quarta-feira, agosto 31, 2005

Sem destino

Quero andar nua com as tetas húmidas, para que os homens e as mulheres que cruzam o meu caminho me aviltem do impudor e sintam a náusea de mim e desejem abocanhar e trincar-me os mamilos, sem perceberem bem qual das emoções reconhecem primeiro, se lhes chegam simultâneas... sem compreenderem por que chegam.

Modus vivendi



Renoir

Desabotoavam a blusa...

Não há muitos anos, as mulheres amamentavam na rua, nos cafés, nas gares dos autocarros, nas estações de comboios e nos aeroportos...
Agora é raro vê-lo; só muito de vez em quando, lá para o país profundo!
A criança chorava, as mães desapertavam os botões da blusa, levantavam a caixa do soutien, ou baixavam-na, descobriam uma pouca de pele à roda do mamilo túmido, que também pedia, ajeitavam a teta pudica à boca do menino, e era um regalo vê-lo sugar, pressionando-a instintivamente com as mãozinhas pequenas, deixando-a húmida de saliva e de leite. Que esplêndida visão de carne cheia de vida!
Depois, os meninos ficavam satisfeitos, abrandavam, largavam a teta, as mães recolhiam-na, e abotoavam a blusa, cujo tecido se aureolava do fluxo que a sucção estimulara, ensopando-lhes o tecido. Eu gostava de ver. Que sensuais ficavam! Com que volúpia contemplei esses milhares de mamas que vi amamentar na rua, num banco de jardim! Tenho saudades de passar devagar, mirando de soslaio a carnação da pele molhada, como se observasse apenas a cena do anjinho que se alimentava.
Na terra onde nasci, as mulheres ceifavam capim e cavavam a terra e lavavam no rio e moíam no pilão, carregando, laçados ao torso por uma capulana, bebés ranhosos que procuravam autonomamente a teta, quando tinham fome. Como faz um cachorro. Como nós. A natureza é quase sempre perfeita, e chegamos a exagerar ao intervir superfluamente naquilo que ela sabe realizar exímia e solitariamente.
As mulheres, na terra onde nasci, vendiam amendoim torrado e amêijoa e faziam trocos, enquanto, de frente para os meus olhos, os meninos lhes bebiam as tetas brilhantes, levantando-as para achar o mamilo. Claro que, na terra onde nasci, naquele tempo, nem essas nem outras mulheres, dirigiam empresas, mas eu ainda gostava de as ver decidir as finanças da Sonae com um pirralho atado a cintura, procurando uma teta, e recebendo-a.
Nas farmácias, compram-se bombas para extracção de leite: usa-se o sistema das vacarias, e o leite materno corre para um biberão de plástico esterilizado. A maquineta é útil, porque não estamos na Suécia nem na Alemanha; as mulheres trabalham obrigatoriamente ao 5º mês, e, portanto, de alguma forma precisam extrair parte do leite que vão deixar às amas ou nas creches.
E nos restantes dias? Porque motivo, ao Domingo, nos passeios do Parque das Nações, não vejo centenas de mães de mama ao léu, mas famílias artilhadas de sacos enormes, com utensílios os mais variados, e farinhas, e tudo, acoplados a carrinhos de bebé que se assemelham a naves espaciais ?
Na terra onde nasci, o triângulo perfeito da sobrevivência enumerava-se: criança, mãe, teta.
Peço desculpa, não compreendo como se pode substituir um contentor naturalmente térmico, ergonómico, sempre arrumado, pronto a transportar e usar, perfeito, por uma ultrajante garrafa de plástico.

segunda-feira, agosto 29, 2005

Uma cadeira de pau-preto com estofo dourado

Nasci tarde, na vida da minha mãe, e não fui amamentada a peito.
Vivi durante anos o desejo, inconfessável, inexprimível, não realizado, de tocar as suas mamas inchadas e caídas como cachos de fruta madura.
No seu quarto azul, perdido, existia uma cadeira de pau-preto, estofada de dourado, na qual me sentava para assistir, hipnotizada, de manhã e à noite, ao espectáculo de vê-la vestir-se e despir-se: erguia com a mão e o antebraço direito o volume do peito, aquele bendito volume, e ajeitava-o dentro das caixas do soutien; quando o despia, via-lhas cair, tão brancas e rosa, repentinas, e ficarem por instantes nuas e penduradas, gulosas, esperando aproveitamento. Poderia, tanto, ter encostado a elas o meu rosto, roçado a face; sim, poderia tê-las cheirado num rasto de leite, de humidade fêmea, tê-las lambido, tanto, e mordiscado, para intuir o que, nessa idade, apenas se intui.
Mas não. Nunca lhes toquei, tal como nunca a vi completamente nua. O corpo da minha mãe foi o meu grande mistério; para o desvendar, explorei cedo o meu. Para compreender um dialecto de carne tão sólida, tão irreal, às vezes esmagava as mamas nas mãos, enchia-as com os nacos macios que viciavam as linhas fundas da pele, trilhava os mamilos; noutros, tocava-as brandamente, desenhava a forma curva com as pontas dos dedos, arrepiando-as, e a mim, adormecendo-me solitariamente no calor ameno que geravam.
E decorei o interior das coxas, das virilhas até à dobra dos joelhos, e sei que fi-lo devagar, com muito tempo, porque o corpo me pedia demora; aprendi a deslizar as mãos, ondulando-as desde a barriga até à curva inferior do peito, onde, de novo, parava para sentir esse calor manso.
Escutei a pele e compreendi que esse corpo tão frágil, tão transitório, que valia nada, era uma dádiva irrepetível que pretendia ser tocada: pedia o prazer e a dor, que tantas vezes se confundiam numa única sensação. Esse era o meu corpo. Este.
Refocilei-me no meu corpo, sem permissível cansaço, e aprendi-o com secreto louvor e distinção, para, no final desse trânsito, descobrir que o sexo de uma mulher era a inteireza da sua pele: essa mulher residia sob as minhas mãos.
Por isso, quando me sento sobre ti na cadeira de pau-preto com estofo dourado, a que uso para escrever, a que atravessou o tempo e dois oceanos e muitas moradas, e, preso entre as minhas pernas, me mordes os ombros e os braços, tão perdido no refocilamento que te ensinei do meu corpo, e dizes, incoerente, embriagado, entre palavras que já não ouço, nem tu, que sou a tua fêmea e a tua menina, e que és meu dono, julgo perceber, que verdadeiramente te ocorre, sem vocabulário, seres já só o meu império, e ser eu mulher - a mulher. Talvez a tua mulher.

A pele

Toco-te a cintura
e compreendo
que respiras
pela pele.

O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...