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terça-feira, outubro 23, 2007

O circo do sexo


A palavra sexo é não só a mais procurada no Google, como a que mais equívocos gera nas interacções verbais.O adjectivo correspondente [sexual], não remete obrigatoriamente para uma actividade genital. Sexual refere também o conjunto de características fisiológicas distintoras dos seres. O macho possui as características sexuais A; a fêmea, as B. Do indivíduo com características A espera-se o comportamento X; do que possui as características B espera-se o comportamento Y.
Ora, a libertação sexual não foi apenas, como defendi no texto anterior, uma libertação para o sexo. Foi uma libertação do sexo. Do que os sexos se libertaram foi de uma moldura de comportamentos associados, a qual designava, invariavelmente, o género a que pertenciam, atribuindo mais ou menos culpas aos transgressores. Uma rapariga que subia às árvores era uma Maria-rapaz, e tal incursão em 'território alheio' valia-lhe censura.
O aprisionamento sexual não se tratava, portanto, de uma mera questão relacionada com a fornicação. A fornicação era o menos. O aprisionamento sexual correspondia a uma esfera de aço dentro da qual se encontravam os limites de comportamento para cada homem e cada mulher. O que podiam fazer, aceder. Os lugares da esfera pública e privada aos quais podiam aceder. Etc. Etc.
A libertação sexual libertou-nos dessa marca a ferro do sexo. Isto foi o que de mais interessante nos trouxe. A pornografia, o marqueting do sexo, legitimando o swing e o recurso a quinquilharia e práticas diversas, que certa Imprensa se encarrega de divulgar e promover, são anedóticos. Fazem-me sorrir, pelo menos. A maior parte das vezes prefiro acreditar que se trata de uma encenação teatral humorística. Tenho uma peninha das mulheres vítimas de penetração dupla! Se a Inquisição usasse tais práticas - se calhar usou - haveriam de lhes chamar tortura. Mas como é na cama, e alegadamente voluntário, ah, que delícia.
A libertação sexual não trouxe a ninguém mais e melhor sexo, apenas o liberalizou, remetendo-o para a praça pública como produto de consumo. Foi pena. A exposição da sexualidade tem-na transformado em acto estético e acrobático. Qualquer dia teremos de ser todos artistas de circo.


segunda-feira, outubro 22, 2007

Diz-me o que entendes por liberdade sexual

Foto: W. Cieniu


A libertação sexual foi, ao contrário do que pensam os saudosos da família tradicional, um progresso civilizacional assinalável, com consequências irreversíveis e vantajosas em todas as áreas da sociedade, economia e política, sendo que a mais relevante de todos consistiu no acesso à partilha de papéis. Nunca a justiça e a produtividade se associaram para tão belos frutos.
Os saudosos da família tradicional não alimentam reais saudades da família, mas da mulher-criada doméstica com especialização em puericultura. Implicava uma escravidão, mas dava jeito. Os judaico-cristãos, ou só judaicos, ou só cristãos, esforçam-se por ignorar que a dita família tradicional nunca passou de uma prisão, e para todos. O homem sustentava a casa e a insatisfação, e fornicava dentro e fora. A mulher geria a casa e a infelicidade, e fornicava mal dentro, fazendo o que podia por fora, à custa de "lanches com amigas". Não eram casamentos, mas associações procriativas e comerciais compostas de membros que se detestavam.
Depois, devagar, chegou a liberdade sexual, conceito ainda muito impreciso na mente colectiva. A libertação sexual não foi apenas uma conquista das mulheres, e não coincide exactamente com fornicação generalizada e compulsiva. Pelo contrário, implica, como nunca, uma enorme responsabilização individual relativamente às escolhas que realizamos enquanto seres sexuados. Tornámo-nos livres sexualmente, todos, mulheres e homens, porque perdemos a culpa inerente ao desejo, porque o sexo se tornou independente do casamento e da procriação, e porque legitimamente ganhámos o direito a não ser julgados, em nenhum aspecto das nossas vidas, pela nossa identidade sexual ou de género.
A libertação sexual não foi apenas uma libertação para o sexo, mas do sexo, uma vez que nos libertou de todas as normas que nos prendiam a tarefas e comportamentos fixos que pesavam sobre homens e mulheres.
Há, contudo, um conjunto de implícitos (e explícitos) relacionais entre os homens e mulheres que não se alteraram apesar da libertação sexual. Um deles relaciona-se com o binómio amor-sexo. Independentemente das necessidades e escolhas sexuais absolutamente sem critério do sexo masculino, as mulheres continuam a ir para a cama porque amam alguém; porque acreditam no amor. Deitamo-nos com a pessoa x porque a queremos para nós. Temos a ilusão de que poderá vir a ser o nosso amor, se ainda não for. O sexo que as mulheres fazem é apenas uma parte do que pretendem manter com o objecto do seu amor. Passar um bocado bom vem em longínquo segundo lugar.
Isto poderá sofrer alterações em casos pontuais, em situações específicas, e mais ou menos passageiras, mas não vejo grandes tendências para mudança. Portanto, os homens podem esperar sentados até que nos apeteça dormir com eles porque são muito giros. Dormimos com eles porque queremos ter filhos com deles, porque queremos acordar ao seu lado e sentir a sua respiração, porque nos dá jeito que nos levem o carro à revisão e nos sintonizem o vídeo com o televisor. E tudo o resto, como dizem os brasileiros, é mera sacanagem.


