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terça-feira, março 04, 2008

Os altos e baixos do Poder

Montagem pedida emprestada ao Kaos in the Garden (ele ainda não autorizou o empréstimo...)

A luta dos professores pelo direito a uma avaliação justa e digna, tal como a que devem aos seus alunos, remete-me para uma reflexão que tem a ver com os altos e baixos do Poder, ou seja, o poder do Poder, questão que hei-de moer enquanto não puder matar.

As reivindicações dos professores relativamente às alterações do sistema educativo, que criaram duas classes diferentes de docentes-colegas iguais, excepto em tempo de serviço prestado, são hoje rigorosamente as mesmas de há ano e meio atrás. Nessa altura preparava-se a aplicação do sistema de avaliação de que agora se fala. A diferença é que há um ano atrás, para a opinião pública, os professores eram uma classe preguiçosa e cheia de privilégios. Foi essa a imagem que o poder político, encabeçado pela sombria ministra, promoveu, entre outros através de publicidade que comprou na Imprensa diária, e a que chamou esclarecimento ao público. Pagou, com o dinheiro dos contribuintes, a criação de uma má imagem da classe docente, o que levaria a uma perda de poder dos professores, logo, a uma quebra na sua indesejável força reivindicativa. Tem sido uma das estratégias, sujas, deste Governo.

A mesma Imprensa que deu páginas de opinião anti-professores ao Governo, e divulgou com gáudio a mensagem do Poder, acha, agora, que, se calhar, este sistema de avaliação... é complicado demais, parece a rede do metro de Londres, os prazos são inviáveis...
Manuel Villaverde Cabral afirmou, ontem, no Prós e Contras, que os professores se tornaram uma classe diabolizada pelo poder político. Marcelo Rebelo de Sousa, Domingo passado, declarou que se tinha sentido incomodado com o enxovalho de que tinha sido alvo a ministra no anterior programa de Judite de Sousa, mas que a governante tinha colhido o que semeara. Que a revolta, a tremenda raiva dos professores era consequência de uma desautorização do seu trabalho, do seu estatuto e da sua honra, da qual ela tinha sido a principal agente. Que o desrespeito da ministra pelos professores se tinha reflectido num desrespeito por ela. Ora, o recente volte-face favorável aos professores, e toda a discussão sobre o novo sistema de avaliação dos docentes aprovado pela maioria parlamentar, agora de execução obrigatória, só se tornou possível porque o governo perdeu, nas recentes sondagens, sem apelo nem agravo, a maioria absoluta que já tinha perdido na rua, logo, perdeu poder.

Os professores foram colocados na mó de baixo enquanto o Governo esteve na mó de cima; agora, que Sócrates e pandilha se têm esforçado por cavar a sua cova bem funda, as estruturas pensantes, e satélites do poder, devolvem aos professores a sua voz. E nisso, a honra perdida.
O poder tem os seus seguidistas, que barato o abandonam por poderes mais poderosos. A ver quais serão estes, por agora. O poder vai e vem. Tira e devolve. Embora seja interessante observar estes fenómenos,
considero que há algo de perverso para os professores no facto de a sua luta estar directamente relacionada com as vitórias e derrotas do Governo. É perverso que a desejável mas improvável saída da ministra da avaliação, implique uma derrota política e moral que o Governo não se pode dar ao luxo de admitir.

Mas termos chegado a um ponto em que os últimos cartuchos de crédito de um Governo dependem, tão só, da substituição da sua ministra da educação, não lhe augura grande saúde. E que nenhuma paz se conceda à sua alma! Deixem-no à merecida voragem das aves de rapina suas iguais. A ascensão e a queda sabem melhor em grande!
Entretanto, os professores preparam uma manifestação histórica para o próximo fim-de-semana, e mal posso esperar pelos episódios que se seguem.

terça-feira, junho 19, 2007

Insegurança Social Total



Nem todos os textos são fáceis. Este tenho-o adiado.
O caso da professora de Cacia - Aveiro que sofria de leucemia, e à qual não só não foi concedida a justa reforma por invalidez, como negada a baixa médica, obrigando-a a trabalhar em sofrimento até à morte, é de uma tal gravidade que me pergunto o que estamos a fazer frente aos computadores? Por que não estamos lá fora no Terreiro do Paço, frente à Assembleia da República, nas ruas, manifestando luto e repúdio e raiva pelo desrespeito, desamparo mortais a que foi condenada? Estamos calados porquê? Com medo de quê, exactamente? De nos "aleijarmos" porque pensamos, porque nos manifestamos?
E os colegas? E os alunos? Os pais do alunos? E o Sindicato de Professores? Como é que um caso desta gravidade só é revelado após a morte da professora?

