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sexta-feira, março 30, 2007

A droga tem menos efeitos secundários

Tenho um vizinho jovem, muito jovem, e, como sabem, estamos nas férias da Páscoa. As férias são temíveis para vizinhos com vizinhos jovens. Nas férias, os hominídeos ficam sozinhos em casa, sintonizando as aparelhagens ao máximo, ouvindo, ao que parece, afirmam eles!, música.
Recentemente, tive obras no apartamento ao lado. Nunca pensei dizer uma coisa destas, mas o barulho da remodelação: a marreta, o martelo, o berbequim demolidor de paredes produziam uma harmonia de notas e ritmos muito mais interessante que toda a música que sai de casa do meu jovem vizinho. A música do monstro atinge todo o prédio como se uma retroescavadora tivesse decidido autoflagelar-se, atirando-se repetidamente contra a viga-mestra.
A meu ver, as sonoridades electrónicas que o jovem ogre consome, poderiam ser produzidas por dois simples instrumentos de percussão: um martelo pneumático usado ao retardador, e uma vara de madeira batendo no interior de um bidão vazio. Eu, que não aprendi música, e não sei localizar um ré num teclado de piano, afirmo-me habilitada a criar obras-primas para o primata lá de baixo. Não deve ser difícil produzir uma sonoridade de fundo martelada, ligeiramente abafada, mas vibratória, sempre a mesma nota, tum-tum-tum-tum-tum, durante 10, 20, 30, minutos; periodicamente, quebraria a sequência, introduzindo uma frequência mais aguda, estridente, eu diria mais rachada - o tal apontamento da vara batendo dentro do bidão: trec-trec; trec-trec; trec-trec.
O clímax musical, lá em baixo, dá-se quando o martelar electrónico é alterado por uma súbita combinação de sete coloridas notas, tum-tum/tum-tum-tum/tum-tum, acompanhadas da batida na lata, como se se tratasse do momento final dum espectáculo de fogo de artifício. Um acorde melódico genial: tum-tum/trec-trec/tum-tum-tum/trec-trec/tum-tum/trec-trec. Delírio. Tanto, que este poste teve de ser escrito, ontem à tarde, no café.
Tenho muita pena dos professores, e dos pais, porque algo me diz que as consequências do martelo impiedoso devem chegar-lhes às salas, e à mesa da refeição, assumindo formas que a nossa mente nem alcança.

quinta-feira, abril 13, 2006

Torturada pela KGB

A Tati quis arranjar-me as sobrancelhas. Insisti que preferia o estilo floresta virgem. Torceu o nariz. Disse-lhe, sorrindo, a ver se a seduzia, que queria manter-me assim, wild thing. Respondeu, "hum, na Ucrânia toda mulher depila sobrancelha, e fica bem rosto, como acento circunflexo, desenhado em cima olho, muito bonito; assim não". Okay, cedi. Confesso: tenho um bocadinho de medo da Tati, de quando perscruta a minha pele, as minhas pernas: até tremo! A Tati é a minha agenta da KGB, e limito-me a dizer que sim a tudo.
Pegou na pinça. A Tati pegou na pinça e nem a KGB! Chorei. Chorei copiosa, longa e involuntariamente. Gritei como se estivesse na sala de partos, enquanto ela permanecia insensível, debruçada sobre a minha cara, com as magníficas mamas roçando o meu braço esquerdo.
Nunca mais na vida, juro, alguém se aproximará da minha cara com uma pinça.

O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...