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terça-feira, março 07, 2017

Ontem acordei outra vez mais gorda

Foto: Leonard Nimoy


A foto de Leonard Nimoy apresenta-nos um objecto de carne em abstracto. Não é uma mulher nem um homem nem um porco ou um borrego. É carne gorda. Sem cabeça. A forma como a cabeça é escondida revela claramente que este objecto de carne não é uma pessoa, não tem identidade, não pertence ao mundo. É a gorda, ou o gordo.
Para quem carrega esse estigma desde sempre, e mesmo que a ele tenha sobrevivido digna e teimosamente, esta é uma imagem violenta, que expõe uma desigualdade baseada não em padrões culturais, raciais ou de classe, mas estéticos. É uma imagem dura, desconfortável ao olhar. Toca-nos a todos. Não queremos ser esse feio objecto de rejeição. Essa carne.
Somos desiguais porque somos gordos ou porque somos magros ou porque vestimos roupa esquisita ou rapamos o cabelo ou o temos demasiado comprido. O dia-a-dia assenta nas relações que mantemos com os nossos iguais ou desiguais, sendo que procuramos tanto uns como outros, e ambos nos confirmam. Ao longo da vida tenho-me sentido tratada de forma desigual por ser gorda, e não tolero bem que questionem as minhas razões - é assunto demasiado sensível para suportar que me digam algo como "ilusão tua" - , mas, por outro lado, pressinto que todos se sentem desiguais por motivos diversos. A desigualdade é uma excelente forma de controlo do grau de satisfação das massas, logo, das massas.


segunda-feira, março 06, 2017

Sem conserto possível

Inscreveu-se na lista de seguidores deste blogue um leitor ou leitora que se intitula "Beyond Repair". Achei graça. Pensava que beyond repair era eu.

segunda-feira, janeiro 12, 2009

Monologue

Escultura: Kiki Smith, Born, 2002


Escuto um cd que me ofereceram há uma boa dúzia de anos. A última vez que o ouvi vivia numa casa cheia de luz e ar numa outra cidade. Nessa casa tinha plantado roseiras carregadas de flores, e gerânios gordos como cachos de uvas. Entre os vasos, escondiam-se pequenos sapos que com o passar dos meses se tornavam grandes. Amava os meus sapos, e só nunca os beijei porque me saltavam das mãos. De inverno hibernavam nas cavidades dos tijolos sobrantes da construção. Muitos pardalinhos procuravam a frescura do meu jardim e nele se abrigavam da selva de sol. A Micas abocanhou um deles numa manhã de Primavera. Era um serzinho pardo, minúsculo, cujas últimas batidas cardíacas aconteceram na palma da minha mão ao tentar protegê-lo. O estertor do passarinho, o sopro de vida terminado, que é igual para todos. Um ser humano, um pássaro, um porco morrem todos de igual forma. Há um momento de luta, instintivo, anterior ainda à percepção da chegada da morte, e depois uma desistência total, um estertor, um silêncio imóvel, o fim.

Uma música evoca, assim, um outro tempo em que me sentia muito infeliz, embalada por muitas ilusões, contudo absolutamente capaz de lhes sobreviver. Escuto hoje a mesma música e pergunto-me como fui capaz de viver essa aventura, de levá-la ao seu fim natural.
A música não mudou. Eu, sim, embora continue a viver numa casa cheia de sol e de ar, num outro lugar.

terça-feira, dezembro 16, 2008

Atada com correntes de um ferro muito resistente

Foto: Julia Margaret Cameron, Generations (Family Circle), 1865

No restaurante chinês, entre uma massa chau-min com gambas:

