Mas agora posso ir sentar-me, justiçada, a ver os gatos fedorentos!
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domingo, fevereiro 11, 2007
sexta-feira, fevereiro 09, 2007
Último poste sobre IVG

Para mim, é fundamental que, no próximo domingo, a lei relativa à interrupção voluntária da gravidez seja alterada. Espero por isto há 30 anos.
É tão irreal pensar que o aborto diminuirá através da sua criminalização, como afirmar que aumentará com a despenalização. Nem uma nem outra.
As taxas de aborto manter-se-ão iguais, porque quando um filho não é benvindo, por motivos que não são da nossa conta, o desmancho faz-de numa parteira de vão de escada, ou com medicamentos abortivos, ou apanhando o autocarro para Badajoz ou o avião para Londres. Mas aborta-se, e às vezes mal, acabando-se nas urgências dos hospitais, lugar onde pode acontecer as mulheres serem tão assistidas quanto humilhadas pelo pessoal médico e de apoio.
Há dois anos, dei entrada na urgência obstétrica do hospital de Santa Maria com um aborto espontâneo em evolução; fui duramente tratada pelos técnicos, assistida com bastante má vontade, até concluírem não se tratar de sequela de um aborto voluntário. Então, sim, tive direito a um olhar, uma palavra menos fatal. Imagino se aquilo fosse um aborto feito na dona Ermelinda dois dias antes, e que tivesse corrido mal!
Ao longo da minha vida acompanhei amigas, familiares que tiveram de abortar. Não conheço nenhuma mulher, para além de mim e de outra amiga, que não tenha abortado voluntariamente, a certa altura da vida. Recordo-me das histórias de aborto consecutivo que me contaram tias, primas, madrinhas, velhas amigas. Nesses casos, sim, nesse tempo o aborto era uma forma de planeamento familiar. Já se abortou muito em Portugal, de facto. Sobretudo nos tempos em que o aborto era não só gravemente penalizado, como uma tremenda vergonha social. Esses foram tempos de glória para o abortanço.
Quando tinha 20 anos, conhecia alguém que tinha a morada de uma parteira. Nunca lha cheguei a pedir, mas havia um certo sossego no facto de saber que se acontecesse, por acidente, saberia onde ir. Até aos 27 anos, se tivesse engravidado, teria abortado. Depois, a vida mudou.
Claro que ninguém tem o direito de interferir com a decisão de querer ou não ter um filho. Ter um filho é uma coisa permanente, é uma coisa séria. É muito pior que uma hipoteca, caramba, e ninguém obriga ninguém a uma hipoteca só porque foi visitar um andar-modelo!
O aborto só se tem mantido punível, na nossa sociedade, porque se trata das escolhas de vida de uma mulher, sempre, em última instância, mesmo quando forma casal com um homem. E as escolhas voluntárias das mulheres têm precisado de ser mediadas, controladas. Se a gravidez fosse uma coisa de homens, a IVG seria assunto tratado doutra forma.
Não tenho a vitória do "sim" como certa. Ocorre-me que, em Portugal, a taxa de iliteracia chega quase aos 60 por cento, e que os argumentos do "não" penetram facilmente nessa faixa. Ontem, ouvi uma senhora da Opus Dei, ou de uma organização qualquer da mesma índole, afirmar que a vitória do sim impunha às mulheres enormes restrições, compelindo-as ao aborto. Ouço isto e fico boquiaberta, mas quem não tenha capacidade para operacionalizar informação, e sabemos como são as coisas em Portugal, por isso é que a ditadura continua vigente, toma-o como realidade; compra a mensagem.
Este é o meu último poste sobre IVG. Era um assunto sobre o qual pensava que não iria escrever no blogue. Considerava já ter dito tudo, pensado tudo sobre o assunto. Afinal, escrevi bastante.
É tão irreal pensar que o aborto diminuirá através da sua criminalização, como afirmar que aumentará com a despenalização. Nem uma nem outra.
As taxas de aborto manter-se-ão iguais, porque quando um filho não é benvindo, por motivos que não são da nossa conta, o desmancho faz-de numa parteira de vão de escada, ou com medicamentos abortivos, ou apanhando o autocarro para Badajoz ou o avião para Londres. Mas aborta-se, e às vezes mal, acabando-se nas urgências dos hospitais, lugar onde pode acontecer as mulheres serem tão assistidas quanto humilhadas pelo pessoal médico e de apoio.
