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terça-feira, março 07, 2017

Dos sentimentos do bacamarte

Este texto demorará cerca de um minuto a ser lido, mas a quase meia dúzia de pensamentos que o acontecimento relatado me suscitou, acorreram ao meu cérebro em não mais que um segundo.
Hoje, ao sair da fábrica, reparei que alguém entalara um bilhete manuscrito no limpa pará-brisas do meu carro. Solteio-o, desdobrei-o, e, em letras maiúsculas, escritas a esferográfica preta, lia-se a seguinte frase: QUERIA TE SENTIR.
O primeiro pensamento foi de ordem gramatical: o pronome pessoal forma de complemento, te, encontrava-se mal colocado do ponto de vista sintáctico. Respeitava a variante brasileira e não a portuguesa. Intolerável, se o autor do bilhete não for brasileiro.
Logo a seguir pensei que deviam ter-se enganado no carro. É uma possibilidade. O terceiro pensamento foi mais ou menos isto, "mas a que canção de forró ou do Tony Carreira ou do Toy é que terão ido roubar esta trampa de frase?!" E o quarto, e mais importante, já uma reflexão ideológica: se o bilhete me foi realmente dirigido, sem enganos, se é de um homem para mim, e admitindo que poderá não ser mero gozo, não passa de um equívoco dos sentidos. E o motivo é simples. Os homens não me querem sentir coisa nenhuma. Os homens não fazem a menor ideia do que seja sentir-me, nem às outras. O que querem é prosaica e eficazmente espetar o bacamarte na carne tenra. Porque sentir, sinta quem lê!

terça-feira, janeiro 06, 2009

A doença mental dos homens


Os homens de hoje reclamam que já não são como os seus pais. Os homens de hoje metem a louça na máquina. Os homens de hoje compreendem as especificidades femininas e até vestem puloveres cor-de-rosa. É por isso que muito me admira que os homens de hoje ainda pensem que as mulheres como eu, normaizinhas, ambicionam ser lindas e arranjadinhas, inclusive como prostitutas. Ou melhor, que as mulheres como eu, com peso a mais, pré-menopausicas, solteiras, sonham ser lindas como outras, que as invejam desmedidamente, e tudo isto com o objectivo de arranjarem homem, porque o único objectivo de uma mulher normalzinha há-de ser arranjar um homem, e não se respira fora disso.

É verdade que eu não gostei do meu corpo durante uns bons 99 por cento da minha vida adulta, e mesmo quando estava magra, mas nunca me passou pela cabeça ser outra. O que eu quis foi ser a mesma de outra forma. Não invejei a beleza de ninguém um único minuto na minha vida. E hoje, para ser sincera, estou tão habituada ao meu corpo, que acabei por gostar dele. A minha celulite, tão fofinha! A minha barriguinha tão docinha! Não fossem estas dores ferradas no cóccix e nos ossos da anca, a ver se eu me dava ao trabalho de emagracer cento e cinquenta gramas, de racionar refeições, de ter dado o litro hoje durante duas horas no ginásio.

O que os homens pensam de nós é um mistério que só eles entendem. Revelado, deixa-nos perplexas.

Hoje, lá no ginásio, o Macho Que eu me Farto de Apreciar para Consolar a Vista, chegou radiante e cheio de energia. Fez abdominais, flexões, levantou 140 quilos em halteres, passeou-se, sorriu-me, etc., etc. Havia risota entre eles. A certa altura, o Camané veio pôr-me a par:
- O rapaz arranjou uma namorada nova, linda, boa... está assim...
Ri-me, e afinei o ouvido para tentar apanhar as conversas, enquanto fazia exercícios de braços. Havia gargalhada. Era o herói que os outros adulavam com graças. O Preto Grande imitava as poses musculadas que o tinha visto fazer ao lado da nova namorada. Risos.
O Camané voltou a aproximar-se para me dizer:
- Mas ele faz mal... uma mulher muito bonita e muito boa nunca serve para casar.
- Sabe lá o senhor se eles querem casar. - respondi-lhe.
- Seja como for... nunca é bom. - esclareceu o Camané, enquanto desenhava com a mão direita frente ao rosto o gesto do cornudo. - Percebe?
Percebi, claro. Para o Camané, mulheres bonitas são objecto de desejo para os outros, e as mulheres, claro, têm a culpa. Aposto que ao longo da vida culpou de leviandade e lúxuria todas as mulheres bonitas que desejou, tendo acabado por casar com uma mais ou menos ,que engordou depois do parto, tal e qual como as outras, e a quem pode agora chamar gorda à vontade. É uma mulher só dele. Nenhum outro homem a deseja.