Mãe - A coisa está má, não está?!
Isabela - Está
Mãe - É o Sócrates. Ele é terrível.
Isabela - É o Sócrates e a vida, de forma geral.
M. - Tens de aguentar.
I. (com lágrimas nos olhos) - Não aguento. Estou farta. Não aguento mesmo. A vida é muito triste.
M. - Então e os outros?! Pensas que para os outros é melhor?!
I. (engolindo as lágrimas) -A tristeza dos outros não me alegra.
M. - Mas a vida é assim, filha.
I. (a serena choradeira em curso) - Só queria largar tudo, arranjar trabalho em Moçambique, numa multinacional, ganhar bem para pôr cá dinheiro, vir a Portugal de seis em seis meses, pedir à Marília que tomasse conta de ti...
M. - Não. Não podes.
I. - Não posso porquê?
M. - Ela não vinha tomar conta de mim.
I. - Vinha, vinha, se eu lhe pedisse e pagasse.
M.- Moçambique já não é o que era. Pensas uma coisa e é outra. Agora há lá muitos assaltos. Olha, a tua madrinha que veio de lá há pouco tempo...
I. - A minha madrinha é uma racista, que queria continuar a tratar os pretos como os tratava no tempo do colonialismo, esperas que ela diga o quê?!
M. (silêncio...) Mas tens as cadelas.
I. - Levava as cadelas.
M. - Não podes.
I. - Mas porquê, mãe, porquê?
M. - Eu ia sentir muito a tua falta.
(Silêncio.)
I. - Então, a D. Lucinda já foi operada às cataratas?

sexta-feira, outubro 10, 2008

Migalhas aos passarinhos


Há pessoas que atiram as migalhas para o chão e outras que as guardam para os passarinhos. Entre umas e outras vai um mundo de princípios. É bem provável que a geografia ideológica que interessa se divida neste gesto.

Eu sempre fui uma mulher intolerante, e exigente, e não vou agora pôr-me com mudanças, só porque gastei uns milhares de euros em psicanálise para perceber que sou... intolerante e exigente, entre outros lindos defeitos de construção. A intolerância e a exigência também têm um lado solar. Por exemplo, ao longo dos anos consegui manter apenas os amigos que guardam migalhas para os passarinhos. E isto foi uma sorte.


quarta-feira, setembro 24, 2008

O meu treinador pessoal



Sou a única mulher no ginásio entre dezenas de garotos em boa forma.
Se tivesse 20 anos isto era capaz de me preocupar; ai que estava suada, o cabelo desalinhado pela transpiração, as formalidades da beleza todas comprometidas, a celulite, a celulite... mas aos 40, sinceramente, olho para eles com admiração pelos exercícios que fazem melhor que eu, e com mais carga. É tudo. Sinto-me completamente integrada. Sou uma mulherona?! Olha, pois sou. Estou gorda?! Olha, pois, vendo bem, estou. Os 40 são realmente uma idade generosa, sobretudo para uma solteirona de carreira, que sabe não interessar a miúdos, sendo que os graúdos a que possa interessar estão casados com as mulheres, nuns casos, com os filhos, noutros, e com a economia doméstica, na maior parte deles. Sou por deixar os homens casados sofrerem em paz o enorme erro de não me terem dado a oportunidade de lhes infernizar a existência. Bem feita!
Adoro ir ao ginásio. Sinto-me interessante. Dão-me atenção. São gentis. Até os garotos me cumprimentam com o género de sorriso que se dedica à tia. Mas o mais importante é o meu instrutor, que quis o fado se chamasse Camané. O Camané segue-me pelo ginásio, transportando a minha toalha e a garrafinha de água, que pousa perto da máquina que escolheu para mim. Põe-me a toalha nos ombros, quando estou tão transpirada que acho que já nem vale a pena, e vai, voluntário, encher-me a garrafinha de água, porque tenho de repor os líquidos. Até me sinto mal. E diz, agora a Isabela vai puxar pelos peitorais, agora os tricepes, agora as coxas. Exemplifica, e, senhores, não sai dali. Fica a ver-me e a contar as séries. Os miúdos mandam-lhe umas bocas, mas o Camané não ouve. Está empenhado no meu projecto. Vê-se a admiração com que me põe a trabalhar. Isto queima muito, Isabela, tem que ter cuidado com a alimentação. Veja lá a sua dieta. Coma uma banana antes de vir. E bolachas. Olhe que isto queima. Acredito. Não há músculo que não me doa. Músculos que não pensei existirem. Sou uma chaga toda inteira de dor física que se movimenta a poder de vontade. Como lenitivo penso na minha saia branca de Verão. No próximo Verão, a minha cinturá parecerá a curva do Mónaco, e hei-de ver-me muito ao espelho e sorrir e fazer poses, e exibir a minha beleza por todo o lado, e ser atrevida, olhem, olhem para mim, grandes filhos-de-uma-mãe-que-nem-uma-trinca-cá-hão-de-dar. Hei-de mostrar os braços e os ombros todos nus, e as pernas torneadas, e vestir fatos-de-banho ousados e apaixonar-me muito por mim. Já começo a sentir-me tão bonita outra vez.
Não sei quanto paga a Madonna pelo seu treinador pessoal, mas o meu é bom e sai-me barato.