Isto não foi um engano que se cometeu com a professora de Aveiro. Isto é aquilo a que cada um de nós está condenado no dia em que não puder trabalhar.
Parece que não é com ninguém, que não toca a ninguém? Isto é o que nos vai acontecer quando precisarmos do apoio da Segurança Social para a qual contribuímos a cada salário.
O que este caso nos atira pelos olhos dentro é tão simples quanto isto: as juntas médicas a que são sujeitos os funcionários incapacitados, têm ordens para devolver aos serviços as pessoas que se encontram impossibilitadas de o realizar. Estão às ordens do poder político, não da saúde.
Ficamos a saber que as decisões dos clínicos que compõem as equipas que realizam as juntas do Ministério da Educação, e de outros, dependem, agora, não de diagnósticos comprovados medicamente, mas de decisões políticas, das que lhe pagam a avença. Executores, portanto. Que não se sentem na legítima obrigação de sobrepor a sua decisão clínica a uma qualquer decisão administrativa da Insegurança Social.
Como cidadã portuguesa, contribuinte, e ser humano, quero que me expliquem muito bem, e depressa, porque vêm aí as férias de Verão, as razões por que não o fizeram. Por que código deontológico se regeram, neste caso?

Por outro lado, as escolas foram já informadas sobre como proceder no caso de professores que sofram de doenças incapacitantes, inclusive as contraídas no exercício da actividade - facilmente comprováveis, e na grande maioria relacionadas com o foro psiquiátrico ou a especialidade de otorrinolaringologia: estes não poderão ver a sua componente lectiva convertida noutro tipo de trabalho dentro das instituições.

Um docente que tenha contraído cancro nas cordas vocais ao longo dos anos de exercício, e mesmo recuperado após operação, caso não esteja habilitado a leccionar (após remoção das cordas vocais, dificilmente!), não poderá realizar tarefas de carácter pedagógico, didáctico, administrativo, de apoio às actividades curriculares e extracurriculares, essenciais ao funcionamento das escolas. Não poderá trabalhar na planificação, realização, coordenação de actividades, provas, exames; não poderá ocupar-se do apoio a espaços como uma sala de estudo, uma mediateca ou uma biblioteca. Não podendo leccionar, restar-lhe-á apresentar atestado médico após atestado médico, recebendo, desta forma, avaliação anual negativa por falta de assiduidade, e sendo rapidamente colocado nos excedentários.

Quem adoece, entra, portanto, em situação de despedimento por justa causa, sem direito a reforma por invalidez. Os doentes são excedentes. Quem deu os seus melhores anos a uma profissão, e nela se incapacitou, perdeu o lugar. Perdeu o direito à protecção que qualquer honesto patrão garante, e para a qual contribuiu justamente. Tornou-se lixo. É esta a salvação do mundo que louva a rapaziada dos blogues aqui mesmo ao lado: o doce capitalismo louco e impiedoso que nos matará depressa. A mim, claro. À professora de Aveiro. E a vós, que me ledes pensando que sim, é verdade, mas é só com os outros.

"Porque temos de pensar só em nós, ser individualistas. Dar espaço ao privado. Ninguém por ninguém. Cada um por si. Cada um que se desenrasque. Como na América, esse paraíso."

O que aconteceu à professora de Aveiro foi simples: tinha leucemia. Era lixo. Merecia nada. Desenrascasse-se lá como quisesse ou pudesse. É o que nos vai acontecer se não mexemos uma palha, se continuarmos aqui muito sentadinhos a deixar que nos tomem pelos parvos que nem somos.

