terça-feira, agosto 02, 2005

Da beleza necessária à procriação

Eu e a minha prima afastada fomos hoje ter a nossa habitual conversa, versando filosofia pura, para as consultas externas do Hospital de Santa Maria. Estando perto do departamento materno-fetal, demos connosco a observar e comentar grávidas, daquela maneira useira que serve às mulheres para se comentarem umas às outras; chegámos à conclusão de que, para se levar com ele a torto e a direito, e, eventualmente, engravidar, não é preciso ser-se bonita. Há grávidas desdentadas, grávidas mancas, grávidas de olhos esbugalhados, grávidas secas de heroína...
Ora, sendo que a gravidez pressupõe farra, só podemos concluir que a beleza é coisa muito relativa e que não pode ser considerada para efeitos de enrodilhamento. Os homens gostam de mulheres bonitas, mas isso não quer dizer que se apaixonem por elas. Porque os homens não se apaixonam por quem querem, apaixonam-se por aquelas que queremos, que lhes impingimos, ou seja, nós!
O destino é cruel e, em alguns casos, justo, pelo que, mais facilmente, quem nada espera, recebe de bandeja a verdadeira beleza, e a respira, a bebe, se funde nela, do que, quem muito exige, a vislumbra de perto.
Mulheres e homens muito exigentes acabam, frequentemente, mortos de amor por simpáticos exemplares equinos em duas patas. É a vida!

Chamava-se Mundo Perfeito

Cá em casa, esta é a sua semana.
Não interessa quem foi, o que fez, disse ou pensou, que influências moveu, que jogos jogou ou pelos quais foi jogada. Esqueçamos que viveu uma vida, chorou, riu, acordou, dormiu.
Nasceu a 1 de Junho de 1926.
Morreu a 4 de Agosto de 1962.
Era mulher.
43 anos após a sua morte, é a mulher.
No Mundo Perfeito não somos dados a efemérides: estamos perante justificável situação de excepção - ela deu o nome a este blog.
A verdade está à vista: mundo perfeito é (est)a mulher.

segunda-feira, agosto 01, 2005

Míope!

O post de hoje, no Bandeira ao Vento, avivou-me a memória.
Quando era miúda, 7/12 anos, havia lá em casa uns livros com piadas ilustradas. O meu pai arranjava-os não sei onde, e eu, que não tinha autorização para sair, apreendia o mundo através dessas e doutras leituras. Era coisa inocente, que pouco amolgava a moral do regime: maridos cornudos, mulheres infiéis com amantes aparvoados ou vice-versa. As mulheres traídas eram gorduchas, com casacão largo e chapéu sobre a cara de cavalo; as amantes, para além das prateleiras bem largas e empoleiradas - não sei como conseguiam tal milagre gravitacional num tempo tão destituído de silicone! - pareciam estradas de serra, todas desenhadas em curva e contracurva. Os homens eram homens, portanto, feios, quer fossem maridos quer amantes.
Através desses livrinhos, com piadas inocentes, ligeiramente picantes, em alguns casos, assimilava não só o mundo da realidade matrimonial (casamentos monótonos e amantes), mas também, minudências linguísticas. Não creio que a escola me tenha dotado de capacidades verbais relevantes. O uso escrito que faço da língua materna, a única que, na verdade, amo, depende quase inteiramente do que aprendi, lendo. Ou seja, do que aprendi sem didáctica, sem pedagogia. Por tentativa e erro. Por aproximação, dedução, relação lógica. Processo muito curioso. Lento, eficaz.
Os referidos livrinhos de humor fascista, marcelista, se quiserem, contribuíram significativamente para o meu enriquecimento lexical, semântico, mesmo quando me equivocaram.
Foi através deles que, pela primeira vez, me vi confrontada com um estranho vocábulo: míope! A piada recorrente era a seguinte: um quadro legendado: o marido chega a casa, abre a porta do quarto, depara-se com a mulher e respectivo amante no rebolanço, contudo permanece impávido e sereno, de mão na maçaneta e olhos mortos, pequeninos. Em legenda, a mulher diz ao amante algo desta índole, “não te preocupes - ele sempre foi míope”!
Durante muito tempo, imaginei que míope significava estúpido, tolo, ignorante, maluco. Era a minha leitura. O contexto permitia-o.

Ao fazer 10 anos, alguém insistiu que eu não via bem, que o meu pai tinha de levar-me ao oftalmologista. Lembro-me bem do consultório, na Baixa; não a de Lisboa, outra - moderno, todo cheio de maquinetas, na penumbra de umas cortinas pesadas, excepcionalmente fresco para a canícula exterior.
O oftalmologista famoso observou-me em silêncio e, no final, anunciou ao meu pai, levantando a cabeça do tampo da secretária, gravemente, “ela é muito míope, e é de nascença!”.
Fiquei colada à cadeira. O meu mundo ruiu ali. Poucas vezes na vida um diagnóstico me arrasou tanto. Senti tanta vergonha: era míope! Como iria ser a minha vida a partir dali? Poderia continuar a ir à escola? E a vergonha que era para o meu pai! Uma filha míope, que desgosto! Logo eu! Era preciso ter azar.
Nesse dia, para meu sossego, clarificaram-me a semântica do vocábulo. Podia ficar descansada: não era maluca.
Bem, pelo menos, nessa altura, ainda não era.

O mundo perfeito

Há tantas coisas importantos no mundo a justificar a nossa atenção. Mas não adianta: o sexo está inscrito no nosso código genético dum modo tão impressivo que é lá que começamos e acabamos por mais cambalhotas (salvo seja) que dêmos. Hoje, por exemplo, acordei preocupado com a morte de Sua Alteza: será que a Arábia Saudita vai garantir o mesmo número de barris nos próximos tempos? E com a Guiné: «Nino» ou Malam Bacai Sanhá? E com a Ota, que nem ata nem desota. E com o TGV - em 2018 posso ir a Badajoz comprar caramelos e voltar a trezentos à hora? E com a reforma dos políticos. E com o défice. Isso tudo. Mas de repente passa-me diante uma jovem de mini-saia e avantajados seios arredios ao decote - e, juro, tudo o mais se me esvai e já só me vejo com ela de reboleta a dar ao pedal.

O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...