terça-feira, setembro 02, 2008

Dos legumes


Ando a fazer dieta pela quadragésima vez desde que comecei a respirar. Faço-a porque a gordura me deixa infeliz e me limita. Mas a dieta deixa-me igualmente infeliz e limitada, e ao olhar para uma cenoura, um pêro, um grelo de bróculo, perco rapidamente a vontade de sorrir, pensar e escrever uma linha. O médico diz que tenho de entrar em dieta para toda a vida, que isto não é só coisa para durar seis meses, um ano. Que tenho de me reeducar alimentarmente, aprendendo a viver como se não tivesse uma perna. Que deprimente! Tudo. Mas toda a vida sem comer pãozinho alentejano com queijo ou chouriço do bom, sem arroz-doce, sem leite creme... Até me vêm as lágrimas aos olhos.

quarta-feira, agosto 13, 2008

A tarde


Ao final de tarde, o sol projecta-se lasso contra o casario a oriente, branco, ocre e pardo; o estuário do Tejo perfeitamente azul, como nos outros dias, assim à distância, e as copas dos pinheiros mansos destacando-se bem verdes, segundo as regras do cenário perfeito.
Há silêncio pela casa toda, embora ouça o vento abanar os estores, os espanta-espíritos, a folga da porta.
Os pombos continuam a pousar no telhado dos prédios vizinhos, agora à sombra, e uma das minhas canas de bambu tem novos rebentos.
Tudo o que existe à minha volta está vivo e em paz.


segunda-feira, agosto 11, 2008

Resiliência



A minha mãe não gosta de me ver os vernizes escuros. A minha prima afastada disse-me, hoje, isso não te parece claro demais?! As minhas colegas olham-me para as mãos de
revés, seja qual for o verniz, e imaginam-me vidas alternativas, que sinceramente... Os amigos acham que uma mulher como eu não deveria sequer pintar as unhas, que é pindérico, nada intelectual de esquerda.
Para uma mulher se colorir à sua vontade tem de desenvolver muita resiliência.

sexta-feira, agosto 01, 2008

Grávida

Foto: Stefan Beutler



Está na moda na blogosfera, e eu queria muito, muito, escrever postes descrevendo a minha deliciosa barriga grávida. Usar palavras como parir, e expressöes como placenta descaída, tenho pano na cara, sinto o crianço dar pontapés, tenho contracções, o puto está atrasado, ou então, chegou adiantado, o malandro.
Escrever sobre a amamentação, reclamando o peso das mamas como odres, os mamilos gretados, a criança chuchando que nem um bezerro e mijando como um burro. E as noites sem dormir, os babetes babados de tudo, os biberons desinfectados, as idas ao centro de saúde, o teste do pezinho... Não esquecendo os hábitos alimentares da criança, eventualmente mais crescida, já comeu dois ovos kinder, e agora, vejam bem, não quer a sopa, a culpa é da avó que lhe dá tudo o que pede. Não pode comer batatas fritas. Coisinhas assim. Ah, o que eu me regalaria se tivesse um baby blogue.
Mas cada um veio ao mundo para a sua missão concreta, a mim calha-me escrever sobre os bifes de cebolada que estão ao lume, mais a lista de compras da minha mãe, e as cadelas que daqui a pouco querem ir à rua, e se não forem, mijam no tapete, e que não me lembre de fazer reclamações.


