sábado, abril 29, 2006

Os falhados

Os bêbados e as bêbadas. Os caloteiros e as mulheres promíscuas. Os que não têm disciplina, e se esquecem e dormem até tarde. Os que se masturbam à falta de parceiro ou porque gozam mais. Os que masturbam os outros e esse é o seu prazer. Os que são enrabados e os que enrabam. Os que são pequenos e, às vezes, gordos. Aqueles que não aguentam. Fracos. Os míopes, os canhotos, os carecas, as mulheres de barba. Os que caíram e mesmo os que nunca se levantaram. Que não têm dentes nem vergonha nem escrúpulos. Que se atrasam muito tempo, ou nem vão. Os que chulam e os que são chulados. Os que se descontrolam e dizem palavrões. Irracionais, inoportunos. Esses que falham todas as oportunidades. Que aparecem quando não devem e só para fazer asneira. Que podendo ter feito, não fizeram, nem se lamentam. Os que nunca foram ou tiveram coisa alguma, e que na véspera da morte valiam menos que o copo riscado do último vinho. A Camille Claudel e o Fernando Pessoa. Esses e outros que tais.


Alforria

A minha mãe começou, finalmente, a descrer em mim, a perder a esperança, a encontrar-me falível, superável; tenho, agora, carta de alforria para decepcionar a todos, falhar tudo e cair sem dó; existir cruamente livre daquela esperança tão acesa sobre o que haveria de ser a minha utilidade, o meu caminho, a minha perfeição.

sexta-feira, abril 28, 2006

Sobre perder a inocência

Foto de Charles Campbell, Golden Grasses

O que será um especialista internacional em liderança? Um professor de gestores? Um filósofo do trabalho? Dará acções de formação? Conferências?
Acabei de ler que o rapaz de caracóis louros, rebelde, anarca, fã de Jim Morrison, cronicamente depressivo, que há 20 anos me enviava cartas e poemas de amor e morte, escritos com o próprio sangue, com quem adorei andar enrolada, meia dúzia de tardes invernis, nas dunas de Tróia, ao frio, vento e chuva, sem que nunca nos tenhamos incomodado, porque éramos inocentes, e não tínhamos dinheiro e estávamos apaixonados... se transformou num famoso especialista em liderança empresarial.
Li o nome. Vi a foto. É ele.
Deve ganhar muito dinheiro. Deve ter assistente pessoal. Um escritório com sala de reuniões. Usa fato e gravata azuis – nada de calças de ganga esfarrapadas, com inscrições a esferográfica, isso está claro. Nada de charros, penso. Tem boa cara; ar saudável. Deve estar feliz, e isso é bom.
Apesar de tudo, sinto-me traída pelo presente. Pelo tempo. Tinha memórias românticas, e estimava-as. Sem que perceba, esta alteração da sua imagem perturba essa memória. Afinal, onde está o meu herói desajustado ao mundo, inconformado? E eu, que mudei tão pouco, que continuo tão igual ao que fui? Como é que me veria? Serei eu a rebelde, a anarca, cronicamente depressiva, a inadaptada? Ele cresceu; eu não?

Isabela e os problemas com a net


Roy Lichtenstein, Drowning Girl

quinta-feira, abril 27, 2006

Um homem para Isabela

Precisava tanto de um homem que gostasse de cozinhar, de passar paninhos, de aspirar o chão, de arrumar a roupa que deixo em cima da cama. Eu até podia lavar a casa-de-banho, a louça, mas arrumar os pratos é que não: tudo no escorredor até serem precisos outra vez. Podia meter a roupa na máquina e estênde-la. Eventualmente, lavar umas coisinhas à mão e passar, se não fosse coisa para dar muito trabalho. Um homem que gostasse da lida doméstica e que soubesse de carros e de irs e de coisas chatas: pequenos arranjos, banco, mandar desligar a Netvisão, por exemplo, e pagar a renda, mesmo que o cheque fosse meu. Mas que fosse homem mesmo. E que não me viesse dizer que lhe doíam as cruzes e estava cheio de dores de cabeça e não podia com as pernas. Uma mulher que trabalha tem direito a alguma diversão.
Eu sei que este é a um tema a que volto muitas vezes, mas cá tenho a minhas razões.

terça-feira, abril 25, 2006

Malefícios do 25 de Abril III

As pessoas terem esquecido a véspera tão indolormente como o sol enruga a pele.
Muita people não saber ca diferença entre o 24 e o 25 não foi que "depois ouve uma ganda guerra... dass ... mas treminô com a polícia a dar bué da cravos aos kotas, pa se meterem mansos."
Eu começar a ter cada vez mais dificuldade em distinguir antes e depois.

Malefícios do 25 de Abril II

O camarão de Moçambique vender-se a 36,95€ - isto no Jumbo!
E nem sequer ser fresco com a patinhas a dar, a dar.

O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...