quinta-feira, novembro 03, 2005

Come as you are

Como me parece que a letra dos Nirvana suscitou nostalgias, fica em destaque, com agradecimentos ao Zanzere, que me ofereceu a letra, e ao jmnk, que me trouxe a música (muito obrigada, jmnk; e não é que, apesar dos iniciais contratempos, consegui?!).

Come as you are, as you were
As I want you to be
As a friend, as a friend, as an old enemy
Take your time, hurry up
The choice is your, don't be late
Take a rest as a friend as an old memoria

Come dowsed in mud, soaked in bleach
As I want you to be
As a trend, as a friend, as an old memoria

And I swear that I don't have a gun
No I don't have a gun


Kurt Cobain


quarta-feira, novembro 02, 2005

«Livre livre livre» - I Os do "...come as you are..."

Publicado n'O Eleito

A minha prima afastada chama-se Joana Rita e é doutoranda em Filosofia Pura.
Hoje, antes do jantar, sugeriu-me, “amanhã podíamos ir ver os Últimos Dias, de Gus Van Sant”.
“Gosto do realizador” respondi-lhe ,”mas ontem, num blog, disseram-me que o argumento é praticamente inexistente – é um filme de imagem, muito depress!
A Joana Rita arriscava: sim, devia ser deprimente, mas não podia desperdiçar uma obra que reflectia a sua geração; e definiu-a, sumariamente: a da apatia, a do nada a fazer, a do “come as you are, as you were, as I want you to be...”, a dos rabos rindo-se ignorantemente para o Poder, como argumento icónico.
Abríamos a porta do elevador, e eu sorri. Sorrio sempre quando a Joana Rita me descreve a sua geração: “não achas que come as I want you to be, reflecte já um excessivo empenho, uma fuga à apatia, uma passada estendida para lá do portal dos Marilyn Manson?! Não achas, Joana Rita?”
Sorrio sempre, porque a Joana Rita, doutoranda em Filosofia Pura, vai acusar-me de ter parado na Tina Turner, no Peter Gabriel e no Bono do Where the Streets Have no Name, e de não perceber nada de música, porque o movimento de Seattle, e tal, não se pode confundir com os Joy Division nem com os do meat is murder, muito menos com os Marilyn Manson...
Sorrimos.
E enquanto abria a porta de casa, estabeleci a comparação: “da apatia, santo Deus... a minha geração era a da revolta!”
A Joana Rita não respondeu.
É verdade, eu nada percebo de movimentos musicais! O movimento de Seattle... deixa-me rir, eu sempre lhes chamei “os que parece que gritam por socorro”, e nunca os distingui..., mas sabe lá ela o que foi a minha geração. Sabe, enfim!, “vocês, tu e os teus amigos, aqueles que me apresentaste, os amigos de Alex, lá nos anos oitenta... os das farras e dos charros...
Acendi as luzes, pousei as chaves, tirei o casaco, mudei de sapatos, atei o avental à cintura, abri o frigorifico..., “ó Joana Rita, dos amigos de Alex fui eu a única que restou...!
Rimos alto, enquanto aqueço a sopa no microondas. E mandamos piadas. Conto-lhe umas histórias “dos amigos de Alex”.
"Eu, no meio deles, era uma menina bem: nunca fumei um charro. Não sabia travar!
Rimos.


Personagem de Kurt Cobain em Últimos Dias, de Gus Van Sant (nos cinemas).