Quem não trata os alheios como gostaria que o tratassem a si, e aos seus, atropelando princípios básicos universais de solidariedade e justiça, deve ser julgado por crimes contra a humanidade. Aqueles que não matam com as suas mãos, mas assinam a mandar matar. Que delegam. Estes.
Proponho, assim, que o governo português, um colectivo de hipócritas, seja julgado, em tribunal internacional, por crimes contra a humanidade, por instauração da destruição sistemática dos sistemas legais de suporte de vida dos cidadãos que cumprem as obrigações que lhes são impostas.

Quero o Governo Português no Tribunal Europeu dos Direitos Humanos como qualquer criminoso de baixa índole. Que é.

Temos de ir para a rua. Para a rua. Para a rua. Para a rua. E temos de ser muitos.


quarta-feira, novembro 01, 2006

Desorquestrar a Orquestra das Mentiras I

Joana Darque é professora na escola da Senhora Dona Maria de Lurdes. São 18h30 de uma terça-feira outonal, e já escureceu.
Joana acabou de sair do emprego, uma escola secundária nos arrabaldes de Odivelas City.
Meteu-se no autocarro para Lisboa, com a pasta inchada de trabalhos para corrigir; a cabeça e a garganta rebentadas das sete aulas seguidas, com intervalo de 45 minutos para almoço, no refeitório, rematadas por uma inadiável reunião intercalar de conselho de turma, de natureza pedagógica, com a duração de 3 horas.
Joana Darque suspirou fundo, aliviada; levantou a cabeça e agradeceu a Deus o facto de o autocarro não ir muito cheio, de não haver grande barulho; pensou que o dia seguinte era feriado, poderia descansar de manhã, e corrigir, à tarde, com calma, as fichas de trabalho das 4 turmas. Com um bocado de sorte, se não se distraísse, talvez conseguisse alinhavar um dos testes para a próxima semana, pensou agora.
Pôde, finalmente, abrir o jornal do fim-de-semana, que não lera, para preparar as transparências para as aulas de segunda, e um bom lote de exercícios para as de terça.
E leu, “os professores vão passar a dar oito horas de aulas diárias em lugar das cinco actuais”.

Ainda não são 19 horas. A professora Joana Darque pousou o jornal nos joelhos e olhou em frente. Olhou para as cabeças erguidas dos passageiros sentados nos bancos fronteiros ao seu. Negros. Brancos. Indianos. Ucranianos. Gente que trabalha, como ela. Cada um com o seu labor, a sua especialidade, a sua dor ou indiferença. O seu amor, vocação. Aliviados, igualmente. Serão os pais dos seus alunos. Passarão o feriado com os filhos.
O que terá pensado, nesse momento, a professora Joana Darque, que deu 7, não 5 horas de aulas, tendo passado delas, e directamente, para uma importante reunião de 3, e vai agora a caminho de casa, mais 40 minutos!, abençoando o feriado que aí vem?




