Caiu a noite sobre todas as coisas que nascem da terra, que tocam a terra, que confinam os seus limites. Tu estás sobre a terra. Quero dizer, revolves-te nela. Estendeste o teu corpo ao comprido entre os arbustos, quieta, sentindo comichão pelos insectos que deixas subirem-te os braços, sorvendo o odor enjoativo do chão, agora em repouso, o odor acre das folhas que a frescura da noite humedeceu. Era isto que querias. Este cheiro. Sentas-te. Sorris. É exactamente como imaginavas. Purpurinas multicolores brilham entre os ramos das árvores, iluminando os vultos das aves caladas. Fragmentos de luz que se ateiam e apagam na escuridão, suspensos como libélulas. Libélulas. Barulhos tão leves. Asas. Uma ave piou. A brisa levanta folhas. Folhas batem em folhas. O peso de patas quebra ramos. Os cães selvagens espreitam-te. Os que como tu não são nada bem definido, nem cães nem lobos. Não te ladram. Os cães nunca te ladraram. Cheiras-lhes os sexos. Sim, são da tua laia. Boa companhia. Lambes-lhes os focinhos. Podes lamber. Dormir enroscada na matilha. Se quiseres. O cheiro doce do sono, do calor. Tão embalada. Não te importa a terra no cabelo nem nas unhas. Esfregas-te. Ris. Ouves o teu riso incomodar a noite. Que silêncio. Que ternura. Tudo é verdade. Trincas terra. Lambe-la contra o céu da tua boca. Claro que recordas esse sabor. Sabias que havias de recordar esse sabor. O chão tem todo o mesmo travo final a argila e a osso de vaca moído. A terra é doce. E agora podes subir de novo às árvores. Os limoeiros. Recordas. Ainda não o vais fazer. Já não. A seu tempo. Mas podes fazê-lo. Sentes-te leve. Se calhar podes voar, como outrora voaste. Tinhas saudades. Confessas para ti própria, tinhas saudades disto. A liberdade.
A noite caiu longa, e a noite é o teu dia. Vais adaptar-te. Uma vida tem muitas vidas, tu sabes. É a primeira noite que dormes na rua. Que não tens cama. Estás eufórica. Como vai ser a tua primeira noite? A que casa regressarás? Quanto tempo vais permanecer sobre a cova onde o teu corpo apodrece? Não devias pisar a tua campa, Isabela. Para onde vais? Para onde vais, agora?
Foto: Tom Chambers
A noite caiu longa, e a noite é o teu dia. Vais adaptar-te. Uma vida tem muitas vidas, tu sabes. É a primeira noite que dormes na rua. Que não tens cama. Estás eufórica. Como vai ser a tua primeira noite? A que casa regressarás? Quanto tempo vais permanecer sobre a cova onde o teu corpo apodrece? Não devias pisar a tua campa, Isabela. Para onde vais? Para onde vais, agora?
Foto: Tom Chambers