Isto fez-me lembrar um vizinho da minha mãe, no princípio dos anos 80: tinha obrigado a mulher a deixar de trabalhar para que não houvesse homens a mirá-la na rua e a encostar-se a ela nos transportes públicos.
Há muito anos que chamo a tudo isto doença mental.

terça-feira, setembro 16, 2008

Os homens não querem cuidar


Não, não é português. É um americano num centro de cuidados paliativos. Ou, se calhar, é gay.


Cães e homens: os meus dois temas preferidos, pelo melhor e pelo pior. Ora vamos lá.
No último poste, alguns leitores lançaram a ideia de que um homem que se interesse por cães é gay. Não é verdade. Mas desenvolvamos a questão: o assunto merece atenção porque já tinha constatado que os homens não têm grande gosto por cães pequenos. Gostam de cães de caça, porque gostam da caça, mas não ficam a chorar o cão ficar perdido no mato enquanto eles regressam a casa com as lebres e as perdizes. Gostam dos chamados cães de poder, os doberman, os buldogues, os pitebuls, etc. Um cão de poder, como já referi, reafirma a masculinidade, ao permitir associações entre a força e agressividade do cão e as seu dono. Tenho cá a ideia que os homens estão para os cães, como para os carros: quanto maior e mais potente ele for, mais importante e viril aparentarei ser, porque a verdade é que não passo de um medíocre mesquinho, e sem força na verga, mas há que disfarçar.
No meu bairro, por exemplo, só vejo rapazes e velhotes a passearem cãezinhos. Não há muitos de 30 nem de 4o. Devem recear parecer amaricados, como dizia o leitor em poste anterior, ou, outra teoria minha, os homens relativamente jovens estão ainda demasiado cheios de si, da importância da sua imagem, de adrenalina e testosterona, e buscando satisfação, para se preocuparem com alguém. Os homens de certa idade são sacos de egoísmo, de egocentrismo e de vacuidade. Isto é científico.
Uma realidade que conheço bem: as associações de protecção a animais juntam menos homens do que mulheres preocupados com acções voluntárias do cuidado ao outro. São na sua maioria constituídas por mulheres. E não apenas as solteironas como eu, as que não têm filhos ou as viúvas e divorciadas, tudo mulherio perdido para o sexo até ver, que se vai entretendo com acções de benfazer. Estão cheias de mulheres casadas, com filhos, netos, trabalhos, absolutamente convictas que mais vale limpar as boxers de 50 cães do que passar uma tarde a aturar os complexos de superioridade dos maridos.
Tudo isto me leva a pensar que os homens, de forma geral, não gostam de cuidar, não querem cuidar, não lhes interessa o sofrimento alheio. Eles são todos "muito bons"! Nunca conheci um que pensasse não ser. E quando se lhes mete na cabeça que, para além de serem muito bons, são também muito idóneos e respeitadores, fazendo tudo como deve ser, aceitando a inevitabilidade da mudança, da vida, ainda pior. Cobardolas, é o que é! Quem os pode aturar! Até eu prefiro limpar as boxes da União Zoófila de fio a pavio, lavando o chão de joelhos com um esfregão encharcado em lexívia.

segunda-feira, agosto 18, 2008

O que eles dizem II


Sobre a sexualidade dos portugueses, em chegando Agosto:


"Enquanto o homem é como uma máquina simples que funciona ligando-se no botão on, a mulher é como um amplificador complicadíssimo, cheio de botões que estão ligados uns aos outros.
O homem, desde que esteja fisiologicamente bem, está sempre disponível e com desejo. A mulher é que não."

terça-feira, agosto 12, 2008

Não agridam os vossos homens, por favor


Foto de Emmanuel Honold (exemplo de publicidade negativa para a marca Ecko)

Parece que estou sempre a esquecer-me que os homens também são vítimas de violência doméstica. Falha minha, realmente; 12 por cento das queixas são apresentadas por homens. Vou explicar isto melhor: em 100 indivíduos agredidos pelos parceiros com quem supostamente dormem e coabitam, 12 são dos sexo masculino. Entre esses 12 há os que são agredidos pelas namoradas e esposas, e os que levam dos marmanjos barbudos com quem coabitam.