domingo, outubro 29, 2006

Professores que racham


O Ministério da Educação informa, na Assembleia da República, que reduzirá, em cinco mil, no próximo ano, o número de professores integrados no sistema. A ministra Maria de Lurdes não informa como vai realizá-lo, mas creio ter-se tornado já bastante clara a forma como antecipa poupar em recursos humanos.
Professores sérios, cansados de trabalhar, e diminuídos pela humilhação diária de que são alvo, via conferências de imprensa, comunicados para os media, ou seja usando-se o Estado da Imprensa, que gosta de ser usada, como veículo de uma difamatória campanha de diabolização de um grupo de profissionais, os quais, sem voz eficaz, vêem ser-lhes colada a imagem da incompetência, da preguiça, do facilitismo, e da detenção de regalias imerecidas, excluir-se-ão voluntariamente.
Portanto, a acção de redução das despesas no Orçamento de Estado da Educação é realizada pela própria campanha que, moendo, "extinguirá" 5, 10, 15 mil docentes, aqueles para os quais as consequências da actual perseguição se tornarem mental, moral, eticamente insuportáveis.
Os professores que estão no sistema e de alguma forma puderem sair, porque possuem valências que lho permitem, vão fazê-lo. Não sairão os professores menos qualificados, ironicamente, nem os menos trabalhadores, porque os ácaros permanecem sempre nos sistemas, invisivelmente: sabem passar despercebidos e têm capacidade de resistência. Sairão os que importam, os que realmente podiam dar-lhe algo, mas não vão suportar a estrela amarela que agora trazem cosida no exterior da roupa e que diz exactamente, "professor a abater"! Porque esses quebrem, cedem à pressão. E é por aí que se tornam frágeis à patroa.
Os professores devem acordar de manhã e ter medo de abrir os jornais. Ou criam calo e cospem para o lado, na medida do possível, ou racham e dão de si.
Ao Ministério da Educação tanto faz, porque há muito deixou de precisar de professores para ensinar. São agora precisos também para entreter.
É por isso que faz todo o sentido, cada vez mais, falar em esvaziamento da figura do professor.
Estes foram esvaziados parcialmente, pelo seu ministério, da tarefa que os distinguia dos auxiliares de acção educativa - ensinar - e totalmente, pelos alunos, do relevo necessário ao exercício da tarefa.
Os alunos são opinião pública, como os encarregados de educação, como os reformados no banco de jardim, e as consequências desta campanha sobre discentes teve efeitos que já não poderão ser remediados: o que fazer quando os alunos consideram não haver na "figura do professor" qualquer conteúdo a merecer respeito, porque são, "uns preguiçosos"?!

terça-feira, outubro 24, 2006

A pólvora


Finalmente descobriram que os professores, tal como os jogadores de futebol, os juízes, os médicos, os polícias, os cozinheiros, os limpa-chaminés, os cabeleireiros precisam de se sentir satisfeitos com o trabalho que fazem, para que saia bem feito.

Do Expresso de Sábado passado, sobre associações de pais:

O seu colega da Federação Regional das Associações de Pais do Porto vai mais longe: " Se o professor estiver insatisfeito ao dar aulas, gera uma onda de descontentamento na escolas que prejudica toda a gente e que vai trazer consequências negativas para os estudantes."


quarta-feira, outubro 18, 2006

Professores: a via da desobediência civil

Os meus amigos professores, que ontem e hoje estiveram em greve, aqueles que suportaram fazê-la durante dois dias, com o peso que isso terá no orçamento dos agregados, mesmo agendada para uma altura cujas repercussões salariais serão visíveis no mês do subsídio de Natal, fizeram-na para nada. Os jornais não deram destaque, a televisão pouco, e a situação passou mais uma vez relativamente despercebida.

O problema dos encarregados de educação não consiste na falta que as aulas farão aos educandos, mas em não terem onde deixar as crianças, isto porque a escola se transformou, há alguns anos, num armazém de filhos - uma espécie de ATL onde alguém tenta ingloriamente ensinar qualquer coisa, pensando que ainda se vivem esses tempos: os de aprender. Essa tem sido a grande e dolorosa lição que os professores têm compreendido nos últimos anos: a de que já não são docentes, ou seja, aqueles que ducunt (de duco, ducere, latim, verbo ensinar), mas aqueles que ocupam o tempo: a sua tarefa não depende das suas capacidades científicas, didácticas, pedagógicas, mas, como li num blogue, ontem, da sua "capacidade de resistência ao stress", da sua inventividade para animar hostes ou sossegá-las, contê-las, numa espécie de continuação do trabalho das amas.

Esta greve somará milhares de dias de vencimento que beneficiarão palidamente o orçamento de Estado, o qual, por sua vez, não beneficiará, jamais, a luta dos professores. Trata-se de perder dinheiro inutilmente. Pior que atirá-lo à sarjeta, porque da sarjeta ainda alguém poderia aproveitá-lo, agora, do orçamento do Estado...
Com medidas reivindicativas desta ordem, greves que ninguém escuta, que não se discutem na rua nem nos órgãos de informação, ultrapassadas enquanto forma de luta, a indignação dos professores assemelha-se a um ofício fúnebre a expensas próprias.

As responsabilidades da ineficácia de mais esta greve deverão recair sobre os sindicatos da educação, já devidamente elucidados sobre a falta de peso deste tipo de intervenção. Permanecem inoperantes, paralizados sob acções que já se mostraram claramente ineficazes no passado, e por demasiadas vezes.

