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terça-feira, março 06, 2007

A verdade não é normal


Algumas mulheres têm bom sexo, outras arranjam mulher-a-dias. Raramente uma mulher consegue acumular as duas vantagens. A mim calhou-me a mulher-a-dias. Não é que eu não possa com o trabalho da casa, mas regras são regras, portanto venha de lá alguém que me passe a ferro a roupa difícil, os lençóis tipo saco, e me limpe a fundo a cozinha e a casa-de-banho.

Antigamente, eu era ingénua e dizia a verdade. Nos tempos em que eu era ingénua, as pessoas respondiam-me, “hum, hum”, e calavam-se. E desprezavam-me em silêncio, ou não. As pessoas não querem ouvir a verdade. É simples demais, não se encaixa nos moldes. A verdade não é normal. As minhas mulheres-a-dias, guardiãs da normalidade, sempre me fizeram muitas perguntas, porque não compreendiam a minha vida, não lhes entrava na cabeça que uma mulher como eu vivesse sozinha numa casa com dois quartos, uma sala enorme, sem marido, sem filhos. Que defeito terei eu?, perguntam-se. Por que não vou viver com a minha mãe, que sempre saía mais barato?, perguntam-se. Depois, o passatempo das minhas mulheres-a-dias é inventarem-me uma vida. Se tenho pontas de cigarro no cinzeiro, tive companhia, e foi homem. Se peço que me façam de lavado a cama do quarto onde não durmo, vou ter companhia, e quem será senão conquista recente. Se me encontram na caixa do supermercado, comprando uma garrafa de vinho, entre bróculos, iogurtes queijo e pêras, vou ter festa, existirá um eleito, e por aí fora.

Ontem, veio cá a casa, pela primeira vez, a minha nova mulher-a-dias, e eu resolvi mudar de estratégia. Sinto-me cansada de ser olhada como uma freak. Uma desajustada. Ou uma coitadinha, uma que não se arrumou, que não tem código de barras em sítio algum da pele.

As mulheres-a-dias fazem muitas perguntas. A partir do momento em que nos entram em casa acham que lhe pertencem tanto como o aspirador, que possuem direitos especiais sobre a intimidade de cada uma das paredes. Fazem comentários sobre a sujidade, o tipo de sujidade, e o nosso desmazelo. A minha mãe tem um método eficaz para evitar a censura das mulheres-a-dias: limpa a casa toda antes delas chegarem, para que não vão depois criticá-la por tê-la suja. Eu não vou tão longe. Se estou a pagar para me limparem o cotão debaixo da cama, então é porque tenho direito ao cotão debaixo da cama.

A recentíssima dona Luísa não escapa à tradição das mulheres-a-dias. Assim que enfiou o avental sentiu-se investida do poder legal de me interrogar. E começou o questionário que eu já esperava: “Vive aqui sozinha?”
"Não, não senhora, tenho marido, mas trabalha fora e só vem de mês a mês". Isto sossegou-a durante alguns minutos. Os maridos trabalharem fora é habitual. As mulheres esperarem-nos, também. Se há escassez de trabalho, é natural os maridos procurarem-no onde existe. A dona Luísa sempre teve o dela emigrado, criou a filha sozinha, sabe bem o que isso é.

Passado um bocado continuou, “Não tem filhos ou já saíram de casa?” Esclareci que ainda não tinha. “Ah, mas ainda quer ter?! Que idade é que tem?! Foi quando eu achei por bem rejuvenescer-me: 38!
“Ah, pois, ainda está muito a tempo! Agora têm-nos cada vez mais tarde. Depois dos 40 é que já é pior! Eu tenho 46, e já não posso – disse-me - e também já não tenho marido!”
“Então, mas onde é que o seu marido trabalha?!”
“Em Espanha!”, respondi-lhe.
"Em Espanha é longe, assim nunca mais consegue ter filhos! Você não vai lá?!" Disse que ia. “E quando vai fica onde?” Ela é esperta, e eu sou nova na profissão, por isso respondi, inadvertidamente, "na casa dele". “Ah, ele tem lá casa?! Então não são casados, pois não?!” Lembrei-me que não tinha aliança. Podia mentir, dizer que a aliança me provocava alergias, que tinha deixado de me servir, mas seria pouco convincente; eu queria uma vida plausível, vulgar. Ela pensaria que eu estava a mentir ou que tirava a aliança na ausência do macho, e era uma adúltera, e eu queria muito passar neste exame de mulher mais normal do universo, afastada do companheiro amantíssimo, mas aguardando-o fielmente; ser respeitável. Nunca fui uma mulher com direito a ser respeitada, como as outras, as casadas, e até as divorciadas, por isso é natural que alimente uma certa curiosidade. Nas circunstâncias em que me tinha colocado, seria preferível confessar que afinal não era bem casada, realmente!, que vivia maritalmente, pelo que lhe respondi que não, que efectivamente ainda não éramos casados. “Eu também não casei logo”, afirmou a dona Luísa, sossegando.

Respondi a mais umas curiosidades que manifestou, e mesmo não lhe perguntando nada da sua vida, fui ouvindo tudo o que me contava. Sinceramente, o seu percurso é demasiado vulgar para merecer um poste. Espero que o meu lhe tenha parecido igual. Acho que passei no crivo da normalidade. Acho que passei mais ou menos. Elas nunca me respeitarão verdadeiramente, porque eu não visto os fatos e as blusas das mulheres honestas, não me pareço com o que é suposto parecerem as mulheres da minha suposta condição, e não tenho naperons, e não falo de receitas e de novelas nem desse grande tema de preferência internacional, que é a vida dos outros. Sobretudo, porque não sou capaz de lhes falar arrogantemente, de cima para baixo, como até gostam. De maneira que, por muito que me esforce, nunca sinto uma aprovação incondicional.
Mas, ontem, admito, não fui mal. Ontem, iniciei-me na mentira, e gostei. Soube-me tão bem mentir! Enquanto mentia, sentia que me vingava de qualquer coisa que nunca terei sem alinhar no jogo de parecer ser, a partir do qual a vida normal se constrói. Que através da mentira era eu quem controlava, só eu, finalmente, vedando-lhes a possibilidade de me conhecerem, de me julgarem, de me olharem de lado, abanando as cabeças, julgando-me na exacta medida do preconceito sobre o qual assentam perfeitíssimas vidas normais. Senti que o meu jogo era melhor. O meu era jogo puro, não se confundia com o jogo real, inassumido, das suas vidas; o meu, apenas as imitava. Senti a adrenalina dos mentirosos, dos bluffers. Eu que fui ensinada a não mentir. Eu que sempre pensei que a mentira fosse má. Ontem, fiz o que estava certo. Menti. E ganhei.

O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...