Tenho um vizinho jovem, muito jovem, e, como sabem, estamos nas férias da Páscoa. As férias são temíveis para vizinhos com vizinhos jovens. Nas férias, os hominídeos ficam sozinhos em casa, sintonizando as aparelhagens ao máximo, ouvindo, ao que parece, afirmam eles!, música.Recentemente, tive obras no apartamento ao lado. Nunca pensei dizer uma coisa destas, mas o barulho da remodelação: a marreta, o martelo, o berbequim demolidor de paredes produziam uma harmonia de notas e ritmos muito mais interessante que toda a música que sai de casa do meu jovem vizinho. A música do monstro atinge todo o prédio como se uma retroescavadora tivesse decidido autoflagelar-se, atirando-se repetidamente contra a viga-mestra.
A meu ver, as sonoridades electrónicas que o jovem ogre consome, poderiam ser produzidas por dois simples instrumentos de percussão: um martelo pneumático usado ao retardador, e uma vara de madeira batendo no interior de um bidão vazio. Eu, que não aprendi música, e não sei localizar um ré num teclado de piano, afirmo-me habilitada a criar obras-primas para o primata lá de baixo. Não deve ser difícil produzir uma sonoridade de fundo martelada, ligeiramente abafada, mas vibratória, sempre a mesma nota, tum-tum-tum-tum-tum, durante 10, 20, 30, minutos; periodicamente, quebraria a sequência, introduzindo uma frequência mais aguda, estridente, eu diria mais rachada - o tal apontamento da vara batendo dentro do bidão: trec-trec; trec-trec; trec-trec.
O clímax musical, lá em baixo, dá-se quando o martelar electrónico é alterado por uma súbita combinação de sete coloridas notas, tum-tum/tum-tum-tum/tum-tum, acompanhadas da batida na lata, como se se tratasse do momento final dum espectáculo de fogo de artifício. Um acorde melódico genial: tum-tum/trec-trec/tum-tum-tum/trec-trec/tum-tum/trec-trec. Delírio. Tanto, que este poste teve de ser escrito, ontem à tarde, no café.
Tenho muita pena dos professores, e dos pais, porque algo me diz que as consequências do martelo impiedoso devem chegar-lhes às salas, e à mesa da refeição, assumindo formas que a nossa mente nem alcança.