A Joana terá sido assassinada pela mãe e pelo tio no final do Verão de 2004. O caso concluiu-se em Novembro do ano passado. Foi lida a sentença: homicidas condenados a pena máxima, sem direito a liberdade condicional. Não me lembro do nome dos advogados. Acho que nunca soube.
O caso era complexo: não apareceu o corpo da menina, não havia testemunhas muito relevantes, a polícia nunca juntou grandes provas, a não ser a aparência dos réus, bem como a sua frieza emocional. Uns párias que nasceram inocentes, como a própria Joana, cuja existência conhecemos, mas nos obrigamos a ignorar. A vida é amarga para todos. Custa.
É difícil inocentar quem traz a miséria moral, a desgraça e a ignorância tão escancaradamente impressas no rosto. O caso Joana está portanto arrumado.
Os crimes a que reporta o processo Casa Pia foram cometidos durante décadas e tornados públicos em Janeiro ou Fevereiro de 2003. O caso vai na sua centésima segunda sessão. Não sabemos quando será lida a sentença. Sei de cor o nome de dois dos advogados: Ricardo Sá Fernandes e José Maria Martins.
O caso é complexo, contudo, os corpos das vítimas têm ido a tribunal descrever os crimes, situando-os no tempo e no espaço e identificando ocularmente os responsáveis. A acusação dispõe de inúmeras provas documentais e testemunhos indirectos, mas os réus são pessoas importantes, com excelente formação académica, enquadramentos profissionais dignificantes ou mediáticos; pessoas sensíveis que contribuem para campanhas de solidariedade e se emocionam com casos como o de Joana. Não são párias, e é claro que nasceram inocentes. É difícil culpar pessoas reconhecidamente cumpridoras da moral e dos bons costumes. Pessoas educadas, simpáticas, de boas famílias e com boas famílias. O processo Casa Pia não está, por isso, arrumado.