sábado, julho 12, 2008

A esperança


Tive tanta esperança aqui. Tive tanta esperança naquele lugar além; naquela estrada, tive uma esperança quase total, uma fé toda absurda. Neste banco, neste jardim, nesta praia, ali naquele primeiro-andar ao Feijó, na camioneta para Setúbal, e numa casa velha a caminho de Cantanhede, e mais acolá, naquela lavra de arroz quase maduro.
Os anos passam muito depressa, e, resistindo-lhes, tenho tido muita esperança em todos os lugares, de manhã, à tarde e à noite, porque um dia me disseram que a esperança é a última a morrer. Com sorte, eu morro na segunda, e a esperança na terça, sem que nunca nos tenhamos encontrado.

quarta-feira, junho 25, 2008

A mulher com cabeça de cão

Dificilmente conseguiria arranjar imagem com que melhor me identificasse para a nova fase d' O Mundo Perfeito. A modificação feita pelo Indigente Andrajoso reflecte exactamente como me sinto: uma mulher com cabeça de cão. Até podia dar novo nome ao blogue. Esse.

sexta-feira, junho 20, 2008

O crescimento e a amizade

Bambi é uma história sobre o desafio do crescimento e a importância da amizade (...)
Público, 20.06.08 pág. 17 do suplemento P2

Bambi é dos poucos filme que vi aos 5 anos com a minha madrinha, numa manhã de cinema Scala, em Lourenço Marques, e nunca mais consegui rever.
A minha madrinha não gostava de mim, é uma explicação.
Mas que não consiga ver, aos 45, um filme clássico de desenhos animados, é comportamento singularmente expressivo no que respeita ao que penso sobre o crescimento e a amizade.
Ainda não deixei de ser o Bambi.

quarta-feira, junho 11, 2008

Marca a fogo

Anónimo, Girl with a spray of flowers, 1910


A vida privada não significa o mesmo para todos. Sou tida como pessoa que expõe com gala detalhes íntimos, e, no entanto, aquilo que exponho não é para mim privado, mas domínio público: a colonização, a descolonização - essas memórias - a minha mãe, as minhas cadelas, a solidão, a observação dos vizinhos; da rua; a relação com as colegas da fábrica ou com a minha prima afastada.

O que considero a minha verdadeira vida privada não cabe aqui.
Assuntos que a muitos nada custam, não considerados propriamente privados, como resumir o que comeram ao almoço, questões do emprego, sobressaltos da gravidez, otites dos sobrinhos seriam bastante embaraçosos para mim.

Embora os limites da minha vida privada pareçam muito alargados, o que eles são é muito direccionados, estreitados, e, nessa faixa, quase ilimitados, o que dá a ideia de uma grande exposição generalizada. De qualquer forma, aquilo que para mim não é vida privada, mas história ou quotidiano, realidade que de alguma forma nos permite vislumbrar o irreal, o inexplicável, implica o olhar judicativo do outro, o que origina a publicação de inúmeros textos sobre o fio da navalha. Há momentos em que hesito.

É importante para mim, neste pequenino mundo de senhoritos que nasceram cultos, com etiqueta, e depilados, afirmar que eu não: que eu vim das couves, dos enjeitados, da fome, da emigração, do colonialismo, do esforço enorme que fizemos, nós, a arraia-miúda, para ser melhores, para fazer bem. E se não fizemos foi porque não fomos capazes após guerra, ou porque o pensamento do nosso tempo não no-lo tornou possível.
Sou completamente desavergonhada do que sou e dos lugares de onde vim. Há uma honra e uma honestidade sobre essa origem que pretendo enunciar a ferro. É, perdoem-me, a minha marca a fogo.

terça-feira, maio 20, 2008

Segurando nos braços

No outro dia disse à minha mãe que gostava era de casar com o Zé Maria do Big Brother, porque é bom rapaz, simpático e humilde, para além de que acho aquele episódio da tentativa de suicídio, ele todo nu, atravessando a 24 de Julho agarrado a um gato-bebé, pronto para se atirar ao rio, sem saber porquê, porque sim, segurando nos braços o que há de mais puro e inocente, de uma beleza trágica, clássica, que me comove indescritivelmente.
A minha mãe respondeu, "olha, que dois malucos, havia de ser lindo!"

