Explicaram-me que existe, agora, nos telemóveis, um determinado sistema, o qual permite mandarmo-nos mensagens, com o nosso perfil, aquele que escolhermos ter, à borla, desde que partilhemos uma mesma zona.
Perguntei qual era a utilidade, e responderam-me que era muito usado, nos bares, para os engates. E eu imagino-me no café a receber a seguinte mensagem, "Olá, miúda; sou o Tiago Nuno, 30 anos, 1, 85m, moreno, 107 quilos, engenheiro de minas, Mercedes xpto turbo-diesel, visto-me Gant e Helvetica, Sporting Club de Portugal, os meus livros preferidos são os mais fininhos do Paulo Coelho, curto Da Wiesel, todo-o-terreno, e o amor. Não sou transmissor de doenças venéreas, pelo menos ninguém se queixou".
E pergunto, ainda, então e o velho chat? "Donde teclas?"
E quando íamos ter uns com os outro, fosse onde fosse, e atirávamos, apenas , "Pá, eu conheço-te da faculdade, não conheço?!", mesmo quando não nos conhecíamos de lado nenhum.
E quando nos pediam lume na rua?
E quando, nos bailes, nos perguntavam as horas?
Saber levar uma tampa tinha a sua dignidade. Havia uma disciplina, na tampa. Uma ordem. Uma tampa era só uma tampa naquele momento. Mas respeitava-se; voltava-se à carga no próximo baile, se entretanto não se tivesse tido sorte por outro lado.
Agora, não se arrisca sem rede. Essa é a praga deste tempo: a rede protectora por debaixo do trapézio.
Eu, que sempre fiz piruetas no ar, saltos mortais; eu que dancei no trapézio e me segurei a ele pelo dedo mínino; que hei-de trabalhar no circo sem rede, para sempre, acho estes tempos tão cobardes!