É dramático: o dia todo a trabalharem na estiva, a beberem bejecas para ganharem força onde têm pouca, e chegado o final do dia, ao chegarem a casa frageizinhos do álcool, ainda por cima levam. Um homem a precisar de uma soneca reparadora para no dia seguinte continuar a beber e a discutir bola com os amigos, e torna-se ali vítima de pancadaria da grossa.

Não batam nos vossos maridos e companheiros, por favor. Olhem que é uma coisa muito má e muito feia estarem a exercer sobre eles o poder que as mulheres já não lhes reconhecem. Não sejam vingativas. Não incorram nos exemplos que testemunharam sob a agência dos vossos pais, avós, tios, irmãos. Se lhes estiverem com raiva, é melhor chateá-los a um ponto em que só encontrem sossego de alma atirando-se voluntários da janela do 10º andar. Que seja uma decisão pessoal e voluntária da parte deles. Não nos cabe interfir nas decisões de vida dos nossos homens. Eles são livres, livres, livres.

quinta-feira, julho 31, 2008

Desde Janeiro, 29 mulheres assassinadas pelos companheiros


O Courrier Internacional deste mês trazia, como tema de capa, a questão da divisão das tarefas domésticas dentro do casal, as quais continuam a carregar sobremaneira as mulheres, mesmo quando ambos os membros do casal trabalham fora de casa. As mulheres continuam a fazer o triplo do trabalho doméstico.
A percentagem de trabalho realizado pelas mulheres que não estão empregadas não diminui significativamente em relação às que estão. Mesmo quando é o homem a ficar em casa, grande parte do trabalho doméstico continua a recair sobre as esposas. Portanto, a conclusão do estudo assumia que a quantidade de trabalho realizado não assenta na quantidade de dinheiro que se traz para governar o núcleo, mas sim na tradicional divisão de tarefas pelos diferentes sexos. É esse o factor determinante.
Por outro lado, nos casais homossexuais, as tarefas encontram-se melhor repartidas. Quando há filhos, cada elemento reclama para si grande parte do trabalho e responsabilidades com aqueles relacionados o que, como qualquer pai ou mãe sabe, não é pêra doce.
O referido estudo, publicado no Courrier Internacional deste mês, deve considerar-se deveras importante no que respeita aos estudos de Género; embora se tenha baseado em dados recolhidos pela Sociologia e Psicologia nos Estados Unidos, aplica-se que nem uvas à nossa salada de fruta ibérica.

Ocorreu-me que os meus primos chegados, actualmente com 18 e 22 anos não foram educados para fazer coisa alguma dentro de casa. Não sabem limpar, coser, cozinhar. Creio que saberão fazer a própria cama. Não são normalmente solicitados a realizar tarefas domésticas. Ora, este tipo de educação não abona grande coisa a favor da divisão de tarefas domésticas conjugais ou outras. Esta cultura, esta educação transmitida aos rapazes é tudo menos saudável. Quero acreditar que um dia eles se esforçarão por realizar as tarefas domésticas a par com as pessoas com quem viverão, por uma questão de lógica e justiça, mas não é certo.

No jornal Público de hoje, o Observatório de Mulheres Assassinadas - até me custa escrever isto - divulga o relatório de ocorrências relativas aos primeiros sete meses do corrente ano: 29 mulheres mortas pelos companheiros num cenário de violência doméstica. Excluídas estão, obviamente, as tentativas de homicídio cujas vítimas escaparam aos ferimentos, que serão o triplo. Ou seja, desde Janeiro, foram mortas pelos companheiros ou namorados, uma média de quatro mulheres por mês. Num país tão pequeno como nosso, convém meditar sobre o assunto. Sobretudo, porque os discursos públicos oficiais, que entraram nos pensamentos e linguagens comuns, relevam uma igualdade de géneros e paridade de comportamentos e oportunidades que a vida lá fora não me mostra. Os discursos decoram a realidade, bem distinta, a qual não depende tanto, como se pensa, do estrato social a que se pertence.
Portanto, bem me podem vir com a conversa sobre o sucesso das mulheres, sobre a igualdade das mulheres, sobre as superiores capacidades das mulheres, que enquanto eu as vir a morrer que nem tordos às mãos dos homens com quem dormem, porque se não és minha não és de mais ninguém, não permitirei que se reclame, na minha cara, qualquer sucesso. Enquanto as vislumbrar, quando chegam do emprego, na cozinha a fazer o jantar, e simultaneamente dando banho aos miúdos, enquanto o marido vê o telejornal, e vai à net, não vejo igualdade alguma que mereça alardeamento.

