O tio Humberto tinha uma firma de import-export.
Andei a fazer um curso de secretariado financiado pelo Fundo Social Europeu, e em Agosto, nas férias da empregada, o tio arregimentava-me para a substituir, a pretexto do meu desejado estágio: ditava-me as cartas, que eu anotava em estenografia, e depois batia na máquina de escrever eléctrica, um luxo!
Entre a emissão e recepção de telexes, nas quais era exímia, e o arquivo da correspondência do dia anterior, o tio Humberto beliscava-me as nádegas, roçava-me, sem querer, o antebraço pela mama esquerda ou pela direita, conforme, e dirigia-me frases de segundo sentido, maliciosas, embaladas em gíria de escritório. Informava-o de que as peças da Alemanha tinham chegado no navio x ou y, e estavam na alfândega para inspecção, e ele retorquia que, se eu deixasse, me inspeccionava as peças todas, à borla. Eu voltava para a máquina de escrever, não fosse ele ter ideias, e acreditava piamente que as mulheres tinham nascido para isto: ouvir, calar e fugir sempre.
O tio pagava-me de boa cara os almoços, e apenas me pedia, implicitamente, que o ouvisse como se tivesse piada, que o olhasse como se ainda guardasse atractivos sexuais, e que lhe sorrisse enquanto se aprimorava no recurso de estilo sensual, e me comparava ao queijo fresco que se desfaz na boca, ao bago de uva que se trinca doce, enfim, às “talhadas de melão, damascos, e pão-de-ló molhado em malvasia”. Eu via-me transformada em matéria comestível, alimentícia, de diferentes texturas, umas vezes mais doce, mais tenra, desfazendo-me em água na boca, outras, carne rija, em tensão, mas saborosa sempre, tomada de sal ou picante, a gosto.
O meu tio Humberto apetrechou-me dos instrumentos mentais necessários para compreender o inconsequente discurso de engate lusitano, cheirar a mentira a quilómetros, e transformou-me numa especialista em toca e foge: ele tocava, eu fugia.
À tarde, no escritório, fechava as janelas e cerrava as persianas, por causa do calor e barulho exteriores. Trabalhava-se melhor nessa penumbra fresca, mais serena. Eu tinha passado uma chamada ao tio, ele atendeu, falou meia-hora, e saiu do seu gabinete em direcção à minha secretária, com cara de caso, para pedir-me algo. Mas não pediu, arrancou-me da cadeira giratória, arrastou-me até ao sofá das visitas e, prendendo-me os braços, caiu sobre mim com o seu peso e bafo e corrupção, enquanto dizia, “se a tua tia fosse tão bonita como tu...”.
Mas eu tinha 19 anos, e a mesma força de hoje, que não é meramente braçal: empurrei-lhe os pulsos que me prendiam os braços, torci a anca, consegui inverter a posição dos corpos e, nesse momento, com os pés e os dentes, magoei-o para que me soltasse. Sacudi-o, fugi porta fora e, confesso, foi este episódio que me vedou para sempre o desenvolvimento de uma carreira no import-export.
O tio lá teve de se arranjar sem secretária o resto do mês, enquanto a tia Mané lhe perguntava, todos os dias, o que raio me tinha acontecido, por que não ia eu, que afinal não passava de uma preguiçosa, de uma irresponsável; e ele ia pondo água na fervura, morrendo de medo que a minha boca se abrisse: desculpava-me.
A minha boca nunca se abriu. Ensinaram-me assim. A tia Mané nunca esqueceu o episódio da minha falta de zelo profissional e admira-se sempre que eu consiga manter empregos.
Há um par de anos, também em Agosto, encontrei o tio Humberto no Metro. Falámos. Disse-me que eu estava cada vez mais bonita, que os anos não passavam por mim. Agradeci-lhe.
Andei a fazer um curso de secretariado financiado pelo Fundo Social Europeu, e em Agosto, nas férias da empregada, o tio arregimentava-me para a substituir, a pretexto do meu desejado estágio: ditava-me as cartas, que eu anotava em estenografia, e depois batia na máquina de escrever eléctrica, um luxo!