Há dois anos, dei entrada na urgência obstétrica do hospital de Santa Maria com um aborto espontâneo em evolução; fui duramente tratada pelos técnicos, assistida com bastante má vontade, até concluírem não se tratar de sequela de um aborto voluntário. Então, sim, tive direito a um olhar, uma palavra menos fatal. Imagino se aquilo fosse um aborto feito na dona Ermelinda dois dias antes, e que tivesse corrido mal!
Ao longo da minha vida acompanhei amigas, familiares que tiveram de abortar. Não conheço nenhuma mulher, para além de mim e de outra amiga, que não tenha abortado voluntariamente, a certa altura da vida. Recordo-me das histórias de aborto consecutivo que me contaram tias, primas, madrinhas, velhas amigas. Nesses casos, sim, nesse tempo o aborto era uma forma de planeamento familiar. Já se abortou muito em Portugal, de facto. Sobretudo nos tempos em que o aborto era não só gravemente penalizado, como uma tremenda vergonha social. Esses foram tempos de glória para o abortanço.
Quando tinha 20 anos, conhecia alguém que tinha a morada de uma parteira. Nunca lha cheguei a pedir, mas havia um certo sossego no facto de saber que se acontecesse, por acidente, saberia onde ir. Até aos 27 anos, se tivesse engravidado, teria abortado. Depois, a vida mudou.
Claro que ninguém tem o direito de interferir com a decisão de querer ou não ter um filho. Ter um filho é uma coisa permanente, é uma coisa séria. É muito pior que uma hipoteca, caramba, e ninguém obriga ninguém a uma hipoteca só porque foi visitar um andar-modelo!
O aborto só se tem mantido punível, na nossa sociedade, porque se trata das escolhas de vida de uma mulher, sempre, em última instância, mesmo quando forma casal com um homem. E as escolhas voluntárias das mulheres têm precisado de ser mediadas, controladas. Se a gravidez fosse uma coisa de homens, a IVG seria assunto tratado doutra forma.
Não tenho a vitória do "sim" como certa. Ocorre-me que, em Portugal, a taxa de iliteracia chega quase aos 60 por cento, e que os argumentos do "não" penetram facilmente nessa faixa. Ontem, ouvi uma senhora da Opus Dei, ou de uma organização qualquer da mesma índole, afirmar que a vitória do sim impunha às mulheres enormes restrições, compelindo-as ao aborto. Ouço isto e fico boquiaberta, mas quem não tenha capacidade para operacionalizar informação, e sabemos como são as coisas em Portugal, por isso é que a ditadura continua vigente, toma-o como realidade; compra a mensagem.
Este é o meu último poste sobre IVG. Era um assunto sobre o qual pensava que não iria escrever no blogue. Considerava já ter dito tudo, pensado tudo sobre o assunto. Afinal, escrevi bastante.
quarta-feira, fevereiro 07, 2007
Como me puseram a andar da igreja em 5 minutos

Tenho uma igreja toda em pedra rústica, ocre, tal e qual uma casa de turismo de habitação, mesmo à beirinha do meu prédio. Por fora, ninguém dá um tostão pelo edifício, mas o interior é sóbrio, equilibrado, de muito bom gosto. Embora seja um lugar bonito, nunca lá vou. Tantas vezes me apeteceria sentar num local sossegado, e rezar, mas a igreja está quase sempre fechada, e não posso compreender que uma igreja feche a maior parte do dia.
Um dia destes, regressando do trabalho, encontrei-a de portas abertas, e considerei ser boa altura para uma Avé-Maria e um Pai-Nosso, como pagamento de uma promessa.
A maior parte dos leitores considera-me uma herege, uma céptica, mas eu não sinto qualquer necessidade de corresponder a um perfil. Detestaria sentir-me amarrada a uma expectativa de mim. Consigo perfeitamente viver acumulada dos meus paradoxos pessoais, encontrar-lhes sentido.
A minha relação com o catolicismo é má, muito má. Sinto-me como os padres excomungados, os malditos, que continuam a exercer o sacerdócio por convicção, mas à sua maneira. Eu também nego os preceitos, e me religo à minha maneira, com as minhas regras. Contudo, embora conheça invocações esotéricas, e mantras budistas, a minha necessidade de oração satisfaz-se com as que aprendi na catequese, e, sobretudo, com a minha mãe. Rezar dessa forma, tal como lhe ouvi, e ainda ouço, pacifica-me, devolve-me a mim.