Mas devo relevar que as mudanças a acorrer não dependem exclusivamente do sexo masculino. Em 20, 30 anos os homens poderão mudar, mas se as mulheres continuarem a permitir deixar-se conduzir como entidades destituídas de pensamento e vontade, totalmente dependentes da segurança e desejos dos seus companheiros, tudo continuará igual.
Estou absolutamente convencida que este tipo de comportamento do sexo masculino só sobrevive porque as mulheres permitem, porque o consideram a ordem natural das coisas. Ora, convém que as investidas do macho não saiam do quarto.
Recentemente, regressei de uma viagem ao estrangeiro; no mesmo voo viajava um grupo de meia de dúzia de jovens portuguesas, alegres, barulhentas, que puseram o avião inteiro a rir-se. Com elas traziam um rapaz da mesma idade. Vinha de guarda.
Andar às ordens de um homem (ou de uma mulher ou de uma máquina) e depender da sua protecção, foi coisa que nunca me passou pela ideia, por carecer de sentido na minha visão do mundo. Somos só donos de nós, e, tirando os filhos até certa idade, não mandamos em ninguém.

Sou uma mulher. Matéria de carne humana, povoada de ocasionais emoções ruins. Também me quis vingar das relações amorosas falhadas com um valente par de estalos, umas joelhadas nos tomates, mas não vinguei; evitei, como quem tem vontade de comer uma carcaça cheia de manteiga, e não come; e os sentimentos, com o tempo, esfriam, graças a Deus. Agora, assassinar um amante, porque se não for meu não será de mais ninguém, sinceramente, é lá coisa que possa ocorrer a alguém culturalmente saudável?



terça-feira, julho 08, 2008

As oportunidades comerciais da depilação masculina


Foto Harry Lapow, Hairy Man, 1963

Estive a observar o movimento de homens que entravam para fazer depilação na cabeleireira do meu bairro. Jovens. Compridões. Embora me tenha acostumado a ver homens depilados na praia e nas revistas, não me tinha ocorrido que faziam a depilação fora da casa.
A depilação é, portanto, uma tendência masculina destes tempos, pelo que quero deixar aqui um lembrete para quem se encontre desempregado e pretenda montar um negócio lucrativo: considerando o tamanho da superfície a depilar, e o preço da depilação por metro quadrado, aconselho vivamente um pequeno salão de depilação exclusivamente masculino. Um sítio onde eles se sintam bem, porque é só para homens, e possam descascar-se todos, e andar de badalo solto, como tanto gostam.
Num local estratégico. O Porto não conheço, mas em Lisboa a zona ideal seria o Príncipe Real, São Bento ou aquela zona do Jardim da Estrela a descer para o Rato, alargando até lá acima a Campo de Ourique. Que negociozão! Olhem que estou a falar a sério! Quanto é que custará depilar umas costas, um peito, uma pernaça de homem? O tamanho daquilo, em pelunça, quanto é que dará em euros?! É que um buçozito não se faz por menos de três, quatro! No bairro!
A mim até me cresce água na boca só de antecipar o prazer que seria cobri-los todos de cera depilatória e arrancar-lha aos repelões. Vou ali dentro buscar um guardanapo!


quarta-feira, junho 25, 2008

Como eles falam das mulheres


Vinham entrando no café a falar de mulheres. Dois homens. Um deles, jovem, alto, de cabelo ondulado, pele clara. O outro, de 40 e tal, 50, envelhecido, cabelo branco, crespo, pele escura, baixo. Ambos vestidos com roupa de trabalho num dia feriado. Oficina. Biscates em obras. Uma ou outra.
Conversavam e discordavam. O mais velho parecia defender uma mulher que o mais novo rejeitava. E argumentava, a Liliana não! Perante a negação, o mais novo impede-lhe o andamento, encostando a mão ao seu peito, o braço esticado, indignado, quase perdendo a estribeiras, a Liliana não?!, a Liliana não?!, só a Liliana foram duas vezes, ali no escritório, lá em cima, que ela me assediou... uma vez ia eu nas escadas, agarrou-se a mim, parecia maluca, a querer beijar-me, a querer beijar-me... Eu é que tive de a afastar e dizer-lhe, eh-la-oh, que é isso?!, tás maluca ó quê?!, senão...