Uma luta como a dos professores, que não é, sequer, neste momento, uma questão de dinheiro contado (e deveria!), mas de honra profissional, de deontologia, de estatuto da sua profissão, deveria passar por medidas visíveis, radicais, no espírito da democracia, e da liberdade de expressão e de manifestação.

Caros professores, neste momento haveria que arranjar-se uma boa mão cheia de revoltados, meio-cegos de humilhação, com pouco a perder, e levar a cabo um boicote fortíssimo, um terrorismo sem tréguas, sólido, colectivizado, relativamente às medidas do ministério da deseducação, como lhe chama a minha amiga.
Recusa da lição, dentro da sala; recusa do cumprimento de programas, dentro da sala. E, por falar em ofícios fúnebres, greve da fome, auto-imolação à porta das escolas.
Qualquer coisa, mas tudo, tudo, menos a morte muito lenta a que estais destinados.

terça-feira, setembro 12, 2006

Prémio de Mérito para Professores: mais um golo!

Quem é nunca vai ganhar este prémio, quem é?!
Os faltistas... pois é! E os que... os que... se esquecem das canetas em casa... e... as pedem emprestadas aos alunos para escrever os sumários... exactamente!
Estão a ver como sabem?!
E mais, e mais? Vá... então?!... Os que estão... os que estão... pelos cabelos! Sim senhores, lindos meninos! Pois é... mesmo pelos cabelos, mesmo já na parte espigada da ponta dos cabelos... Muito bem!
Vá, e agora podem arrumar, que os nódulos na garganta já não me deixam gritar mais!
E façam chegar os melhores cumprimentos aos vossos sagrados papás e restantes familiares, e que desculpem se não mando os franguinhos já depenados..., mas é que estive toda a madrugada a rever os critérios de avaliação para subir as notas mais... mais... 40 por cento! Ora estão a ver como sabem?!
E agora vamos todos cantar o hino nacional enquanto não toca para a saída! Desculpem se não acompanho, mas é dos nódulos que me estão a entupir as cordas vocais!
Ah, mas atenção, atenção, atenção... que este ligeiro problema de saúde não incapacitante para o exercício desta meritória actividade profissional, e contraído no âmbito da mesma, fique aqui entre nós, meus anjos! Não vão dizer lá em casa, está bem?! Óptimo!
Sim, sim, e claro que podem mandar-me à merda, em voz alta, sempre que quiserem, que importância tem isso?!


quinta-feira, junho 29, 2006

Como avaliar os professores malucos?

Nunca conheci um professor que gostasse de avaliar; é ingrato; quase sempre injusto. Mesmo em ciências exactas é difícil avaliar justamente as aprendizagens. Um bom aluno pode mostrar-se incapaz de realizar um exercício específico, e ter aprendido muito mais do que qualquer outro, globalmente; ser excelente. Por isso, classificações obtidas numa situação de avaliação nem sempre reflectem a aprendizagem realizada. Os professores sabem-no; o ministério sabe-o e, anualmente, emana despachos normativos e circulares inúmeras aconselhando moderação, ponderação, discussão das classificações, que são apenas sugeridas pelos professores das disciplinas, e aprovadas, ou não, pelos conselhos de turma.

É difícil garantir que o aluno da carteira da frente vale exactamente 3 quilos duzentos e cinquenta, e não mais nem menos. A aprendizagem tem portas do cavalo que a avaliação não consegue quantificar. Numa aula, acontece não se aprender o tema da lição, mas outro assunto que não se tinha compreendido antes, no qual não se tinha pensado, ou no qual se vinha pensando sem solução. Faz-se luz de repente. Foi uma aula inútil?
Um bom professor produz este tipo de conhecimento. Flexível. Activo. Crítico. Multidisciplinar. Autosuficiente.

