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sábado, novembro 03, 2007

Para onde vais, agora?

Caiu a noite sobre todas as coisas que nascem da terra, que tocam a terra, que confinam os seus limites. Tu estás sobre a terra. Quero dizer, revolves-te nela. Estendeste o teu corpo ao comprido entre os arbustos, quieta, sentindo comichão pelos insectos que deixas subirem-te os braços, sorvendo o odor enjoativo do chão, agora em repouso, o odor acre das folhas que a frescura da noite humedeceu. Era isto que querias. Este cheiro. Sentas-te. Sorris. É exactamente como imaginavas. Purpurinas multicolores brilham entre os ramos das árvores, iluminando os vultos das aves caladas. Fragmentos de luz que se ateiam e apagam na escuridão, suspensos como libélulas. Libélulas. Barulhos tão leves. Asas. Uma ave piou. A brisa levanta folhas. Folhas batem em folhas. O peso de patas quebra ramos. Os cães selvagens espreitam-te. Os que como tu não são nada bem definido, nem cães nem lobos. Não te ladram. Os cães nunca te ladraram. Cheiras-lhes os sexos. Sim, são da tua laia. Boa companhia. Lambes-lhes os focinhos. Podes lamber. Dormir enroscada na matilha. Se quiseres. O cheiro doce do sono, do calor. Tão embalada. Não te importa a terra no cabelo nem nas unhas. Esfregas-te. Ris. Ouves o teu riso incomodar a noite. Que silêncio. Que ternura. Tudo é verdade. Trincas terra. Lambe-la contra o céu da tua boca. Claro que recordas esse sabor. Sabias que havias de recordar esse sabor. O chão tem todo o mesmo travo final a argila e a osso de vaca moído. A terra é doce. E agora podes subir de novo às árvores. Os limoeiros. Recordas. Ainda não o vais fazer. Já não. A seu tempo. Mas podes fazê-lo. Sentes-te leve. Se calhar podes voar, como outrora voaste. Tinhas saudades. Confessas para ti própria, tinhas saudades disto. A liberdade.
A noite caiu longa, e a noite é o teu dia. Vais adaptar-te. Uma vida tem muitas vidas, tu sabes. É a primeira noite que dormes na rua. Que não tens cama. Estás eufórica. Como vai ser a tua primeira noite? A que casa regressarás? Quanto tempo vais permanecer sobre a cova onde o teu corpo apodrece? Não devias pisar a tua campa, Isabela. Para onde vais? Para onde vais, agora?








quarta-feira, setembro 12, 2007

O silêncio


Desligam-se as máquinas, uma a uma, e o silêncio avança através da noite, húmido, uma tintura de seiva lenta, entorpecendo a vida para que seja possível uma nova vida.


terça-feira, setembro 19, 2006

domingo, dezembro 18, 2005

O fenómeno «Portas Largas»



O meu termómetro marca 10º graus lá fora. Ontem, por esta hora estavam 9º; mais tarde, apenas 7º.
Ora bem, não estamos no Verão e o frio dói. Portanto, coloco uma dúvida que me assalta há uns bons 20 anos: o que fazem as pessoas à noite, na rua, em pé, ao frio, com um copo de cerveja gelada na mão?! No Bairro Alto, por exemplo.
Antigamente, era o fenómeno Frágil. Agora, é o fenómeno Portas Largas. Ontem, foi Sábado, e já se sabe! Custa-me ver as pessoas sofrer gratuita e voluntariamente.
Ainda posso compreender, enfim, estou por tudo!, que um gay destroçado, em final de carreira, tenha de passar as "passas do Algarve" com o fim de conseguir o lazarento naco de carne para o orgasmo da madrugada... mas meninos e meninas, que podiam conviver serenamente, ou não, sentadinhos e quentinhos num barzinho...

Está bem, sei que é um ponto de encontro a partir do qual se passa a outra capelinha... Mas que é um ponto de encontro muito longo, que dura horas de convívio com quem passa, que se fica na conversa... é! E eu já nem falo da conversa de treta, própria do engate. Porque é conversa de treta. Perde-se tempo!
Na rua do Portas Largas olha-se muito. As pessoas estão ali para olhar e serem olhadas. Os homens, uns aos outros.
O
Portas Largas, que, na verdade, pouco espaço disponibiliza no interior, e ocupa, penso que à borla, a rua em frente, aparece em qualquer roteiro gay internacional.
Eu não tenho nada contra os gays, mas por que não engatam sentados?! por que não engatam dentro de portas?! É que está um frio que não lembra, depois constipam-se, depois é meter baixa médica, depois o serviço público ressente-se, e a produtividade nacional é o que se vê. Não é comigo, também sei, mas não resisto ao conselhozinho. Ultimamente sinto-me a discursar como os velhos!
Eu sei que não

sexta-feira, junho 17, 2005

quinta-feira, maio 12, 2005

Aqui, na terra


Vincent van Gogh, Nuit Etoilée

choveu pela noite longa. não sei se nos outros planetas as estrelas puderam revolver-se.

O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...