
Não pretendo parecer ninguém especial nem ter um estilo determinado. A minha única preocupação consiste em fazer os possíveis por não me parecer com uma senhora. Detesto a ideia de ser uma lady. Como qualquer mulher solteira, pretendo continuar a gozar do estatuto de menina. Sou uma rapariga, penso para mim. Sou apenas uma rapariga.
Apesar de tudo, andava convencida de que as pessoas conseguiriam aperceber-se da minha fina sensibilidade mau grado o aspecto descontraído, excessivamente normal e juvenil com que piso as pedras da rua. Não sei onde fui buscar a ideia de que as almas sensíveis se reconhecem por um brilho no olhar, um perceptível halo dourado, mesmo que vestidas de serapilheira, despenteadas e cheias de ramelas nos olhos, mas afinal era só uma impressão minha. Mais uma vez, erro, erro.
Estive sem arranjar as unhas durante todo o tempo de férias, o que não é costume. Portanto, a semana passada aventurei-me num novo salão, com as unhas bastante descuidadas, e encetei conversa aparentemente inocente com a manicura, versando o tema "cutículas", para lhe dar a entender que as quero impiedosamente arrancadas.
Disse-lhe eu, tentando dar-me certos ares entendidos:
- Sabe, as minha unhas fazem muita pele!
- Se calhar a senhora mexe muito em água.
- Pois é, mexo, mexo. - respondi, pensando que não tenho máquina de lavar louça, que lavo muita roupa à mão, sobretudo no Verão, e que, de forma geral, gosto de chafurdar em água para lavar a banheira, o lavatório, o bidé, enfim, gosto, é verdade; sim, dou tudo para me encharcar até ao pescoço.
Rematou a senhora:
- Quem mexe muito em água tem este problema. Trabalha na cozinha de algum restaurante, não é?
Consegui responder que não e ficar a rir-me para dentro o resto da tarde.
Não tenho nada contra as almas sensíveis que trabalham nas cozinhas dos restaurantes, mas julgo que há em mim qualquer coisa de inocente. De muito inocente.
Apesar de tudo, andava convencida de que as pessoas conseguiriam aperceber-se da minha fina sensibilidade mau grado o aspecto descontraído, excessivamente normal e juvenil com que piso as pedras da rua. Não sei onde fui buscar a ideia de que as almas sensíveis se reconhecem por um brilho no olhar, um perceptível halo dourado, mesmo que vestidas de serapilheira, despenteadas e cheias de ramelas nos olhos, mas afinal era só uma impressão minha. Mais uma vez, erro, erro.
Estive sem arranjar as unhas durante todo o tempo de férias, o que não é costume. Portanto, a semana passada aventurei-me num novo salão, com as unhas bastante descuidadas, e encetei conversa aparentemente inocente com a manicura, versando o tema "cutículas", para lhe dar a entender que as quero impiedosamente arrancadas.
Disse-lhe eu, tentando dar-me certos ares entendidos:
- Sabe, as minha unhas fazem muita pele!
- Se calhar a senhora mexe muito em água.
- Pois é, mexo, mexo. - respondi, pensando que não tenho máquina de lavar louça, que lavo muita roupa à mão, sobretudo no Verão, e que, de forma geral, gosto de chafurdar em água para lavar a banheira, o lavatório, o bidé, enfim, gosto, é verdade; sim, dou tudo para me encharcar até ao pescoço.
Rematou a senhora:
- Quem mexe muito em água tem este problema. Trabalha na cozinha de algum restaurante, não é?
Consegui responder que não e ficar a rir-me para dentro o resto da tarde.
Não tenho nada contra as almas sensíveis que trabalham nas cozinhas dos restaurantes, mas julgo que há em mim qualquer coisa de inocente. De muito inocente.