Entre a emissão e recepção de telexes, nas quais era exímia, e o arquivo da correspondência do dia anterior, o tio Humberto beliscava-me as nádegas, roçava-me, sem querer, o antebraço pela mama esquerda ou pela direita, conforme, e dirigia-me frases de segundo sentido, maliciosas, embaladas em gíria de escritório. Informava-o de que as peças da Alemanha tinham chegado no navio x ou y, e estavam na alfândega para inspecção, e ele retorquia que, se eu deixasse, me inspeccionava as peças todas, à borla. Eu voltava para a máquina de escrever, não fosse ele ter ideias, e acreditava piamente que as mulheres tinham nascido para isto: ouvir, calar e fugir sempre.
O tio pagava-me de boa cara os almoços, e apenas me pedia, implicitamente, que o ouvisse como se tivesse piada, que o olhasse como se ainda guardasse atractivos sexuais, e que lhe sorrisse enquanto se aprimorava no recurso de estilo sensual, e me comparava ao queijo fresco que se desfaz na boca, ao bago de uva que se trinca doce, enfim, às “talhadas de melão, damascos, e pão-de-ló molhado em malvasia”. Eu via-me transformada em matéria comestível, alimentícia, de diferentes texturas, umas vezes mais doce, mais tenra, desfazendo-me em água na boca, outras, carne rija, em tensão, mas saborosa sempre, tomada de sal ou picante, a gosto.
O meu tio Humberto apetrechou-me dos instrumentos mentais necessários para compreender o inconsequente discurso de engate lusitano, cheirar a mentira a quilómetros, e transformou-me numa especialista em toca e foge: ele tocava, eu fugia.
À tarde, no escritório, fechava as janelas e cerrava as persianas, por causa do calor e barulho exteriores. Trabalhava-se melhor nessa penumbra fresca, mais serena. Eu tinha passado uma chamada ao tio, ele atendeu, falou meia-hora, e saiu do seu gabinete em direcção à minha secretária, com cara de caso, para pedir-me algo. Mas não pediu, arrancou-me da cadeira giratória, arrastou-me até ao sofá das visitas e, prendendo-me os braços, caiu sobre mim com o seu peso e bafo e corrupção, enquanto dizia, “se a tua tia fosse tão bonita como tu...”.
Mas eu tinha 19 anos, e a mesma força de hoje, que não é meramente braçal: empurrei-lhe os pulsos que me prendiam os braços, torci a anca, consegui inverter a posição dos corpos e, nesse momento, com os pés e os dentes, magoei-o para que me soltasse. Sacudi-o, fugi porta fora e, confesso, foi este episódio que me vedou para sempre o desenvolvimento de uma carreira no import-export.
O tio lá teve de se arranjar sem secretária o resto do mês, enquanto a tia Mané lhe perguntava, todos os dias, o que raio me tinha acontecido, por que não ia eu, que afinal não passava de uma preguiçosa, de uma irresponsável; e ele ia pondo água na fervura, morrendo de medo que a minha boca se abrisse: desculpava-me.
A minha boca nunca se abriu. Ensinaram-me assim. A tia Mané nunca esqueceu o episódio da minha falta de zelo profissional e admira-se sempre que eu consiga manter empregos.
Há um par de anos, também em Agosto, encontrei o tio Humberto no Metro. Falámos. Disse-me que eu estava cada vez mais bonita, que os anos não passavam por mim. Agradeci-lhe.
Perguntou-me pela vida. Projectos. Contei-lhe, normalmente. Nunca alimentei raiva pelo tio Humberto. Não se comportou comigo de forma diferente. Nem melhor nem pior. Todos os homens que conheci, os da família, os amigos da família, os outros, fizeram o possível e o impossível para me saltar para cima, desde os quê? – os 10, 11 anos?! Julguei, durante muito tempo, que era essa a ordem do mundo: ser desejada e fugir desse desejo que enojava.
O tio Humberto foi apenas mais um na longa lista. Um com lábia, com recursos expressivos, de que se serviu, como preliminares.
A certa altura diálogo, que não iria ser longo, o tio Humberto exclamou, completamente fora de contexto, que queria agradecer-me “por aquilo”.
“Aquilo o quê, tio?”
“Nunca teres contado nada à tua tia. Não me teres destruído o casamento!”
