quinta-feira, novembro 02, 2006

Eu não iria tão longe II


Alberto João Jardim está à espera que este "seja um país decente".


Eu não iria tão longe I


Alberto João Jardim tem "muita honra em ser português".


José cheio de graça, a senhora não está convosco

Não é verdade que o governo tenha perdido o estado de graça com a educação, e as taxas de internamento, e as scutes, e o resto; pessoalmente, e pelas fotografias, considero que o primeiro-ministro continua a ser uma lasca apetitosa e cheia de gracinha. Sobretudo quando se limita à pose de estad..., digo, de charme.

Salvos pelo papel higiénico


Tenho a certeza que era à Renova, e ao papel higiénico preto, "e em vários tons de preto", que Pessoa se referia quando vaticinou "cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez. Senhor, falta cumprir-se Portugal!"
Sem preconceitos, que, a existir, seriam de merda, aposto tudo na Renova: desejo do fundo de qualquer coisa em mim, que a Renova se transforme numa "microsoft au noir" para wc.
Quero ver-me chegar a qualquer parte do mundo e encarar funcionários alfandegários admirados, lendo o meu passaporte lusitano com inveja, como se fosse sueca, exclamando, "Oh, oh, portuguese, kings and queens of toillet paper! Portugal, famous land of Renova. Welcome, welcome!"
Quero ampliação das instalações da Renova, todas em território português.
Quero um milhão de portugueses a fabricar rolos de papel higiénico para exportação.

Quero o mundo inteiro decorado com papel higiénico preto-baço, preto-brilhante, preto-asa-de-corvo, com relevo, sem relevo. Com o preto na moda, este ano, tenho a certeza: vai, finalmente, cumprir-se Portugal.
E logo agora, que acabei de pedir asilo social a Espanha.

"Depois do mal estar feito, só há um remédio"


A senhora doutora Maria de Lurdes, patroa de uma grande empresa, sofre dos fígados.
É verdade, é verdade! É uma dor de alma olhar para a senhora, cada vez mais triste, com um ar enjoadíssimo, perto do vómito, a mão segurando a testa toda baldeada, olhando de lado, com um esgar.
A senhora anda verde, quase cinzenta, a rondar um inusitado tom liláceo.
Não é de estranhar que se mostre trombuda, salvo seja, sempre indisposta, sem paciência para os representantes dos empregados. Não é de estranhar que bata o pé, que rosne, que diga uma coisa hoje e se desdiga amanhã, até que lhe nasçam impingens, e se coce até ferir, e não consiga estar em quietude, nem aos dias feriados: são os efeitos secundários do mal de que padece: figadeira!
Sofrer da figadeira é um desconsolo, uma pessoa parece que anda sempre tonta, portanto é normal que a doutora Maria de Lurdes, patroa, não possa dar à luz as melhores ideias. Já foi tempo... quando se dedicava à investigação. E que bem se dedicava! Que saudades temos dos gloriosos dias que ofereceu ao saber pátrio! Há pessoas que nunca deviam largar a vocação com que nasceram: investigar até ao fim dos seus dias e publicar tudo em livros de 200 páginas, com capa monocromática, de fácil arrumo nas estantes dos institutos de ciências sociais, e ponto parágrafo
Acho que a senhora devia meter baixa por doença. Mas também é verdade que, em faltando a 3% do ano, não recebe avaliação de Bom do Ministério dos Patrões, e não acederá, jamais, ao topo da carreira, portanto, mais vale deixá-la andar doente, coitadinha, o que lhe custará... Imagino! Não faz nada, e estraga o que funcionava bem, mas destruir uma carreira de patroa a uma senhora que tem de mostrar-se tão séria para ser levada a sério, custa.
Pela minha parte, possuo longa experiência em tratamento de maus fígados e bílis, pelo que posso oferecer-me para prescrever receituário, todo ele de venda livre, é claro, com 21% de IVA, que a senhora patroa tomará diariamente, e pela seguinte ordem:

1. Logo pela manhã, antes do pequeno-almoço, dedicar-se-á à ingestão metódica de metade de um pack de seis garrafas de água das Pedras Salgadas. A outra metade, para dosear, deverá tomá-la ao adormecer.