Mas eis o que quero relatar: ao entrar na igreja, rezavam o terço no altar secundário, exactamente o de Nossa Senhora. Pensei que poderia juntar-me. Estava com tempo. Rezavam avé-marias. Nunca, antes, que me lembre, participara numa reza ritualística do terço, pelo que não sabia fazer-se uma invocação à Virgem entre cada sequência de preces. Na primeira dessas invocações, ouço a oficiante dizer, serena, angelicamente, "pedimos-te, Senhora, que leves todas as mulheres que caíram na tentação de realizar aborto, a carregarem tal peso nas suas consciências para o resto das suas vidas, arrependendo-se por tê-lo feito, e que estas mulheres sofram e chorem o seu pecado perante Deus e o teu exemplo materno; pedimos-te também, Senhora, pelas pobres crianças abortadas que nunca puderam juntar-se a nós, etc."
Mordi os lábios. Senti-me muito zangada! Bolas, não esperava ouvir aquilo. Não queria ouvir aquilo, participar naquilo. Admitiria que a Igreja desenvolvesse um discurso construtivo a favor do que considera serem os bons valores, a centelha divina da maternidade, o que quisessem, mas promoverem a condenação das mulheres que abortaram, ajoujando-lhes o peso da culpa, da culpa, da culpa, a vida inteira, e durante o terço?! Que Igreja! Que País! Que gentinha!
Antes de sair, porque saí, observei os fiéis: cerca de trinta homens e mulheres acima dos 50 e tal anos. A maldição que acabara de ser lançada deveria atingir cerca de dois terços dos presentes, os quais, como qualquer católico romano convicto, que votará "não", no domingo, já abortaram, ou mandaram abortar. Paradoxalmente, a mim, aquela que se incomodou, que se zangou, a que vota sim, a maldição não atingia. E eu sinto que há nisto muita ironia!
Um dia destes, regressando do trabalho, encontrei-a de portas abertas, e considerei ser boa altura para uma Avé-Maria e um Pai-Nosso, como pagamento de uma promessa.
A maior parte dos leitores considera-me uma herege, uma céptica, mas eu não sinto qualquer necessidade de corresponder a um perfil. Detestaria sentir-me amarrada a uma expectativa de mim. Consigo perfeitamente viver acumulada dos meus paradoxos pessoais, encontrar-lhes sentido.
A minha relação com o catolicismo é má, muito má. Sinto-me como os padres excomungados, os malditos, que continuam a exercer o sacerdócio por convicção, mas à sua maneira. Eu também nego os preceitos, e me religo à minha maneira, com as minhas regras. Contudo, embora conheça invocações esotéricas, e mantras budistas, a minha necessidade de oração satisfaz-se com as que aprendi na catequese, e, sobretudo, com a minha mãe. Rezar dessa forma, tal como lhe ouvi, e ainda ouço, pacifica-me, devolve-me a mim.
Mas eis o que quero relatar: ao entrar na igreja, rezavam o terço no altar secundário, exactamente o de Nossa Senhora. Pensei que poderia juntar-me. Estava com tempo. Rezavam avé-marias. Nunca, antes, que me lembre, participara numa reza ritualística do terço, pelo que não sabia fazer-se uma invocação à Virgem entre cada sequência de preces. Na primeira dessas invocações, ouço a oficiante dizer, serena, angelicamente, "pedimos-te, Senhora, que leves todas as mulheres que caíram na tentação de realizar aborto, a carregarem tal peso nas suas consciências para o resto das suas vidas, arrependendo-se por tê-lo feito, e que estas mulheres sofram e chorem o seu pecado perante Deus e o teu exemplo materno; pedimos-te também, Senhora, pelas pobres crianças abortadas que nunca puderam juntar-se a nós, etc."
Mordi os lábios. Senti-me muito zangada! Bolas, não esperava ouvir aquilo. Não queria ouvir aquilo, participar naquilo. Admitiria que a Igreja desenvolvesse um discurso construtivo a favor do que considera serem os bons valores, a centelha divina da maternidade, o que quisessem, mas promoverem a condenação das mulheres que abortaram, ajoujando-lhes o peso da culpa, da culpa, da culpa, a vida inteira, e durante o terço?! Que Igreja! Que País! Que gentinha!