Depois reparou em mim, o mais novo, ou melhor, percebeu a minha indisfarçável atenção, e continuou em voz mais baixa, mas ainda audível, e já viste as pernas da gaja, já viste a maneira como a gaja anda? Aquilo é gado batido.

quinta-feira, junho 19, 2008

O jogo da bola

Hoje há um jogo, vou já sair de manhã com a camisola da selecção, ai, hoje, o jogo, a ver se despego cedo, se regresso ainda mais, e preparar o petisco, uns pipis, o ritual, as cervejas no congelador quase a rebentar, mostrar-me confiante no café, falar sobre o jogo, quantos vamos marcar, ai, o que vamos ganhar, conduzir a alta velocidade, pisar o risco contínuo, não dar prioridade nas passadeiras nem à minha mãezinha, stress, senti-lo, essa antecipação do momento decisivo, o sol que se apaga, a lua que desce à terra, mas não, é mais que isso por agora, joga a selecção, por isso vou refastelar-me no sofá, preparar as bandeiras, as buzinas, porque se joga o meu dia, a minha felicidade, a minha vida.

domingo, maio 18, 2008

O macho heterossexual

Foto Denis Marchaud

Homem jovem, sério, estudado, bem empregado numa multinacional. Casou cedo e tem a vida equilibrada; mulher executiva, magra, bonita, vestida com discrição e bom gosto, dois filhos, bons carros, cão, dog sitter sempre que passam férias no estrangeiro, reuniões periódicas com a família, vida stressante, compensada pelos prazeres de uma qualidade de vida média-alta. Tiveram os filhos tarde, por opção, pelo que puderem gozar longamente os prazeres da vida conjugal sem responsabilidades. Bom aluno, bom marido, bom pai. Às sextas, reunião com os colegas fora da empresa; umas cervejas descontraídas, sem paneleirices, antes de voltar a casa; discussões inflamadas sobre futebol, as estratégias dos treinadores, sempre sem solução à vista, risota, as gajas da empresa, as que têm marido e são boas, as que não têm e são boas, mas um gajo agora... prisão... elas até as mensagens do telemóvel nos lêem; bloqueia-as, pá, bloqueia, queres que eu te diga como é que isso se faz?; só se for o Raul, desde o divórcio faz o que quiser, arranjou um apartamento, mete lá quem quer; as taxas de juro de aplicações financeiras, e a ausência de perspectivas para um desenvolvimento da economia, a médio prazo, ou não, a longo; fait-divers: o car jacking, pá, o pior é um gajo resistir, deixá-los levar tudo, e meter bloqueadores do sistema, sai caro, mas... não, resistir, não, viram o que aconteceu à outra que estava casada com o fulano da televisão?! Não! É preciso saber fazer as coisas. Cabeça. E a gaja que é homem e está grávida, até foi ao programa da Oprah, diz que agora é gajo, tirou as mamas, mas deixou ficar o grelo, e está grávido, grávida, tu já viste o caraças?! Estamos lixados. E a cena do Ronaldo. Pá, que galo. E eram boas, os gajos, viste? Até eu caía. Quem é que não caía? O meu tio dizia que a mulher mais boa, mais boa que já viu na vida era um gajo. Isto certinho. Já ninguém distingue ninguém.
Risota. Sabia bem. Chegando a casa, despe o casaco, manda os miúdos para a cama. Apaga-lhes a luz. Beija a mulher, cansada da semana, deitada no sofá a ver qualquer coisa no Hollywood, linda, sempre. Pergunta-lhe, andaste a beber, já jantaste? Comi qualquer coisa com a malta. Petiscámos Não queres comer? Há salada fria com salmão. Não, deixa. Ainda vou trabalhar um bocado, e encaminha-se para o escritório. Trazes sempre que fazer, diz-lhe ela. Chega de trabalho, hoje é sexta.
Um momento de sossego, respira fundo, arregaça as mangas da camisa, recosta-se no assento da cadeira e verifica o e-mail. Nada de especial. Coisas que podem ficar para segunda. Olha para a porta, escuta lá fora os ruídos da televisão, conecta-se ao Man Hunt, entra no chat e escreve, Olá, 40 anos, 1,78m, 84Kg, magro, definido, não assumido procura não assumido, interessa a alguém?