2. Ao pequeno-almoço, cházinho de hipericão do Gerês, duas ou três chávenas, e bem forte, amarelão-torrado.
Se quer mesmo curar os maus fígados, mais nada. Nem tostazinhas...





3. A meio da manhã, ao lanche e antes de deitar, uma pastilha de Guronsan, quer se sinta melhor, quer não.
Eu, por exemplo, tomo Guronsan "há mais de 30 anos e não estou viciada!"





4. Após o almoço, o lanche e o jantar, e para sempre, porque a figadeira é um mal crónico, a senhora patroa tomará uma pastilhazinha efervescente da melhor Alka-Seltzer. Poderá escolher o sabor. Arriscando na lima ou no morango, dá um toque de irreverência à sua acção diária.




5. E, agora, muito importante: a meio das refeições principais (excepto o pequeno-almoço, que esse é a chá), todas elas constituídas apenas por um quarto de litro de água morna, na qual pingou, previamente, 15 gotas de Cholagutt (línque fácil), clássico hepático dos clássicos hepáticos, ingerirá duas cápsulas de Phitocap, Hipericão do Gerês, em concentrado, engolidas num único golpe de epiglote.
E repito, e até faço um desenho bem grande, o que mais tem faltado!, "água morna, 15 gotas de Cholagutt, 2 cápsulas de Phitocap, um único golpe". Certo?



Mantendo o tratamento por uns mesinhos, apaziguam-se os irresolúveis problemas de figadeira, acordando os pacientes, no caso, a doutora Maria de Lurdes, patroa, para uma vida nova, mal acreditando, posteriormente, nas acções provocadas pela terrível infecção hepática de que padecia.

quarta-feira, novembro 01, 2006

Desorquestrar a Orquestra das Mentiras I

Joana Darque é professora na escola da Senhora Dona Maria de Lurdes. São 18h30 de uma terça-feira outonal, e já escureceu.
Joana acabou de sair do emprego, uma escola secundária nos arrabaldes de Odivelas City.
Meteu-se no autocarro para Lisboa, com a pasta inchada de trabalhos para corrigir; a cabeça e a garganta rebentadas das sete aulas seguidas, com intervalo de 45 minutos para almoço, no refeitório, rematadas por uma inadiável reunião intercalar de conselho de turma, de natureza pedagógica, com a duração de 3 horas.
Joana Darque suspirou fundo, aliviada; levantou a cabeça e agradeceu a Deus o facto de o autocarro não ir muito cheio, de não haver grande barulho; pensou que o dia seguinte era feriado, poderia descansar de manhã, e corrigir, à tarde, com calma, as fichas de trabalho das 4 turmas. Com um bocado de sorte, se não se distraísse, talvez conseguisse alinhavar um dos testes para a próxima semana, pensou agora.
Pôde, finalmente, abrir o jornal do fim-de-semana, que não lera, para preparar as transparências para as aulas de segunda, e um bom lote de exercícios para as de terça.
E leu, “os professores vão passar a dar oito horas de aulas diárias em lugar das cinco actuais”.

Ainda não são 19 horas. A professora Joana Darque pousou o jornal nos joelhos e olhou em frente. Olhou para as cabeças erguidas dos passageiros sentados nos bancos fronteiros ao seu. Negros. Brancos. Indianos. Ucranianos. Gente que trabalha, como ela. Cada um com o seu labor, a sua especialidade, a sua dor ou indiferença. O seu amor, vocação. Aliviados, igualmente. Serão os pais dos seus alunos. Passarão o feriado com os filhos.
O que terá pensado, nesse momento, a professora Joana Darque, que deu 7, não 5 horas de aulas, tendo passado delas, e directamente, para uma importante reunião de 3, e vai agora a caminho de casa, mais 40 minutos!, abençoando o feriado que aí vem?




Quatro letrinhas apenas


Ainda não recuperaram da decepção que lhes causei quando descobriram que embora escrevesse bem como uma puta, eu não era bem uma puta.

O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...