
Os homens de hoje reclamam que já não são como os seus pais. Os homens de hoje metem a louça na máquina. Os homens de hoje compreendem as especificidades femininas e até vestem puloveres cor-de-rosa. É por isso que muito me admira que os homens de hoje ainda pensem que as mulheres como eu, normaizinhas, ambicionam ser lindas e arranjadinhas, inclusive como prostitutas. Ou melhor, que as mulheres como eu, com peso a mais, pré-menopausicas, solteiras, sonham ser lindas como outras, que as invejam desmedidamente, e tudo isto com o objectivo de arranjarem homem, porque o único objectivo de uma mulher normalzinha há-de ser arranjar um homem, e não se respira fora disso.
É verdade que eu não gostei do meu corpo durante uns bons 99 por cento da minha vida adulta, e mesmo quando estava magra, mas nunca me passou pela cabeça ser outra. O que eu quis foi ser a mesma de outra forma. Não invejei a beleza de ninguém um único minuto na minha vida. E hoje, para ser sincera, estou tão habituada ao meu corpo, que acabei por gostar dele. A minha celulite, tão fofinha! A minha barriguinha tão docinha! Não fossem estas dores ferradas no cóccix e nos ossos da anca, a ver se eu me dava ao trabalho de emagracer cento e cinquenta gramas, de racionar refeições, de ter dado o litro hoje durante duas horas no ginásio.
O que os homens pensam de nós é um mistério que só eles entendem. Revelado, deixa-nos perplexas.
Hoje, lá no ginásio, o Macho Que eu me Farto de Apreciar para Consolar a Vista, chegou radiante e cheio de energia. Fez abdominais, flexões, levantou 140 quilos em halteres, passeou-se, sorriu-me, etc., etc. Havia risota entre eles. A certa altura, o Camané veio pôr-me a par:
- O rapaz arranjou uma namorada nova, linda, boa... está assim...
Ri-me, e afinei o ouvido para tentar apanhar as conversas, enquanto fazia exercícios de braços. Havia gargalhada. Era o herói que os outros adulavam com graças. O Preto Grande imitava as poses musculadas que o tinha visto fazer ao lado da nova namorada. Risos.
O Camané voltou a aproximar-se para me dizer:
- Mas ele faz mal... uma mulher muito bonita e muito boa nunca serve para casar.
- Sabe lá o senhor se eles querem casar. - respondi-lhe.
- Seja como for... nunca é bom. - esclareceu o Camané, enquanto desenhava com a mão direita frente ao rosto o gesto do cornudo. - Percebe?
Percebi, claro. Para o Camané, mulheres bonitas são objecto de desejo para os outros, e as mulheres, claro, têm a culpa. Aposto que ao longo da vida culpou de leviandade e lúxuria todas as mulheres bonitas que desejou, tendo acabado por casar com uma mais ou menos ,que engordou depois do parto, tal e qual como as outras, e a quem pode agora chamar gorda à vontade. É uma mulher só dele. Nenhum outro homem a deseja.
Isto fez-me lembrar um vizinho da minha mãe, no princípio dos anos 80: tinha obrigado a mulher a deixar de trabalhar para que não houvesse homens a mirá-la na rua e a encostar-se a ela nos transportes públicos.
Há muito anos que chamo a tudo isto doença mental.