Os alunos de 20 não são necessariamente os mais capazes, mas não é possível negar que sejam quase sempre exemplarmente organizados e disciplinados; cumprem as regras; apresentam soluções convencionalmente certas, mas nem sempre resplandecem, voam. Frequentemente estão presos ao chão com uma cola toda feita de ordem, medo e obediência. Sabem definições de cor. Datas. Fórmulas. Memorizam a gramática de uma ponta a outra, os compêndios chatos, e sabem distinguir conjunção de locução conjuncional. Quase sempre se portam muito bem. Não têm grande sentido de humor. Nem sempre são criativos, mas produzem moeda-classificação. Ouvem-na cair.


Marcovacca, Angola

Os professores do sistema, sentadinhos na secretária, com seus fatinhos de saia e casaco de fazenda azulinha ou de calça e casaco, cinzentinhos, as mãozinhas brancas de dedo curto com aliança, muito graves e científicos, gostosamente entalados na forma canónica, e incapazes de sair dela, sempre me causaram... borbulhagem.

Gostava dos professores faltistas. Dos que passeavam entre as filas de carteiras enquanto diziam lérias, e a quem chamávamos malucos, mas a cujas aulas íamos com gosto. Daqueles que a gente nem sabia em que parte do programa é que iam.
“O que é que o gajo tá a dar?” “Sei lá, deve ser o barroco!” “O barroco não pode ser, que já demos o neo-realismo!”
Gostava dos que diziam “merda, molhei os sapatos lá fora” ou “hoje estou cheio de gases”, e nos mandavam ler textos sérios pejados de asneiras, divertindo-se com o escândalo entre as meninas: “Tes... ai, tes...tí... bem... posso ler isto?, ai, testí... ti... culo, ai, este texto... “.
Gostava dos que se sentavam em cima da mesa a falar sozinhos, despenteados, com mau feitio, e nos ensinavam coisas que a linguagem não contém. E que aprendiam coisas para si enquanto falavam. Estabeleciam uma relação em que não haviam pensado antes, “pois é, pois é”.

Mandavam-nos ver filmes que não eram para a nossa idade e ler livros terríveis. Não creio que seguissem programa, que tivessem planificação, que fossem a reuniões. Não tinham. Chegavam, mandavam umas bocas, dissertavam, divertiam-se que nem uns malucos e quem lhes tirava aquilo, tirava-lhes a vida.
Nos testes ditavam-nos as perguntas, inventadas na hora, e não dava para copiar, embora até pudéssemos... aquilo não estava escrito em lado nenhum.
O que eu aprendi com esses malucos sem método algum, que nunca na vida foram avaliados! Que não poderiam ser avaliados. Porque um bom professor não se avalia. Não é possível quantificar o que ensina.
O que eu aprendi a não apodrecer de medo, a pensar mal, mas a pensar, para depois pensar melhor.
A esses professores, esses que eu tive, os faltistas sem método, haviam de lhes aplicar o próximo sistema estatutário de avaliação do desempenho, o tal que o governo vai aprovar com a benção da opinião pública que manipulou com total consentimento das redacções. Chumbavam todos! Era vê-los a cair que nem tordos! Hoje, seriam maus. Nem passavam na entrevista.

A avaliação tornou-se uma obsessão. Como avaliar tudo? Como avaliar um professor? Quanto vale? Quanto pesa? Quanto mede? Como posso ter mais sucesso igual a ter mais dinheiro? Quanto?
Ridículo. Ridículo. Daqui a 10 anos a educação estará na mesma. Pior. A crise na educação não assenta no funcionamento das escolas, mas no da sociedade.
A maior parte das crianças chega hoje à escola sem saber o que são valores, ou quais são. É um discurso perdido, que não falam em casa, onde tudo é permitido. Não sabem que não podem sair de uma sala quando querem, porque desconhecem o conceito de regra. Não sabem o que é "isso do respeito". Os professores não conseguem dar aulas porque não conseguem ser ouvidos. Não têm poder para agir, para pedir silêncio.
Daqui a 10 anos a educação estará pior. Os melhores hão-de ser tão robotizados que preferiremos os piores.
É que o problema da educação não está na escola nem nos professores que, como noutras profissões, e em todos os tempos, foram bons e maus.
A crise da escola é o espelho de uma crise social profunda: nada vale nada - apenas o dinheiro e o sexo.

