonança, antes de descer à garagem do condomínio, que também não fica situado sobre uma linha de água, porque pôde escolher não viver em Belas, nem na Amadora nem em Odivelas. Pôde pagar uma casa numa zona privilegiada, com vista para as zonas das enxurradas onde os outros morrem.
Nem nos desastres naturais a justiça é igual para todos. Quem tem pouco paga primeiro, paga mais e fatalmente, e da sua dor e tremenda injustiça, enquanto se discute quem é que deveria ter desentupido os esgotos, nunca se fará história.
Mas a futuras avenidas Pacheco Pereira já estão todas garantidas nas zonas altas.


sexta-feira, julho 01, 2005


Foto - Robert Goddyn, A hungry kid in the street of Bucharest in Romania, 2005

O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...