A semana passada, uma colega da linha de montagem, a meio da conversa que não vem ao caso, levantou-se, e disse-me seriamente, embora com uma cara sorridente, desculpa, Isabela, mas isto hoje só me parece uma casa de malucos".

A minha prima afastada é todos os dias. Não bates bem da bola. Não tens os parafusos todos. Falta-te óleo na engrenagem.

Quando páro a olhar para o meu blogue, de fora, às vezes penso, Isabela... o que estava certo era casares com o Zé Maria do Big Brother.

terça-feira, maio 13, 2008

A bola de Deus

Foto: Anónimo, Calling brave firemen to duty, 1925

Chego cansada, deito-me no sofá a ver um programa, sendo ainda dia, e penso, só para relaxar 10 minutos, e acordo à meia-noite. Ensonada, concluo, agora vou deitar-me porque tenho de me levantar cedo.
Sei em que sítio exacto de cada texto onde estão as dezenas de gralhas próprias de quem escreve sem olhar para o teclado, mas não tenho tempo nem vontade de as corrigir.
Tenho sede e como duas laranjas velhas, mas talvez fosse melhor beber um simples copo de água.
O amor antigo, era mesmo um amor vintage, caiu-me aos pés como a bola de vidro com que Deus jogava futebol, e estilhaçou-se-me toda na cara. Sorri. No meio das lacerações, fui obrigada a ser honesta, sempre era a bola de Deus.
A minha canção de amor preferida chama-se China Girl, mas não percebo o que dizem, porque o David Bowie fala muito mal inglês.

quinta-feira, abril 17, 2008

Os que me amam

Dali e Gala

O homem era um romântico. Não sei, talvez não. O que é um romântico? Todo o contacto que tomava comigo o perturbava. Se nos víamos de relance na passadeira do Almada Fórum, tremia, e não ousava voltar-se para trás; se nos encontrávamos na Feira do Livro, trocávamos palavras de circunstância, titubeava, percebia que me mentia, que os sentimentos que mantinha por mim permaneciam bem escondidos no seu sorriso social; era a sua sisudez excessiva, os olhos muito abertos, apavorados; se olhava para mim, se me descobria, tremia. Não o percebia trémulo, pelo contrário, parecia-me bem seguro, indiferente, e contudo, eu sabia, ele tremia. Lia uma palavra minha. Descobria-me a caligrafia num livro que alguém lhe emprestara. Ouvia o meu nome no corredor. No elevador parecia-lhe sentir o meu cheiro. Aquela mulher, vista por trás, tinha o meu corpo. Ao longe, pelo corte de cabelo, parecia eu. Uma mulher com dois cães... Uma mulher com uma mãe, talvez levasse a minha a passear. Um carro igual ao meu, mas com outra matrícula. Tremia. Eu era viciante. Eu era o vício. A ideia. A fantasia de mulher. De vida. O sonho. O futuro. O brilho do dia. O sol na solidão do quarto. Podia confiar: eu era o seu mais seguro nada.

