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terça-feira, abril 15, 2008

Os cobardes

A cobardia alugou uma casa sem janelas num beco escuro e sem nome. Entra por uma porta vulgar, que se perde entre outras portas, e, lá dentro, senta-se no chão, chorando largamente, a fio, sem ser vista; maldiz a vida, chora a vida, chora-se, enquanto as sobrancelhas embolorecem, e pouco a pouco, toda a pele do rosto apodrece de tristeza.
A preguiça pode salvar-se, a má-vontade, até o vício negro. A cobardia não tem salvação.

domingo, fevereiro 11, 2007

Os "tanto faz"

O português mete-me raiva! O português é um bananas, um encolhido, um medricas! O português come o que lhe dão, e cala, e gosta. Está habituado. O português não escolheu a ditadura do Estado Novo nem a revolução de Abril! Houve uns gajos que tomaram as decisões, "eles, os outros", e os portugueses quedaram-se boquiabertos com a lata, porque, para os portugueses, é preciso ter lata para se alterar seja o for, mexer um dedo, levantar o cu da cadeira.


O português não forma opinião, vai para onde toca o vento. Ou então nem vai. Porque o português não acredita. O português acha-se pequenino, acha que não pode, que não vale. "Ah, para quê?! Chatear-me, para quê?! Dar a cara, para quê?! Tanto faz! Eles fazem o que querem! São todos iguais!" Os portugueses não percebem que os outros são eles próprios. Cada português é um d"eles", sentindo-se outro.
Tanto lhes dá! Que tenham uma opinião contrária à minha, mas que a tenham, carago, e que a defendam! Não participar na vida da pólis, recusando tomar uma posição que a democracia garante sigilosa, é uma atitude que não posso compreender. Se dificilmente concebo que em eleições legislativas, autárquicas, presidenciais se registe uma elevada taxa de abstenção, porque considero que o descontentamento partidário se deve manifestar através do voto em branco, mas voto, menos compreendo que num referendo de carácter legislativo, despartidarizado, os portugueses recusem pronunciar-se sobre o que terá consequências directas na qualidade de vida dos seus. É uma desresponsabilização inaceitável. Não, eu não penso que os portugueses tenham um comportamento eleitoral exemplar. Que exemplaridade pode existir quando mais de metade dos indivíduos não vota?! O que é que isto nos diz, neste caso? Que não queriam referendo, mas uma lei discutida e aprovada na Assembleia da República?! Não, porque isso foi o que sempre defendi, mas, havendo referendo, não tinha lógica baixar os braços sem lutar. O mesmo do outro lado: não foram votar porque concordavam com a Lei que vigorava?! Se concordavam, iam mantê-la! Ou se concorda ou se discorda. Ou um bocadinho dos dois lados, mas escolhe-se, para se não estagnar. E age-se de acordo. Agora, o "deixa andar", o "tanto faz", o nem sim nem não?!
A Lei mudará, mas a vitória deste referendo vai inteira para o "tanto faz, isto não é comigo, não quero ser responsável!" Isto revela, sem equívocos, o rosto verdadeiro dos portugueses; não é apenas uma radiografia da forma como se abstêm da vida política, mas da vida em geral. E foi aí que o "não" errou. O seu principal argumento não colhia. É que os portugueses estão-se nas tintas para a vida! Os portugueses odeiam a vida! Os portugueses, se pudessem, pagavam a alguém que vivesse por eles, como se paga a quem nos vem limpar a casa à sexta-feira.

quinta-feira, agosto 17, 2006

Os que vivem por nós

O que é terrível nos outros, o seu rosto censurável, o recanto mais questionável, enfim, o podre, cheira mal enquanto os seres reais não se transformam em personagens. "Ficcionados" são já carácteres densos, complexos, fascinantes.
Oh, se fôssemos tão livres quanto eles, se tivéssemos tido as suas vidas!

A minha prima afastada, lá do alto da sua filosofia pura, costuma dizer que amamos as "personagens" malucas, as que se drogam e suicidam, as que se destroem e dizem palavrões no palco, as que devem dinheiro, as que andam nuas na rua, e bebem e partem objectos de milhares de dólares e dão porrada e levam-na, e fazem curas de desintoxicação e têm recaídas, porque "fazem tudo o que nós queríamos, mas não somos capazes".
Porque "vivem, em nosso lugar, o que não temos coragem de viver".

quinta-feira, março 09, 2006

Cobardias II

Como avisar alguém que pretendemos mencionar algo que fez ou disse e que nos chateia bestialmente:

- Depois falamos... na boa!

Cobardias I

O que responder quando nos pedem um favor que não nos apetece fazer e que não faremos:

- Na boa!

terça-feira, janeiro 03, 2006

Houve um tempo sem cobardia

Explicaram-me que existe, agora, nos telemóveis, um determinado sistema, o qual permite mandarmo-nos mensagens, com o nosso perfil, aquele que escolhermos ter, à borla, desde que partilhemos uma mesma zona.
Perguntei qual era a utilidade, e responderam-me que era muito usado, nos bares, para os engates. E eu imagino-me no café a receber a seguinte mensagem, "Olá, miúda; sou o Tiago Nuno, 30 anos, 1, 85m, moreno, 107 quilos, engenheiro de minas, Mercedes xpto turbo-diesel, visto-me Gant e Helvetica, Sporting Club de Portugal, os meus livros preferidos são os mais fininhos do Paulo Coelho, curto Da Wiesel, todo-o-terreno, e o amor. Não sou transmissor de doenças venéreas, pelo menos ninguém se queixou".
E pergunto, ainda, então e o velho chat? "Donde teclas?"
E quando íamos ter uns com os outro, fosse onde fosse, e atirávamos, apenas , "Pá, eu conheço-te da faculdade, não conheço?!", mesmo quando não nos conhecíamos de lado nenhum.
E quando nos pediam lume na rua?
E quando, nos bailes, nos perguntavam as horas?
Saber levar uma tampa tinha a sua dignidade. Havia uma disciplina, na tampa. Uma ordem. Uma tampa era só uma tampa naquele momento. Mas respeitava-se; voltava-se à carga no próximo baile, se entretanto não se tivesse tido sorte por outro lado.
Agora, não se arrisca sem rede. Essa é a praga deste tempo: a rede protectora por debaixo do trapézio.
Eu, que sempre fiz piruetas no ar, saltos mortais; eu que dancei no trapézio e me segurei a ele pelo dedo mínino; que hei-de trabalhar no circo sem rede, para sempre, acho estes tempos tão cobardes!

terça-feira, junho 28, 2005

Os nossos queridinhos

Os nossos queridos provocam-nos muito. Tanto. Desassumidamente, os cobardes.
Se reagimos, doidas, os nossos amores esclarecem não ter pretendido chegar onde pensámos: foi equívoco nosso! Não nos era dirigido. A ninguém, aliás. Era apenas uma ideia geral, uma tirada literária.
Quando gostamos muito dos nossos queridos, e apenas nessa fatalidade, fazemos de conta que acreditamos.

domingo, abril 17, 2005

Idealismo



No mundo perfeito não se agredia, fugindo.
No mundo perfeito seria possível compreender o que motiva uma agressão; por que se atira com uma porta na cara de alguém.
Pior que o estrondo, a violência de uma porta batida, é não saber por que a batem.
Costumam acusar-me de idealismo! No mundo perfeito, o idealismo não constituiria motivo de acusação!

O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...