«Livre livre livre» - II Os da Esperança

Publicado n'O Eleito

A minha geração foi a da revolta?
Não, a minha geração foi a que herdou a experiência da revolta e a sua memória.
A minha geração confundiu puberdade e liberdade, portanto, biologia e ideologia, porque as estrearam ao mesmo tempo.
A minha geração teve esperança; na sua maioria, em 1974, não tinha ainda a idade suficiente para perceber bem que "dantes não se podia falar", mas, apesar de tudo, foi aquela a quem disseram, “agora podemos falar”. A minha geração cresceu a ler poemas colados nos jornais de parede: liberdade rimava com eternidade e sociedade com verdade...
A minha geração construiu jornais de parede com os poemas dos revoltados, dos que estiveram presos, dos que levaram porrada por se darem ao "luxo" de arriscar o que tínhamos livre e de graça: opinião!
Os da esperança foram os do unificado! A minha geração estudou Manuel Alegre no sétimo ano e no oitavo e no nono... Que o poema tenha rodas motores alavancas...
“Isabela, os poemas têm rodas, motores, alavancas?”
“Sim, stor, os poemas são como um automóvel que circula comunicando, transportando...”
“Os poemas são como um automóvel?! Isabela, explica-me isso melhor...”
Que o poema corra salte pule/ que seja pulga e faça cócegas ao burguês/ que o poema se vista subversivo de ganga azul/ e vá explicar numa parede alguns porquês.
“Corra, salte, pule, sim, é uma gradação crescente, sim, mas o resto, quero o resto...”
“...vai pular ao tornozelo do burguês, e picá-lo sem sossego, picá-lo, picá-lo, como os operários da Siderurgia vão picar os miolos aos...”
“Isabela: subversivo? O que é subversivo?”
“Subversivo é como subterrâneo, vem de baixo, até pode estar escondido como uma toupeira que revolve a terra e constrói túneis lá em baixo e depois mostra o focinho à luz do dia... “
“Mas subversivo é mais que isso, Isabela... o poema veste-se de de ganga azul... Quem é que se veste de ganga azul, Isabela? E porquê numa parede? Explicar numa parede alguns porquês? Isabela...”
A minha geração associou poesia e política. Associou, não foi? Ainda associa um pouco, não é? Digam-me que a minha geração ainda se divide, às segundas de manhã, entre a redacção de um terceto, e a interpretação da alínea a), do artigo 35º do Decreto-Lei número tal?
Caramba, digam-me lá que a minha geração ainda se emociona quando lê, numa quadra do Alegre, Que o poema seja microfone e fale/uma noite destas de repente às três e tal/para que a lua estoire e o sono estale/ e a gente acorde finalmente em Portugal?
“Isabela, microfone; três e tal; lua estoire e o sono estale...??? Isabela, finalmente? As paráfrases, Isabela!!!”
Isabela, Isabela, tantas palavras para explicar, uma vida inteira de paráfrases, materializando os ideais que as ergueram, reconstruindo, com cuidado, fragmentos de fonemas derrubados.
E onde está a minha geração?

«Livre livre livre» - III Então, e o Alegre, hein?!

Publicado n'O Eleito

O Alegre?! O Alegre é um lírico! O Alegre é retórica, é vaidade, é estilo. O Alegre é uma espécie de registo diário das intervenções na Assembleia, mas em estilo culto! O Alegre é a conotação em versão parlamentar!
Gostava que o professor Humberto me viesse perguntar, como na oral do 9º ano, “Então, Isabela, e o Alegre, hein?! O que me dizes do Alegre? Vamos a isto?!" E eu responder-lhe-ia: "pode ser!"
“Pode ser, rapariga?! O que é isso do pode ser?! Ou sim ou não: ou é ou não é; na vida não há pode ser – pode ser é deixar andar, é pactuar! Sim ou não, Isabela?”
“Sim!”
“Então, abre-me esse manual na página 35, lê-me bem alto essas quatro estrofes e vamos lá esgaravatá-las os dois, como se não estivesse mais ninguém nesta sala...”


É possível falar sem um nó na garganta

é possível amar sem que venham proibir
é possível correr sem que seja fugir.
Se tens vontade de cantar não tenhas medo: canta.

É possível andar sem olhar para o chão
é possível viver sem que seja de rastos.
Os teus olhos nasceram para olhar os astros
se te apetece dizer não grita comigo: não.

É possível viver de outro modo. É
possível transformares em arma a tua mão.
É possível o amor. É possível o pão.
É possível viver de pé.

Não te deixes murchar. Não deixes que te domem.
É possível viver sem fingir que se vive.
É possível ser homem.
É possível ser livre livre livre.


