No passado dia de Natal, o Cardeal-Patriarca de Lisboa manifestou preocupação com o facto de a Igreja Católica ter dificuldade em atrair jovens. Exceptuando os escuteiros, não é fácil descortinar alguém com menos de 60 anos nos bancos das igrejas. Poderá a Igreja ser totalmente responsabilizada pela indiferença e afastamento dos seu fiéis naturais?
Vejamos, qual de nós não consegue enumerar mentalmente, em poucos segundos, meia dúzia de assuntos de alguma forma relacionados com a sexualidade ou o estatuto social das mulheres e de alguns grupos, relativamente aos quais a Igreja se mantém incompreensivelmente intolerante, afastando jovens e adultos? A haver renovação, seria de melhorar nestas esferas, embora admita não estar à espera que a Igreja abdique dos princípios nos quais se funda quanto à sua essência teológica, mas que, ao menos, se revele capaz de incluir e cuidar quem a procura, sem olhar a outra causa que a própria busca.

Por outro lado, as tomadas de posição da Igreja podem garantir o necessário contrapeso à confusão ideológica que assalta cada vida em particular. De uma Igreja espera-se, precisamente, que reflicta sobre os tempos e fenómenos que atravessa, e que, confrontando-os com a filosofia religiosa defendida, exponha eventuais consequências de um conjunto de crenças, elegendo-as ou rejeitando-as, e estabelecendo uma ética. Obviamente, não lhe cabe o papel de agradar, nem o de acompanhar as modas do tempo sem as meditar. Se alguma coisa louvo às Igrejas é exactamente a teimosia com que se mantêm fiéis a um conjunto de princípios quando todos se preparam para abandonar o velho barco, substituindo-o por um recente modelo em fibra de vidro, mais leve, porque, aparentemente, mais fácil de manobrar.
Escrever Deus com minúscula
Que responsabilidade detém a Igreja no que respeita ao facto de maior parte dos adolescentes escrever o vocábulo Deus com letra minúscula, revelando desconhecer o valor próprio e simbólico do termo?! O que isto significa, muito literalmente, é que a maior parte deles não recebeu formação religiosa de qualquer natureza, equação na qual entra a família.
As famílias de hoje, seja qual for a forma que revistam, não consideraram necessário fornecer às crianças os utensílios necessários para pensar a cultura na qual se movem, tendo excluído do processo educativo o ensino organizado dos fundamentos de uma moral cristã, ou de qualquer moral teológica. E eis o dilema: substituiram-na por que outra visão do mundo? Não tendo oferecido nada em troca, como olhar o mundo construtivamente sem a habilitação de uma moral? Como fazer para tomar decisões sobre a adequação de uma nova ideia ao edifício pessoal de crenças? Ou melhor, como integramos no nosso sistema de valores o que é novo? Compramos este produto ideológico ou nem por isso?
O fascismo digitalizado
Nos velhos tempos, a educação religiosa fornecia-nos a cartilha de valores que permitia seleccionar informalmente o material ideológico que melhor nos servia; esse crivo supria as ausências parentais no que respeitava à transmissão de valores. Se em casa não se aprendia a diferença entre o Bem e o Mal (os adolescentes também escrevem Bem e Mal com minúsculas), ela aprendia-se na igreja, fosse qual fosse a confissão. Havia sempre uma igreja para cada um. Inclusive para aqueles cujos pais se tinham tornado ateus por excesso de uma errada ideia de religião nas suas vidas, o que faz todo o sentido. Contudo, fornecer aos filhos uma educação religiosa era uma forma de os iniciar na cultura a que pertenciam, para além de que decorar os 10 Mandamentos nunca fez mal a ninguém. Mas isso acabou. Os mandamentos de hoje são outros: rouba antes que te roubem; lixa antes que te lixem; nada importa porque tudo é relativo.
Reparo que os jovens que a Igreja Católica deseja ver no seu culto adquiriram já um sistema de valores assente no culto ao ego e ao prazer como princípio e fim. É um sistema que afronta o meu, por excluir deliberadamente valores que considero essenciais para os grupos humanos, como os da solidariedade. Não me espanta, portanto, que o nosso tempo pulule de jovens engravatados defendendo a economia liberal, o capitalismo, as leis da selva aplicadas aos actos económicos, políticos e sociais, resumindo, o fascismo digitalizado: elimina os pequenos e torna-te maior.
Bater nos padres (e nos professores)
Grupos que por desagrado ou vingança mandam espancar os seus padres, figuras sacralizadas, como ocorreu em Alijó, na véspera de Natal, perderam todo o contacto com o sagrado. Igualmente, cresceram ignorando o respeito que se deve aos detentores do saber e aos transmissores do conhecimento. Em que outro tempo e espaço teria sido possível agredir um ministro de Deus sem temer a irreparável condenação ao fogo eterno?! Ser-me-ia possível compreender atitudes de revolta anti-clerical e de condenação da religião enquanto entretém desresponsabilizador do povo, sempre que ela o foi, mas o que se passa hoje é diferente. A religião nunca saiu da vida dos agressores de padres, porque nunca chegou a entrar.
Creio que a educação dos valores entrou em lento colapso com a perda de influência da Igreja, após o 25 de Abril. Tal perda de influência terá constituído uma inconsciente penalização clerical, em alguns casos justa, já que a Igreja Católica colaborou inquestionavelmente na disseminação da ditadura e na sua manutenção, mas reflectiu, igualmente, a abertura da nossa cultura a uma errónea modernização através da glorificação do rápido e do fácil, que tão tortos frutos produzem.