segunda-feira, março 06, 2006

Prisão sexual com Joaquín Cortés

Em Agosto pediram-me que ajudasse uma rapariga da minha idade, em sofrimento devido a uma relação fatal. A rapariga precisava de falar com alguém "normal como eu". Alguém que já tivesse levado porrada vinda de todos os pontos cardeais, e, sobrevivido, continuando a sorrir. Aceitei. O meu espírito missionário não resistiu.
A rapariga vestiu os melhores trapinhos, pintou a cara, e levei-a às docas. Era jeitosa.
Corri com ela as discotecas todas. Entrámos, saímos, voltámos à primeira.

À saída de uma, penso que da Queen's, li, afixado, que num dia certo da semana, se realizava ali um show de strip masculino. A "minha amiga" que, entretanto, apesar de não ter esquecido o amor fatal, tinha arranjado, no Indochina, engate com um puto novinho em folha, vestido de cabedal da cabeça aos pés, e com quem 5 minutos depois trocava sms's cujo conteúdo semântico me abstenho de revelar, delirou com a perspectiva. Do strip. E do puto também. Mas do strip. "Oh, vamos lá. Oh, eu não me importo de vir de propósito. Oh, eu gostava tanto de ver. Mas eu não conheço ninguém cá, tens que ser tu". Disse-lhe que sim para a calar, para a conseguir arrastar dali. Eram 5 da manhã! Mas, comigo, nunca ela foi a qualquer sessão de strip.





A emancipação sexual mudou as mulheres da minha geração e mudou o mundo. Marca os comportamentos das pessoas de hoje. Mas a emancipação sexual pode ser um retrocesso. Porque, tal como a liberdade não deve ser o abastardamento e banalização do que se liberta, também à emancipação do sexo convirá respeitar tal ética.
Não estou disposta a assistir a nenhum espectáculo de strip masculino, ou feminino. Não quero que um homem depilado e musculado, ordinaríssimo, venha roçar em mim os biceps oleados, mostrar-me as nádegas duras compradas aos fat burners, mais os peitorais anormais. Que me interessa esse homem de plástico? Com a sua vulgaridade estampada nos traços do rosto, nos olhos, na boca? Pura exibição hormonal. Estes também são exemplares de macho ficcionados, impossíveis, desnecessários.
Mas, principalmente, não aceito contribuir para indústria do sexo, como lhe chamam agora. Os strippers são bailarinos ou trabalhadores do sexo? Vejamos, o que se passa numa sessão de strip é a exibição de um corpo que deve ser desejável, em posições excitantes, mostrando um máximo de pele, ocultando, mas não totalmente, não demasiado, o deus que ali se cultua, o órgão sexual, masculino ou feminino. São trabalhadores do sexo?
Se já era degradante ver homens em bares de strip emitindo urros quando as meninas lhes viravam o rabinho para a cara, é-o, igualmente, agora, suportar os gritinhos das senhoras cheias de vergonha e "ai nem posso" quando os strippers se lhes sentam ao colo, ou melhor, lhes pedem que se sentem elas nos seus, que espreitem para dentro da tanguinha, que deslizem as mãos pelos braços, costas, e elas, entre o medo e sei lá quê...
Sentar-se em cima de um maganão que não conhece de lugar nenhum e passar-lhe as mãos pelo corpo de touro enraivecido, suado e oleado, é coisa que excite uma mulher? Quando é que os strippers pagam para tanto?
Este comportamento, mimético do masculino, que a liberdade sexual trouxe às mulheres não será, antes, uma prisão como qualquer outra, como a que prende os homens?





