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domingo, maio 27, 2007

Palhaços da vida real


Quando era pequena, os palhaços faziam-me rir, porque eram mais inocentes que eu. Caíam, e enganavam-se como as criancinhas. Portavam-se mal. O palhaço pobre desobedecia ao palhaço rico, tentava enganá-lo.
Os palhaços divertiam-me; eram um reduto de pureza mais pura que eu. Mas era teatro, a seguir tiravam os narizes, os chapéus e sapatões rasgados, e voltavam a ser homens iguais ao meu pai, ou a outros. Era mentira. Eu sabia. Era uma mentira que me fazia bem.

Os palhaços que me fazem rir, hoje, são palhaços todos os dias, em público ou em privado. São todos ricos, querem ser mais ricos, sobretudo mais famosos, e detestam o palhaço pobre, o piroso andrajoso, que desprezam. Não imitam a inocência, porque não a conhecem. São apenas ridículos. Gente mutante de gente. Não lhes chamamos palhaços, dizemos "aquele cromo". Rimos, mas é um riso com travo amargo. No fundo, gozamos: e o gozo amarga no fim. Aquilo é a vida, não a mentira que se despe quando acaba o espectáculo, e essa verdade é de um realismo quase insuportável.

quinta-feira, agosto 24, 2006

As bichonas

Tenho muita pena, mas eu também acho que há gays e bichonas.
Os primeiros são bastante alegres, de indiscutível e discreto bom gosto, e a nós interessa-nos pouco saber com quem dormem - lamentando que não durmam connosco!
Os segundos são matronas do século XIX, em óbvia anacronia com esta horrorosa época de fancarias, pechisbeques e falta de classe; não são alegres, mas vivem em alegria forçada com o entretimento sazonal das suas "petites amies" chamadas Antoine, acabadas de chegar de Aston Martin, descapotável, et soies d' été; existem, entediadas do tempo e desfasadas do espaço, numa euforia très nouveau riche, très snob, preconceituosa beaucoup, sexualmente et tout: porque há que ter respeito! Partout.
A bichona chama gorda, em lip reading, à empregada de hotel, quando esta se volta com o carrinho do petit déjeuner, e a todas; e sabe sempre quando começa e acaba a saison. Et oú. E pode dar conselhos sobre os melhores patés da praça, e de graça.
Veste mentalmente um espartilho bem apertado, que lhe levanta os peitos e lhe segura as anquinhas, sem marca, e n'Os Maias, hesita entre o Carlos e a Maria Eduarda, que é ruiva, é fogosa, mas... gorda, e os vestidos saindo da mala aberta cheiram a cio, um horror... Antes Carlos e as elegantes luvas em pele escura. Sempre era um homem, et un docteur.
E "oh, Antoine, chafurdar neste fim de mundo, lixo da Europa civilizada! Para além de Paris, mais nada!"
A matrona, ou melhor, a bichona despede as criadas dos outros aos gritos, e aos criados, avisa-os bem, "componha-se, menino, que não é uma rameira qualquer. Vá lá, com sumo cuidado, dar o seu jeito no malmequer!"
Em casos de pontual e excessiva analepse, as bichonas ainda recebem mesada da mamã ou da tia, e prendas das manas e das madrinhas, que poupam meticulosamente para gastar em... botões.
E são caseiros. Se não contraíram matrimónio foi por excessiva delicadeza, e cautela, e decência, surtout, porque as mulheres, sabe-se, são interesseiras, e suam, e têm hormonas, e, casadas as manas, alguém tem de olhar sempre pela mamã.

A bichona têm o Proust todo sublinhado. E quando digo todo, é todo. Porque qualquer leitor de 3ª classe sabe que em Proust, mesmo em "Sodoma e Gomorra", não há agudos nem graves, apenas o som contínuo de uma única corda tocada pelo vento da rua, ou, muito às vezes, pelo vago roçar de uma saia de cetim com renda, em movimento. Rien de plus.

No tempo dos bobos da corte, ainda vá, uma pessoa tolerava tanto abichanamento - havia pouca diversão - mas agora, sinceramente, com a tv cabo e os blogues e o que uma pessoa tem para ler, e ao preço a que estão as mulheres-as-dias, e as mensalidades de ginásio, não há pachorra nem pilim.
No tempo da corte... mas agora, sinceramente, as bichonas dão péssima fama aos gays.
E não há pachorra, por mais que se tente. Nem Limoges nem pilim.
"Uma chafurdeira este país!"


Serviço Limoges, estilo Renaissance

sexta-feira, outubro 28, 2005

Ninguém sabia!

O ano passado, acho que foi o ano passado... na Maria, acho que foi na Maria... mas pode ter sido na Ragazza, sei lá, cultivo-me tanto... li uma “breve” que se infiltrou, para sempre, nos recantos da minha memória, a mesma que se recusa, com igual zelo, a guardar a data da batalha de Aljubarrota: Robbie Williams, o grande ídolo pop, padecia de uma série de graves traumas e fobias: temia ser atacado, perseguido, violado... pelo que contratara um bodyguard morenão e musculoso, todo ele tatuagens e roupa negra em lycra, que o acompanhava para todo o lado, e, tal e qual a minha Micas, nos dias em que se porta bem, dormia no quarto do Robinho, para melhor o proteger, ficando de guarda aos pés da cama do próprio, que dizem ser em ouro maciço.
Lendo isto, peguei no telefone, liguei para a minha prima afastada, a da filosofia pura, e ganhámos o dia em risota.
Também queríamos um bodyguard aos pés das nossas camas Moviflor!

Ora, vem ao caso que, aí há uma quinzena, mais dia, menos dia, bato com os olhos noutra "breve"; na Maria, acho que foi na Maria... mas pode ter sido na Caras ou na Vip. Desta vez, visava-se Robbie de forma descaradamente pleonástica.
Robbie Williams acabara de declarar a uma estação de rádio que, sim, era gay, imenso gay, mais precisamente, uma entre as assinaláveis bichonas que o Reino Unido produziu, e se ele as produz bem!

Resta-me concluir que algo está a falhar na formação dos nossos jornalistas. Há, efectivamente, crise curricular. Venha o não sei quê de Bolonha! Isto é um exemplo de não-notícia. Isto é igual ao famoso “cão mordeu um homem”.
Lá peguei no telefone, lá liguei para a minha prima afastada, risota, risota, etc., e a nossa preocupação, neste momento, limita-se a uma simples questão de segurança: o ouro, metal excessivamente mole, será material adequado a um leito sobre o qual pesa o sono fóbico e traumatizado de um ídolo da pop, ainda por cima com seu bodyguard aos pés?

O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...