Mas a minha politização não foi passiva.
Ao longo da adolescência escolhi os valores com que me identifiquei; eu escolhi!, não os recebi por linhagem, não os herdei! Não os seleccionei entre os que seriam mais conciliáveis com o meu contexto de vida, ou mais fáceis de assumir. Escolhi livremente, e, por isso, houve alturas em que carreguei com dificuldade o peso da escolha.
Tal politização foi-me chegando através da literatura, nomeadamente da poesia, pela mão de dois homens: Manuel Alegre (e outros poetas de intervenção dos anos 70/80!) e o professor Humberto, seu fiel intérprete.
O professor Humberto leccionou-me a disciplina de Português, no Colégio Nun´Álvares, em Tomar, entre 1978 e 1981. Não me recordo do seu apelido.

Ao Manuel Alegre devo o mundo que me revelou através dos poemas cujos versos fui transcrevendo, Poemarma e Letra para um Hino, respectivamente.
Temo que seja uma dívida não meramente incobrável, mas impagável!

terça-feira, novembro 01, 2005

Eterno Retorno

Publicado n'O Eleito

Cartoon de Cid

Novela "em tempo real"

Se eu lhe coloco essa mordaça e a prendo é por amor, é para seu bem, para que você perceba que é muito melhor escolher voluntariamente ser minha, e senhora dessa casa, em vez de escrava. E se você não tiver tomado sua decisão até amanhã te mando açoitar e chicotear e botar no tronco.

Acabo de ouvir na RTP1, e agora ver, enquanto procuro certos poemas na net.
Parece a
Escrava Isaura. Mas deve ser uma nova versão da novela, porque a moça com a máscara de ferro, amordaçada e acorrentada no calabouço não é a Lucélia Santos!

Ai, agora o carrasco mandou buscar o ferro em brasa....... e diz-lhe, cheio de desgosto:

ou você se entrega pra mim ou vou marcá-la com o ferro, mesmo morta, como fiz com o negro André... Ou o ferro em brasa ou meu leito! Escolha!
Pois que assim seja: o ferro, Francisco!

Segurem Isaura!

Ai, lá vem o ferro, com um grande A rubro, incandescente, aproximam-lho do rosto...


1 de Novembro de 2005, 14h20, mais ou menos:

TPM: zero

A primeira vez que li a sigla foi nos blogs; percebi mal e também não me dei ao trabalho de investigar. Essas coisas biológicas femininas, que escapam à redundância do aperfeiçoamento do que já é perfeito, a mulher, ou seja, eu, escapam-me.
Pelo contexto, parece-me estar relacionado com o mau-humor que é suposto sentirmos em fase pré-menstrual. É isso?
É. Segundo um site brasileiro que acabei de consultar, via google, chama-se tensão pré-menstrual. Também podia ser pós; quis confirmar, finalmente. É que, à conta da menstruação, atribuem-se-nos todas as bizarrias.
Nos blogs da mulherada, a sigla é famosa, e os homens também parecem gostar de nos atribuir o tal TPM, sobretudo quando lhes faltam argumentos.
Comigo, treinem-nos sempre, que eu não sofro disso. Para andar de mau-humor nunca precisei de TPM: basta-me ir trabalhar, ver o telejornal, ter a roupa para passar a ferro e o pó por limpar (ainda por cima, agora, que não posso já contar com a preciosa ajuda de Cê-Bê, assunto cuja explicação adiarei!)
Eu cá, quando está para me vir o xico, o benfica, a bandeira vermelha, que era como as raparigas da minha época, acabrunhadamente, lhe chamavam, é muito simples: incham-se-me ligeiramente as mamas, e os respectivos flancos ressentem-se dum incómodo que classificarei como de 0,001 na famosa escala de dor que vai de 0 a 10. Ponto final.
Não é que queira causar invejas, e isso, mas praticamente não dou por nada - então desde que inventaram o Tampax com aplicador, cuja tecnologia tem vindo a ser melhorada ao longo das décadas, é aquilo a que, literalmente, se pode chamar, uma limpeza!
Portanto, comigo, para não dizerem que não sabem ao que vêm e o que levam, é assim: TPM, zero; quando ao resto do que é mais doce nas meninas, tudo!

O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...