quinta-feira, abril 17, 2008

Os que me amam

Dali e Gala

O homem era um romântico. Não sei, talvez não. O que é um romântico? Todo o contacto que tomava comigo o perturbava. Se nos víamos de relance na passadeira do Almada Fórum, tremia, e não ousava voltar-se para trás; se nos encontrávamos na Feira do Livro, trocávamos palavras de circunstância, titubeava, percebia que me mentia, que os sentimentos que mantinha por mim permaneciam bem escondidos no seu sorriso social; era a sua sisudez excessiva, os olhos muito abertos, apavorados; se olhava para mim, se me descobria, tremia. Não o percebia trémulo, pelo contrário, parecia-me bem seguro, indiferente, e contudo, eu sabia, ele tremia. Lia uma palavra minha. Descobria-me a caligrafia num livro que alguém lhe emprestara. Ouvia o meu nome no corredor. No elevador parecia-lhe sentir o meu cheiro. Aquela mulher, vista por trás, tinha o meu corpo. Ao longe, pelo corte de cabelo, parecia eu. Uma mulher com dois cães... Uma mulher com uma mãe, talvez levasse a minha a passear. Um carro igual ao meu, mas com outra matrícula. Tremia. Eu era viciante. Eu era o vício. A ideia. A fantasia de mulher. De vida. O sonho. O futuro. O brilho do dia. O sol na solidão do quarto. Podia confiar: eu era o seu mais seguro nada.

sábado, março 22, 2008

Abençoados homens


Abençoados homens de 61 anos, carecas, reformados e com caixa de ferramentas.
Avariou-se-me ontem a torneira do lava-louça e não conseguia parar o fluxo de água, mesmo fechando a válvula de segurança, no exterior. Uma avaria estranha!
Telefonei à minha mãe, para me valer, como de costume, que telefonou à Dona Francisquinha, a vizinha dos cães, cujo filho trabalha na construção, mas não podia; veio cá o marido logo de manhã, de mangas arregaçadas, desenrascar a dona Isabelinha, que a sua mãe disse-me que está aqui com um problema, isto em casa há sempre pequenas coisas que ninguém quer fazer.
Abençoados homens. Deus lhes dê saúde, longa vida e braços que possam carregar caixas de ferramentas para atarraxar o que precisa de atarraxamento.
O marido da Dona Francisquinha tocou-me à campainha como um anjinho da Páscoa, pousou a caixa no chão, abriu-a, e nela foi desencantando anilhas de borracha, bocados de arame, parafusos, porcas, sisal, isto para além das ferramentas, enquanto me pedia lubrificante, que até podia ser óleo de fritar; parecia o MacGyver.
- O senhor parece o MacGyver.
- Ah, pois, eu não perdia um episódio.
- Eu também não. Até me regalava de os ver com o meu pai; o senhor lembra-se do meu pai?
- Então não lembro, Dona Isabelinha, então não lembro? Era um homem muito bem disposto. Mas, isto, nós não somos nada, é o que lhe digo... a minha mãe também já lá está, com a mesma doença do seu pai... há dois meses... mas a propósito do MacGyver, arranje-me aí um fósforo, que estou a precisar de qualquer coisa para fazer aqui enchimento.
- Um fósforo serve-lhe?
Riu-se.
- Dona Isabelinha, eu estive no Luxemburgo. Sabe por que gostam de nós lá no estrangeiro? Por causa disto. Os portugueses são capazes de arranjar tudo com poucos meios. Adaptam-se ao material. Dão-lhe o que ele quer. E resolvemos os problemas. Não há nada que um português não resolva.
E foi verdade; com óleo Fula, um fósforo e um bocado de papel de um folheto do Jumbo arranjou-me a torneira, depois o estore da sala, e a porta, que fechava mal, e pôs-me a luz da despensa a acender, e não me levou dinheiro nenhum, e eu sei, tenho a certeza absoluta, que este homem, para cúmulo da perfeição, ainda deve ter meias solas em condições para bater na cama.
Nunca imaginei que haveria de querer casar-me com o abençoado marido da Dona Francisquinha.