Antes de sair, porque saí, observei os fiéis: cerca de trinta homens e mulheres acima dos 50 e tal anos. A maldição que acabara de ser lançada deveria atingir cerca de dois terços dos presentes, os quais, como qualquer católico romano convicto, que votará "não", no domingo, já abortaram, ou mandaram abortar. Paradoxalmente, a mim, aquela que se incomodou, que se zangou, a que vota sim, a maldição não atingia. E eu sinto que há nisto muita ironia!
sexta-feira, fevereiro 02, 2007
Esclarecimento aos nãos
Olá, bom dia, é só para informar os partidários da campanha do não, os que em Évora andam a vandalizar as faixas do sim junto à rotunda das portas de Avis, que tal acção pode ser considerada aborto.
Muito obrigada.
Muito obrigada.
Procriação medicamente assistida para todos
Em Portugal precisamos de aumentar a natalidade em 50 mil crianças por ano, e este é um dos argumentos do não no referendo à despenalização da IVG, motivo pelo qual, o líder do CDS-PP propôs que o governo aprovasse medidas de apoio à vida.
Considerando que o governo não está a pensar aumentar o salário dos portugueses, nem nada que se pareça, suponho que isto seja uma alusão lógica às técnicas de procriação medicamente assistida, que deverão ser facultadas, gratuitamente, a todas as cidadãs e cidadãos que desejem ser pais e/ou mães, quer sejam casados ou solteiros, heterossexuais ou homossexuais. Solteiros, homossexuais e lésbicas, etc., não só pagam impostos, como, embora custe muito a acreditar, são pessoas iguais a todas as outras, tipo gente a sério, portanto, por que raio haveriam de ser distinguidos em relação a outros cidadãos? Não teria qualquer sentido!
Se for isto, até me filio no CDS-PP.
Considerando que o governo não está a pensar aumentar o salário dos portugueses, nem nada que se pareça, suponho que isto seja uma alusão lógica às técnicas de procriação medicamente assistida, que deverão ser facultadas, gratuitamente, a todas as cidadãs e cidadãos que desejem ser pais e/ou mães, quer sejam casados ou solteiros, heterossexuais ou homossexuais. Solteiros, homossexuais e lésbicas, etc., não só pagam impostos, como, embora custe muito a acreditar, são pessoas iguais a todas as outras, tipo gente a sério, portanto, por que raio haveriam de ser distinguidos em relação a outros cidadãos? Não teria qualquer sentido!
Se for isto, até me filio no CDS-PP.
quarta-feira, janeiro 31, 2007
Um problema de heranças
Imagem atenciosamente roubada ao imagensdokaos.blogspot.comParece que se o Sim ganhar este referendo, colocar-se-á um grave problema de natureza legal. Segundo Bagão Félix, despenalizar a IVG até às dez semanas gerará uma terrível contradição à lei, uma coisa absolutamente intransponível! Não é que o artigo número tal-e-tal, do Código Civil, prevê que um feto possa ser contemplado num testamento?! E quem diz o feto, diz o embrião, diz o zigoto. O próprio óvulo por fecundar.
Imaginemos que a dona Conceição deixa todos os seus solares no Minho à sua querida sobrinha Ermelinda, bem como ao feto que hospeda e ao resto dos seus futuros óvulos. E se o feto for nado-morto? E se morrer antes de poder receber a herança? E se Ermelinda for atropelada e abortar? E se Ermelinda for infanticida? E se Ermelinda se suicidar e não deixar descendentes? Os solares do Minho ficarão para o erário público por falta de herdeiros? De facto, é preciso salvaguardar situações desta gravidade.
Além disso, a Lei é a Lei. A Lei não se contradiz, não erra e não se altera; os seres humanos, os que fazem as leis, e a quem se aplicam, esses sim, sendo imperfeitos, precisam de ser controlados pela Lei.
Enfim, este argumento do Bagão deixou-me muito indecisa.
Além disso, a Lei é a Lei. A Lei não se contradiz, não erra e não se altera; os seres humanos, os que fazem as leis, e a quem se aplicam, esses sim, sendo imperfeitos, precisam de ser controlados pela Lei.
Enfim, este argumento do Bagão deixou-me muito indecisa.
quinta-feira, janeiro 18, 2007
Porque haverá enorme abstenção no referendo à despenalização do aborto
A minha mãe, que é a voz do povo, e acerta no resultado de todas as eleições, muito antes da sua realização, apresentou-me, ontem, o cenário do próximo referendo à despenalização do aborto: enorme abstenção.