sexta-feira, abril 04, 2008

Algumas cartas que queimei




Encontrei uma carta escrita pelo meu pai à minha avó, na Metrópole, datada de 17-07-1973, Cidade Salazar, nome que a certa altura deram à Matola. Estava na caixa de fotografias, juntamente com umas que vieram de casa da minha avó. Relatava-lhe ele o meu insucesso no exame da 4ª classe.
Eu já ando há muito tempo para escrever mas a disposição tem sido pouca, 1º porque a Isabela estava muito atrasada para o exame e tive que ser eu a puxar por ela todos os dias e a todas as horas que tivesse livres. O que ele queria dizer, era que tinha sido ele a dar-me enxertos de porrada diários, depois de jantar, e que a minha capacidade de aprendizagem em questões aritméticas teimava em resistir ao seu excelente método da bofetada, até porque todo o meu corpo estava concentrado no cálculo da relação peso-velocidade da próxima bofetada e respectivo impacto. E continuava, porque isto é a Rainha das Mandrionas, mas tanto apertei com a coisa, que estraguei tudo, ela sabia, e sabe o suficiente. Mentira, não sabia a ponta dum corno em aritmética; a D. Adelaide, minha professora, chamava-me burra com b grande. Mas na altura do exame, caras novas, ela muito nervosa, muito recomendada que tinha de fazer tudo, resultado, chumbou logo no ditado. Mentira, que infâmia, como é que ele pôde escrever isto à minha avó?, por que não admitiu a verdade?, que eu nunca dei um erro, e chumbei na aritmética, senhores, na aritmética. Já não teve apelo, e por acaso era aquilo em que ela era melhor. Paciência mais um ano de sacrifício. Mais um ano de sacrifício para mim, que continuei a não conseguir aprender Matemática segundo o eficaz método da bofetada, exemplarmente levado a cabo pelo meu pai e suas incontroláveis manápulas. Eu era malhadiça.
Li esta carta com um grande sorriso. Era a voz do meu pai. As desculpas do meu pai. Pareceu-me ouvi-lo falar, naquele momento.
Lembrei-me que já nada resta das cartas que eu e os meus pais trocámos entre 1975 e 1984, fase em que estivemos separados, eles em Moçambique, trabalhando para comprar uma casa, um carro, pouca coisa, mas digna; eu cá.
Talvez possa ainda haver uma ou outra espalhada por qualquer gaveta em casa da minha mãe, ou no sótão. Perdida. Não sei. Lembro-me que por volta de 1985, 86, queimei todas as que encontrei, num acesso de raiva, numa afirmação de revolta e liberdade face ao que eles eram, representavam, e esperavam de mim. Foi um auto de fé de que não tirei qualquer benefício. Primeiro, porque as cartas também ardem mal, e tornou-se uma má experiência de fogo, fumo, sujidade e cheiro, depois, porque não obtive satisfação do acto. Não me tornei mais livre nem me pacifiquei, senão muitos anos depois. Para além disso, não confessei tê-lo feito. Não sei se me perguntaram por essas cartas, se lhes sentiram a falta. Não me lembro. Eu sinto-lhes a falta. Gostaria, hoje, de poder ler tais palavras cheias de angústia e esperança que lhes dirigi, e que me dirigiram. Quando vens?, está quase! Ao queimar esse passado, e sei que queria queimá-lo, eliminei a possibilidade de reconhecer, factualmente, episódios dessa época. Tudo o que hoje sei é uma reconstrução, um esforço de memória. E arrependo-me muito.

terça-feira, março 25, 2008

Animais


A Morena dorme comigo; a Micas, no bercinho de verga aos pés da cama, porque sofre dos ossos, e tem ciúmes, ou dormiríamos enroladas as três, lobas enjeitadas da mesma matilha. Quando me deito, abraço o corpinho da Morena, bêbeda de sono, puxo-a para mim, beijo-a, digo-lhe, minha bebezinha, suspira, penteio-a com os dedos, no escuro, e deixo-os pousados entre os fios de manteiga do seu pêlo. Durante a noite, viramo-nos uma para a outra, sobressaltamo-nos, escutamo-nos respirar - às vezes ladram baixinho - e os nossos corações batem a mesma pancada de amantes eternas.

domingo, março 09, 2008

Linguagens seculares e blogues

As linguagens seculares estão em declínio. Penso que o fenómeno reflecte, inapelavelmente, o tempo pouco rigoroso que atravessamos e atravessaremos. As linguagens seculares carregam o peso da erudição, de um discurso nem sempre fácil, reclamando concentração, e os tempos são outros: o leitor procura, na literatura, como no resto, o fácil e o rápido, conclusão a que chego sem censura: também estou cansada de certos discursos seculares, os quais, frequentemente, pouco me dizem. Os blogues têm sabido responder a esta procura, com texto curto, inteligente e satírico, cuja leitura não exige acurada atenção. Por outro lado, usando as linguagens não textuais, como a "caderneta de cromos", ou seja o fotoblogue, e a praga do You Tube. O You Tube fala pelo bloguista. Exige-lhe menos trabalho, e satisfaz por igual o leitor, confrontando-o com informação nova e inesperada. A questão da autoria é alheia ao leitor do blogue. Não lhe interessa quem produziu o que lê ou vê, mas a emoção produzida.