quinta-feira, março 13, 2008

Isabela vai à médica de família



Fui à médica de família porque não ando a sentir o antidepressivo. E disse-lhe, doutora, é como se não andasse a tomar nada. Não me sinto melhor nem pior. Os dias correm bem ou mal, nuns rio, noutros choro, mas não sinto o antidepressivo, veja-me lá a dosagem se faz favor.
E desabafei. Melhor, não me controlei: o que ele me tem feito; as horas a que chega a casa; as manchas nas cuecas; que não o excito; que tem uma miúda. Que tem uma miúda, santo Deus, uma miúda! E quem sou eu na vida dele, afinal? O que vem fazer a minha casa? Contei-lhe, claro; tudo. Desde que a minha prima afastada foi viver para Roma, o meu maior interlocutor é a máquina de lavar roupa. Até isto lhe contei. Caramba, ela é médica; estudou para ouvir e aliviar a dor. Não são apenas os nomes dos ossinhos. As emoções doem como o reumatismo. Sinto-me um trapo usado e deitado fora... esteve longe durante anos e agora não o excito, que sou uma amiga... que respeita muito. Que tem uma miúda! E eu perguntei-lhe, andas metido na cama com miúdas?! Respondeu-me que para ter sexo com quem quisesse não precisava de ir para a cama, bastava-lhe um vão de escada.
E ela, que é médica, que estudou ciência, fisiologia, as emoções... atenção, não sou eu a falar, que me baseio só no que ouço dizer, e penso, e intuo; que acredito no invisível e incognoscível; foi ela, que é médica, disse-me, Isabela, convença-se, os nossos homens não prestam. Foi ela: os nossos homens não prestam. É médica. Estudou ciência. Fisiologia. Hormonas. E reforçou-me a dosagem do antidepressivo.

quarta-feira, fevereiro 20, 2008

Aviso às solteironas

Não levem, nunca, para vossa casa, candidatos a namorados que não tenham a certeza de poderem vir a ser the one, pais dos vossos filhos, para toda a vida, ámen. Não os metam na vossa cama, não os deixem conhecer o padrão dos vossos lençóis nem a decoração do vosso quarto. Se virarem as costas, minhas amigas, estarão a vasculhar as vossas gavetas, no disco do vosso computador, nas caixas de fotos, e a mandar bujardas inclassificáveis sobre o que a vossa vida é e o que deveria ser. Ninguém lhes encomende o sermão e não lho tolerem. Uma solteirona profissional dispensa tanta preocupação. Em poucas palavras, eles que vão mandar bujardas para a puta que os pariu, que com certeza deve ser uma excelente senhora.

sexta-feira, janeiro 25, 2008

Os fãs

Sim, confirmo, sou uma gorda deliciosa, e gira, para além de discreta, modesta, submissa e sensata, qualidades que o homem português muito aprecia.
No entanto, lamento, nesta fase do ano não ando à procura de namorados, até porque só começo a fazer a depilação em Maio. Voltem a contactar-me por essa altura, que pode ser que se arranje alguma coisa, mas, por favor, não gastem as vossas energias enviando toques. Não respondo a toques de números identificados, quanto mais de anónimos. Não gosto de cobardes. Mal por mal, escolheria os mentirosos, não fosse serem todos comprovadamente cobardes.

sábado, janeiro 19, 2008

Tenho saudades do senhor António

O senhor António sempre foi um exemplo conjugal no prédio. Baixito, franzino, moreno, mas, sobretudo, trabalhador, prestável e honesto, casado com uma senhora trombuda, cujo nome se desconhece, mais larga de ombros que de anca, que mesmo maquilhada, e vestida de cerimónia, nos continua a parecer um moldavo das obras, mas de saias, pai de um adolescente com dimensões suínas, autor de todas as grafitagens nas paredes vizinhas, e de pontapés aleatórios em cães aleatórios, porque é um revoltado e lhe apetece. Ao senhor António, homem da minha idade, nunca lhe faltou nada.
Eu e a minha mãe davamo-nos bem com o senhor António, que sempre nos tratou com simpatia. Há dois anos deixámos de ver, e o escândalo estalou. Veio a saber-se, boca-por-boca, que tinha arranjado uma brasileira, saído de casa, acenando bye-bye à vida de honesto pai de família. A minha mãe desculpou-o, coitado, que tinha uma vida muita presa e queria soltura. Que os homens não querem paradeiro e que chegando aos 40 começam a saltar dos eixos, até o meu pai, que Deus tenha. Tínhamos pena dele; ocorría-nos a imagem mental da mulher e do filho e, bem, eu tinha.
Encontrei hoje o senhor António, no Laranjeiro. Estava no Oásis com uma dengosa mulata. Deixou crescer o cabelo, e molda-o com um gel molhado. Usa brincos de diamantes. Chamou o gerente, para lhe dizer que não pagava o ginger-ale, porque o tinham trazido quente e sem gelo, como o pedira. Aconselhou-me a fazer sempre valer os meus direitos, em todo o lado, que se uma pessoa paga, tem direito a ser bem servida.
Ainda dizem que o sexo anal tem contra-indicações.