A maior parte dos portugueses não percebe se é moralmente certo ou errado, ou melhor, confunde moralidade e necessidade, ou melhor, a educação predominantemente católica gera as suas castrações da vontade, e não quer que a decisão lhe pese na consciência, portanto desresponsabiliza-se do assunto. Se vencer o sim, não foram eles. Se vencer o não, também não foram eles. É mesmo português! É o nosso lema: "Não vivas; passa pela vida como se não tivesses existido".
A minha mãe não quer ir votar. E, se for, vota não. Já me disse. Porque antes de eu nascer sofreu uma série de abortos involuntários, com 2 e 3 meses, e "eram todos já perfeitinhos, num deles até já se via a pila do menino". E, porque, se não for proibido, "as mulheres vão-se pôr todas a abortar e ninguém tem filhos".
Um referendo destes é um erro, já se sabia. Ninguém quer ir votar, a não ser activistas acérrimos. É uma chatice. Este assunto deveria ter sido resolvido no Parlamento, tal como o Governo resolveu outros, bem impopulares. Legisla, discute e aprova. Ponto final. É assim que tem agido. Não compreendo a hesitação, que se regista neste caso e não nos restantes.
Trata-se de despenalizar um acto, não de o legitimar, mas serão muito poucos os que votarão conscientes da realidade. A discussão continua a realizar-se sobre a legitimidade moral e ética do aborto, e isso já não está em discussão. Aos 20 anos ainda admito que esta questão ocupe as mentes dos bloggers. Mas, a certa altura da vida, as prioridades da existência começam a clarificar-se. Assentemos num ponto: os parteiros e parteiras que, pelo País fora, realizam abortos clandestinos, sabem que não é bom. Usemos palavras simples: não é bom. Na nossa cultura, o aborto autoculpabiliza os intervenientes no processo. No entanto, interromper uma gravidez pode ser benéfico para todos. Doar um rim também não é lá grande coisa, mas pode ser benéfico.
O que se vai votar no referendo não é sim e não ao aborto, tal como a questão tem sido apresentada até agora. Mas isto, como explicá-lo à minha mãe, e aos jovens que me pararam um destes fins-de-semana, no Chiado, pedindo-me a assinatura para "o referendo contra o aborto"?!
A maior parte dos portugueses não percebe se é moralmente certo ou errado, ou melhor, confunde moralidade e necessidade, ou melhor, a educação predominantemente católica gera as suas castrações da vontade, e não quer que a decisão lhe pese na consciência, portanto desresponsabiliza-se do assunto. Se vencer o sim, não foram eles. Se vencer o não, também não foram eles. É mesmo português! É o nosso lema: "Não vivas; passa pela vida como se não tivesses existido".
A minha mãe não quer ir votar. E, se for, vota não. Já me disse. Porque antes de eu nascer sofreu uma série de abortos involuntários, com 2 e 3 meses, e "eram todos já perfeitinhos, num deles até já se via a pila do menino". E, porque, se não for proibido, "as mulheres vão-se pôr todas a abortar e ninguém tem filhos".
Um referendo destes é um erro, já se sabia. Ninguém quer ir votar, a não ser activistas acérrimos. É uma chatice. Este assunto deveria ter sido resolvido no Parlamento, tal como o Governo resolveu outros, bem impopulares. Legisla, discute e aprova. Ponto final. É assim que tem agido. Não compreendo a hesitação, que se regista neste caso e não nos restantes.
Trata-se de despenalizar um acto, não de o legitimar, mas serão muito poucos os que votarão conscientes da realidade. A discussão continua a realizar-se sobre a legitimidade moral e ética do aborto, e isso já não está em discussão. Aos 20 anos ainda admito que esta questão ocupe as mentes dos bloggers. Mas, a certa altura da vida, as prioridades da existência começam a clarificar-se. Assentemos num ponto: os parteiros e parteiras que, pelo País fora, realizam abortos clandestinos, sabem que não é bom. Usemos palavras simples: não é bom. Na nossa cultura, o aborto autoculpabiliza os intervenientes no processo. No entanto, interromper uma gravidez pode ser benéfico para todos. Doar um rim também não é lá grande coisa, mas pode ser benéfico.
O que se vai votar no referendo não é sim e não ao aborto, tal como a questão tem sido apresentada até agora. Mas isto, como explicá-lo à minha mãe, e aos jovens que me pararam um destes fins-de-semana, no Chiado, pedindo-me a assinatura para "o referendo contra o aborto"?!
segunda-feira, outubro 16, 2006
O que vale e o que não vale
Não compreendo como é que o mesmo governo que legisla a doer sobre reformas e segurança social, impostos, saúde e educação, não auscultando a opinião de nenhum(a) eleitor(a) para o efeito, precisa de se apoiar num referendo para descriminalizar a interrupção voluntária da gravidez até às 10 semanas.