Calei-me, séria.
“Mostraste que já eras uma mulherzinha, que pensavas. Se tivesses contado, ninguém ficava a ganhar. Durante muito tempo temi que o fizesses. Depois percebi que não, que te calaste sempre. Tenho de te agradecer isso.”
Olhei-o. Não sorri.
O metro parou na minha estação, felizmente parou, não é estratégia narrativa. Despedi-me à pressa, disse-lhe que não tinha nada a agradecer, que eram coisas do passado.
Saí, e permaneci de pé, parada na estação, enquanto o metro seguia, e ele me acenava da carruagem. Sentei-me, depois, nos bancos, por instantes. “Filho-da-puta, não te estraguei o casamento, não foi?!” E recordei, como recordarei no segundo da minha morte, o rol de filhos-da-puta que roubaram, para sempre, o meu amor. Que roubaram tão cedo a inocência perfeita, a esperança de que um dia amaria alguém, e seria honestamente amada de volta, e que esse amor seria para sempre, porque o imaterial não termina.
O tio Humberto foi apenas mais um na longa lista. Um com lábia, com recursos expressivos, de que se serviu, como preliminares.
A certa altura diálogo, que não iria ser longo, o tio Humberto exclamou, completamente fora de contexto, que queria agradecer-me “por aquilo”.
“Aquilo o quê, tio?”
“Nunca teres contado nada à tua tia. Não me teres destruído o casamento!”
Calei-me, séria.
“Mostraste que já eras uma mulherzinha, que pensavas. Se tivesses contado, ninguém ficava a ganhar. Durante muito tempo temi que o fizesses. Depois percebi que não, que te calaste sempre. Tenho de te agradecer isso.”
Olhei-o. Não sorri.
O metro parou na minha estação, felizmente parou, não é estratégia narrativa. Despedi-me à pressa, disse-lhe que não tinha nada a agradecer, que eram coisas do passado.
Saí, e permaneci de pé, parada na estação, enquanto o metro seguia, e ele me acenava da carruagem. Sentei-me, depois, nos bancos, por instantes. “Filho-da-puta, não te estraguei o casamento, não foi?!” E recordei, como recordarei no segundo da minha morte, o rol de filhos-da-puta que roubaram, para sempre, o meu amor. Que roubaram tão cedo a inocência perfeita, a esperança de que um dia amaria alguém, e seria honestamente amada de volta, e que esse amor seria para sempre, porque o imaterial não termina.
E nesse dia tive vontade de telefonar à tia Mané, que diz mal de mim ao resto da família, e contar a verdade. Contar à tia Mané por que não tive filhos e por que não me deixei ser amada e por que fodi de todas as vezes que quis amar. Apesar de saber que, no final, a tia Mané me diria, “és uma puta, Isabela, sempre foste uma puta, e só não o digo à tua mãe por pena dela.”
Eu sou uma puta. Neste mundo, tão perfeito, de horas e cores mágicas que sorvo para aproveitar a viagem única, sou a puta. Eu gosto de putas, porque nós, as mulheres, somos todas putas.
O tio Humberto tinha acabado de me agradecer a mentira que perpetua a mentira. Que aguenta o sistema. Eu, que digo não saber mentir nem ser hipócrita, durante muitos anos fiz o que me ensinaram, pactuei, aguentei o sistema. Sou de todos, afinal, a pior, a mais mentirosa: a que mente sabendo que há outro caminho, o da denúncia. E quando afirmo que a culpa é dos outros que mentem, os outros sou eu.
Fui eu.
Eu sou uma puta. Neste mundo, tão perfeito, de horas e cores mágicas que sorvo para aproveitar a viagem única, sou a puta. Eu gosto de putas, porque nós, as mulheres, somos todas putas.
O tio Humberto tinha acabado de me agradecer a mentira que perpetua a mentira. Que aguenta o sistema. Eu, que digo não saber mentir nem ser hipócrita, durante muitos anos fiz o que me ensinaram, pactuei, aguentei o sistema. Sou de todos, afinal, a pior, a mais mentirosa: a que mente sabendo que há outro caminho, o da denúncia. E quando afirmo que a culpa é dos outros que mentem, os outros sou eu.
Fui eu.