Joaquín Cortés um bailarino espanhol de origem cigana, vem a Faro, no final do mês, para um espectáculo único, e os bilhetes esgotaram de imediato.
Joaquín Cortés dança flamenco, e cria um bailado de fusão estremamente plástico; muito sensual, também. Gera imensa energia em palco, o que não acontece por acaso. Cortés estuda a lição dos strippers que agora exaltam hordas de meninas com namorados e de senhoras casadas: tira o melhor partido de características mistas do seu corpo: é um belo homem moreno, com um tronco largo, não demasiado musculado, contudo viril, que exibe nu, quase sempre; a isso, associa um cabelo escuro, liso, comprido que solta despenteado, selvagem, ou que agarra em rabo de cavalo. Tem um rosto algo feminino, que trabalha através de um corte de barba e patilhas minuciosamente desenhado.

Cortés é um excelente bailarino, mas não vende bilhetes por ser bom no que faz, mas porque dança nu, porque é viril e sensual, e cada um paga para ver o seu corpo movimentar-se como uma mulher, como uma garça, como um gato, como um homem, como um touro enraivecido. Pagamos para nos deixarmos enfeitiçar, para nos apaixonarmos por ele. Pagamos aquele corpo que baila. Pagamos aquele corpo. Pagamos.




Penso que, analisadas as motivações sob as quais assenta a compra em massa de bilhetes para os seus espectáculos, Cortés poderá ser considerado um trabalhador do sexo. Com a vantagem de que ninguém pensa no que paga, quando está a pagar. Cortés sabe-a toda.

quarta-feira, março 01, 2006

As mulheres-objecto, ainda

Comentário que a Ana nos deixou, hoje, em "Tradução simultânea, por favor!" (ler também este texto).

A glorificação do corpo volta a reduzir-se à mulher objecto, numa total dependência do ponto de vista masculino, mas acima de tudo, nessa trivialização do próprio acto sexual, cada vez mais genitalizado.
(...) Somos e continuamos a ser um objecto da sociedade e dos homens! Primeiro porque somos nós que tomamos os anticoncepcionais e sofremos as consequencias que daí advêm, boas ou más, para o nosso organismo; depois, somos nós que não obtemos o orgasmo quando eles praticam o coito interrompido; depois, somos nós que abortamos e ficamos com sequelas físicas e psicológicas para o resto da nossa vida, incapacitando-nos de ter outro filho ou até levando a uma frigidez! E se decidimos ter um filho com muito gosto e sentimento, somos despedidas, ou estagnamos no local de trabalho porque temos de amamentar e não se coaduna com uma carreira promissora no mundo de trabalho!
Sofremos anorexias para ser belas e fazer carreiras no mundo da moda e aparecer nas séries da TV e ser desejo dos homens!... Aumentamos os seios, porque se eles saírem do decote é in e os homens nos vão desejar bué e é muito fixe... Fazemos muitas dietas e vivemos em função do desejo e dos prazeres dos homens e somos o verdadeiro objecto deles! E quando eles nos possuem muitas de nós MULHERES OBJECTO E FRUSTRADAS, nem um orgasmo temos, nem um filho lhe conseguimos dar, fodemos só por foder, nem dizer de verdade o que queremos de verdade sabemos dizer...
(...) Muitas de nós continuam a fingir em suas casas, com os seus namorados que são livres e nunca são usadas, e são as mulheres mais felizes e realizadas à face da Terra, porque até contornam bem todas as vissicitudes e nem se sentem usadas são elas que usam! Pensam ELAS!...
Há coisas que não tem preço, a nossa liberdade de escolher e de sermos usados em determinado momento e função!
Temos sido usadas e mutiladas em prol da libertação sexual! Os homens nem uma pílula podem tomar, nem sequer se inventa...

O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...