Este é o estado das linguagens seculares, e é assim porque o mundo mudou, nós mudámos, a cultura mudou. Deseja-se interacção, imediatismo e intensidade. A ficção tem dificuldade em superar a intensidade da vida real. O carácter excessivo da vida real colide com o pudor da ficção. Como ficcionar a realidade sem a tornar inverosímil, sem a transformar numa novela das 7? A ficção perdeu pathos. A grande literatura perdeu pathos. Os leitores emocionam-se com o big brother, por excelência a novela da vida real, e é nesse aspecto que o blogue de quotidiano, diarístico, confessional, entra, e funciona. O blogue torna-se uma espécie de big brother que o autor manipula a gosto, seleccionando as imagens do seu real que quer passar. E passando-as, escolhe a música de fundo com que pretende que sejam visionadas. A vantagem do blogue no qual se insere O Mundo Perfeito, e o seu sucesso, está neste equilíbrio inconfessado, nunca verdadeiramente declarado, entre o real e o ficcional. Por vezes não interessa nada ao leitor que aquele poste seja a realidade. Por vezes, só consegue lê-lo como autobiografia em estado puro. Para mim, enquanto bloguista, tanto faz. O texto postado é para o leitor aquilo que o leitor precisar de ler nele. Nisto, o blogue revela uma plasticidade insuperável, e é um meio de comunicação absolutamente surpreendente.

A actual tendência para a uma literatura rápida, curta, confessional, regista visível crescimento a nível editorial. Não me lembro de as livrarias exibirem tantas novidades editoriais na área do memorialismo, do texto biográfico e autobiográfico bem como irónico, auto-irónico. Os leitores procuram a confissão, o documento: mais uma vez, o pathos da vida real que tão bem serve o blogue-diário.
N' O Mundo Perfeito, por exemplo, os leitores preferem as aventuras pseudo-verídicas da Isabela, operária suburbana, solteirona, com excesso de peso, uma mãe, duas cadelas, que trabalha numa fábrica de parafusos, e evidencia uma certa má relação com os homens e o sexo. A Isabela tem um passado de vivências exóticas e intensas, sonha um futuro qualquer que há-de vir, e narra as aventuras da sua vida solitária e social, os amores e desamores, traumas, medos, caprichos, incoerências, revelando uma humanidade tão chã quanto nobre, com a qual o leitor vulgar se pode identificar. "A Isabela é perfeita, mas a Isabela não é perfeita. A Isabela é como eu ou a Isabela é tudo o que desprezo. Amo-a. Odeio-a." Escreva a Isabela bloguista o que escrever, o que até poderá ser a fórmula química da vacina contra a sida, e os leitores não recusarão ler e comentar, mas o que vende, o que aqui se procura, é a personalidade amorosa, mas brutal, contraditória, radical, teimosa, idealista, bastante romântica e vagamente fora de moda e contracultura da Isabela, que se pode amar e odiar livremente, a quem podemos deixar declarações de amor ou insultos, coisa que não podemos fazer relativamente à Clara Ferreira Alves ou outras "personagens" pelas quais sentimos igual paixão. As linguagens seculares pouco entram neste insuperável trânsito de pathos. Desprezam o confessionalismo, olham-no tão de lado quanto possível, mesmo que se declare contaminado.

Isto seria o que eventualmente teria dito sobre o tema "O modo como as linguagens seculares (que aprendemos sem ter em conta a rede) se moldam, hoje em dia, à rede e mais concretamente aos blogues", caso esta conversa tivesse ocorrido na Casa Fernando Pessoa, no passado dia 6. Como não aconteceu, deixo aqui a minha participação. Para a próxima, por favor, convidem-me a participar via net, e assim posso vir logo para casa vestir o pijama e meter-me debaixo do aquecedor enquanto vejo o telejornal.



Até tinha feito este esquema das ideias principais, à hora do almoço. Usei-o agora para escrever este texto.

O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...