Zelenje, Niassa, Junho 2003

terça-feira, junho 06, 2006

Professores com vida de magnatas - I


Salários dos professores do 2º e 3º ciclos do ensino básico e secundário? Tabela de 2005? Apresentam-se contas de situações reais.


O professor Luís, que fez o favor de me emprestar o recibo,
lecciona há 17 anos, e encontra-se no 7º escalão.
Clique com o rato sobre a imagem, e escolha a dimensão em que pretende visioná-la


Em Janeiro, deveria ter-se submetido a avaliação para ascender à fase seguinte; porém, dado que as progressões na carreira se encontram "congeladas" há mais de um ano, não pôde fazê-lo. Portanto, o docente conta, hoje, e contará, não sabe até quando, com o mesmo tempo de serviço que possuía em 2003 - 14 anos. Como se o tempo tivesse parado aí.
Para o autor deste blogue, o qual indica valores salariais em bruto, a situação parece tornar-se "interessante" a partir do 8º escalão (2058,39 € ilíquidos, deduzidos de descontos para a Caixa, a ADSE, IRS).
O escalão mais elevado é o 10º (2856,54 € deduzidos, já se sabe).
Se o tempo de serviço não tivesse sido "congelado" ao nosso professor, este atingiria o topo de carreira dentro de 8 anos, com 25 anos de serviço, aí se mantendo, até à aposentação, tendo como único benefício a redução progressiva do tempo lectivo semanal.

Neste momento, relativamente à sua avaliação para acesso ao escalão seguinte, e de acordo com a Lei, o professor sabe apenas isto:

1- Exerceu as funções lectivas, não lectivas, administrativas, e outras, que lhe foram atribuídas, tendo cumprido as suas obrigações profissionais, tal como estipulado na legislação, e aceite como moral universal.

2 - Realizou as necessárias acções de formação pedagógica para adaptação a novos recursos, curricula e técnicas de trabalho.

3 - Elaborou o relatório crítico de auto-avaliação, referente aos últimos 3 anos, que deveria ter sido analisado por uma comissão de professores-coordenadores, cujo parecer e proposta de avaliação seria apresentado a conselho pedagógico - com poderes para deferir ou indeferir a promoção.

Eis o que não sabe, ainda, nem prevê:

a) Quando poderá submeter-se a nova avaliação para progressão na carreira, e ascender a esse "interessante" 8º escalão cujo rendimento tanta falta lhe faz?

b) Em que escalão virá a ser futuramente integrado, se a proposta para o novo estatuto vier a ser totalmente aprovada (excepto a parte dos encarregados educação, a mais mediatizada, mas a que apenas serve para produzir o fumo atrás do qual pretendem esconder as restantes propostas fascizóides)?

c) Que planos de vida pode agora fazer o professor Luís? Irá este ano de férias para o Algarve? Poderá mudar de casa e alugar outra maior, porque jã não tem onde meter a papelada?


Não perca os próximos capítulos (logo à noite ou amanhã):


- O quotidiano do professor na sala-de-aula, no corredor, em casa.
- O horário de trabalho do professor, sua gestão e respectiva ocupação de tempos livres.
- Diferença entre tempo lectivo e tempo não lectivo para actividades em sala-de-aula.

sábado, abril 01, 2006

Professores à prova de bala

Segundo a edição de hoje do Correio da Manhã vai ser criada dentro de um mês e meio, portanto, a meio do 3º período, uma linha SOS de apoio para professores e educadores. Isto, porque no ano lectivo 2004/2005 foram contabilizadas, nas escolas, 1232 agressões deste tipo, boa parte delas dentro das salas de aula. 191 professores e funcionários necessitaram de receber tratamento hospitalar, pelo que a agressão transcendeu a bofetada, a joelhada ou o murro. 25,7 por cento dos jovens estudantes revelam-se envolvidos em actos de violência.
Numa época em que o governo descredibiliza professores perante a sociedade civil e a Imprensa, a um nível nunca antes visto, não me admira que um dia destes, para além do exame que terão de passar a fazer para admissão à carreira docente, os candidatos tenham de demonstrar saber usar colete à prova de balas, aprender técnicas de defesa pessoal em substituição das didácticas e das pedagogias diversas.
Claro que a culpa disto tudo é dos professores!

O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...