O meu voto serve para uns assuntos, não para outros? Por que será?
O governo português não está interessado em que eu me pronuncie, à boca da urna, sobre o aumento da electricidade em 16%, medida que afectará 5 milhões de consumidores domésticos no próximo ano?
Não precisamos de gastar dinheiro dos nossos impostos em processos eleitorais para legislar sobre aquilo que já deveria estar na lei há mais de 20 anos, e que a prática legislou de per si, e às claras.
O meu voto serve para uns assuntos, não para outros? Por que será?
O governo português não está interessado em que eu me pronuncie, à boca da urna, sobre o aumento da electricidade em 16%, medida que afectará 5 milhões de consumidores domésticos no próximo ano?
Não precisamos de gastar dinheiro dos nossos impostos em processos eleitorais para legislar sobre aquilo que já deveria estar na lei há mais de 20 anos, e que a prática legislou de per si, e às claras.

Estes pequenos anúncios foram scanados do jornal Público. A semana passada reparei que aparecem no Correio da Manhã com uma linguagem menos eufemística. Neste jornal (CM), cujo director anunciou publicamente fazer campanha pelo não, escreve-se, nos anúncios das mesmas clínicas, "interrupção voluntária da gravidez" em lugar de "tratamento voluntário". E convém, porque com isto do "tratamento voluntário" ainda se arriscam a que apareça por lá alguma grávida de Elvas a pedir que lhe acudam às hemorragias do terceiro trimestre!
terça-feira, outubro 18, 2005
Estão à espera de quê?
In Diário de Notícias, 17/10/05
Em Portugal nenhum referendo, nos próximos 50 anos, despenalizará a interrupção voluntária da gravidez, porque as cidadãs que o praticam ou praticaram, devidamente acompanhadas pelos cidadãos que sugerem, incentivam ou concordam, na hora do voto, traçam a cruz no não - isto porque a vida é sagrada, porque é pecado, porque fizeram, mas não concordam que se faça: teve de ser!
Portanto, prática ilegal, sim, muito bem, nunca chegará ao conhecimento do Senhor, entidade que se continua a confundir com o Estado - por isso é que ninguém reclama, estão todos conformados ao dogma do poder político como aos da religião! Agora legalizar, legalizar... não, que a gente gosta mais de fazer às escondidas. Seria a república das bananas! Qualquer uma fazia o que queria! Como se hoje, dia 18 de Outubro de 2005, qualquer uma não o pudesse fazer com notas de euro na mão!
A vida é sagrada, mas a da gestante, que já cá está, também, e a ela e ao companheiro, se existir, se ela quiser, cabe decidir.
Em Portugal, um referendo ao aborto nunca será um acto civil com consequências políticas, mas uma declaração de fé. Portanto, referendo, não! Lei!
Somos todos muitos cristãos, agora para dar a outra face, e ser-se solidário com quem realmente precisa, isso já é outra cantiga...
Nota: entre as mulheres que conheci e conheço, velhas e novas, apenas uma nunca interrompeu voluntariamente a gravidez. E foi porque não calhou. Acho que isto chega como exemplo.
Portanto, prática ilegal, sim, muito bem, nunca chegará ao conhecimento do Senhor, entidade que se continua a confundir com o Estado - por isso é que ninguém reclama, estão todos conformados ao dogma do poder político como aos da religião! Agora legalizar, legalizar... não, que a gente gosta mais de fazer às escondidas. Seria a república das bananas! Qualquer uma fazia o que queria! Como se hoje, dia 18 de Outubro de 2005, qualquer uma não o pudesse fazer com notas de euro na mão!
A vida é sagrada, mas a da gestante, que já cá está, também, e a ela e ao companheiro, se existir, se ela quiser, cabe decidir.
Em Portugal, um referendo ao aborto nunca será um acto civil com consequências políticas, mas uma declaração de fé. Portanto, referendo, não! Lei!
Somos todos muitos cristãos, agora para dar a outra face, e ser-se solidário com quem realmente precisa, isso já é outra cantiga...
Nota: entre as mulheres que conheci e conheço, velhas e novas, apenas uma nunca interrompeu voluntariamente a gravidez. E foi porque não calhou. Acho que isto chega como exemplo.
O tempo de um gelado no McDonalds
Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...