A perda de influência da Igreja, com todos os males que acarretava, ocasionou danos culturais geracionais que não poderão já ser superados pelos jovens, ou jovens adultos, que a mesma cobiça.
Vejamos, qual de nós não consegue enumerar mentalmente, em poucos segundos, meia dúzia de assuntos de alguma forma relacionados com a sexualidade ou o estatuto social das mulheres e de alguns grupos, relativamente aos quais a Igreja se mantém incompreensivelmente intolerante, afastando jovens e adultos? A haver renovação, seria de melhorar nestas esferas, embora admita não estar à espera que a Igreja abdique dos princípios nos quais se funda quanto à sua essência teológica, mas que, ao menos, se revele capaz de incluir e cuidar quem a procura, sem olhar a outra causa que a própria busca.

Por outro lado, as tomadas de posição da Igreja podem garantir o necessário contrapeso à confusão ideológica que assalta cada vida em particular. De uma Igreja espera-se, precisamente, que reflicta sobre os tempos e fenómenos que atravessa, e que, confrontando-os com a filosofia religiosa defendida, exponha eventuais consequências de um conjunto de crenças, elegendo-as ou rejeitando-as, e estabelecendo uma ética. Obviamente, não lhe cabe o papel de agradar, nem o de acompanhar as modas do tempo sem as meditar. Se alguma coisa louvo às Igrejas é exactamente a teimosia com que se mantêm fiéis a um conjunto de princípios quando todos se preparam para abandonar o velho barco, substituindo-o por um recente modelo em fibra de vidro, mais leve, porque, aparentemente, mais fácil de manobrar.
Escrever Deus com minúscula
Que responsabilidade detém a Igreja no que respeita ao facto de maior parte dos adolescentes escrever o vocábulo Deus com letra minúscula, revelando desconhecer o valor próprio e simbólico do termo?! O que isto significa, muito literalmente, é que a maior parte deles não recebeu formação religiosa de qualquer natureza, equação na qual entra a família.
As famílias de hoje, seja qual for a forma que revistam, não consideraram necessário fornecer às crianças os utensílios necessários para pensar a cultura na qual se movem, tendo excluído do processo educativo o ensino organizado dos fundamentos de uma moral cristã, ou de qualquer moral teológica. E eis o dilema: substituiram-na por que outra visão do mundo? Não tendo oferecido nada em troca, como olhar o mundo construtivamente sem a habilitação de uma moral? Como fazer para tomar decisões sobre a adequação de uma nova ideia ao edifício pessoal de crenças? Ou melhor, como integramos no nosso sistema de valores o que é novo? Compramos este produto ideológico ou nem por isso?
O fascismo digitalizado
Nos velhos tempos, a educação religiosa fornecia-nos a cartilha de valores que permitia seleccionar informalmente o material ideológico que melhor nos servia; esse crivo supria as ausências parentais no que respeitava à transmissão de valores. Se em casa não se aprendia a diferença entre o Bem e o Mal (os adolescentes também escrevem Bem e Mal com minúsculas), ela aprendia-se na igreja, fosse qual fosse a confissão. Havia sempre uma igreja para cada um. Inclusive para aqueles cujos pais se tinham tornado ateus por excesso de uma errada ideia de religião nas suas vidas, o que faz todo o sentido. Contudo, fornecer aos filhos uma educação religiosa era uma forma de os iniciar na cultura a que pertenciam, para além de que decorar os 10 Mandamentos nunca fez mal a ninguém. Mas isso acabou. Os mandamentos de hoje são outros: rouba antes que te roubem; lixa antes que te lixem; nada importa porque tudo é relativo.
Reparo que os jovens que a Igreja Católica deseja ver no seu culto adquiriram já um sistema de valores assente no culto ao ego e ao prazer como princípio e fim. É um sistema que afronta o meu, por excluir deliberadamente valores que considero essenciais para os grupos humanos, como os da solidariedade. Não me espanta, portanto, que o nosso tempo pulule de jovens engravatados defendendo a economia liberal, o capitalismo, as leis da selva aplicadas aos actos económicos, políticos e sociais, resumindo, o fascismo digitalizado: elimina os pequenos e torna-te maior.
Bater nos padres (e nos professores)
Grupos que por desagrado ou vingança mandam espancar os seus padres, figuras sacralizadas, como ocorreu em Alijó, na véspera de Natal, perderam todo o contacto com o sagrado. Igualmente, cresceram ignorando o respeito que se deve aos detentores do saber e aos transmissores do conhecimento. Em que outro tempo e espaço teria sido possível agredir um ministro de Deus sem temer a irreparável condenação ao fogo eterno?! Ser-me-ia possível compreender atitudes de revolta anti-clerical e de condenação da religião enquanto entretém desresponsabilizador do povo, sempre que ela o foi, mas o que se passa hoje é diferente. A religião nunca saiu da vida dos agressores de padres, porque nunca chegou a entrar.
Creio que a educação dos valores entrou em lento colapso com a perda de influência da Igreja, após o 25 de Abril. Tal perda de influência terá constituído uma inconsciente penalização clerical, em alguns casos justa, já que a Igreja Católica colaborou inquestionavelmente na disseminação da ditadura e na sua manutenção, mas reflectiu, igualmente, a abertura da nossa cultura a uma errónea modernização através da glorificação do rápido e do fácil, que tão tortos frutos produzem.
A perda de influência da Igreja, com todos os males que acarretava, ocasionou danos culturais geracionais que não poderão já ser superados pelos jovens, ou jovens adultos, que a mesma cobiça.