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quinta-feira, maio 19, 2005

Cavernícolas



Gosto de homens. Tenho de admitir. Gosto mesmo. E é por gostar que me preocupo, que aconselho - que aqui venho como uma mãe! Porque neles, nem tudo são rosas. Há muita jardinagem a pedir para se realizar.
Um aspecto do génio masculino que me incomoda bastante, e que tem deixado o planeta, física e humanamente de rastos, é o fascínio pela guerra. Os homens gostam de guerra. De material de guerra. Gostam de conduzir tanques, disparar armas, fazer pontaria ao alvo. Gostam de manejar as peças; sentir-lhes o toque do metal, dos pormenores lavrados; distingui-las pelo som, eficácia, rapidez do disparo ou do gatilho. Gostam do cheiro a sangue.
Lembram-se das recentes descrições de soldados americanos no Iraque, avançando pelo território disparando incessantemente, gritando, como em transe, canções de morte e sangue e destruição? Eu lembro-me. Não pude acreditar que fosse possível cantar e gozar enquanto se destroem vidas. Os momentos de vida e de morte são igualmente sérios e sagrados. E iguais.
Tal reacção de gozo, excitação perante a morte, desculpem!, não tem só a ver com adrenalina de vitória, de aventura, mas com o prazer da guerra enquanto prazer da morte.
Não será assim com todos, certo. Muitos há que conseguiram ultrapassar o estado cavernícola, graças à influência das mulheres com quem se relacionam; esses são os que caminham, a passos largos, para uma existência já um tanto palafítica.
Mas mesmo esses, gostam de se envolver à porrada. E, se não a praticam, dizem muitos palavrões, que é uma forma de andar à porrada sem usar os punhos. E sabem fazer cocktails molotoff, que é arte que não passa pela cabeça de ninguém.

Não é por falta de jeito que as mulheres não vão caçar às quintas de madrugada e ao domingos, é porque até se agoniam de ver o bicho morrer. A gente agonia-se com aquilo de estar ali a roubar a vida ao bichinho que ainda esperneia, ainda por cima para nada; a sentir o cheiro enjoativo do sangue quente. Vamos lá ver, que mulher pode sentir prazer em enterrar o cebolão no coração do suíno? Os homens, sim!. Eles adoram a matança, aquele ritual de enterrar a faca e ter nas mãos, naquele instante, o poder de retirar a vida, devorá-la... Até se lhes entesa o pau, caraças! Ora, isto, não me parece muito saudável do ponto de vista psicológico. Até me parece uma valente tara!
Uma mulher não mata, porque atingiu um estado civilizacional em que não só não concede nobreza alimentar à carne, como, se precisar de a consumir por algum motivo que lhe será alheio, sabe que pode ir ao Jumbo comprar já embalado, e sem sangue. Mas uma mulher sabe mais, sabe que o sangue gera sangue; a morte, morte, e, por isso, dirige-se, logicamente à secção do empadão de soja, do guisado de tofu com beringela, dos panados de seitan com ervilhas, das favas guisadas com todos (todos os legumes!)...
Porque os homens é que gostam de comer carne, para depois desejarem muita carne, acumularem materialidade boçal que justifique um batalhão... Nós, as mulheres, somos doces. Nós, as mulheres, não gostamos de porrada. Gostamos que falem connosco devagar, suave, e que nos escrevam poemas. Nós, as mulheres, gostamos de nos envolver, sim, mas é com os homens, e muito, sim, mas é na cama (ou noutro lugar qualquer, não somos esquisitas!). Aí adoramos o confronto. Nós queremos é meter-nos com eles na cama como umas ratas em ninho de ratos, e os parvos na rua à porrada! Depois admiram-se que, de vez em quando, tenhamos de nos acalentar umas às outras. Também não é que nos custe: temos bom gosto, sabemos o que é bom... e aprendemos, há muito tempo, que, na "matança" do amor, o enterrar da faca assume, por vezes, carácter facultativo. Não digo sempre, mas para desenfastiar...
Ora esta conversa vem toda a propósito de eu, hoje, vindo a subir, afogueada, a rua das Flores, aqui no meu bairro, escutar, de dois senhores, que me viam passar, mirando-me como se mira a montra de um stand de tanques de combate ou coisa assim, o seguinte comentário, "isto é que é material de guerra do bom!"
E a expressão remeteu-me imediatamente para questões de ordem linguística: a importância da gíria sócio-profissional, a expressividade dos recursos de estilo, nomeadamente da metáfora. A adaptação da dita gíria e recursos de estilo aos contextos... E nós sabemos que estas coisas nunca são por acaso.

O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...