terça-feira, janeiro 15, 2008

Querida, vou trocar-te por outra

No People & Arts passa um programa de troca de esposas.
Durante duas semanas, os elementos femininos dos casais largam os seus lares e integram agregados familiares estranhos, dos quais saem, igualmente, as mulheres que se ocuparão dos seus.
As esposas largam a casa, obrigatoriamente, e nunca os maridos, pelo que deduzo que as regras assentem na filosofia de que o proprietário do imóvel, bem como da união, é o homem, sendo que o elemento portátil, o qual se acha legítimo mudar, como um sofá ou uma arca frigorífica, a mulher.
Este tipo de programas, embaraçosos, lamentáveis, ajuda-me a demonstrar que a emancipação da maior parte das mulheres, sobretudo as casadas, ainda não aconteceu, ou aconteceu pouco e mal, sendo que as mais elementares reivindicações do feminismo se encontram por realizar.
Gostava que os leitores meditassem 15 segundos sobre estes indícios de cultura patriarcal, aparentemente tão inofensivos.


domingo, janeiro 13, 2008

Come-me

No desejo dos homens não há moral nem culpa nem censura, mas bruteza e urgência e um desespero estrangeiro. O desejo dos homens é cego e surdo-mudo. Cheira como um cão, e abocanha, e morde no escuro, guiado pelo faro e lambuzado de saliva; é a besta perdida e esfomeada da matilha. O desejo dos homens é uma faca aquecida na forja; terra inculta, ignorante. Os homens não fazem amor connosco de madrugada: puxam a nossa carne, sonolentos e loucos, agarrando-se ao naco mais quente, suado, o qual montam, irracionais, desalmados, comendo-nos com fogo e fúria e raiva sem objecto. E é por esse desejo tão rasteiro, tão cão, tão puro.

quarta-feira, janeiro 09, 2008

Esgotam a imaginação toda na cama

O meu meu amorzinho lindo tinha as cuecas rotas em zona de entrepernas, pelo que o convenci a comprar um set de boxers sexy da Calvin Klein, muito justos, muito fashion.
Na fila da caixa, à nossa frente, outros individuos do sexo masculino pagavam as suas peças de roupa. O primeiro adquiriu duas camisas brancas com risca vertical azul, exactamente iguais; o segundo levou sete, sendo que três eram brancas e quatro pretas, todas do mesmo feitio; um terceiro comprou uma em cremezinho, lisa, sem grande fantasia, mas, vá lá, bonitinha.
A moral deste fait-divers quotidiano é coisa simples: alguma leitora alguma vez adquiriu, para uso próprio, uma série de camisas exactamente iguais: duas, três, quatro? Não se tratando de uniforme, bem entendido.

sábado, janeiro 05, 2008

A minha vida dava um filme do Fellini

Fellini filmando Satyricon, 1969
Foto: Mary Helen Mark


(Ou, talvez, um Almodóvar.)


Ele gostava de mim. Ele era um amor. Ele dava-me massagens nas costas. Ele disse que ia comprar uma casa e oferecer-ma, para que eu vivesse nela com a minha filha, e largasse o emprego na fábrica, dedicando-me totalmente à escrita. Eu ri-me, claro. Não acreditei. Não há nenhum ser humano tão altruísta, para além de que não tinha a intenção largar o meu emprego na fábrica; gosto da fábrica, desde que não me chateiem demasiado os cornos. E não é isso, meus amigos, como é que uma mulher pode largar o seu ganha-pão para se tornar dependente de outrem, sobretudo se for um homem, essa espécie que pensa com o mangalho?! Nã.
De repente, ele facilitou-me bastante a tarefa. Apaixonou-se por um morcão do Norte: um gajo com bossa de gordura abaixo do pescoço, que cheirava mal dos pés e coçava os colhões entalados na cueca. Que ele tinha muita cultura geral, e que era o seu homem. Não se notava, mas não o contrariei. Passou a massajar as costas do morcão e eu nunca mais o vi. Os morcões são remédio santo.

O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...